Akantha

3 Frio, Pálido, Morto.


Adora S. Crawliz

“Ela possui cabelos tão lindos” penso comigo mesma. Seu olhar, agora vazio, deveria ter sido encantador quando ainda era uma garota inteira.

Enquanto penteava e trançava os volumosos cabelos vermelhos de Akantha, agora totalmente emaranhados e sem vida, pensei no quanto ela não deve ter sofrido. Lamento tanto por ela, mas vou ajudá-la a sair disso, pois eu, mais do que ninguém, entendo o que ela pode estar passando.

Não me entenda mal, sei que nada no mundo pode ser comparado à dor que ela sente, mas digamos que eu também não tive uma adolescência muito exemplar. Fui abandonada e sendo passada de casa em casa, até enfim fugir, quando tinha 16 anos de idade. Eu vivi nas ruas, em meio a pessoas desconhecidas e aprendendo a conviver com minha própria mente doentia. Eu enlouqueci, e era como se eu vivesse em um mundo diferente do real. Como se eu estivesse coberta com um lençol de mentiras e o resto do mundo não pudesse me resgatar de lá. Mas eu lutei, e enfim consegui recuperar o pouco de sanidade que sobrou e, então, com a ajuda de um velho amigo, reconstruir minha vida longe de lembranças do passado.

Vim para cá para que pudesse ajudar pessoas que se encontram na mesma situação – ou apenas semelhante – a que eu vivia. Ninguém merece viver sozinho, ninguém merece viver tendo que suportar seu próprio baú de caos, sofrimento e mentiras.

Quando ouvi, naquela noite, o que seria a primeira crise de Akantha, eu soube que queria – queria não, precisava. – ajudá-la. Mas este pensamento, no futuro, poderia vir a me causar muitos problemas, e eu não faço ideia de por que ainda continuo aqui, neste lugar, cuidando de alguém que jamais conheci antes de vir para Consuelo Doords. Talvez seu estado frágil atraia minha atenção e desperte em mim algum sentimento protetor, como o de uma mãe. Não entendo, apenas sei que não poderia deixá-la. Não agora.

Mas então começou.

De início seu corpo começou a se mover de um lado a outro, como se seguindo o ritmo de uma música, e não notei até que ela começasse a se mover se um modo mais agressivo. Seus ombros tremiam, seu olhar vagava de canto em canto, como que procurando algo, suas pernas tremiam, e então tudo piorou.

– O lago...lago lago lado...O lago..lagolagolado – ela falava em um tom rouco, como se estivesse sem falar a muito tempo, o que de fato era verdade.

– Está tudo bem Akantha, eu estou aqui. – tentei tranquilizá-la, afagando seus cabelos. Eu sabia que estava apenas no início, e logo tudo desabaria. Ela desabaria. – SOCORRO, ALGUÉM AJUDE. AKANTHA ACORDOU.

– O lago, é lá. O lago, lago lago. – agora estava gritando e debando-se, e precisei segurar suas mãos com toda a minha força, pois ela começava a entrar na pior parte de suas crises.

Enfermeiros apareceram, juntamente com Dolores Beducci, a enfermeira chefe da clínica, responsável por tudo lá. Foram necessários diversos calmantes para que Akantha enfim cedesse.

– O lago. É lá. – e então seu antigo estado voltou, e isso era o que mais me assustava. Assim como tais crises apareciam subitamente, elas simplesmente paravam.

– Vou botá-la para dormir e ficarei ao lado dela para o caso de ocorrer algo.

Beducci repuxou sua boca em fenda para o lado esquerdo e simplesmente negou com a cabeça.

– Hoje não. Ela precisa de cuidados especiais. E isto não está aberto a discussões.

Akantha

Para que se descubra algo, deve-se começar, obviamente, pelo início. E é por lá que devo começar. Pela minha primeira lembrança.

Sentei-me na beirada do lago e tirei meus coturnos imundos de terra, grama e tudo que se possa imaginar. Ajoelhei-me e observei meu reflexo naquela água escura como as sombras. Estava pronta para pular quando ouvi leve batidinhas em um tronco caído perto de mim. Quando virei vi um menino, não mais que doze anos. Ele estava encostado na árvore e a segurava com força, como se estivesse com medo de que, se a soltasse, pudesse flutuar. Seus cabelos eram negros e desciam-lhe até abaixo das orelhas, com uma franja que tapava seus olhos, como se ele não o cortasse há meses. Seus olhos eram de um negro profundo, como o lago, com olheiras arroxeadas e pele de um pálido doentio, como a minha.

– Você não deveria pular ai. – ele sussurra, como se tivesse medo de minha reação.

– E você é...? – perguntei, e ele se encolheu. Talvez eu tenha falado de um modo meio indelicado...talvez.

– Sou George. E você é Akantha, não é?

Como ele sabia? Eu nunca o vi antes. Nunca vi ninguém antes além de Kreiow

– Sim. Meu nome é Akantha, e estou curiosa para saber o motivo pelo qual não devo pular no lago.

– Ele não parece algo bom, e você pode não gostar do que tem dentro dele. – ele falava de um jeito tão diferente. Não soava como uma criança, mas tampouco como alguém adulto. Ele falava de um jeito único, entre a coragem e o medo, entre a juventude e algo mais.

– Sinto muito George. Também não gosto muito da sensação que ele trás, mas preciso de respostas.

E então dei-lhe as costas e pulei para a escuridão total, mergulhando cada vez mais nas trevas. Lá no fundo, no entanto, toquei em algo que jamais esperava e que me assustou. Tinha uma consistência estranha, pegajosa, e não consegui pensar em mais nada, apenas que precisava voltar. Forcei minhas pernas e braços a levarem-me novamente a segurança da luz da lua.

– Eu te avisei. – George me olhava com um misto de pavor e raiva. – Você não deve mais procurar.

Eu apenas o ignorei e fitei meus cabelos encharcados no lago novamente e, junto dele, algo mais. Lá, entre mechas emaranhados, estava um colar simples, prateado, com um coração avermelhado no centro. E eu juro, não sei de onde e nem como surgiram, mas três palavras me vieram a mente. Palavras que jamais pensei em juntar e que causaram um tumulto de emoções dentro de mim, como uma tempestade.

“FRIO, PÁLIDO, MORTO.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.