Notas iniciais
Aviso de gatilho


Renesmee


A minha declaração sobre o passado ainda pairava no ar da sala, mas a sensação de alívio por ter arrancado aquele peso do meu peito durou pouco. Rachel deu um passo à frente, afastando-se de Paul, e aproximou-se do sofá. Os olhos dela, profundos e marejados, fixaram-se nos meus com uma compaixão que parecia desarmar qualquer uma das minhas barreiras.

— Renesmee... — disse Rachel, a voz embargada, hesitante ao escolher as palavras. — Eu nem consigo imaginar a dor do que você passou. Eu sinto tanto que você tenha sido violentada por aquele homem ainda quando era uma criança...

A palavra soou como um estalo seco na sala. Instintivamente, dei um leve sobressalto no banco, franzindo o cenho e abanando a cabeça de imediato. A necessidade de defender o pouco que restava da minha dignidade falou mais alto.

— Não... não foi assim — cortei com rapidez, a voz firme na tentativa de corrigir a percepção dela. — O Héctor... ele não me violentou quando me comprou. Ele me dava presentes, pagava minhas coisas, me tratava bem no começo. Ele era bom pra mim... fez tudo dentro com consentimento e...

— Renesmee — interrompeu Rachel suavemente. Ela se ajoelhou à minha frente, pegando minhas mãos trêmulas entre as suas. O toque dela era quente e firme. — Não é porque ele usou presentes e fez parecer que não foi abuso que não foi abuso. Você tinha catorze anos. Você foi vendida, colocada numa casa sem escolha e sem ter para onde ir. Isso é abuso.

As palavras de Rachel caíram sobre mim como um golpe devastador.

Tentei abrir a boca para rebater, para argumentar como fiz por anos na minha própria mente para conseguir dormir, tentando transformar a violência brutal da minha infância em algo “menos pior”. Mas a médica dentro de mim, a profissional que estudou a mente humana, que tratou traumas e que conhecia a anatomia e a psicologia da dor, não conseguiu sustentar a mentira.

A barreira racional que eu erguera durante mais de uma década desmoronou num instante.

O ar sumiu dos meus pulmões. O nó na minha garganta estourou e uma lágrima pesada caiu, seguida por um soluço rasgado que tentara conter desde que pus os pés naquele apartamento. Cobri o rosto com as mãos, curvando o corpo para a frente enquanto as lágrimas jorravam sem controle.

Pela primeira vez em anos, não era a dor pelo que fizeram com o pai de Mateo que me destruía; era a dor por mim mesma. A dor de encarar a verdade nua e crua de que a minha infância fora roubada, e de que a médica adulta de hoje finalmente reconhecia a garotinha ferida e violentada do passado.

Rachel não se afastou. Ela envolveu meus ombros num abraço protetor, permitindo que eu me desmanchasse naquele choro doloroso e sufocado.

Atrás de nós, o silêncio dos dois homens era absoluto. Paul permaneceu de pé, o maxilar travado, olhando para o chão em um respeito sombrio. E Jacob... Jacob continuava imóvel à minha frente. Não vi seu rosto por causa das minhas mãos, mas podia sentir a onda pesada e obscura de fúria que emanava dele — uma raiva silenciosa, mortal e direcionada inteiramente ao homem que deixara aquelas cicatrizes em mim.

O som abafado dos meus últimos soluços foi aos poucos sendo engolido pelo silêncio sepulcral da cobertura. Rachel continuou ao meu lado, a mão firme em minhas costas, me oferecendo o tempo necessário para recuperar o fôlego. Sequei o rosto com a manga do casaco, envergonhada pela vulnerabilidade exposta, mas sentindo o peito estranhamente mais leve.

Paul deu um passo à frente, cruzando os braços pesados sobre o peito. Seu olhar migrou do chão para o irmão de sua esposa.

— E agora, Don? — a voz de Paul veio cortante, quebrando o silêncio. — O sujeito do cartel está no galpão. O homem dela tem gente rastreando Chicago. O que nós vamos fazer com isso?

Jacob não respondeu de imediato. Ele permaneceu de pé à minha frente, a figura alta projetando uma sombra densa sobre a sala de estar. Quando finalmente falou, sua voz veio baixa, grave e desprovida de qualquer margem para dúvidas.

— Renesmee e Mateo vão se mudar para a minha mansão. Hoje.

Ergui o rosto de golpe, encarando-o com os olhos ainda ardendo pelo choro.

— O quê? — perguntei, a respiração falhando.

— O seu apartamento não existe mais para você — declarou Jacob, encarando-me com uma firmeza inflexível. — Daqui para a frente, você e o seu filho estão sob a minha proteção pessoal. Na minha casa. Com a minha segurança. Ninguém entra naquele perímetro sem que eu autorize, e nenhum homem de Monterrey vai chegar a cem metros de vocês.

A oferta de uma fortaleza era tentadora, mas o pavor de me ver acorrentada a outro homem como Hector, a outro homem poderoso que decidia o meu destino por mim, fez o meu instinto de defesa gritar.

— Não, Jacob. É melhor não — disse, colocando-me de pé com as pernas ainda vacilantes, mas encarando-o nos olhos. — Você não entende? Se o Héctor souber que eu estou sob a sua asa, ele não vai parar. Ele vai trazer uma guerra inteira para a sua porta. Ele tem homens, armas, recursos infinitos...

— Eu também tenho — cortou Jacob, a voz caindo um tom, soando como um rosnado contido. — E este é o meu território.

— Mas eu não quero uma guerra no seu terreno por minha causa! — rebati, o desespero fazendo minha voz subir. dei dois passos na direção dele, juntando as mãos em um gesto involuntário de súplica. — Se você realmente quer me ajudar... me ajude a ir embora. Use os seus contatos, Jasper, suas identidades falsas, qualquer coisa. Me ajude a sair dos Estados Unidos. Me mande para o Canadá, para a Europa, para qualquer outro continente! Eu sumo com o meu filho e você nunca mais terá que se preocupar conosco.

Jacob encarou minhas mãos trêmulas, depois subiu o olhar lentamente para os meus olhos. A expressão no rosto dele endureceu de tal forma que parecia esculpida em granito.

— Não — respondeu ele, curto e frio.

— Jacob, por favor... — implorei, dando mais um passo. — É a única forma de ficarmos em segurança de verdade!

— Eu disse não, Renesmee — repetiu ele, a autoridade em seu tom fazendo o ar da sala congelar. — Você não vai para outro continente. Você não vai atravessar fronteira nenhuma de novo com uma criança nos braços, vivendo como uma fugitiva de merda sem ter quem guarde a sua retaguarda.

— Eu sobrevivi até aqui!

— Você deu de cara com um soldado dele no meio de um parque no seu terceiro mês em Chicago! — rebateu ele, dando um passo intimidador na minha direção, reduzindo a distância entre nós a quase nada. — Você não está mais sozinha, e eu não vou assistir você correr pelo mundo até que um daqueles desgraçados te encurrale em um beco onde eu não possa te alcançar.

Fiquei sem ar diante da intensidade avassaladora do olhar dele. Não era apenas a proteção de um empresário ou a dívida por eu ter salvo sua vida; havia algo mais profundo e perigoso queimando nos olhos de Jacob Black.

— A partir de hoje — concluiu Jacob, a voz caindo para um sussurro que soou como uma promessa irrevogável —, o seu endereço é a minha casa. E o passado que te perseguiu até aqui vai ter que passar por cima de mim para te tocar.


Jacob


Deixei a cobertura de Rachel sob a guarda pesada de Paul e seus melhores homens. Ordenei a Renesmee que não saísse daquele apartamento até que eu voltasse para buscá-la. Ela tentou protestar, os olhos claros faiscando com aquela teimosia bonita que parecia ser sua marca registrada, mas eu não dei espaço. Chicago era a minha cidade, e a partir daquele instante ela e o menino eram da minha conta.

Caminhei até o meu SUV com o telefone colado ao ouvido enquanto o motor roncava na saída da garagem.

— Sarah? — chamei assim que a ligação foi atendida.

Jacob? Aconteceu alguma coisa? — a voz da minha mãe veio serena, mas com aquele faro afiado de quem conhece o filho que tem.

— Está tudo sob controle, mãe — menti com a precisão de costume. — Mas preciso que você faça um favor pessoal para mim na mansão antes do final da tarde.

Diga.

— Prepare a suíte principal de hóspedes no segundo andar. E também a sala ao lado, a que tem acesso interno. Quero os dois quartos arrumados, limpos e equipados para receber visitas por tempo indeterminado.

Houve uma breve pausa do outro lado da linha.

Visitas? Quem está vindo morar na mansão, Jacob?

— Uma mulher e o filho dela de três anos — respondi, sem dar margem para questionamentos. — Ela se chama Renesmee. Preciso que tudo esteja impecável para quando eles chegarem. Vou precisar de uma equipe de apoio para o garoto também

Jacob... essa é a moça da lanchonete? A médica de quem o Jasper comentou? — a voz de Sarah baixou um tom, cheia de intuição maternal. — Que tipo de confusão está atrás dessa garota ?

— Apenas faça o que eu pedi, mãe — pedi suavemente, cortando a conversa antes que ela puxasse mais fios. — Eu explico os detalhes quando chegar. Obrigado.

Desliguei o celular antes que ela pudesse retrucar e joguei o aparelho no banco do passageiro.

Dez minutos depois, o SUV cruzava os portões enferrujados da zona portuária sul de Chicago, parando diante do galpão industrial desativado que a Black Enterprises usava para resolver os problemas que não podiam ser levados a um tribunal.

Ao entrar pela porta lateral de ferro, o cheiro de mofo, maresia e sangue fresco atingiu o meu nariz.

Seth e Sam estavam de pé perto de uma lâmpada fraca pendurada no teto alto, iluminando o centro do espaço. Preso a uma cadeira de metal aparafusada no piso de concreto, o soldado do cartel de Monterrey estava consideravelmente avariado. O rosto dele era um mapa de cortes e hematomas, consequência da receptividade afiada dos meus homens durante a viagem, mas o desgraçado ainda estava consciente. Consciente o suficiente para manter um sorriso sujo no canto da boca avermelhada.

— Don — disse Sam, ajustando as luvas de couro com um aceno de cabeça. — Ele não quis conversar muito até agora.

Caminhei devagar até parar a um metro da cadeira, tirando o casaco escuro e entregando-o a Seth. Desabotoei os punhos da minha camisa e os dobrei calmamente até os cotovelos, mantendo os olhos fixos no sujeito.

O homem do cartel cuspiu um gole de sangue no chão de concreto e ergueu a cabeça devagar. Seus olhos semicerrados e cheios de escárnio encararam meu terno e a minha postura.

— ¿Quién carajos eres tú...? — rosnou ele em espanhol, antes de mudar para um inglês arrastado e provocativo. — Você acha que me assusta, empresário de merda? Você não tem ideia de onde meteu as suas mãos.

Não respondi. Apenas o encarei em silêncio, deixando a escuridão do galpão trabalhar a meu favor

— A vadia da Renesmee... — o sujeito soltou uma gargalhada rouca e desdenhosa, a voz cheia de veneno. — É pra você que aquela vadia ingrata está dando agora? Você achou ela na rua e achou que podia ficar com a propriedade do chefe Mendoza? Ela é a mulher do Héctor, seu idiota! E o garoto é o herdeiro dele. O chefe vai esfregar a sua cara neste chão de merda e...

O som de osso estalando ecoou pelo galpão antes que ele pudesse terminar a frase.

Meu punho cruzou o rosto dele com a força de uma marreta. A cadeira de metal chacoalhou violentamente contra o concreto, e a cabeça do sujeito foi jogada para trás com o impacto seco.

Ele soltou um urro abafado, o sangue espirrando de seu nariz quebrado sobre o peito da jaqueta de couro.

Aproximei-me, segurando-o pelos cabelos com força suficiente para arrancar o couro cabeludo, obrigando-o a olhar diretamente nos meus olhos. A fúria que mantive sufocada no apartamento de Rachel agora queimava sem qualquer filtro.

— Lave a sua boca suja para falar o nome dela — minha voz veio tão grave e assustadora que até Seth deu um passo involuntário para trás na penumbra. — Você cometeu o maior erro da sua vida ao colocar os pés em Chicago.

O homem engoliu o próprio sangue, os olhos arregalados pela primeira vez ao perceber que não estava lidando com um mero homem de negócios.

— Seth, pegue as ferramentas — ordenei sem soltar o desgraçado. — Ele vai me dar cada nome, cada endereço e cada rota que o cartel tem nesta cidade antes de eu ver a cor do sol de novo.

•••

A chuva fina que caiu sobre Chicago durante toda a madrugada ainda manchava o vidro da janela quando me aproximei da luz fria da manhã. O cheiro de ferro e suor rançoso impregnava o galpão desativado.

Foram horas longas. O desgraçado era resistente, moldado pela brutalidade do cartel de Monterrey, mas meu pessoal e eu extraímos o que pod tínhamos. Descobri que ele não era o único enviado por Héctor, havia uma célula pequena, três ou quatro homens no máximo, checando hospitais e clínicas comunitárias na zona sul. Mas antes que ele pudesse entregar os nomes exatos ou o endereço do esconderijo que usavam como base na cidade, o corpo dele simplesmente cedeu. O coração parou sob a carga da dor, e o sujeito apagou de vez na cadeira de metal.

— Se livrem disso — ordenei a Sam, limpando o suor da testa com o antebraço. — Sem rastros. Joguem no lago com concreto no pé.

— Pode deixar, chefe — respondeu Sam, já chamando Seth para desamarrar o cadáver.

Caminhei até o banheiro imundo do galpão, joguei água fria no rosto e vesti o sobretudo escuro sobre a camisa amassada. Minha mente não descansava por um segundo. A presença do cartel em Chicago já não era uma hipótese; era uma invasão ativa no meu território. E eu cortaria cada cabeça que ousasse se erguer contra o meu controle.

Peguei o carro e dirigi de volta para o edifício de Rachel sob o céu cinzento da manhã.

Subi pelo elevador privativo em silêncio. Quando as portas se abriram no andar superior, o apartamento ainda estava mergulhado em uma penumbra suave. Caminhei em passos largos pela sala ampla, o cansaço pesado cobrindo meus ombros, mas travei no meio do caminho assim que a vi.

Renesmee estava sentada no sofá, exatamente onde eu a deixara horas atrás. Ela usava um casaco de lã largo sobre as roupas da véspera e segurava uma xícara de café fumegante entre as duas mãos. Os olhos claros carregavam sombras profundas de uma noite inteira em claro, o olhar perdido na paisagem cinzenta além da fachada de vidro.

O som dos meus passos fez com que ela erguesse a cabeça devagar.

— Vamos — disse eu, a voz rouca pelo cansaço e pela poeira do galpão. — Vou levar você e o garoto para a mansão agora.

Renesmee não se levantou de imediato. Ela me observou em silêncio por alguns segundos, varrendo o meu rosto tenso, descendo pelo meu sobretudo até travar nas minhas mãos, que pendiam ao lado do corpo.

Ela soltou um suspiro longo e pesado, o vapor do café subindo suavemente entre nós.

— Seria bom limpar as mãos primeiro — murmurou ela, o tom calmo, mas carregado de uma percepção dolorosa.

Baixei o olhar para os meus próprios punhos.

Só então me dei conta. A pele dos nós dos meus dedos estava rasgada, cortada pela força dos golpes contra o osso do rosto do homem do cartel, e o sangue seco — uma mistura escura do dele com o meu — cobria grande parte da minha mão direita.

Fiquei imóvel por um segundo, a imagem da ferida expondo exatamente onde e como eu passara as últimas seis horas.

Renesmee colocou a xícara sobre a mesa de centro com um clique suave de porcelana. Ela colocou-se de pé e caminhou devagar até parar a poucos passos de mim. Ela não demonstrou medo ou repulsa.

— Eu posso cuidar disso antes de sairmos.

Fechei as mãos em punho por um segundo, sentindo a pele repuxar sobre os cortes abertos nas articulações.

— Não precisa — respondi, a voz rouca, tentando manter a distância. — É só arranhão. Eu limpo no caminho.

— Jacob — chamou ela, num tom calmo, mas que não abria espaço para recusas.

Renesmee deu mais um passo na minha direção, diminuindo o espaço entre nós. Ela ergueu os olhos , sustentando meu olhar com uma determinação silenciosa que fez as minhas desculpas morrerem na garganta.

— Você passou a noite inteira lá fora lutando uma guerra que trouxe para o seu território por minha causa — disse ela baixinho, o olhar descendo para os meus nós dos dedos machucados. — Se você vai me proteger e proteger o meu filho, o mínimo que eu posso fazer é retribuir cuidando de você quando precisar. Me deixe limpar isso.

Sustentei o olhar dela por alguns segundos. A exaustão da madrugada parecia pesar duas vezes mais sob a luz fria da manhã, mas o calor firme da presença dela tornava impossível ignorar o pedido.

Assenti devagar, sem dizer uma palavra.

Renesmee caminhou até o lavabo do corredor e voltou instintivamente carregando uma pequena caixa de primeiros socorros de Rachel, além de uma bacia com água morna e uma toalha limpa. Ela indicou a poltrona ao lado do sofá. Sentei-me, e ela se ajoelhou no chão de madeira bem na minha frente, posicionando a bacia sobre o joelho.

— Vai arder um pouco — avisou ela, a voz caindo para aquele tom profissional e suave de médica.

Ela pegou a minha mão direita com extrema delicadeza. O contraste entre os meus dedos grandes, calejados e manchados de sangue com as mãos pequenas e macias dela era brutal. Quando a gaze embebida em antisséptico tocou a primeira ferida aberta, o meu corpo todo retesou por reflexo.

Renesmee nem piscou; apenas soprou a pele ferida devagar, um gesto involuntário e cuidado que fez um arrepiei subir pela minha espinha.

Fiquei em silêncio, observando a concentração pura no rosto dela. A luz da manhã refletia nos fios bronzeados e ondulados do seu cabelo, que caíam para a frente, cobrindo parte da sua bochecha e do seu pescoço.

A proximidade era perigosa. O cheiro dela — algo como baunilha suave e chuva — preencheu meus sentidos, se impondo contra o cheiro de ferro e pólvora que eu trouxera da rua.

Sem pensar, movido por um impulso que nem a minha razão conseguiu frear, ergui a minha mão esquerda, a mão limpa.

Meus dedos tocaram a mecha de cabelo que cobria o rosto dela. Renesmee parou o movimento da gaze no mesmo instante, o corpo congelando contra o meu joelho.

Com extrema lentidão, deslizei os dedos pelos fios macios do seu cabelo, desenhando a curva da sua orelha e acomodando a mecha atrás dela. As pontas dos meus dedos roçaram a pele quente do seu pescoço, e ouvi o ar escapar da garganta dela num suspiro entrecortado.

Renesmee ergueu o rosto devagar.

Nossos olhares se cruzaram a poucos centímetros de distância. A médica compenetrada desapareceu por um segundo, dando lugar a uma mulher cujos olhos claros pareciam vasculhar o fundo da minha alma. O silêncio na sala se tornou denso, carregado de uma tensão eletrizante que fez o meu próprio coração acelerar no peito.

Eu podia sentir a respiração descompassada dela tocando a minha pele, o calor que emanava do seu corpo pequeno entre as minhas pernas. Por um segundo infinito, o mundo lá fora — o cartel, o galpão, a guerra por Chicago — simplesmente deixou de existir. Sobrou apenas o peso daquele toque e a faísca inconfessável que queimava entre nós dois.

Renesmee engoliu em seco, os lábios ligeiramente entreabertos, sem recuar um único milímetro da minha mão livre que ainda descansava na sua nuca.

— Pronto... — murmurou ela, a voz saindo num fio quase inaudível, embora os olhos dela continuassem presos aos meus. — Já... já limpei o sangue.

— Obrigado, Renesmee — respondi, a voz vindo num tom grave e baixo que ressoou no peito de ambos.