Além Do Que Se Vê

1 Capítulo Único


Era uma vez... Um, quer dizer, dois olhos que não podiam olhar nada. Esses dois olhos pertenciam a um conjunto habitacional, que dividiam com um nariz, uma boca e duas sobrancelhas. E tudo isso ficava numa cabeça, que era ligada a um pescoço e um corpo. Esse corpo era perfeitamente perfeito e, a única coisa que não, eram os olhos que não olhavam. De todo modo, esse conjunto de órgãos pertenciam a uma menininha chamada Lúcia, que tinha quinze anos de pura cegueira.

Apesar de a menina, quer dizer, Lúcia, ter olhos que não olham, ela não vivia triste. Gostava de fazer tudo o que podia e não podia fazer. Por exemplo: ela adorava ler, mas, como os seus olhos teimavam em não enxergar nada, Lúcia costumava inventar histórias que nada tinham a ver com o livro que “lia” (certa vez, imaginara que o livro de filosofia da mãe era um grande e lindo romance entre vampiros e humanos). E essa é só uma das manias da garota. Ela também teima em não usar óculos escuros — “Está um dia tãããããão lindo, para que usar esses troços?” — e nem ter um cão guia ou alguém que lhe acompanhe e ajude em seus passeios e peripécias pela cidade.

E é essa mania que a leva para essa intrigante estação de metrô, em alguma cidade que fica em algum lugar.

~~*~~

Lúcia esperava pacientemente na estação, já que sua mãe a buscaria e a levaria de volta para casa, depois de um longo dia estudando Libras. É claro que ela não usava isso porque, afinal de contas, era cega. Mas a professora era a senhorita Diana, que era superlegal e adorava lhe dar balas e chocolates. Nem se incomodava em dar aulas que precisavam dos olhos para uma cega. E, mesmo assim, Lúcia era a melhor da sua turma.

Ela batia levemente com a bengala — sim, Lúcia usava uma bengala. Como ela iria se locomover sem uma, se não enxergava, seu demente? — no chão, marcando o ritmo de uma música que só ela sabia qual. Sua mãe, Mina, demorava mais que o normal. Normalmente, antes de ela sair do metrô, a “Corujona” — como Lúcia a apelidou — já estava à sua espera.

Talvez eu devesse ligar, pensa. Vai ver aconteceu alguma coisa.

Lúcia pega seu celular azul (ele era verde) e disca o número da mãe. O telefone velho era a coisa mais antiga que a garota tinha: era de abrir e, a única coisa que fazia era ligar para mãe e, às vezes, para Melissa, sua amiga. Claro que a mãe controlava o uso do objeto, mas isso não a impedia de fazer algumas chamadas escondidas. Mas sempre a mãe descobria suas “escapulidas”. Era Mina pagava a conta, de qualquer modo.

No terceiro toque, a mãe atendeu.

— Lúcia, onde você está? — Isso mesmo. Nem diz olá.

— No metrô, onde você deveria estar também, não? — pergunta, se imaginando levantando a sobrancelha. Nunca conseguiu fazer isso, de fato. Mas sonhava em fazer, já que todos os personagens de livros levantavam a sobrancelha.

— Ah, querida! O meu ônibus quebrou e a outra linha está em greve, então... Desculpe. — De novo, ela se imagina rolando os olhos. Isso ela até conseguia fazer, mas pensou que seria... Diferente... Ver uma cega revirando os olhos.

— Vai demorar? Tem um garoto aqui que está me encarando e, possivelmente, é um tarado esperando eu dar as costas para realizar suas taradices. — Lúcia responde, com o tom sério. Claro que, se existisse de fato alguém lá, ela não saberia, mas adorava irritar a mãe.

— Não seja boba, Lúcia! — ela conseguiu até ver a mãe com os olhos fechados e a testa franzida, provavelmente passando uma mão nos cabelos.

— Está bem, tchau. — ela suspira de leve.

Guarda o celular na bolsa jeans que carregava. Era sua favorita, já que era forte e podia carregar todo tipo de coisa que ela quisesse. E, como Lúcia era precavida, só não colocava um carro lá, por que não cabia e não sabia/podia dirigir.

De qualquer modo, voltou a batucar com a bengala.

Cinco minutos depois, estava totalmente entediada. A estação estava lotada e toda hora alguém trombava com ela. Pensou em ir lá fora esperar, mas então, de repente (Oh, meu Deus, quem imaginaria?) começou a chover. O movimento que já era intenso ficou extraordinariamente pior e Lúcia achou meio conveniente a chuva começar logo quando queria sair. Ela bolou mais de cinquenta teorias, mas logo se cansou e voltou ao tédio inicial.

Mas claro que tinha que ficar com frio.

Não trouxera nenhuma blusa ou casaco e na sua bolsa não tinha nenhum. O resto das pessoas não parecia incomodada pela súbita mudança de temperatura. Lúcia quase tremia de frio, mas não sentia nenhum vento passando. E, para piorar, sua cabeça doía, como se alguém tentasse bater com um prego na sua testa. Buscou comprimidos para dor na bolsa toda, mas tinha esquecido-os em casa. Que conveniente!

Eu sou tudo que você mais quer.

Se Lúcia se assustou com a voz que sussurrou perto de seu ouvido? Não. Ela ficou apavorada. Olhou em volt... Ah! Desculpe. Ela apurou os ouvidos, tentando escutar de novo a voz.

Eu sou tudo que você mais deseja de todo seu coração. Lúcia venha até mim. Vou te dar o que precisa... O que você quer... Deixe-me guiá-la.

Lúcia arregalou os olhos, e virou a cabeça em todas as direções. A voz parecia um eco, vinda de todos os lugares e, mesmo assim, ninguém parecia ouvir. Esperou para ouvir de novo, mas nada aconteceu.

Ótimo, pensou. Além de cega, louca também.

Lúcia gira e decide sair do lugar onde estava. Uma súbita vontade de andar tomou conta do seu corpo e ela saiu caminhando, batendo a bengala no chão, abrindo espaço automaticamente por entre os outros.

“Deixe-a passar, animal. É cega.”

“Por que ela usa bengala, mamãe?”

“Coitadinha. Deve ser horrível isso.”

“Não aponte, Marcelinho!”

Lúcia ouviu e ignorou todas as exclamações que ouviu. Já estava acostumada, afinal. Tinha quinze anos e nunca enxergou um palmo à frente do nariz. Um de seus sonhos é, um dia, se olhar no espelho. É claro que não espera se deparar com uma supermodelo de 1,60 de altura. Lúcia acha, pelo que sente, que é até meio feia. Tem cabelos curtos e, de acordo com a mãe, negros; o nariz é pequeno e tem uma curvinha para cima, na ponta. Boca fina e tem os caninos maiores que os outros dentes, o que lhe rendeu o apelido de gatinha na casa dos avós.

Continuou andando, andando, andando... Até que chegou ao final da passarela e só o que tinha adiante era uma parede. Ela ouviu a voz de novo.

Muito bem, querida. Agora, pule nos trilhos.

O quê?

Claro que Lúcia não faria isso. Era pedir para morrer. Era muito nova ainda e nem tinha experimentado tudo o que tinha para experimentar. Como era a frase? Alguma coisa, drogas e Rock ‘n Roll? Não importa. Lúcia não pularia.

Lúcia, querida. Pule nos trilhos. Senão, não posso ajuda-la.

A garota balançava a cabeça violentamente. A dor na testa continuava e o frio também, mas não iria pular. Prendeu a respiração e deu meia volta, pronta para voltar para perto da porta.

Tudo bem, então. Não diga que não avisei.

Lúcia vira bruscamente de volta, como se alguém tivesse empurrado. Estava de frente para os trilhos, andando relutante para a borda.

— Não, não, não, não! — murmurava. A luz de outro trem iluminava o lugar onde estava. Era afastado o bastante para ter somente algumas pessoas lá. Sua luta contra si mesma não parecia atrair atenção — Pare, por favor! Não!

A linha amarela de segurança estava a um pé de distância. O trem a poucos metros. Lúcia aperta os olhos, e lágrimas correm pelo seu rosto. Era seu fim.

Ela pula. A última coisa que Lúcia ouviu, foi a aguda buzina do trem e imaginou-se sendo iluminada por uma brilhante luz amarela.

~~*~~

Sempre escutou na igreja que suas dores acabariam quando morresse, mas não foi bem isso que aconteceu. A garota acordou num chão cheio de pedras e se sentia quebrada. A dor na testa continuava, mas pelo menos o frio tinha passado.

Por um instante, Lúcia pensou que tinha morrido. Uma dúvida que sempre lhe ocorreu: se morresse, continuaria cega? No caso, ela continuava, mas não estava morta. Não fora esmagada pelo trem, mas se sentia moída. A bengala e a bolsa estavam do seu lado direito, perto do braço. A bolsa estava aberta e um chaveiro de vaquinha e o celular azul/verde estavam saindo de dentro dela. Lúcia apalpou o chão, tentando se situar. Estava em um lugar meio destruído, de acordo com seu tato, com grama crescendo por entre o concreto.

Lúcia se levanta e pega a bolsa e a bengala, deixando para trás o chaveiro e o celular. Bom, o lugar para onde ela ia e estava não tinha sinal e o chaveiro não iria abrir nenhuma porta que lá existia. A garota segue em frente batendo no chão com sua bengala, apurando os ouvidos e o olfato, numa tentativa falha de situação.

Segundos depois, a dor estava insuportável, e Lúcia ajoelha-se no chão, as mãos na testa. A voz parece tê-la deixado em paz, depois de ter feito Lúcia pular na frente de um trem. Hunf. A garota não percebera que estava gritando, até que ouviu um barulho mais alto que e a fez esquecer momentaneamente da dor. O som era como se vários tratores estivessem fazendo um concurso de qual faz mais barulho. Até o chão tremia.

— Olha, Claus. Você já viu uma menina gritar assim?— um homem com um forte sotaque caipira disse, bem perto dela, talvez à sua direita. Ele pronunciava menina como “minina”.

— Nunca. Com certeza Louise nunca gritou assim. — Claus, provavelmente. Tinha o mesmo sotaque do amigo, talvez um pouco mais leve.

Lúcia estava chorando, quase esperneando. Os homens não pareciam notar seu desespero e, se notavam, não pareciam se importar. Apesar disso, ela não os sentia próximo, nem mesmo perto de onde estava. Continuava com os olhos bem fechados e apertava a testa, tentando amenizar a dor. Não conseguia fazê-la parar.

— Alguma vez já viu alguém espernear desse jeito, com a mão na testa, como a menina? Incrível, parece até profissional!

— Claro que não, ora! Olhe a magia dos movimentos dela, olhe!

— Eu acho que... — Claus é bruscamente interrompido, por uma voz mais jovem e irritada do que a deles.

— Ei, vocês, imprestáveis! O que estão fazendo?! — Era uma menina. Catarine, o nome dela.

— Só olhando a menina dar um show, senhorita Cahhe. — Caius diz lentamente, em tom de desculpas. A menina não ia muito com a cara dos da espécie dele, então fazia tudo que podia para ser menos estúpido, como dizia ela. Uma das coisas que treinava era falar certo. Não dava muito resultado. Senhorita Cahhe, como ela prefere ser chamada pelos “não amigos”, para o xingamento que estava na ponta da língua e olha para onde os dois apontavam. Ela examina Lúcia se debatendo e dá um tapa na própria testa e olha para cima, como se estivesse dizendo “Por que eu?”.

— Ela está sentindo dor, seus imbecis! Ajudem-na, agora! Levem-na para a enfermaria. Certeza que Alice consegue curá-la.

Lúcia não estava mais conseguindo deixar os olhos abertos, então assim que ouviu a palavra “ajudem-na” ela desmaiou.

~~*~~

— Abra os olhos, queridinha. Vamos, amorzinho...

A nossa protagonista acordou com uma doce voz enchendo-lhe os ouvidos. Era tão açucarada, que devia estar de diabetes. Ela quase abriu os olhos, mais por que a voz pediu do que por vontade. A cama era tão confortável, tão deliciosa... Apesar de ainda sentir uma leve pontada na testa, quase podia ignora-la. Provavelmente a Alice, de quem aquela garota falara.
Lúcia lembrava-se vagamente da voz da menina.

— Isso, isso. Depois que abri-los tudo melhora. Pode crer.

— Não sei por que. Eu sou cega. Não vai adiantar estar com eles abertos ou não. — para sua surpresa, a voz riu. Era tão melodiosa, que Lúcia só queria ver como ela seria se cantasse.

— Ah, mas essa sua dor na testa... Você é daqui? — uma mão úmida toca o lugar exato onde a dor originava.

— Onde exatamente é aqui? — Lúcia diz, ainda de olhos fechados. Estava morrendo de vontades de saber com quem exatamente falava, sentia-se assim sempre.

— Abra os olhos e você vai ver... — cantarola Alice. Lúcia revira os olhos mentalmente. Quantas vezes ela teria que dizer que era cega. Que não via. Que os seus olhos não prestavam.

— Eu não enxergo. Eu não posso ver. Que parte você não entendeu?

— Deixe de ser mal humorada, Lúcia! Só uma olhadinha! — ela pega as suas mãos e aperta-as. Lúcia fica um pouco incrédula por um momento. Mal humorada? Ela era a palhaça da turma! A mais engraçada: cheia de piadinhas e ironias. Ela franze a testa e finalmente cede. Lúcia abre os olhos.

Ela não vê nada, só o escuro, como sempre. Por que será que ela pensou que seria diferente?

— Ah, queridinha. Perdão. A vela caiu. Espera um pouco e... Pronto!

A luz de uma vela brilhou e uma caverna tomou forma. Lúcia ficou maravilhada. Lágrimas corriam soltas pelo seu rosto. Estava tão feliz que podia gritar ou dançar. A caverna brilhava em tons de verde e tinha algumas prateleiras com remédios e potes cheios de várias coisas estranhas e bizarras. Coisas que ela nunca tinha tocado ou ouvido falar.

— Ah, meu Deus... — soluçava. Lúcia se sentia estúpida por chorar assim, mas não conseguia evitar, era mais forte que ela. Ela enxugava as lágrimas que escorriam e se surpreendeu ao ver suas mãos. Tão pequenas... Minúsculas, com os dedos eram finos e longos.

— Querida, queridinha! Calma... Shhh... Tome aqui um lenço. Isso, isso mesmo limpe tudo. — Lúcia nem tinha registrado a mulher, de tão distraída que ficou ao poder ver. Era baixa (mais baixa que ela), tinha cabelos castanhos curtos e repicados, os olhos eram cinza. Tinha sobrancelhas bem desenhadas e vários brincos nela e uns poucos pelo rosto. Parecia um pouco com uma cigana, não que Lúcia pudesse associar essa informação.

— Como... Como eu...?

— Não sei, Amor. Ás vezes isso acontece. Surdos passam a ouvir, mudos voltam a falar, cegos voltam a ver... Acontece, eu acho.

— Claro que... — de repente, uma colher estava na sua boca. Tinha um conteúdo doce e melado. Muito gostoso.

— Não quero ouvir suas desculpas científicas, mocinha! Agora vai, umas pessoas querem vê-la. Pode levar a colher, se quiser. — sorri e dá um aceno com a mão, saindo logo depois. Lúcia se levanta relutante e procura uma superfície reluzente, para poder observar seu reflexo, mas infelizmente não achou nenhuma. Ela saí da caverna, pelo mesmo lugar em que Alice tinha saído minutos antes.

~~*~~

Com a colher na mão e a bolsa jeans — a bengala estava devidamente guardada na bolsa, afinal, nunca se sabe quando se pode precisar de uma vara ou algo do tipo — atravessada no peito (quando olhou dentro e viu que seu celular era verde, riu de verdade), Lúcia encontra Caius e Bennett esperando-a na porta, perto de um tipo estranho de carro, meio enterrado na terra.

— Oi. Eu sou Lúcia. Vocês são...?

— Caius Quarker— o homem vestia uma bermuda jeans, blusa listrada de vermelho e branco, de mangas compridas — Lúcia achou meio contraditório, mas não comentou — e tênis esportivo. Tinha olhos verdes quase castanhos e cabelos cor de tijolo. Provavelmente teria rugas nos olhos e também na boca, quando fosse mais velho, de tanto sorrir. Ele fez uma reverência exagerada e beijou a mão de Lúcia, que deu um risinho.

— Bennett Quarker, muito prazer. — se os dois não fossem irmãos, não teria como serem mais diferentes. Ao contrário de Caius, Bennett tinha um sotaque inglês engraçado, pronunciando cada palavra de uma vez. Na aparência física, os dois eram gêmeos idênticos, mas Bennett era o oposto de Caius. Vestia-se com uma blusa social azul escura e calça também social preta, nos pés um par sapato, também preto e social. Se não se vestissem dessa forma, Lúcia teria dificuldades em dizer qual era qual, só pela vista.

— Então, o que vocês...

— Desculpe interromper, mas é que já sei o que você vai perguntar. Simples: você não é daqui, então tem que sair. Eu e meu irmão aqui, vamos te levar até o Cassiel, daí você se vira. — Caius foi tão rápido como uma flecha, deixando Lúcia um pouco atordoada. Depois, irritada.

— Ei! Eu não queria estar aqui! Foi tudo culpa de uma voz doida que me empurrou na frente de um trem! — ela bate o pé e os irmãos Quarker trocam um rápido olhar. Lúcia continuaria, mas Bennett interrompeu.

— Desculpe, mas você disse uma voz? — ele pergunta calmamente.

— Sim, uma voz. O que é que tem? — Lúcia usou de um tom muito ríspido, que ela mesma nem sabia que tinha. Talvez estivesse sendo um pouco dura com eles, mas estava brava com a voz e queria descontar em alguém. Os irmãos trocam outro olhar, mas mais longo dessa vez. Os dois começaram uma pequena discussão em voz baixa. Lúcia não conseguia ouvir, só pescar algumas palavras. “A garota”, “Mas ele não...”, “Ele tem que...” “Um Anjo”.

Por fim a curiosidade venceu e ela se intrometeu.

— O quê? — perguntou apertando os olhos, ato que também ouviu em livros. — Do quê vocês estão falando? — assim que ela se pronunciou, os dois irmãos se calaram e a observaram, voltando logo depois à discussão, mas dessa vez de costas para ela.

— Está bem! Nós a levamos! — Caius falou, meio exasperado, levantando as mãos. Aparentemente, ele perdeu a briga. Bennett estava sorrindo, como se dissesse: “É, cara. Pode desistir, eu sempre ganho”. Caius se vira para Lúcia. — Nós vamos te levar para ver o Anjo. Deve ter sido a voz dele que você ouviu.

Lúcia sorriu lentamente. Ela iria conhecer um Anjo, um de verdade. E poderia vê-lo, com seus olhos.

— Acho que sim. — subitamente, Lúcia se lembra de algo. — Vocês têm um espelho aí?

— Aqui. — Bennett entrega um pequeno espelho, do tamanho da palma de sua mão. Era decorado com fios dourados de metal retorcido e na parte de trás as iniciais D e H. Lúcia ficou maravilhada com uma coisa tão bonita. Quando se olhou de fato no espelho, não conseguia parar de sorrir. Ela se achou um pouco pequena, mas não era tão feia como pensava, afinal.

— Desculpe interromper o momento florzinha, mas se vamos ver o Anjo, temos que ir.

Lúcia ajeita sua bolsa no ombro e levanta o queixo, como nos livros quando o personagem quer se mostrar confiante.

~~*~~

Os três andavam por várias partes e Lúcia percebeu algumas coisas engraçadas, como, por exemplo, uma montanha que parecia grande no horizonte, ao chegar perto não passava de um pequeno formigueiro, mas quando passou dela, transformou-se em um imponente monte. Isso ocorreu com várias coisas, até que decidiu perguntar.

— Por que aquela montanha parecia grande, mas era pequena e depois ficou enorme?

— Aqui, as noções de tempo e espaço são um pouco complexas. Você viu a montanha pequena, então quando você chegou perto ela era pequena, mas era para ser grande. Entendeu? — Bennett explicou, enquanto o irmão só resmungava alguma coisa sobre batatas.

— Não. — Lúcia confessou.

— É isso aí.

Depois disso, Lúcia decidiu não perguntar mais nada e eles continuaram andando, só parando quando ela pedia.

~~*~~

— Onde é? Quer dizer, vai demorar muito? — Lúcia perguntou pela quinta vez naquele minuto. Bennett sorriu e assentiu com a cabeça. Caius franziu a testa e negou.

— Depende. Tem uma coisa que precisamos fazer para passar. Se formos aprovados, a entrada fica logo depois. Se não, vamos vagar para sempre, sem nunca achar o Anjo. — Caius avança e um grande cachorro sai do chão. Ele era um monstro, batia na cintura de Lúcia. Tinha orelhas curtas e levantadas, olhos negros e focinho longo. Era um pitt Bull, mas Lúcia não teria como saber.
Da boca do animal saiu uma névoa que se tornou uma imagem de uma mulher. Ela tinha longos cabelos e o rosto inexpressivo, mas muito bonito. Vestia uma túnica e os pés descalços. Lúcia não viu nada de mais nela, mas os homens ao seu lado estavam de queixo caído e pensou que talvez não fosse coisa de homem.

— Meu nome é Aniela, a guardiã. Para verem o anjo de verdade, precisam passar por três desafios. O primeiro é uma charada. O segundo, um desafio de coragem. O terceiro... — ela dá um sorriso meio maldoso — Se vocês passarem dos três primeiros eu conto. — e assim a imagem desapareceu, logo aparecendo uma sequência de letras.

São três irmãos: um já morreu

O segundo vive entre nós

E o terceiro mandou avisar que logo vem.

Quem são eles?

Respondam com sabedoria. O meu cachorrinho está com fome, adoraria um lanche.

Lúcia olhou seriamente para a névoa, como se ela fosse lhe revelar a resposta. Não revelou.

— Hum, eu não estou certo da resposta.

— Três irmãos... Vive entre nós... — Caius murmurava, com o sotaque caipira ainda mais forte. De repente, uma lâmpada acendeu na cabeça de Lúcia. É claro, como não percebeu?

— Eu sei! Passado, Presente e Futuro! — ela grita de repente, assustando os outros que tentavam pensar.

Assim, a névoa se dissipou e Lúcia pensou que o Totó tinha ficado muito decepcionado. Não foi dessa vez, cãozinho. Ele saiu do caminho e uma ponte apareceu. Do outro lado, um grande portão dourado com vários entalhes em prata. Lúcia achou que fosse ouro mesmo.

A ponte não era muito sustentável, parecia muito precária. Talvez nem desse para passar.

— Não dá para passar, temos que dar a volta. Não dá para arriscar cair. É um belo de um precipício.

— Mas... Não tem jeito. Se quisermos entrar por aquela porta, a ponte vai reaparecer em outro lugar. É um teste de qualquer modo. — Caius franze a testa.

— Então, é de coragem, certo? O que devemos esperar? — Lúcia se imagina levantando a sobrancelha, de novo.

— Não dá para saber, mas coisa boa não é. Vamos de uma vez. — Caius diz e Bennet coloca a mão nas costas do irmão.

— Faça as honras, irmão. Eu vou ficar na retaguarda. — ele sorri para Lúcia e os três se encaminham para a ponte. Eles estavam tensos e nervosos, esperando qualquer coisa acontecer.

De repente, a ponte começou a ceder, quando estavam no meio dela. Caius percebeu primeiro e gritou, ordenando-os a seguir em frente rápido. Lúcia estava com medo, principalmente por que estava cedendo do lado em que ela e Bennett estavam. Se caísse ela e Bennett poderiam cair, quem tinha mais chance era Caius.
Eles correram, mas o final da ponte parecia ainda mais longe.

— Não, dá! Vai cair! — Bennett berrou desesperado.

Infelizmente, ele estava certo. A ponte cedeu. Lúcia e Caius conseguiram se segurar nas cordas, mas Bennett, não. Ele caiu no precipício, mas não se ouviu um grito. Bom, talvez tenha se ouvido, mas esse foi de Lúcia. Caius permanecia inexpressivo.

— Sobe menina. Anda. — ele disse.

Lúcia não respondeu, continuou chorando. Apesar disso ela subiu.

Chegaram à porta, que era ainda maior de perto. Era linda, brilhante e Lúcia teve uma súbita vontade de se atirar do precipício. Bennett morreu e foi tudo culpa dela. Porém, Caius não a deixaria desistir e, além disso, não podia voltar, por causa da ponte. Caius estava muito quieto e isso estava deixando Lúcia nervosa. Ele só está pranteando a morte do irmão, pensou. Nada demais. De qualquer modo, tocou a porta, sentindo seus belos contornos.

Lentamente a porta se abriu e revelou um interior todo branco. Um garoto estava lá dentro. Estava vestido todo de preto, os cabelos loiros contrastavam com a roupa e ele sorria. Tinha no máximo 16 anos.

— Lúcia. Finalmente.

— Você me chamou? — perguntou, subitamente esquecendo as coisas que queria dizer para o Anjo.

— Sim, e você demorou, por sinal. — ele disse, mas não parecia bravo. Então, Lúcia subitamente lembrou o que queria dizer. O que aconteceu para ela chegar lá...

— É. Então, diz logo o que quer comigo. Quero ir embora, quero minha casa e minha mãe. Agora. — o sorriso dele aumentou e a garota quis chutá-lo em lugares não muito angelicais.

— Você é esquentada. Acho isso divertido nos humanos. Meu nome é Scaris.

— Não ligo. O que você quer? — ele revira os olhos.

— Eu não quero nada. Você quer. Sabe, se sair daqui, sua visão volta ao normal, ou seja, você não vai enxergar nada. E também tem aquilo que você deseja, não?

— E-eu não sei do que você está falando. — ela gagueja.

— Hunf. Humanos e suas mentiras...

— Anjos e suas anjices...

— Tudo bem. Vou mostrar para você o que estou dizendo. — um segundo depois, ele estava de frente para Lúcia, com o polegar esquerdo na testa da garota. Ela ficou com o olhar vidrado, e, segundos depois, voltou ao normal.

— Ah...

— Isso. — ele sorriu de forma convencida. — Você ainda quer, depois de ver a imundice do seu desejo? O que o garoto fez por você, para chegar até mim? — Lúcia pensou bastante para responder, mas quando o fez, soou confiante.

— Eu... Sim. Quero. É egoísta, mas sim. Eu quero. — ela realmente esperava que Scaris lhe desse uma bronca, mas ele sorriu.

— Eu esperava isso. — ele apertou as mãos e um cristal simples e longo apareceu enrolado em um cordão. Ele colocou o colar nela.

— Ah, posso pedir outra coisa, além de ir para casa? — ela olhou-o esperançosa. Ele balançou a cabeça, como se pensasse em uma piada particular, mas no fim disse sim. — Duas, na verdade. — ele não disse nada e ela prosseguiu — Pode trazer Bennett de volta e... — ela corou — Me deixar continuar vendo.

— Não posso prometer a segunda, mas dou um jeito na primeira. — Scaris sorri e Lúcia fica ainda mais vermelha — Adeus, Lúcia. — o Anjo deixa um beijo no canto da boca em Lúcia e ela vê um clarão.

~~*~~

— Lúcia! — era a mãe. Estava correndo na direção da filha. Os cabelos castanhos estavam molhados e o casaco também estava encharcado. E Lúcia viu isso. Scaris cumpriu a promessa, afinal.

— Aqui, mãe! — acena com a mão. A garota sorria sem parar. O colar continuava lá e todo o resto. Ela devia ter voltado até antes de ouvir Scaris chamando.

— Lúcia desculpe por demorar eu não... Filha o que aconteceu, você está chorando? — a mãe passa a mão no rosto da filha.

— Não mãe. Olha, eu... Só... — Lúcia pensou bem e decidiu esperar para contar sobre a visão. Ela faria muitas perguntas que ela não saberia responder. Melhor deixar assim por enquanto. — Você está com os óculos? Meus olhos estão doendo. Só isso.

— Ah, filha que susto! — ela põe a mão no coração, dramaticamente.

Lúcia ficou pensando na sua aventura, tentando entender, enquanto caminhava para casa, mas depois de um tempo, desistiu.

Sabia que essa sua viagem tinha sido além do que se podia ver e entender.

Notas finais
Cara, eu devo ter algum problema, já que em todas as coisas que eu escrevo alguém morre. Jeeeeez .-. Enfim, alguém leu? Se sim, gostou? Ahn, queria dizer aqui que o final foi meio what porque ficou pra ser escrito no dia da entrega (eu enrolo pra tudo, oh gog) aí nesse dia eu acordei quase dez horas e tive de correr pra escrever, mas eu acho que não está um desastre. See ya! xx
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!