Além da fronteira

2 01. O homem que salvei



A inconsciência do homem não trazia alívio, apenas uma corrida desesperada contra o tempo.

Renesmee levantou-se rapidamente, trancou a porta de entrada com a tranca dupla e correu para a cozinha. A iluminação fraca da luminária amarela sobre o balcão teria que bastar. Ela lavou as mãos até a pele ficar rubra com o sabão antisséptico, calçou as luvas descartáveis e organizou o material sobre uma bandeja de inox limpa: compressas de gaze, água oxigenada, álcool 70%, uma pinça cirúrgica reta, um bisturi de lâmina fina que guardava para emergências e o fio de sutura monofilamentado.

Voltando ao corredor, ela se ajoelhou ao lado do estranho. Ele era enorme; a estrutura física muscular tornava a tarefa de manipulá-lo no chão ainda mais complexa.

— Vamos lá, Nessie. Você já fez isso centenas de vezes em salas de trauma — murmurou para si mesma, tentando abafar o tremor involuntário dos dedos. Mas a verdade é que nunca tinha feito isso no chão frio de uma sala, sem anestesia local, sem monitor cardíaco e com o filho pequeno dormindo no cômodo ao lado.

Ela rasgou completamente a camisa do homem, limpando o excesso de sangue coagulado ao redor do orifício de entrada. A ferida estava feia, os bordos irregulares e queimados pela proximidade do disparo.

Com cuidado, Nessie tateou a região lombar e a lateral do abdômen dele. Precisava localizar o projétil antes de tomar qualquer decisão drástica. Se a bala tivesse perfurado a artéria mesentérica ou o cólon, ele morreria de choque hemorrágico ou sepse em questão de horas sem uma laparotomia exploratória em um hospital real.

Sob a pele firme do desconhecido, a alguns centímetros da entrada, ela sentiu uma rigidez anômala. Uma pequena saliência sob os tecidos musculares oblíquos.

A bala não foi fundo demais. A densidade muscular dele, quase fora do normal, parecia ter amortecido o impacto e retido o projétil nos tecidos moles superficiais.

— Você deu sorte — soprou ela, limpando a área com antisséptico.

Ela sabia que o momento em que a lâmina tocasse a carne o traria de volta da inconsciência. Sem anestésico injetável, a dor seria lancinante.

Nessie dobrou uma compressa de gaze limpa em quatro e a posicionou entre os dentes do homem, pressionando o queixo dele suavemente para baixo até que a mordida ficasse firme.

— Sinto muito por isso — sussurrou.

Ela alinhou o bisturi. Com um movimento rápido e preciso de incisão de dois centímetros sobre a saliência, rompeu a primeira camada de pele e epiderme.

O corpo do homem reagiu instantaneamente. Um sobressalto violento correu por toda a sua espinha. Os olhos dele se abriram em choque, pupilas dilatadas de pura dor, e um urro abafado ecoou contra a gaze presa em sua boca. Seus músculos abdominais se contraíram como ferro, e as mãos dele dispararam, cravando as unhas no piso de madeira para não segurar o braço de Nessie.

— Fique parado! — ordenou ela, a voz assumindo o tom imperativo e frio de uma médica no comando de uma emergência. — Se você se mexer agora, a pinça pode cortar uma artéria. Respire pelo nariz. Foque em mim!

O homem sustentou o olhar dela. Suor frio escorria por sua testa, ensopando os cabelos escuros que grudavam no rosto. Ele concordou com um aceno rígido de cabeça, a respiração vindo curta e ruidosa, mas mantendo o corpo imóvel à força de pura vontade.

Nessie introduziu a pinça cirúrgica na incisão. O som do metal roçando contra o chumbo fez um arrepio subir pela espinha de ambos. Ela firmou os dedos, sentindo a resistência do tecido muscular, e abriu ligeiramente as hastes para abraçar o projétil.

— Quase lá... aguente.

Com um puxão firme e calibrado, ela extraiu a bala. O som metálico do chumbo de 9mm caindo na bandeja de inox ressoou pelo ambiente limpo e tenso da sala.

Um suspiro longo e doloroso escapou do desconhecido. A tensão em seus ombros cedeu ligeiramente, e ele cuspiu a gaze de pano, a respiração descontrolada.

Nessie não perdeu tempo. Com compressas estéreis, estancou o sangramento ativo, limpando a cavidade com solução antisséptica. Pegou a agulha curvada e o fio de sutura, iniciando os pontos internos e externos com extrema agilidade. Cada passada da agulha fazia os dentes dele se trincarem, mas ele não emitiu mais nenhum som.

— Você... é rápida — disse ele com a voz falhada e rouca, acompanhando os movimentos ágeis das mãos dela.

— Prática — respondeu Nessie sem desviar os olhos do nó cirúrgico. — Em Monterrey, eu atendia ferimentos de faca e arma de fogo quase todo fim de semana no pronto-socorro.

— Monterrey... — ele repetiu devagar, gravando a informação. — Então é de lá que você vem.

Nessie congelou por meio segundo, percebendo que tinha falado demais. A adrenalina a fizera baixar a guarda e revelar a própria origem a um completo estranho. Ela deu o último nó, cortou o fio e cobriu o local com um curativo compressivo limpo.

— Isso não importa. O que importa é que a bala saiu e a hemorragia parou. Mas você perdeu muito sangue e corre risco de infecção. Precisa de repouso e antibióticos.

Ela se levantou, tirando as luvas sujas de sangue e jogando-as no lixo, longe do alcance visual da porta do quarto. Trouxe um copo d'água e dois comprimidos para dor que mantinha em seu estoque pessoal.

O homem aceitou a água com a mão ainda trêmula, engolindo os remédios de uma vez. Ele tentou se apoiar na parede para se levantar, mas uma tontura violenta o fez vacilar.

— Nem pense nisso — Nessie segurou o ombro dele com firmeza, surpresa com o calor excessivo que a pele dele emanava. Ele parecia uma fornalha humana. — Você não vai a lugar nenhum no seu estado.

— Eu não posso ficar aqui... — disse ele, encarando-a com gravidade, sem revelar quem era. — Os caras que atiraram em mim... se eles me rastrearem até este prédio, sua vida e a do seu filho acabam.

Nessie sentiu um frio gélido na espinha ao ouvir a menção a Mateo, mas manteve a postura

— Ninguém viu você entrar. A tempestade lá fora apagou qualquer rastro. Mas se você sair por essa porta e desmaiar na calçada, a polícia vai achar seu corpo e chegará até o meu apartamento do mesmo jeito.

O estranho olhou para a mulher à sua frente. Abalada, vulnerável por seu status e com o medo estampado nos olhos claros, mas ainda assim erguida como uma fortaleza para proteger o filho e um desconhecido ensanguentado.

— O sofá — murmurou ele, cedendo. — Me ajude a chegar até o sofá.

Apoiando o braço pesado dele sobre seus ombros, Nessie o guiou com dificuldade pelos poucos passos até o pequeno sofá surrado da sala. O homem se deitou com um gemido contido, fechando os olhos enquanto o corpo começava a absorver o cansaço extremo e o efeito da medicação.

Nessie pegou uma manta limpa e o cobriu. Ficou de pé ao lado dele por um longo momento, observando o peito largo subir e descer devagar. Ela encarou o rosto marcante do homem adormecido no seu sofá, ciente de que salvara a vida de um completo desconhecido que trazia o perigo estampado no corpo.

O relógio na parede marcava quase quatro da manhã. A tempestade lá fora começava a diminuir, mas a tempestade em sua vida estava apenas começando. Ela caminhou até o quarto de Mateo, verificou a respiração serena do filho e encostou a porta, sabendo que naquela noite não pregaria mais os olhos.

•••

A luz cinzenta e gélida das seis da manhã invadiu a pequena sala de Renesmee através da cortina entreaberta. Ela não havia dormido um minuto sequer. Sentada à mesa da cozinha com uma xícara de café frio entre as mãos, Nessie mantinha o olhar fixo no homem deitado no sofá.

A febre dele havia subido durante a madrugada. A pele extremamente quente emitia um calor quase surreal, mas a respiração de Jacob já não era tão ruidosa quanto antes.

No sofá, o homem abriu os olhos devagar. A neblina do cansaço e da dor dera lugar a um olhar afiado e alerta. Sem emitir som, seus olhos varreram o ambiente, fixando-se em Nessie. Ele levou a mão ao abdômen, tocando com cuidado o curativo limpo e firme sobre a incisão.

— Você devia estar morto ou inconsciente por causa do choque — disse ela, quebrando o silêncio e caminhando até ele com um copo de água limpa. — Mas seu pulso está estável.

— Eu sou difícil de derrubar — a voz dele veio grave, mas bem mais clara que na noite anterior. Ele aceitou a água, bebendo em um único gole.

Ele tateou os bolsos da calça jeans surrada até encontrar o que procurava: um telefone celular de modelo simples, resistente e criptografado. A tela estava trincada, mas funcional. Com agilidade, digitou uma sequência rápida de números e levou o aparelho ao ouvido.

Nessie deu um passo para trás, o medo reacendendo em seu peito.

— Para quem você está ligando? — perguntou em tom baixo, temendo que ele chamasse a polícia ou algo que pudesse expô-la.

O homem ergueu um indicador, pedindo silêncio enquanto aguardava o atendimento. Ao segundo toque, a ligação foi completada.

— Sou eu — disse ele ao telefone, em uma voz baixa e firme que emanava uma autoridade natural. — Posição segura. Preciso de resgate no setor sul. Traga a equipe limpa e roupas.

Ele fez uma breve pausa, ouvindo a resposta apressada do outro lado da linha, e então ditou o endereço exato do apartamento de Nessie.

Ao ouvir seu endereço sendo transmitido, a espinha de Nessie gelou.

— O que você está fazendo? — sussurrou ela, tomada pelo pavor, aproximando-se do sofá. — Eu ajudei você! Se trouxer pessoas armadas ou a polícia aqui, eu e meu filho estamos perdidos!

O homem desligou o aparelho e encarou-a com uma intensidade serena.

— Não é a polícia. São os meus homens — explicou ele, sentando-se devagar na borda do sofá. Ele reprimiu um grunhido quando os músculos cortados protestaram, mas manteve a postura ereta. — E eles não vão te machucar. Eles estão vindo me tirar da sua casa antes que o dia clareie de vez.

— Homens armados na minha porta? — Nessie passou a mão pelos cabelos ruivos, o desespero fazendo sua voz tremer. — Se algum vizinho vir movimento, vão chamar a imigração! Você precisa ir embora antes que eles cheguem!

— Se eu tentar andar até a esquina sozinho no meu estado, vou chamar mais atenção do que uma van com vidros escuros — ele rebateu de forma pragmática. Ele olhou para a porta do quarto, que rangeu levemente.

O pequeno Mateo apareceu na fresta da porta, agarrado ao seu ursinho, encarando o gigante sentado no sofá. O homem suavemente mudou sua expressão, suavizando o olhar rígido de antes.

— Bom dia, garoto — disse ele em tom brando.

Mateo piscou, escondendo o rosto atrás da mãe. Nessie abraçou o filho, trazendo-o para perto de si como um escudo.

— Eles estarão aqui em cinco minutos — disse o homem, levantando-se devagar com o apoio da parede. Ele estendeu a mão na direção de Nessie. — Meu nome é Jacob. Jacob Black.

Nessie olhou para a mão estendida dele, hesitando por um segundo antes de tocar seus dedos rápidos e quentes. A diferença de tamanho e a força contida naquele aperto de mão deixavam claro o tipo de perigo que ele representava — e a proteção que também podia oferecer.

— Renesmee — respondeu ela, mantendo a cabeça erguida. — Renesmee Swan

Quinze minutos depois, três batidas curtas e ritmadas soaram na porta de madeira. Mateo deu um pulo assustado, mas Nessie o manteve firme ao seu lado.

Jacob caminhou até a porta e a abriu ligeiramente. Do lado de fora, no corredor mal iluminado do prédio, estavam dois homens altos, de trajes escuros e postura militar, que olhavam ao redor com vigilância extrema. Um deles segurava uma bolsa preta de viagem.

— Chefe — disse o homem mais alto, aliviado ao ver Jacob de pé. — Achamos que o senhor estivesse...

— Estou vivo. Graças a ela — Jacob interrompeu, abrindo a porta totalmente e indicando Nessie.

Os dois homens entraram rapidamente, fechando a porta atrás de si. Um deles entregou a bolsa a Jacob, enquanto o outro varreu a sala com os olhos, parando no curativo bem-feito na cintura do líder.

— Um disparo de 9mm. Ela tirou a bala e fechou o ferimento sem equipamentos — explicou Jacob, vestindo a jaqueta limpa que retirou da bolsa para cobrir os vestígios de sangue.

O segurança encarou Nessie com um mistério de surpresa e respeito.

— Impressionante. Não tínhamos suprimentos para uma cirurgia de campo rápida assim.

Jacob virou-se para Nessie. Ele retirou do bolso do casaco um maço espesso de notas de cem dólares e o colocou sobre a mesa da cozinha, ao lado do estojo de primeiros socorros dela.

— Para cobrir o que você usou e o estrago no seu piso — disse ele.

— Eu não quero o seu dinheiro — retrucou Nessie imediatamente, os olhos faiscando. — Eu não fiz isso por pagamento. Só quero que vocês vão embora e nunca mais voltem. Se esse dinheiro for rastreado, é a minha prisão.

Jacob encarou a determinação daquela jovem médica clandestina. Ele não pegou o dinheiro de volta, apenas deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância entre os dois.

— Ninguém vai rastrear esse dinheiro. E ninguém vai incomodar você ou o seu filho — disse ele, a voz baixa e profunda, gravando cada detalhe do rosto dela. — Você salvou a minha vida, Swan. E eu nunca deixo uma dívida dessas em aberto.

Antes que ela pudesse responder, Jacob fez um sinal para seus homens. Em questão de segundos, os três desapareceram pelo corredor silencioso do prédio, deixando para trás apenas a porta fechada, o cheiro de chuva e o maço de notas sobre a mesa.

Nessie correu para a janela da sala, afastando a cortina a tempo de ver uma van preta sem placas acelerar suavemente e sumir na neblina de Chicago.

Ela olhou para Mateo, depois para o dinheiro na mesa e, por fim, para as manchas de sangue limpas no chão. O mistério chamado Jacob Black havia partido, mas ela sabia, no fundo da alma, que a vida pacata e invisível que tentava construir ali acabara de se dissipar.