Além De Um Sonho
9 Capítulo IX - Obélia
Certo... Athanasia não havia pensado tão bem assim. Quando começou a falar sobre Lucas para os pais, imaginou que a reação seria diferente. Talvez esperasse que o pai fizesse algo como recompensar o mago, ou, pelo menos, que o reconhecesse como a pessoa preciosa de Athanasia.
Ledo engano.
Claude estava furioso.
Os servos que estavam aguardando ordens de Sua Majestade, o Imperador, agora corriam como se suas vidas estivessem prestes a serem perdidas.
— Como? O que um verme insolente pensa que pode fazer com a minha filha? Traga-o até mim agora mesmo!
— Majestade...
— Papai!
— Claude!!
Athanasia não sabia como acalmar a fúria do pai e Diana não era muito diferente. Tentaram diversas vezes pedir para que ele deixasse Athanasia terminar, mas nada adiantava.
Fora Felix quem trouxera a salvação para todos ali.
— Majestade, por favor acalme-se. A princesa está viva graças a esse jovem. Se ele não tivesse a encontrado, quem sabe o que poderia ter acontecido? Talvez, ela até mes...
— Cale-se Felix! Sei exatamente o que quer dizer, então não ouse falar. Não o ouse...
— Claude... Só vamos continuar escutando, sim?
Diana suplicou e o Imperador não pode continuar. No fundo, a culpa por não ter encontrado sua filha antes o corroía, por isso, apenas queria culpar alguém. Para Claude, ele e somente ele era o maior culpado de tudo.
— Papai... — Athanasia iniciou quando notou a expressão de culpa abatida no rosto de seu pai — Não se culpe pelo o que ouve, não foi culpa sua. Contudo, Lucas também não é culpado. Ele tentou por meses me tirar de lá, mas não conseguiu. Por mais forte que seja, havia limites para o que ele poderia tentar.
— Como... como ele te encontrou afinal?
— Lucas é um mago andarilho. Desde muito novo sempre esteve envolvido com magia e procurando saber mais sobre a mana que flui pelo mundo. Você sabia mãe... Ele já esteve na Torre Negra de Obélia.
— Como?
— Ele não me disse nada disso, mas eu me lembro de vê-lo quando criança. Lembra quando contei a você e a Lily sobre o garoto mago quando criança?
— Espera, quer dizer que ele é o mesmo garoto?
— Sim! Eu só percebi isso a alguns dias atrás, enquanto minhas lembranças retornavam.
— Do que estão falando, Diana? — Claude indagou desconfiado.
— Quando Athy era pequena, ficou encantada por um garoto que havia chegado na Torre. Segundo o Grande Mestre, ele era um verdadeiro prodígio. Mas nunca tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente... Não muito tempo depois, Athanasia foi levada. Então me esqueci completamente.
A expressão de Diana escureceu. Lembrar disso sempre a abalaria, Athanasia, porém, abraçou a mãe para confortá-la e prosseguiu com a história.
— Lucas vagou por muitos anos longe de Obelia. Não sei por onde ele esteve, mas acabou encontrando o lugar onde eu estava sendo mantida e ficou curioso para saber o porquê estar selado. Foi quando me encontrou.
O silêncio perdurou por alguns minutos antes que ela voltasse a falar.
— Eu havia desistido de viver... — confidenciou por fim — Me sentia fraca e sem esperanças. Tinha certeza que morreria ali. Mas... ele me encontrou e me salvou. Lucas me deu esperanças novamente.
— Athanasia...
— Tentamos por meses quebrar o selo que me mantinha ali, mas nada funcionava. Ele saia para buscar formas e sempre voltava para tentar novamente. Nos últimos meses vinha mais frequentemente e quase nunca me deixava sozinha, até algumas semanas atrás.
— O que aconteceu, Athy? — Diana perguntou apreensiva.
— A última vez que o vi, foi quando o homem que me mantinha presa veio. Lucas se manteve oculto para conseguir informações e assim que o homem partiu, foi atrás dele. Não tive mais notícias desde então. Não sei seu paradeiro, nem se ele está bem. Quando ouvi a porta da torre se abrindo, imaginei que fosse ele, mas...
— Era o Jovem Mestre Alpheus, certo? — Felix interrompeu pela primeira vez depois de um longo tempo.
— Sim.
— Querida... procuramos você por anos e nunca conseguimos sequer chegar perto. Lord Alpheus foi quem mais esteve envolvido nesse assunto e seu filho, Ijekiel, desde o momento em que se formou, partiu em sua busca. Você sabe, costumavam ser muito próximos quando crianças.
— Sim mãe, eu lembro. E sou grata por isso. Mas realmente desejava que fosse Lucas.
— Não podemos ignorar o fato de que foi ele quem a trouxe até nós. Como Imperador, devo mostrar meu agradecimento e compensar-lhe, mas como pai... Quero estraçalhar qualquer homem que se aproxime de minha filha.
O clima pesado foi levemente abrandado com a declaração ciumenta de Claude. Diana e Athanasia riram enquanto Felix apenas suspirou contido. A proteção extrema de Claude tornaria difícil para qualquer jovem cortejar a amada princesa. Já sentia pena pelo jovem mago sem ao menos o conhecer.
— Claude, o que vai dar a ele?
— Pela lei, ele pode pedir qualquer coisa que quiser. Agora, se irei dar, é outra questão.
— Como assim papai?
— Já temos uma ideia do que o jovem Alpheus quer, querida. — Diana respondeu com certo receio e Athanasia pareceu mais confusa — Bom, como eu disse, o jovem Alpheus e você sempre foram muito próximos... Não é segredo nenhuma para nós que ele nutre... sentimentos... por você.
— Sentimentos? Onde quer chegar mãe?
— O que sua mãe quer dizer é que, muito provavelmente, a recompensa que a casa Alpheus deseje seja a sua mão.
— Minha mão? Espere... quer dizer... casamento?
— Sim.
O silêncio sepulcral tomou conta do jardim. Athanasia não podia acreditar no que acabara de ouvir. Por alguns segundos o medo a tomou e se enraizou por todo o seu corpo, todavia, não durou muito.
Uma nova voz foi ouvida no lugar, trazendo consigo o espanto e a surpresa para os presentes.
— O que querem dizer com entregar a minha garota em casamento?
*~~~~*
O vento soprando pela alta janela do segundo andar da mansão Alpheus, trouxe consigo uma profunda ansiedade enraizada no coração de Ijekiel. Esperou por anos reencontrar a Princesa Athanasia e agora, por fim, havia conseguido. Os olhos dourados observavam um ponto fixo atrás do vitral translúcido, contudo, sua mente vagava por outro lugar. Nos últimos dois dias não conseguiu deixar de se lembrar do fatídico dia em que Athanasia havia sido levada.
O coração batia acelerado em vãs tentativas de esquecer o incidente. Ver o desespero do Imperador e sua esposa e imaginar o medo que a princesa sentiu, não o ajudou tão pouco.
Talvez pudesse ter feito algo diferente.
Talvez... deveria ter ido com ela?
A resposta para isso, nunca saberia. Todavia, de uma coisa tinha certeza. Athanasia havia retornado para seu lar, para ele.
Suspirou, estava na hora de se dirigir ao palácio. O Imperador havia convocado uma audiência para averiguar o assunto do desaparecimento e obter as informações recebidas sobre os causadores do evento.
Finalmente poderia colocar um fim nessa longa e exaustiva caminhada. Logo tudo voltaria a ser como deveria e isso trouxe um leve sorriso no rosto angelical do Jovem Mestre.
— Está pronto?
— Sim, meu pai.
— Lembre-se Ijekiel, o Imperador e sua esposa sofrearam demais com a perda da princesa, pode ser que não lhe concedam prontamente o seu pedido. Mas tenha paciência, até mesmo a princesa Athanasia reconhecerá o seu feito. Não fique muito ansioso.
— Eu sei pai. Minha maior alegria é saber que ela está sã e salva onde é o seu lugar.
— Você é um bom garoto Ijekiel. Obélia tem uma dívida com você agora.
O curto diálogo encerrou-se com um meio abraço de Roger em seu filho. No fundo estava apreensivo, mas relaxou quando ouviu a resposta de Ijekiel. Agora, tudo o que restava era descobrir o causador de toda essa desgraça no reino e o levar para receber seu castigo.
Com isso entraram, enfim, na carruagem que os levaria até seu destino.
*~~~~*
— Então, quem é o idiota que quer se casar com Athanasia?
— Lucas...?
Foi exatamente assim que ele apareceu. Como se já estivesse ali desde o começo, fazendo parte da conversa. Se quer se deu ao trabalho de saudar devidamente o Sol e a Lua do Império.
Não que isso surpreendesse Athanasia. Já imaginava que o jovem mago seria irreverente.
Na verdade, o que mais surpreendeu a princesa foi a aparência de Lucas. Uma longa capa com a insígnia dos magos de Obélia cobria as roupas simples, porém finas, do jovem. A camisa social branca e a calça negra combinavam perfeitamente com a pele alva do rapaz. Claro, isso por si só não chamaria a atenção. Mas a altura e as feições mais velhas, sim. Lucas aparentava vinte e poucos anos, e o cabelo, antes curto, agora caia como cascata sobre as costas esguia.
— Lucas, o que há com essa aparência?
— Hã? Isso? Magia de envelhecimento. É bem simples.
— Usou magia para ficar mais velho?
— Sim, você sabe, normalmente não levam muito a sério as perguntas de um adolescente, então eu...
Não terminou de falar, fora interrompido pelo abraço esmagador de Athanasia. A princesa não conteve as lágrimas que fluíram livremente pelo rosto. Estava feliz, irritada, aliviada e uma porção de outros sentimentos. Finalmente estava com ele novamente.
— Eu esperei por você....
— Eu sei, sinto muito por isso, de verdade.
— Eu...
De repente, o ar tornou-se tenso... pesado. Quase podiam confundir o belo jardim com o mais sangrento campo de batalha. A sensação era de que estivesse em um abatedouro, onde Lucas era o abate.
— Então... você deve ser o garoto mago....
— Sim...?
— Que bom saber que é um bom amigo da minha filha...
— Bom... sim...?
— Como devo retribuir tamanha gentileza?
— Já que tocou no assunto...
Lucas era impossível. Claro que Athanasia já sabia disso. Enquanto ele “conversava” com o Imperador, tentou várias vezes chamar sua atenção para o alertar e ser mais respeitoso com seu pai. Obvio que Lucas sequer notou.
Talvez fosse um problema de jovens prodígios? Ter o ego maior que seu próprio corpo.
Enquanto cutucava o garoto, notou a aura sutilmente assassina de Claude, a qual prendia por muito pouco. Se não intervisse, o jardim realmente se transformaria em um campo de batalha e Athy presava pela vida do mago.
— Lucas... por favor...
Uma veia saltou na têmpora de Athanasia enquanto pensava no que falar para fazer com que o jovem calasse a boca e, ao mesmo tempo, impedisse que seu pai o matasse.
— Não gosto da ideia de babacas idiotas rondando a minha namorada.
Mas a boca grande de Lucas sustinha qualquer esforço que Athanasia fazia.
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