Akaluri - Parte 2
11 Trégua
O Yusuke passava a mão delicadamente por entre os fios do meu cabelo branco. Naquele instante, sentia um novo calor no peito, uma espécie de felicidade calma. Permanecia um longo silêncio sobre o beijo que haviamos trocado, como se ainda estivéssemos a digerir aquele momento. Contudo, não era um silêncio desconfortável; pelo contrário. Era como se, lentamente, tudo aquilo que sentíamos, envolvidos nos braços um do outro, estivesse a ser absorvido por ambos. Estávamos deitados na minha cama. Eu, envolta no meu pijama de tecido leve, sentia intensamente a proximidade do seu corpo, coberto apenas por roupa interior, debaixo dos lençóis. O suave toque da sua pele contra a minha causava-me, por um lado, um sentimento de segurança e conforto e, por outro, um nervosismo quase impercetível, que não deixava a minha respiração acalmar por completo.
- Luri... — murmurou o Yu, quebrando suavemente o silêncio.
- Sim?
- Estes últimos meses, tenho vindo a notar que há algo especial em ti. Desde que nos conhecemos, senti uma conexão que me puxava sempre de volta na tua direção, como se apenas olhar para ti tornasse o meu mundo mais leve e precioso. Cada dia contigo só reforça isso: inspiras-me a evoluir, a ser alguém melhor e a lutar pelos meus sonhos. Obrigada por teres nascido, Luri. Obrigada por me teres encontrado naquela casa assombrada e por teres continuado a oferecer-me o teu apoio e companhia. Obrigada por seres exatamente como és… Eu amo-te, Luri. E, se assim o aceitares, estaria disposto a dar-te tudo o que há em mim.
Ao ouvir as palavras doces e sinceras que o Yu compartilhava comigo, senti o meu coração aquecer. Jamais imaginava que algum dia escutaria algo assim, mas uma incontrolável felicidade transbordava de mim, especialmente por serem palavras vindas do Yusuke. Pelo simples facto de me sentir dessa forma, era como se tudo, de repente, encontrasse o seu lugar. Já entendia o desconforto que sentia ao vê-lo com a Honoka; já sabia porque é que a minha mente insistia em relembrar-se dos momentos que passava com ele; e já percebia a razão dele ser o único capaz de amenizar realmente tudo aquilo que sentia de mal, o único capaz de me fazer esquecer de tudo. Naquele instante, não havia mais nada do qual pudesse ter tanta certeza, para além do facto que eu sentia o mesmo por ele.
- Desde que entraste na minha vida, tudo ganhou um novo sentido, uma nova cor e uma nova perspetiva. É como se uma luz tivesse aparecido, iluminando um caminho que eu nem sabia estar ali, mas que precisava de percorrer. Cada momento contigo, cada palavra, toque e olhar são como tesouros que guardo no coração. E cada vez que olho para trás e me recordo, sinto sempre uma enorme vontade de as reviver, de as prolongar, e de criar ainda mais recordações ao teu lado. Graças a ti, recuperei forças e confiança... Sinto-me não só melhor, mas também inspirada a ser melhor por ti. És o meu apoio nos momentos mais difíceis e a razão da minha gratidão mais profunda. Eu também te amo, Yu...
Nos seus olhos, notei uma mistura de alívio e gratidão. Soltamos então um pequeno riso nervoso, um para o outro, que parecia suavizar a tensão que pairava no ar. Havia ainda tanto por dizer, mas, naquele momento, as palavras tornaram-se desnecessárias. De forma gentil, o Yu apertou-me ainda mais contra o seu peito. Eu podia sentir que ele estava feliz e isso também me provocava uma sensação de igual felicidade; uma coisa que mal estava acostumada a sentir na sua plenitude. Era incrível o quão precioso podia ser estar ao pé de alguém... Não havia nada que eu quisesse mais naquele momento, para além de sentir o calor do abraço da pessoa que mais amava e que me aconchegava de forma tão carinhosa... E assim, acabámos por adormecer tranquilamente.
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- Bom dia, Luri. Não ouviste o teu despertador!
O Yusuke acordou-me suavemente, deslizando a mão pelo meu braço. Ainda me custava acreditar em tudo o que tinha acontecido no dia anterior. Os meus olhos, pesados pelo sono, abriram-se lentamente, enquanto uma vaga sensação me fazia duvidar da realidade. Parecia que tudo não passava de um sonho. Nunca antes havia tido uma noite tão agradável assim.
- Bom dia, Yu... Que horas são?
- Ainda é cedo, mas o teu despertador já tocou. Não te esqueças que hoje é quinta, por isso tens aulas.
- Ah, pois. Obrigada...
- Eu também vou ter que ir embora ao final da tarde, por isso, se eu não estiver cá quando voltares, já sabes...
- Antes disso podíamos encontrar-nos no centro comercial, para almoçarmos juntos!
- Sim, claro... mas, sobre esta madrugada que passou...
Ouvindo a fala do Yu, senti automaticamente o rosto aquecer, ao relembrar-me dos acontecimentos. Era um pouco embaraçoso pensar no quão vulnerável havia agido perante o Yusuke, durante a noite. Naquela altura, parecia que os meus sentimentos simplesmente fluíam naturalmente para fora de mim, sem que eu o tentasse. No entanto, depois de acordar com uma mente mais clara e consciente, recordar tudo aquilo deixava-me ligeiramente envergonhada.
- O que queres falar sobre isso? — questionei, receosamente.
De repente, o Yu ajoelhara-se no chão ao lado da cama, enquanto segurava a minha mão.
- Aceitas namorar comigo, Akaluri? — perguntou ele, estendendo-me um pequeno rebuçado.
- Sim, aceito. — respondi, soltando um riso ao pegar naquele doce — Mas porquê o rebuçado?!
- Porque ainda me falta o anel, mas não queria perder mais tempo. Agora deixa-me aproveitar todos aqueles que perdi até hoje!
- Todos aqueles quê...?
O Yu lançou-me um sorriso suspeito e colocou-se seguidamente por cima de mim, enchendo-me de incontáveis pequenos beijos por volta da minha face e do meu pescoço. Não conseguia conter o riso diante daquele gesto; além de ser extremamente querido, também me fazia imensas cócegas. Coloquei os meus braços à volta do seu pescoço, puxando-o num forte abraço. Ao cruzarmos olhares, senti uma onda de calor percorrer o meu corpo, como se uma energia nova e desconhecida tivesse despertado dentro de mim. De repente, o futuro parecia estar cheio de possibilidades e, pela primeira vez em muito tempo, não me sentia assustada com o desconhecido. Estava pronta para enfrentar o que viesse, enquanto tivesse o Yu a meu lado.
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[Hyuna P.O.V.]
Nenhuma célula do meu corpo tinha a mínima vontade de trabalhar naquele dia. Por mais que estivesse concentrada nas tarefas que realizava, eu sentia uma enorme vontade de ir apenas vaguear sem rumo, pelas ruas da cidade. Mal podia esperar pelo anoitecer, para o poder fazer mais uma vez. Como costume, eu até gostava de observar os humanos ao longe, vendo-os fazer a sua vida mundana sem sérias preocupações vitais, como as que um ser como eu poderia ter. Para obter as formas de agir mais genuínas de cada um, eu reparava que era mais efetivo se as pessoas em questão não me vissem, pensando que estariam sozinhas naquele momento. Habitualmente, via-as apenas fazendo o seu exercício noturno ou passeando com os amigos ou familiares. No entanto, também havia uns casos em que conseguia detetar algumas ilegalidades, que obviamente tentava fazer com que pagassem por isso, sem que fosse apanhada. Porém, aquele dia destacou-se por ser especialmente particular.
- Interessante... — sussurrei.
Ao olhar para o grande espaço aberto entre as árvores perenes, notei a presença de duas raparigas que, se bem me recordava, eram duas amigas da Akaluri. Já fazia um tempo que via as duas andar por aí sem ela. Seria isso porque a amizade teria acabado entre elas? E o que estaria a Akaluri a fazer naquele momento?
A Naomi trazia uma pequena coluna portátil, colocada em cima do pequeno muro em frente, que separava aquela zona do rio. Pouco depois, o som animado de uma música asiática feminina começou a preencher o ambiente. As duas dançavam então uma energética coreografia, planeada de acordo com o ritmo ouvido.
- Não, Sara! — exclamou a Naomi — A Seohyun vai para a direita nesta parte, não para a esquerda!
- Ah, desculpa... Às vezes confundo-me com os lados.
- Não faz mal. Vamos começar novamente; do zero!
Aquele tipo de coreografias pareciam-me muito bem construídas, embora eu não tivesse coragem suficiente para as dançar num espaço público. No entanto, até podia admirar quem o conseguia fazer com jeito. Continuei a observá-las durante algum tempo, até que finalmente conseguiram fazer toda a dança corretamente, do primeiro ao último passo. Nesse momento, os seus olhos encheram-se de emoção enquanto corriam uma para a outra, partilhando assim um enorme abraço de felicidade, que se seguiu por um beijo.
- Por esta eu não esperava... — comentei, rindo.
- Estás a falar sozinha? — ouvi uma voz dizer.
Teria eu acabado de ser apanhada por alguém, pela primera vez na vida? Os meus pensamentos impediam-me de querer virar a cabeça, para confirmar se seria mesmo esse o caso. Eu ainda estava na minha versão de demónio, o que dificultava qualquer justificação que pudesse dar, para além de que aquilo seria um disfarçe, mas estávamos tão longe do Carnaval ou do Hallloween... Uns meros segundos depois, senti os ramos da árvore estremecer e um estranho rapaz de brilhantes olhos azuis cobalto e cabelo ondulado da cor do sol, apareceu ao pé de mim. Ele parecia ter a minha idade, ou pouco mais.
- Quem és tu? — perguntei.
- Isso pergunto eu! Não é muito comum ver um ser como tu a andar descuidadamente transformado no meio dos humanos.
- Só me transformei para ser mais fácil subir para cá. Não sou uma descuidada e sei que ninguém me viu.
- Eu vi! E tens sorte que fui eu, pois se fosse uma daquelas raparigas, talvez não te safasses.
- Eu sei tomar conta de mim.
Decidi voltar à minha forma humana, na esperança que aquele tal rapaz fosse embora; mas ele continuou.
- Oh! Assim estás bem diferente! — comentou ele.
- Não me lembro de ter pedido opiniões...
- Eu sei que me estás a tentar mandar embora, mas vou ignorar isso. Vê se não dás muito nas vistas ao pé de mim, pois senão vais parecer uma doida.
- Como assim?
- Eu sou um ser mágico puro, não tenho em mim uma mistura de um ser humano comum, tal como tu tens. Graças a isso, os humanos não me conseguem ver. Então se alguém te visse a falar "sozinha"...
- É a primeira vez que conheço um ser mágico puro. Eles não vêm cá, nunca.
- Isso significa que já conheces mais seres como tu?
- Significa o que bem quiseres entender.
- Vá, não precisas de ser rude.
- Não sei se o facto de teres vindo aqui significa algo, muito menos se devo confiar em ti.
- Eu vim cá por vontade própria! Nada disso.
- Boa tentativa, mas já faz um tempo depois da revolução que só os membros autorizados pelo governante podem vir para o meio dos humanos... e apenas por motivos extremamente bem justificados, ou ficam sem os seus poderes para sempre. Garanto-te que eu sei o quão raro isso é de acontecer, já para não falar que eles ficam proibidos de se mostrarem ou de interagirem com seja quem for.
- Vejo que sabes bem a história, mas eu não gosto de seguir as regras, então vim cá sem informar ninguém.
- Como passaste as barreiras?
- Visto que o meu poder é relacionado com cumprir os desejos dos humanos, obviamente que me tornei prisioneiro lá. Por isso, apenas tive que fugir. Assim que me afastei do local, fui rapidamente para a floresta onde costumam levar os seres que protestam contra a revolta, que são enviados para o meio dos humanos sem poderes. Lá, tomei forma de um humano normal e fingi ser um deles. Não demorou muito para chegar cá, visto que é para este distrito que eles mandam os seres todos, talvez para terem mais controlo sobre o que acontece depois.
- Bem, isso explica muita coisa sobre esta região, mas tu chegaste agora mesmo?
- Não, já faz uns dias que estou aqui. Tenho andado a conhecer isto... Todo o sistema de vida aqui é bem diferente do que eu vivi até hoje.
- Pois, imagino.
- Olha, eu já respondi às tuas perguntas. Porque é que ainda não sei nada sobre ti?
- Nada me obriga a divulgar informações privadas.
- E no entanto já me revelaste ambas as tuas formas!
Não podendo negar a sua última afirmação, acabei por dar um grande suspiro. Começando a perder a paciência, decidi fazer conversa.
- Como te chamas? — perguntei.
- Seishou. E tu?
- Ichigo, na forma humana; Hyuna quando transformada.
- Ah! Mudar de nome é boa ideia. Vejo que tens bastante cuidado em separar as identidades.
- Que tipo de criatura és para conseguires tomar a forma de um ser humano tão naturalmente?
- Eu sou um génio. Tenho o poder de realizar desejos e de tomar a forma de qualquer ser vivo.
- Não me digas que também moras numa lâmpada encantada...
- Honestamente, nunca entendi porque é que os humanos inventaram essa parte da história.
- Ainda bem que isso é invenção... Mas como é que as pessoas fazem para te encontrar e pedir desejos?
- Não me encontram, eu apenas apareço.
- O que queres dizer com isso? — perguntei.
- Quando alguém de bom coração pede um desejo a uma estrela cadente, um gênio é responsável para o realizar, dentro das suas capacidades. Foi por isso que me prenderam no mundo mágico. Eles já não querem mais que os humanos sejam capazes de pedir qualquer tipo de desejo, mas isso não ia de encontro com a minha natureza... O que justifica a razão principal da minha fuga. Assim, já poderei ajudar alguém de boas intenções, que precise de pedir os tais três desejos.
- Ah, que bonito.
- Porque será que tenho a leve sensação de que esse comentário teve um pequeno tom sarcástico?
- Deixo isso aberto para a tua interpretação.
- Tem cuidado, porque essas coisas não me escapam!
- Cuidado com o quê?
Repentinamente, senti um bigode branco crescer na minha cara a uma grande velocidade.
- Isto é o que te acontece se te portares mal! — o Seishou riu, olhando para a minha cara confusa — Olha que eu sei vingar-me da melhor forma, sem nunca magoar ninguém.
- Tira-me já isto!
Com um gesto subtil, o génio fez a sua magia e retirou o bigode da minha cara. Sentia-me bastante ridícula naquele momento, mas confesso que a sua brincadeira até teve uma certa piada, por isso deixei passar.
- Feito! Agora, vens comigo a um sítio?
- Onde queres ir?
- Vou só mostrar-te onde moro, para veres que não é lâmpada nenhuma.
O Seishou já me tinha falado o suficiente sobre ele, o que me deixou numa posição em que não hesitei em segui-lo quando ele o pediu. Assim que ele fez o convite, os dois transformámo-nos, e juntos começámos a levitar discretamente pela cidade, quase como sombras. Embora eu o acompanhasse, uma parte de mim permanecia vigilante, com a sensação persistente de que tudo aquilo poderia ser uma armadilha. Por isso, mantinha-me sempre alerta, pronta para me defender ou atacar, se necessário. Porém, não podia negar a minha curiosidade. Algo em mim (talvez uma intuição), sugeria que ele poderia eventualmente ser alguém em quem pudesse confiar, mesmo que não tivesse uma razão concreta para o fazer, naquele momento.
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[Manaka P.O.V.]
- Que m*rda... — comentou o Ichiro.
Rapidamente, fui em direção à casa de banho, de onde notei que vinha o som da sua voz grave. Ao chegar, reparei, no nítido reflexo do espelho, que ele tinha retirado a sua pala castanha.
- Ichiro... Estás bem? — perguntei, preocupada.
- Sim, estou. É só complicado aceitar isto, especialmente tendo em conta que veio da parte do Hideki, como se eu tivesse culpa sobre o que aconteceu ao Shinji... Cada vez que tiro a pala, sinto tudo a repetir-se novamente. É difícil olhar assim para mim, sem sentir raiva ou desgosto.
- Eu entendo, amor. Eu sei que a morte do teu irmão não foi culpa tua, mas... O Hideki não consegue entender...
- A Hyuna devia admitir que foi ela que o fez e ponto final. Não sou eu que tenho de levar com isto.
- Tens razão, mas ela estaria a colocar-se em apuros se o fizesse. Sabes que o Hideki é perigoso e podia fazer algo que pusesse todos os seres como nós em perigo, não só a Hyuna... E, por mais que eu não concorde com as decisões que ela tome, eu pelo menos entendo-as... Por favor, não te fixes muito nesse tipo de pensamentos. O pior já passou e, se reparares bem, eles já não nos incomodaram mais.
- Tens razão, mas acho isso demasiado suspeito. Já se passaram quatro meses desde o ano novo e o Hideki não tem aparecido em lado nenhum, nem a Hyuna, atrás dele. Isso não é normal.
- Pois, mas pelo menos ele não está aqui. Ao invés de ficares nervoso à espera que ele apareça, tenta aproveitar que ele não está cá agora.
- Claro; e é mesmo isso que vou fazer.
- Ótimo! — exclamei — Cada coisa a seu tempo... Sê forte!
O Ichiro deu um leve suspiro, colocando de volta a pala na sua face. Visto que era altura de preparar o jantar, ambos saímos da casa de banho e fomos até à cozinha.
- O que queres comer hoje, Manaka?
- Apetece-me massa!
- Como costume... Não sei porque perguntei.
Eu sorri com o comentário do Ichiro, seguidamente oferecendo-lhe um pequeno beijo carinhoso, antes de ir para a sala. Planeava ler alguma coisa enquanto esperava que ele preparasse o jantar. Procurava então incessantemente por entre os livros da nossa estante, mas poucos eram aqueles que já não tinha lido ou que despertavam realmente o meu interesse.
- O que é isto? — questionei — Um álbum? Um diário?
Aquele peculiar livro bege, colocado num dos cantos da prateleira escura, atraiu imenso a minha atenção e curiosidade. Quando o abri, reparei que lá tinha várias anotações, diversos rascunhos e algumas colagens de fotos, tiradas com uma daquelas máquinas fotográficas nas quais as fotos saíam automaticamente... "Como se chamavam essas máquinas, mesmo?" Eu bem que tentava lembrar-me, mas nenhum nome específico me vinha à cabeça. Porém, todas aquelas fotos eram bem lindas. Cada uma mostrava um tipo de pássaro diferente: uns coloridos; uns mais monocromáticos; uns comuns; outros mais raros... e assim continuamente. As notas ao pé de cada ave estavam claras e explicavam diferentes características de cada um, com grande detalhe. Quanto mais páginas eu passava ao ler, mais impressionada me sentia com todo o conhecimento recolhido e acumulado pelo Ichiro. Sempre soube que ele preferia estar ao ar livre, mas nunca imaginaria que o pequeno Ichiro teria aquele tipo de hobby há tantos anos atrás! Porque teria ele parado?
Reparei que uma das fotos estava metida dentro do bolso de papel inserido por dentro da capa do livro. Pegando nela para ver o que continha, notei que ilustrava uma criança de cabelo castanho claro e olhos avermelhados. Perguntei-me logo quem seria, mas não demorou muito até o vir a saber. Apenas tive que ver o verso da foto, onde na parte branca dizia "Shinji, 14 anos, avistado com um raro quetzal". Rapidamente, fiquei intrigada com aquela foto. Nunca antes tinha visto o aspeto físico do Shinji, pois pensava que o Ichiro não guardava fotos nenhumas da sua família, muito menos do seu irmão gêmeo. "Terá ele apenas guardado a foto por causa do pássaro ser raro?", pensei.
- Está pronto! — exclamou o Ichiro, da cozinha.
Rapidamente, fechei aquele pequeno diário e coloquei-o de volta no seu lugar. No entanto, achei que fosse um tema interessante para falarmos ao jantar, por isso levei comigo a tal foto que encontrei. Assim que começamos a comer, introduzi o assunto:
- Ichiro... Enquanto estava na sala, encontrei um pequeno diário que ilustrava diferentes tipos de pássaros e as suas características...
- Encontraste isso? Acho que foi das poucas coisas que guardei comigo, desde que fui embora de casa.
- Bem... É verdade que tudo aquilo está super bonito e organizado, mas reparei que tinha lá uma foto que não estava colada nas folhas, como etavam as outras...
- Que foto? — lentamente, eu peguei no pequeno papel brilhante com cuidado e entreguei na mão do Ichiro — Ah. Esta foto... Ela não está colada com as outras por duas razões. Primeiro, porque aparece o Shinji e não apenas a ave rara. Segundo, porque ela foi danificada e eu preferi preservá-la o melhor que pude, dentro daquele pequeno bolso. Se reparares, atrás da fotografia, podes ver que ela foi rasgada e que um pedaço de fita-cola transparente é que uniu as duas partes de volta.
- Mas o que é que aconteceu para ela ter sido rasgada?
- Foi o meu irmão. Ele pensava que eu lhe estava a tirar uma foto para gozar com ele, sendo que na verdade eu só queria fotografar aquele quetzal. Ele não acreditou em mim e, para me impedir de usá-la para alguma coisa, acabou por rasgar a foto... Embora tivesse sido a primeira e última vez que tinha visto aquele lindo pássaro.
- Isso é tão parvo... Porque é que ele te fez uma coisa dessas?
- Eu também nunca entendi, mas o Shinji sempre pensou que eu tinha algo contra ele, tal como ele tinha contra mim. Estava constantemente a fazer-me este tipo de coisa, mesmo que não houvesse motivo algum.
- Deve ter sido difícil viver com alguém assim...
- Sim, foi... Mas eu gostava bastante do meu irmão na mesma, por mais que ele não me desse oportunidade de o demonstrar. Cada vez que lhe fazia algo simpático, ele pensava que era com o objetivo de o rebaixar mais tarde, de alguma forma.
- Mas isso nem faz sentido... Ele não te devia tratar assim só por causa da sua inveja. Nenhum de vocês tem culpa de tu teres nascido com os poderes que tens e ele não... Tu nunca lhe fizeste nada de mal.
- Eu sei, mas eu entendo a forma que ele se sentia. O Shinji sempre teve que se desenrascar um pouco mais sozinho quando era pequeno, pois eu recebia mais atenção devido ao facto dos meus pais terem que estar atentos às minhas transformações irregulares na infância. Eles tinham que me ensinar a conter bem os meus poderes e a manter-me sempre discreto... Então acabavam por ter mais trabalho comigo. Mas... Eu costumava ficar sempre sozinho em casa enquanto eles saíam juntos e se divertiam, como se eu não tivesse direito a existir fora de casa.
- Pois, claro... Faz sentido, mas isso não justifica a forma que ele te tratava... Pelo contrário.
- Não justifica, mas dá para entender a sua origem.
- Sim, mas acho muito bonito da tua parte que, mesmo assim, tu sempre respeitaste o teu irmão e sempre te importaste com ele.
- Claro, afinal ele era meu irmão na mesma. Ele não teve culpa da vida que a nossa família levou... Embora não concorde nada com a sua atitude ou as suas escolhas. Mas bem, vamos mudar de assunto...
O Ichiro mudou rapidamente de conversa para algo um pouco mais agradável. Entretanto, não conseguia deixar de pensar no quanto eu gostava dele. Parecia que, a cada momento que passávamos juntos, maior era o amor que tinha por ele e maior era a admiração que sentia pela pessoa que ele era. Por vezes, ele podia dar uma imagem fria ou de alguém sem empatia, no entanto, aqueles instantes provavam-me que era o contrário que acontecia dentro dele. Na verdade, ele preocupava-se com as pessoas que gostava, apenas não o expressava tanto. Porém, nunca houve um momento em que não me sentisse orgulhosa de saber que era ele quem eu tinha a meu lado. Isso deixava-me feliz.
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