Além da fronteira
7 06. A minha história
Notas iniciais
Renesmee
O silêncio na sala da cobertura tornou-se pesado, quase asfixiante. Encarei os olhos escuros e exigentes de Jacob, depois passei o olhar por Rachel e Paul, que mantinham uma postura atenta e vigilante ao lado do aparador.
A ilusão de que eu podia proteger Mateo sozinha, alimentada pelo meu orgulho e pela minha sede de independência, desmoronara no concreto do Navy Pier. Eu não tinha escolha. Para garantir que meu filho continuasse respirando, eu precisava dobrar o joelho e pedir a proteção da família Black.
Soltei o ar devagar, juntando as mãos trêmulas sobre o colo.
— Eu conto — declarei, a voz baixa, mas limpa. — Eu aceito a ajuda de vocês. Pelo Mateo... eu faço qualquer coisa. Mas para vocês entenderem quem é aquele homem no galpão, e por que o cartel atravessou a fronteira por mim, vocês precisam entender como eu cheguei até aqui. Precisam saber a minha história.
Jacob cruzou os braços sobre o peito, assentindo devagar. Paul puxou uma cadeira para Rachel, mas permaneceu de pé atrás dela, com a mão espalmada sobre o ombro da esposa.
— Estou ouvindo — disse Jacob.
Inspirei fundo, buscando nas memórias mais escuras o começo de tudo.
— Minha mãe chegou ao México gravida de mim, vinda dos Estados Unidos — comecei, olhando para um ponto fixo no chão de madeira. — Eu nunca soube quem era meu pai. Ela me deu à luz em uma vila miserável no interior de Nuevo León. Assim que me teve nos braços, ela me entregou para um casal local em troca de algum dinheiro e sumiu no mundo. Eu nunca mais vi o rosto dela. Cresci achando que aquela gente era minha família, mas para eles, eu era apenas uma boca a mais para alimentar.
Senti um nó apertar minha garganta, mas forcei-me a continuar.
— Aos quatorze anos, a minha 'família' me vendeu.
Rachel soltou um pequeno suspiro chocado, cobrindo a boca com a mão. O rosto de Jacob permaneceu imóvel, mas os nós de seus dedos ficaram brancos pela força com que apertava os próprios braços.
— Me venderam para o cartel de Monterrey para pagar uma dívida de terras — continuei, a voz endurecendo com a dor antiga. — Aos quinze, eu já estava tecnicamente casada com Héctor Mendoza. Ele tinha o dobro da minha idade, era um dos comandantes de rota do cartel e o homem mais temido da região. No começo, Héctor tentava parecer um homem bom. Ele me dava presentes, roupas caras e dizia que cuidaria de mim. Mas era tudo uma fachada para me manter presa.
Ajeitei minha postura no sofá, sentindo o suor frio cobrir minha nuca.
— Desde o primeiro dia naquele palacete, eu sabia que a minha única saída era o conhecimento. Enquanto as outras mulheres do cartel aceitavam o destino, eu lutei com todas as minhas forças para estudar. Consegui que Héctor me deixasse ter aulas particulares sob o pretexto de ser uma 'esposa culta' para os jantares dele. Mais tarde, com chantagens e choros, fiz com que ele pagasse minha faculdade de medicina em Monterrey. E, em segredo, eu tomava anticoncepcionais todos os dias. Eu sabia que, se engravidasse dele, estaria acorrentada àquele inferno para sempre.
Houve uma breve pausa. O som do vento uivando contra a fachada de vidro da cobertura parecia acompanhar o ritmo da minha narrativa.
— Com o passar dos anos, a máscara de Héctor caiu completamente — continuei, o tom caindo para um sussurro ríspido. — O negócio do cartel ficou mais violento, a pressão aumentou e ele se tornou um alcoólatra sádico. As presentes deram lugar a gritos, ameaças e agressões físicas trancadas no quarto. Eu era uma médica brilhante de dia, salvando vidas no hospital, e uma prisioneira espancada à noite.
Olhei para Jacob, sustentando o olhar dele.
— Até que ele contratou uma nova equipe de segurança para a casa. E no meio daqueles monstros, apareceu um homem diferente. O nome dele era Mateo — fiz uma pausa, a emoção ameaçando rasgar minha voz. — Mateo era o meu segurança pessoal. Ele via os roxos no meu corpo, ouvia os gritos e foi o único que me tratou como um ser humano. Nós nos apaixonamos na escuridão daquele lugar. Foi um amor desesperado, proibido e condenado desde o primeiro segundo.
Engoli em seco, sentindo as lágrimas finalmente queimarem nos cantos dos meus olhos.
— Nós planejamos fugir juntos. Mas Héctor descobriu.
Uma lágrima quente finalmente cortou o meu rosto, mas não me dei ao luxo de soluçar. Naquela sala de estar impecável, diante do silêncio sepulcral de Jacob, Rachel e Paul, a dor daquela memória renascia com a mesma força destruidora que quase me destruíra.
— Nós fomos traídos — continuei, a voz embargada, mas carregada de uma nitidez aterrorizante. — Um dos homens da guarda descobriu sobre nós e contou ao Héctor. Nós nem tivemos a chance de cruzar o portão da propriedade.
Rachel deu um passo involuntário à frente, a mão ainda sobre a de Paul, cujo rosto agora parecia esculpido em pedra. Jacob permanecia imóvel, a respiração pesada e os olhos pretos cravados nos meus, absorvendo cada detalhe da minha tragédia.
— Héctor não nos matou de imediato — a minha voz falhou por um segundo, e precisei fechar os olhos para enfrentar a imagem que voltou com força total. — Ele queria nos quebrar. Ele ordenou que me amarrassem a uma cadeira no galpão principal da fazenda. E trouxe o Mateo.
Engoli o gosto amargo do fel que subiu pela minha garganta.
— Héctor fez o Mateo ser torturado durante horas na minha frente. Cada grito dele, cada osso quebrado... e eu, como médica, sabia exatamente o quanto ele estava sofrendo, mas me impediram de mover um único dedo. Héctor me forçava a manter os olhos abertos. Ele dizia que aquilo era para eu aprender o valor da lealdade.
Pressionei as mãos contra as coxas com tanta força que as pontas dos meus dedos ficaram brancas.
— Quando o Mateo já estava quase inconsciente, coberto de sangue, Héctor trouxe um juiz corrupto e duas testemunhas para dentro daquele galpão imundo — continuei, o tom caindo para um sussurro ríspido, cheio de repulsa. — Ele obrigou o Mateo a assistir, moribundo, enquanto eu era forçada a assinar os papéis do casamento civil oficial. Héctor colocou a aliança no meu dedo enquanto o homem que eu amava dava os últimos suspiros no chão, olhando para mim.
Rachel soltou uma respiração entrecortada, os olhos cheios de lágrimas, apertando o ombro de Paul com força. Até mesmo Paul, com toda a sua postura fria e perigosa, travou o maxilar diante da brutalidade do relato.
— Assim que a assinatura foi feita, Héctor sacou a arma e atirou na cabeça dele. Na minha frente — concluí, a voz trêmula, deixando a frase ecoar pelo ambiente como uma sentença. — Mas a crueldade não parou ali. Meses depois, eu descobri que estava grávida. E o filho era do Mateo.
Ergui o rosto, encarando Jacob diretamente nos olhos.
— Aquele bebê era a última coisa pura que sobrou do homem que morreu por mim. Eu sabia que, se o Héctor desconfiasse que a criança não era dele, mataria o bebê no instante em que nascesse. Então eu fiz o que precisei para sobreviver. Eu engoli o meu nojo e fiz o Héctor acreditar que o filho era dele. O meu menino foi registrado oficialmente como Santiago Mendoza.
Fiz uma breve pausa, sentindo o peito arfar com a lembrança dos anos de humilhação.
— Por três anos eu vivi sob o mesmo teto que o assassino do homem que amei, vendo ele chamar o meu filho de ‘herdeiro’. Aguentei tudo, fingindo submissão, esperando o menino crescer um pouco e o momento exato em que Héctor baixasse a guarda. Há apenas três meses, com a ajuda de uma enfermeira do hospital onde eu prestava serviço, consegui forjar uma emergência, peguei o meu filho e cruzei a fronteira a pé.
Olhei para a porta da cozinha, onde o som risonho do meu filho conversando com Lucy ainda podia ser ouvido baixinho.
— O nome oficial dele é Santiago. Héctor até hoje acredita que ele é seu filho e está revirando o continente para recuperar o ‘herdeiro do cartel’. Eu mudei o nome dele para Mateo há três meses, assim que pisamos em Chicago. Era a única forma de homenagear o pai verdadeiro dele e tentar apagar o rastro do Héctor das nossas vidas.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo, o peito subindo e descendo com força.
— O homem que o seu pessoal pegou no pier é um dos cães de caça de Monterrey. Se o Héctor souber que eu estou em Chicago com o garoto... ele vai mover guerra e destruir tudo o que estiver no caminho dele para levar nós dois de volta.
O silêncio que se seguiu na cobertura foi absoluto. O vento lá fora parecia ter calado diante da dor do meu passado.
Jacob deu um passo lento na minha direção. A fúria que antes emanava dele parecia ter se transformado em algo muito mais sombrio, mais denso. Ele parou bem à minha frente, olhando para mim não como o empresário calculista de horas atrás, mas como o líder de um império que acabara de traçar uma linha na terra.
— Ele não vai levar ninguém, Renesmee — disse Jacob, a voz vindo tão grave e profunda que fez o chão sob meus pés parecer firme novamente. — O México fica muito longe de Chicago. E esta cidade é minha.
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