Além da fronteira

6 05. O apartamento de Rachel



Renesmee


O couro macio do banco traseiro do SUV blindado era quente, mas o meu corpo continuava gelado. Mantive Mateo apertado contra o meu peito, acariciando os caracóis finos do cabelo dele enquanto o carro cortava as ruas do centro de Chicago.

Olhei pelo retrovisor lateral e vi dois sedãs pretos emparelhados a uma distância constante, mantendo uma escolta fechada e silenciosa atrás de nós. A precisão daquela operação não deixava dúvidas: os homens dela não estavam brincando.

Mateo ergueu o rosto do meu colo, limpando os olhos com as costas da mãozinha.

— Mamãe... para onde a gente tá indo? — perguntou ele, a voz pequena quebrando o silêncio da cabine.

Antes que eu pudesse inventar uma desculpa para não alarmá-lo, Rachel virou-se no banco do passageiro. O olhar dela para o meu filho era tão caloroso e doce que parecia transformar a tensão pesada do carro em algo quase reconfortante.

— Nós estamos indo para o meu apartamento, querido — disse Rachel, oferecendo a ele um sorriso acolhedor. — É um lugar bem alto, com uma vista linda da cidade e um sofá enorme. O que acha de tomarmos um chocolate quente enquanto sua mãe descansa um pouco?

Mateo piscou, hesitante, e depois olhou para mim em busca de aprovação.

— Vamos aceitar o convite da Rachel.

Ele assentiu, parecendo se tranquilizar com a ideia de chocolate quente, e voltou a se encostar no meu casaco.

Rachel manteve o olhar em mim por mais alguns segundos antes de se ajeitar no banco, virando o corpo de lado para nos encarar. O tom da voz dela mudou ligeiramente, continuo suave o bastante para não assustar Mateo, mas carregado de uma curiosidade afiada.

— Aquele homem lá no pier... — Rachel começou, medindo as palavras com cuidado. — Ele sabia quem você era. Ele chamou você por um sobrenome que não era Swan.

Senti minha espinha congelar. Pressionei os lábios, olhando para a janela.

— Era apenas um fantasma do passado, Rachel — respondi baixinho, tentando soar o mais evasiva possível.

— Um fantasma que carregava a marca de um grupo bem específico no pescoço — rebateu ela, sem perder a doçura na voz, mas deixando claro que conhecia a perigosidade daquela tatuagem. — Renesmee, meu irmão lida com homens perigosos todos os dias, mas ver alguém do México rastreando você no meio de Chicago não é algo comum. Que tipo de encrenca ficou para trás?

— A encrenca de onde eu fiz de tudo para fugir — declarei, virando meu rosto para encará-la nos olhos. — Eu era apenas uma médica tentando fazer o meu trabalho e proteger o meu filho de um ambiente violento. Eu não participei de nada, não devo nada a ninguém e só quero criar o Mateo em paz. Quanto menos vocês souberem, mais seguros todos nós ficamos.

Rachel observou minha postura ereta, notando o limite claro que eu acabara de impor. Em vez de insistir ou exigir respostas como qualquer outro faria, ela apenas soltou um suspiro brando e assentiu devagar.

— Você não precisa ter medo de mim, Renesmee — disse ela com sinceridade. — Não estou tentando vasculhar a sua vida para usar contra você. Mas o Jacob vai querer essas respostas. Quando ele souber o que aconteceu no Navy Pier, a primeira coisa que ele vai fazer é querer entender o tamanho da ameaça que colocou os pés na cidade dele.

Engoli em seco, olhando para a escolta de carros pelo vidro traseiro.

— Eu sei — murmurei.

Eu sabia exatamente como Jacob reagiria. Ele era uma força da natureza, um homem acostumado a dominar tudo ao seu redor. E a ideia de me encontrar de frente com ele novamente — agora que o meu passado e ele haviam se chocado de forma tão brutal — me deixava dividida entre o terror absoluto e uma estranha, inconfessável sensação de alívio.

O SUV blindado entrou direto na garagem subterrânea de um dos edifícios mais luxuosos do centro de Chicago. A escolta nos seguiu até a área privativa, onde o elevador com acesso restrito à cobertura já nos esperava com as portas abertas.

Quando a cabine de vidro e aço se abriu no andar superior, fomos recebidas pela imponência discreta do apartamento de Rachel. O ambiente era amplo, iluminado por luzes quentes e decorado em tons de creme e madeira nobre, com janelas imensas que iam do chão ao teto. No entanto, o que realmente me trouxe uma onda de alívio foi a sensação palpável de segurança física que aquele lugar transmitia.

— Boa tarde, senhora Lahote — cumprimentou uma senhora de meia-idade, vestida com um uniforme impecável, que veio ao nosso encontro no hall de entrada com um sorriso acolhedor.

— Boa tarde, Lucy — respondeu Rachel, tirando o sobretudo e entregando-o à mulher. Em seguida, virou-se para nós. — Lucy, esta é a Renesmee e o pequeno Mateo. Eles vão ficar conosco por um tempo.

Lucy olhou para Mateo com extrema doçura, abaixando-se ligeiramente na altura dele.

— Seja muito bem-vindo, querido

— Lucy, por favor, prepare aquele chocolate quente especial com marshmallows para o Mateo — pediu Rachel, em tom suave. — E traga algo reforçado para nós comermos na sala, além de um vinho, por gentileza. Tivemos uma tarde longa.

— Farei isso imediatamente, senhora — assentiu Lucy, direcionando um olhar gentil para meu filho. — Venha comigo até a cozinha, rapazinho? Vamos escolher os marshmallows mais doces para o seu chocolate.

Mateo olhou para mim em busca de aprovação. Passei a mão pelos cabelos dele, forçando um sorriso tranquilo para não transparecer o medo que ainda queimava no meu peito.

— Pode ir com a Lucy, meu amor. A mamãe vai estar bem aqui na sala.

Ele concordou com a cabeça e seguiu a senhora alegremente em direção à cozinha, alheio a todo o peso do pesadelo do qual tínhamos acabado de escapar no calçadão.

Assim que ficamos a sós no ambiente amplo, Rachel indicou o sofá de couro claro próximo à fachada de vidro.

— Sente-se, por favor. Fique à vontade — disse ela.

Aproximei-me do sofá e me sentei devagar, sentindo minhas pernas finalmente cederem ao cansaço e à adrenalina acumulada. Apoiei os cotovelos nos joelhos e inclinei a cabeça, tentando conter o tremor involuntário que percorria minhas mãos.

Rachel não se sentou de imediato. Ela caminhou até a mesa de canto, pegou o celular sobre o aparador e me olhou com uma expressão séria, porém compadecida.

— O seu apartamento não é mais seguro, Renesmee — disse ela, a voz caindo para um tom firme. — E nós duas sabemos que esse homem não estava agindo sozinho em Chicago.

Ela deslizou o dedo pela tela do telefone e levou o aparelho ao ouvido. O som da chamada chamou no viva-voz discreto do celular antes que a linha fosse atendida no primeiro toque.

— Rachel? — a voz de Jacob veio do outro lado, grave, impaciente e sobrecarregada de tensão. — Cadê vocês? Os homens disseram que houve um problema no Navy Pier.

Rachel olhou para mim antes de responder, mantendo o tom de voz perfeitamente controlado.

— Eu estou no meu apartamento, Jacob. A Renesmee e o filho dela estão comigo, em segurança — declarou ela. — Mas você precisa vir para cá agora. O passado que ela estava tentando esconder acabou de dar de cara com ela no meio do pier.

•••

O som do elevador privativo anunciando a chegada no andar superior fez o silêncio da sala estalar como um chicote.

Jacob liderava o caminho. Seu casaco escuro estava aberto, os olhos cravados em mim com uma intensidade quase palpável. A aura de fúria contida e autoridade que emanava dele parecia preencher cada centímetro da cobertura, tornando o ar denso, difícil de respirar.

Mas não foi apenas Jacob quem capturou minha atenção.

Logo atrás dele vinha um homem alto, de ombros largos, tez morena e olhar afiado como uma lâmina. Ele vestia uma jaqueta de couro preta e caminhava com a fluidez perigosa de um predador à espreita. Aquele deveria ser Paul Lahote.

No instante em que cruzou a soleira, o olhar de Paul ignorou minha presença, a mesa de centro e até mesmo o próprio Jacob. Seus olhos varreram a sala com uma urgência quase obsessiva até encontrarem Rachel. Em uma fração de segundo, toda a rigidez de seu rosto se transformou.

— Você está bem? — a voz de Paul veio rouca, baixa, mas carregada de uma possessividade e preocupação viscerais.

Ele cruzou o espaço entre eles em dois passos largos, envolvendo a cintura de Rachel com um braço forte e puxando-a contra o peito. A mão dele subiu para a nuca dela, os dedos embrenhando-se em seus cabelos enquanto ele inspecionava o rosto da esposa, procurando qualquer sinal de ferimento ou perigo.

Rachel, por sua vez, relaxou instantaneamente no abraço dele, pousando a mão sobre o peito do marido com uma familiaridade absoluta.

— Eu estou bem, Paul. Não aconteceu nada comigo — murmurou ela, o tom suave agindo como um bálsamo instantâneo sobre o temperamento explosivo dele.

Observei a cena em silêncio, um arrepio frio percorrendo minha espinha. A devoção de Paul por Rachel era evidente, quase esmagadora. Ele a segurava como se ela fosse o seu único ponto de equilíbrio no mundo. Porém, sob aquela ternura absoluta dedicada à esposa, a periculosidade do homem era inegável. Nos movimentos calculados de Paul e no brilho instável de seus olhos escuros, vi a promessa velada de que ele destruiria qualquer pessoa ou coisa que ousasse colocar Rachel em risco.

Ele era um homem mortal, completamente dominado pelo amor que sentia por ela.

Jacob, por outro lado, parou a poucos passos de mim. A cicatriz em sua cintura, sob as roupas, parecia não existir diante da postura ereta e implacável que ele mantinha. Ele baixou o olhar para mim, varrendo meu rosto pálido.

— Cadê o garoto? — perguntou Jacob, a voz grave e baixa ecoando pelo ambiente.

— Está na cozinha com a Lucy. Tomando chocolate quente — respondi, mantendo a voz mais firme que consegui, recusando-me a fraquejar diante da presença ostensiva daqueles três.

Paul finalmente desviou a atenção de Rachel, voltando seus olhos frios para mim. O contraste entre o carinho com que tratava a esposa e a indiferença perigosa com que me encarava era perturbador.

— O sujeito que vocês pegaram no pier já está no galpão do porto — disse Paul para Jacob, sem tirar os olhos de mim. — Seth e Sam estão mantendo o desgraçado trancado. Ele não vai a lugar nenhum.

Engoli em seco, o nome "galpão" trazendo uma imagem aterrorizante sobre o destino do soldado do cartel.

Jacob deu mais um passo na minha direção, diminuindo a distância entre nós. A sombra de sua figura cobriu o sofá onde eu estava sentada.

— Agora, Renesmee — disse Jacob, inclinando-se ligeiramente, os olhos pretos como a noite fixos nos meus —, você vai me contar exatamente quem é aquele homem e por que um desgraçado do México estava chamando você por outro sobrenome.