- Quero ir sentado a teu lado. — sussurrou-me o Ryuu, enquanto entrávamos no autocarro.

- Claro! Vamos para os lugares de trás, assim podemos ir todos juntos.

Quando nos dirigimos para a parte traseira do autocarro, percebemos que não havia lugares suficientes para todos nós em conjunto, que éramos seis. A Manaka optou por acompanhar o Ichiro e os dois sentaram-se nos dois lugares da penúltima fila. Enquanto isso, o Ryuu, o Yusuke, a Honoka e eu acomodámo-nos em quatro dos cinco lugares da última fila, com a Honoka junto à janela. Enquanto aguardávamos que o autocarro começasse a andar, passámos algum tempo nos nossos telemóveis, a ver as redes sociais. Foi então que me deparei com uma foto da Manaka e do Ichiro juntos, a beijarem-se.

- Não sabia que eras do género de postar este tipo de foto! — brinquei.

- Que foto? — perguntou curioso o Ryuu.

O Yusuke inclinou-se na minha direção espreitando para o meu telemóvel, enquanto a Manaka se levantou, bastante embaraçada.

- Tem algum problema? — disse ela, com as bochechas rosadas.

- Não! — respondi — Só fiquei impressionada.

- Por isso é que eu nunca meto fotos… — comentou o Ichiro.

- Então, como está a correr a vossa relação? — perguntei, inclinando-me para me conseguirem ver — Dão-se bem, agora sendo namorados?

- Está tudo a correr bem, sim! — afirmou a Manaka.

- Estaria a correr melhor se não tivesses medo de…

O Ichiro foi interrompido pelas mãos da Manaka que lhe taparam rapidamente a boca.

- Cala-te, estúpido! — disse ela, rindo — Não é nada, Akaluri!

- Não me parece! — brincou o Ryuu.

A Manaka respirou fundo e voltou a sentar-se no seu lugar.

- Não fiques chateada. — disse o Ichiro, dando-lhe um pequeno beijo na mão.

- Isto está a deixar-me enjoado. — comentou o Ryuu.

- O quê? — perguntei — As curvas na viagem?

- Não. Eles os dois a comportarem-se extremamente como um típico casal recente. — ele fingiu ter um arrepio.

- É verdade que são um casal recente… Só começaram a namorar há dois meses. Eu até acho giro eles serem assim! Também gostava de ter alguém para poder fazer coisas parvinhas deste género, um dia.

Após cruzarmos olhares, o Ryuu desviou a cara. Ele retirou da mochila um par de auriculares e uma pequena consola portátil, começando a jogar. Isso levou-me a tentar puxar conversa com o Yusuke e a Honoka, que faziam ambos cara de caso.

- Tens mesmo a certeza que não te afeta estarmos a ir para aquele sítio?

- Não importa, Honoka. Já passou tempo suficiente para que eu não me sinta tão mal.

- O que aconteceu, Yu? — perguntei.

A Honoka olhou para mim com uma expressão um pouco surpresa e ligeiramente irritada.

- Devias ter mais cuidado com o que perguntas, ele pode não se sentir confortável para te contar.

- Desculpa, só estava preocupada... — disse, olhando para o Yusuke — Não é preciso falares sobre isso, se não quiseres.

- Eu posso contar-te, não vejo problema...

Já sabendo a história, a Honoka encolheu os ombros e virou a cabeça para o lado da janela, deixando-nos a falar.

- Perto daquele lugar, ficava um orfanato, no qual morei durante vários anos.

- Estiveste num orfanato? O que aconteceu?

- Não sei… — continuou o Yusuke — Eu só me lembro de ter vivido no orfanato, desde sempre. Lá, a vida que eu levava não era propriamente brilhante... Eu sentia sempre um enorme vazio em mim; não sabia quem era ao certo, não sabia quem era a minha família, nem sequer sabia de onde eu vinha... Pela janela do meu dormitório, eu apenas conseguia observar um lindo sítio cheio de plantas e com alguns bungalows de madeira, que é onde estamos a ir agora. Essa foi uma das razões pelas quais comecei a desenvolver um certo gosto pela natureza. Admirava tanto tudo aquilo que eu via ao longe, onde imaginava que podia finalmente ter uma vida normal, livre e em paz, fora daquele orfanato horrível. Para mim, aquele sítio representava a liberdade, simplesmente.

- Porque dizes que o orfanato em si era horrível?

- Tínhamos regras muito rígidas, com horários estritos para fazer fosse o que fosse. Eu nunca gostei de ser controlado dessa forma. A comida era horrível e as pessoas que trabalhavam lá nunca queriam realmente saber se algum de nós estava com problemas. Os meus colegas eram todos muito distantes comigo e não me dirigiam a palavra, a não ser se fosse para me pedirem um favor, como fazer-lhes um trabalho. Eu nunca me senti minimamente próximo a nenhum deles. Só queria fugir daquele sítio…

- E o que aconteceu para teres saído de lá?

- Um dia, acordamos com os alarmes de incêndio a meio da noite. O orfanato estava a arder completamente e tínhamos que fugir dali para fora o mais rápido possível. Eu sabia que me podia salvar se me atirasse da janela, porque obviamente eu conseguiria voar com as minhas asas, se me transformasse. No entanto, assim que saltei para fora, senti alguém apanhar-me. Era a Honoka.

- A Honoka?! Não estava nada à espera! O que estava ela ali a fazer?

- Eu trabalhava no sítio que vamos agora. — respondeu ela — Lá, também era onde eu morava. Uma noite, eu estava apenas a espreitar pela janela à espera que o sono viesse, até que vi ao longe o orfanato a arder. Decidi ir o mais rápido possível para conseguir ajudar maior parte das crianças que lá estavam. Por coincidência, o Yusuke foi o último que salvei, mesmo a tempo.

- Ah, entendi...

- A partir desse momento... — continuou o Yusuke — Consegui finalmente livrar-me daquele orfanato e ter alguém para receber e dar companhia. Estávamos ambos muito sozinhos, eu e a Honoka.

- Devias sentir-te tão distante e isolado das outras pessoas… Fico contente que tenhas sido salvo e que, pelo menos, estejas bem agora, Yusuke. E, se não te importas que pergunte, como sabes que esse é o teu nome?

- Eu não me lembrava qual era o meu nome. Sempre me chamaram "Yu" e isso era a única coisa que eu sabia sobre mim e quem eu era. Assim que saí do orfanato, eu arranjei um nome para mim. Não quis retirar o tal "Yu", que já tinha associado a mim próprio, então escolhi "Yusuke" como nome. E bem... "Satoru", que escolhi como apelido, significa iluminação, compreensão ou sabedoria, que eu escolhi para representar o futuro que gostaria de ter pela frente. É algo meio parvo e embaraçoso, eu sei. Era novo quando fiz isso, não me julgues...

- Claro que não te vou julgar por isso! Na realidade, gostei imenso de ouvir a tua história e fiquei contente por me teres contado isso. O teu nome é mesmo especial e tem um grande significado para ti. Isso é incrível!

- Não é nada de especial... — respondeu ele, embaraçado.

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- Wow! Isto é tão lindo! — comentou a Manaka, ao sair do autocarro.

Juntos, os seis dirigimo-nos à receção para fazermos o check-in e pagarmos o que era devido. Uma das funcionárias indicou-nos o caminho para o bungalow e entregou-nos a chave da porta número 15. Assim que entrámos, pousámos as nossas coisas e fomos ver os quartos, para decidirmos quem ficaria onde. O bungalow apresentava tons suaves de castanho, que combinavam harmoniosamente com o sofá bordô, situado em frente a uma pequena televisão preta. A sala partilhava o mesmo espaço com a pequena cozinha, que estava equipada apenas com um mini frigorífico, um fogão de duas bocas e um micro-ondas, localizado por baixo de um armário, onde provavelmente estaria a loiça. Naturalmente, a Manaka e o Ichiro queriam ficar juntos num dos quartos, o que nos deixou, a mim, ao Yusuke, à Honoka e ao Ryuu, na dúvida sobre como nos organizar. Se ficassem os dois rapazes num quarto e as duas raparigas no outro, seria algo constrangedor, uma vez que eu não tinha muita proximidade com a Honoka, nem o Ryuu com o Yusuke. Talvez fosse mais conveniente eu ficar com o Ryuu e a Honoka com o Yusuke, mas não seria isso um pouco estranho? Ou estaria eu a complicar e, afinal, essa seria a solução mais natural?

- Yu, ficas comigo num quarto?

- Ok.

- Bem... então parece que eu e tu ficamos no quarto que sobra, Akaluri. — disse o Ryuu, olhando para mim.

- Pois... — respondi, um pouco nervosa.

- Que cara é essa? Não te preocupes, eu não mordo! — brincou ele, dando-me uma pequena cotovelada no braço — Vamos lá pousar as coisas?

Eu segui o Ryuu para o nosso quarto. Os outros dois pares foram também pousar as suas mochilas nos seus respetivos quartos. Depois disso, voltamos novamente para a sala e começamos a preparar o almoço, todos juntos.

- É melhor comermos algo mais consistente, visto que à noite vamos fazer somente um piquenique lá fora. — comentou o Yusuke — Para a contagem, eu sei um bom sítio com uma linda paisagem, de onde podemos ver claramente o fogo de artifício.

- Estou mesmo ansiosa para que chegue a noite! — exclamei.

- Eu também! Vai ser tão divertido fazermos a contagem decrescente todos juntos lá fora. — disse a Manaka — Tiveste uma ótima ideia, Yusuke!

- Obrigado. — respondeu ele — Só espero que se divirtam.

Continuamos a preparar o almoço em conjunto, e o resultado foi uma das lasanhas mais deliciosas que já havíamos provado! Aproveitamos então ao máximo aquela pequena e acolhedora casinha, especialmente porque planeávamos sair à noite. Por isso, passamos a tarde inteira dentro do bungalow, desfrutando da companhia uns dos outros. Entre jogos e conversas, petiscávamos juntos, rindo e partilhando histórias que ajudavam a conhecermo-nos melhor. A atmosfera era descontraída e animada, até que, de repente, um som estranho rompeu o ar, vindo do lado de fora. Num instante, todos largaram as cartas sobre a mesa, virando-se em direção à janela.

- O que acham que aconteceu? Veio de lá de fora… — comentou a Manaka.

- Eu vou investigar.

O Ichiro levantou-se da cadeira. Com cautela, afastou ligeiramente a cortina da janela para espreitar lá para fora, mas, no mesmo instante, um objeto afiado atravessou o vidro, atingindo-o diretamente no olho esquerdo. Tudo acontecera numa fração de segundos. Um grito de dor aterrorizante escapou-lhe da garganta, enquanto ele levava as mãos em frente ao seu olho, caindo de joelhos no chão. Sangue e lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, passando entre os seus dedos e a palma da mão. Eu estava completamente paralisada, em pânico. Ao ver aquilo, sentia-me enjoada e impotente, incapaz de me mover, permanecendo imóvel na minha cadeira, com a cabeça a andar às voltas. No entanto, Manaka reagiu de imediato. Num só movimento, ela correu até ao seu namorado e envolveu-o num abraço protetor, tentando ajudá-lo a estancar o sangue, enquanto as lágrimas lhe corriam pelo rosto. A sua atitude contrastava com o estado de puro choque e incompreensão em que todos os outros se encontravam, incluindo eu, que continuava incapaz de lidar com o terror da situação.

- Estás bem, Ichiro?! – perguntou ela, ainda ajoelhada a seu lado.

- Mas que pergunta estúpida, Manaka.

- Cala-te, Ryuu! — berrou ela.

- Nunca... senti uma dor assim, mas… — respondeu o Ichiro — Eu... acho que estou ok, mais ou menos... Como está o meu olho?

Ele retirou lentamente as suas mãos cobertas de sangue que lhe escondiam o olho, revelando uma cavidade vazia. Nunca iria conseguir descrever corretamente o olhar da Manaka, que se fixava, horrorizado, no rosto do Ichiro. O que aconteceu a seguir, parecia um pesadelo tornado realidade: o seu olho, desprendido, deslizou do rosto dele e começou a rolar vagarosamente pelo chão, deixando um rasto de sangue. Sentia o estômago revirar e a cabeça a rodopiar, enquanto o sangue se esvaía do seu rosto, tornando-o ainda mais pálido do que ele já era. Notava-se claramente que a Manaka estava às portas de um colapso, mas, de alguma forma, conseguiu manter-se consciente.

- CHAMEM UMA AMBULÂNCIA! – gritou ela, com todo o ar dos seus pulmões.

Ela começou a chorar incontrolavelmente, transformando-se logo a seguir. Era a primeira vez que via a Manaka na sua forma mágica. Uma rosa vermelha floresceu nos seus cabelos, que rapidamente se tornaram loiros, enquanto os seus olhos assumiam uma tonalidade intensa de encarnado. Até então, não fazia ideia de que, ao partilhar os poderes com alguém, a pessoa que os recebia também adotava a cor do cabelo e dos olhos do remetente. Presas aos braços, surgiram-lhe igualmente umas asas negras, semelhantes às de um morcego, e duas presas afiadas escapavam pelos limites da sua boca. De repente, ficara vestida com um deslumbrante vestido de tons vermelhos, pretos e brancos. O seu rosto mostrava uma expressão desesperada, de profunda raiva e tristeza. Apesar de conhecer a Manaka há vários anos, sempre a achara uma pessoa calma, e nunca a tinha visto manifestar emoções tão extremas, muito menos àquele ponto. E não era somente eu que me encontrara chocada. Ninguém se atrevia sequer a mexer um dedo, com medo de que ela pudesse destruir tudo, dentro do bungalow.

Com o rosto ainda inundado de lágrimas, a Manaka lançou um forte murro na janela já quebrada, partindo-a o suficiente para conseguir passar para o exterior. Levantámo-nos das cadeiras assim que ela saiu, cada um indo fazer algo diferente. A Honoka correu para a casa de banho, escondendo-se; o Ryuu transformou-se, rapidamente abrindo a porta para seguir a Manaka; eu espreitava pela janela, cheia de receio, e o Yusuke ajoelhou-se ao lado do Ichiro, transformando-se, para tentar ajudá-lo.

- Não precisas de ir para o hospital. – disse ele, estendendo a sua mão esquerda em frente ao rosto do Ichiro – Eu tenho poderes curativos.

- Vais poder recuperar o meu olho?

- Infelizmente, não consigo fazer isso... Só posso acelerar o processo de recuperação, até tudo ficar completamente curado. Posso?

- Sim…

Um radiante círculo azul materializou-se diante da mão do Yusuke, enquanto os seus olhos cintilavam, mudando também para a mesma cor do seu círculo mágico, com uma intensidade deslumbrante. A regeneração no rosto do Ichiro ocorria a uma velocidade impressionante, algo que parecia desafiar qualquer lei do planeta. Não conseguia afastar o pensamento de que o poder de Yusuke era verdadeiramente extraordinário. Toda a dor que Ichiro sentira, desvanecera-se por completo, e o seu rosto, outrora coberto de sangue, estava completamente restaurado, como se um verdadeiro milagre tivesse ocorrido. Mas, na realidade, era a magia de Yusuke que o tinha feito acontecer.

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[Ryuu P.O.V.]


Eu não acreditava que a Manaka alguma vez seria capaz de ficar daquela forma. Estaria o nosso dia arruinado depois daquilo? Muitas questões incontroláveis e sem resposta passavam pela minha cabeça, enquanto eu corria atrás de uma rapariga, que parecia que eu nunca tinha visto na vida. O seu aspeto e comportamento estavam completamente diferentes do habitual.

- Ora disto é que eu não estava mesmo à espera… — sussurrei para mim, assim que a Manaka encontrou o seu alvo.

- Hideki?! – exclamou ela, furiosa – FOSTE TU, NÃO FOSTE?!

Eu escondi-me atrás de uns arbustos para observar o que acontecia. Algo me dizia que eu já tinha visto aquele rapaz em algum lugar. Após refletir um pouco sobre isso, lembrei-me do dia em que assisti a um outro ataque direcionado ao Ichiro, com um copo de vidro que continha um líquido envenenado com magia negra. Ele era o rapaz responsável por isso. Seria então a outra rapariga demónio verdadeiramente inocente?

- Sim, fui eu. – respondeu ele, tirando aquela ridícula máscara preta que lhe cobria a boca.

A Manaka não pensou duas vezes em atirar-se para cima do Hideki, prendendo agressivamente com uma mão os seus braços, e com outra o seu pescoço. Apesar de não ser o seu alvo, eu senti-me ligeiramente embaraçado ao ver o cenário.

- Sabes o que fizeste?!

Ele tentava falar, mas o rapaz de cabelo castanho claro e madeixas descoloridas não conseguia responder. A mão dela prendia o seu pescoço com tanta força, que parecia quase já não haver espaço para o ar entrar ou sair.

- Larg…a…

- COMO É QUE TE ATREVES A MAGOAR O ICHIRO?! TU ÉS UM LIXO, ÉS UM COBARDE QUE NÃO SABE ACEITAR O QUE JÁ ACONTECEU. DESAPARECE, JÁ!

A Manaka abriu agressivamente a sua boca e começou a aproximar-se do pescoço do rapaz. Ela estava a deixar-me deveras intrigado com a sua forma de agir tão impulsiva. Sempre a tinha visto como uma pessoa calma e com muito autocontrole, mas parecia que, assim que algum assunto grave envolvia o Ichiro, ela era capaz de se tornar praticamente num monstro. Quando reparei que as suas presas estavam quase a perfurar o pescoço do Hideki, eu corri até ela e segurei os seus pulsos, levantando-a. Muito provavelmente, tinha acabado de impedir um assassinato.

- Manaka, já chega. – disse.

- DEIXA-ME! Ele está a fugir!

Ela esperneava-se, tentando desesperadamente soltar-se das minhas mãos, que a prendiam com força.

- Não há nada que possamos fazer. Vamos voltar para o bungalow e tomar conta do Ichiro. Achas que é isto que ele quer que tu faças? Pensa bem no que estavas prestes a fazer. Tu não és assim, Manaka.

Ela não disse nada, mas, depois de tentar mais algumas vezes soltar-se, finalmente desistiu, virando-se a seguir para mim. A Manaka pousou então a cabeça no meu peito, chorando sem parar, enquanto me contava sobre todo o histórico de coisas que o Hideki havia feito ao Ichiro, para lhe atormentar a vida ou até mesmo tentar matá-lo. Ele culpava-o a ele e à Hyuna pelo suicídio do Shinji, que era o seu melhor amigo, mas também irmão gémeo do Ichiro e o ex-namorado da Hyuna. Era isso que os relacionava, finalmente tinha entendido a história. Eu tentava confortar a Manaka, mas sabia que ela só voltaria a estar completamente bem se tudo aquilo amenizasse. Como poderíamos nós fazer o Hideki parar, sem termos que usar violência? Parecia que nada o conseguia fazer desistir das suas ideias parvas. Quanto mais sabia sobre ele, menos me interessava em tentar ter uma conversa amigável com uma terrível pessoa daquelas. Assim que chegamos novamente ao bungalow, sem estarmos transformados, reparamos que o Ichiro já não estava onde o tínhamos visto da última vez.

- Ele está no quarto a descansar. – afirmou o Yusuke – Eu curei-o com os meus poderes. Entretanto a Akaluri foi comprar uma pala.

- Ah… Obrigada.

- Não agradeças, Manaka. Faria o mesmo por qualquer um de nós.

- Acho melhor ires ter com ele… — sugeriu a Akaluri.

A Manaka foi para o seu quarto, onde estava o Ichiro deitado na cama. Enquanto isso, eu, a Akaluri, a Honoka e o Yusuke ficamos os quatro na sala, a conversar.

- Tu foste atrás da Manaka. – falou o Yusuke — Consegues explicar o que se passou?

- Ela perseguiu o rapaz que estava lá fora, responsável pelo que aconteceu. Já faz algum tempo que ele anda a fazer este tipo de coisas ao Ichiro, ao que parece, então ela passou-se.

- O Hideki? – perguntou a Akaluri.

- Sim.

- Eu não acredito nisto… Nem no último dia do ano ele arranja algo melhor para fazer.

- Concordo contigo. – disse.

- A Hyuna estava apenas a tentar defender o Ichiro… Mas como o Hideki estava sempre perto dele, eles acabaram por confundir as coisas e pensavam que a verdadeira culpada de tudo era ela.

- Seja como for, a atitude que a Hyuna tinha também não a ajudava nada a parecer inocente, Akaluri. — comentei.

- Ela sabe que não é inocente… Por isso é que age assim.

- O que queres dizer com isso? Ela fez alguma coisa?

A Akaluri permaneceu calada, ignorando a pergunta. Sentia que havia algo que ela sabia e não queria contar, o que não me dava um bom pressentimento. Eu não a queria pressionar, por isso tentei mudar o assunto.

- Onde está o olho do Ichiro? – perguntei.

- Não me lembres disso! – resmungou a Honoka, pousando a cabeça nas suas mãos.

- O olho está num pequeno frasco que comprei, ao mesmo tempo que a pala… — respondeu a Akaluri – Eu meti-o no frigorífico, mas eu não sei se eles o querem conservar ou só deitar fora…

- Acho que conservar um olho seria muito estranho, Akaluri. – opinei.

- Só tinha medo de o deitar ao lixo e depois me arrepender…

- Como é que tu conseguiste pegar nesse olho, sequer?

- A ideia foi minha, mas, na verdade, foi o Yusuke que pegou nele e o meteu no frasco.

- E agora, o que fazemos? – perguntou ele.

- Não sei, Yu… — respondeu a Akaluri — Eu sinto-me tão mal por eles os dois… Pensei que isto ia ser um dia feliz, mas afinal…

- Por mais pesada que a situação seja, não acho que a devíamos ver como um obstáculo. – afirmei — Já aconteceu, então agora não podemos continuar a pensar demasiado nisso e deixar que nos estrague o pouco que nos resta do nosso dia. Se o Ichiro já está melhor e a descansar, por enquanto, não há mais nada a fazer.

- Isso foi um pouco frio…

- Akaluri, pensa bem… Nós viemos para aqui com o objetivo de nos divertirmos e passarmos um bom tempo juntos. Não achas que o melhor seria tentarmos animá-los a eles e a nós mesmos, em vez de continuarmos aqui parados e tristes, à espera que o ano acabe?

- Talvez… Mas o que os poderia animar depois de uma coisa destas?

- Eu vou comprar umas bebidas lá fora. – disse o Yusuke.

- Eu vou contigo! – exclamou a Honoka.

- Mas... já não temos bebidas aqui?

- Eu não acho que ele esteja a falar desse tipo de bebidas, Akaluri. – disse.

- Ah… — ela coçou a cabeça – Então eu fico aqui. Eu não gosto de bebidas com álcool.

- Tecnicamente, ainda nem as podes beber. — respondi, a brincar, pois sabia que muita gente não queria saber da idade, antes de experimentar beber álcool.

- Até já.

O Yusuke saiu com a Honoka, deixando-me a sós com a Akaluri, na sala. Ela levantou-se da cadeira e foi para o sofá, parecendo triste.

- Desculpa… — disse ela.

- Porque estás a pedir desculpa?! – perguntei, sentando-me a seu lado.

- Porque eu não consigo deixar de me sentir preocupada pelos dois, mesmo que tenhas dito para tentarmos ficar animados…

- Não faz mal, tenta só distrair-te que já te deves sentir melhor… Eu trouxe a minha consola. Queres jogar umas partidas comigo?

- Pode ser…

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[Akaluri P.O.V.]

- Ganhei outra vez!

- Para de te gabar! – exclamei, rindo – Tu já estás habituado a jogar isto!

- Bem, já estou um pouco cansado de jogar, aliás, a consola está a ficar sem bateria. Vou pô-la a carregar no quarto.

Assim que o Ryuu voltou, o Yusuke e a Honoka voltaram também das compras e pousaram dois sacos de papel na mesa.

- A Manaka e o Ichiro ainda estão no quarto? – perguntou o Yusuke.

- Sim… Eu só espero que eles já se estejam a sentir pelo menos um pouco melhor.

- Não queres ir chamá-los? Ainda temos que preparar o piquenique e ir para o sítio onde vamos ver o fogo-de-artifício.

Eu acenei com a cabeça de forma a concordar com o Yusuke e dirigi-me para o quarto da Manaka e do Ichiro. Parada mesmo em frente à porta, eu estava a hesitar bastante. "Será que os vou incomodar?", pensei. Provavelmente eles estariam a ter alguma conversa séria, depois de tudo o que havia sucedido. Para me certificar que estava tudo bem, antes de fazer fosse o que fosse, eu decidi encostar a minha orelha à porta, tentando escutar lá para dentro, só para ter a certeza que não interrompia nada de importante ou privado.

- Sinto-me mesmo triste que uma coisa destas te tenha acontecido… — ouvi a Manaka falar.

- Não te preocupes, princesa… Eu estou bem.

- Pois, mas nada disso foi graças a mim...

- Não havia grande coisa que pudesses fazer. Foram os poderes de cura do Yusuke que me conseguiram deixar melhor. Por mais que te sintas mal sobre a tua reação, eu compreendo-a… Provavelmente eu ia agir da mesma forma, se fosse ao contrário.

- Eu não devia ter agido assim… Eu parecia um monstro! O que será que estão todos a pensar de mim agora?!

- De certeza que eles entendem porque agiste assim… São teus amigos.

- São mais amigos da Akaluri do que outra coisa…

Eu senti-me um pouco mal com o que tinha acabado de ouvir. Eu queria que nos déssemos todos igualmente bem e, por sermos todos da mesma espécie, pensava que pelo menos isso significava que estávamos todos unidos, de certa forma... mas, pelos vistos, ela sentia-se à parte. Após esperar mais um pouco, vi que eles tinham acabado a conversa mesmo ali. Decidi então bater à porta, abrindo-a depois.

- Peço desculpa. Estou a incomodar? – perguntei.

A Manaka estava sentada no lado da cama, de costas para o Ichiro. Ele estava a descansar, deitado de barriga para cima, com a pala colocada. Após limpar as suas lágrimas, ela parecia estar bastante triste e um pouco nervosa. A seguir, pousou lentamente as mãos nas suas coxas, com os dedos entrelaçados, como se estivesse a custar-lhe um pouco falar.

- Precisas de algo, Akaluri?

- Na verdade, eu vim aqui chamar-vos para irmos todos juntos fazer as coisas para o piquenique… Temos que preparar tudo e sair para chegarmos até ao lugar onde vamos ver o fogo-de-artifício.

- Ah, pois… Tinha-me esquecido disso.

- Eu sei que o que aconteceu foi algo extremamente horrível, mas… por favor, vamos tentar não ficar mal, pelo menos hoje. Sei que é pedir muito, mas tentem aproveitar o resto do dia o melhor que conseguirem, por mais que vos custe. O Ichiro já está melhor, graças à magia do Yu e tu já te acalmaste… Agora, pensem apenas no resto… Venham divertir-se connosco, estamos preocupados com vocês.

- Está bem… — concordou a Manaka.

Ela levantou-se da cama e segurou a mão do Ichiro, que se levantou também a seguir. Juntos, fomos os três para a sala, onde deixamos tudo preparado. Dividimos então a comida e as bebidas pelos nossos pequenos sacos e seguimos caminho até o tal sítio que tanto nos falava o Yusuke. Assim que chegamos, colocamos a nossa toalha azul escura numa das mesas de pedra que lá havia, onde pousamos o banquete inteiro por cima. O sítio era lindo e florido, com alguns postes de eletricidade longe o suficiente para não nos incomodarem, mas também perto o suficiente para conseguirmos todos ver à noite sem dificuldade. Uma cerca de madeira estendia-se ao longo da zona mais alta, por motivos de segurança. Era um bom sítio para pousarmos os braços e observamos o horizonte.

- A vista daqui é mesmo incrível… — comentei — Parece quase impossível estarmos aqui só nós, apenas.

- Ninguém está aqui porque a festa está a acontecer lá em baixo, no centro da cidade. – disse o Yusuke, apontando para o sítio – O fogo-de-artifício vai surgir dali.

- Prefiro muito mais estar aqui, do que no meio daquela gente toda. – comentou o Ryuu, abrindo uma garrafa de whisky.

O tempo estava a passar de forma surpreendentemente agradável, quase como se todo o peso dos acontecimentos anteriores estivesse simplesmente a desvanecer-se, ainda que fosse temporariamente. As conversas fluíam naturalmente e, por momentos, parecia que tudo estava bem. À medida que o tempo avançava, a atmosfera enchia-se de risos casuais e de grandes expectativas: a meia-noite estava prestes a chegar, e com ela, a possibilidade de um novo começo. Quando peguei no meu telemóvel e vi que faltavam apenas quinze minutos, senti uma onda de entusiasmo a crescer dentro de mim. Era como se aquele momento fosse um marco, o começo de um novo rumo. No entanto, essa sensação foi rapidamente substituída por uma crescente preocupação, assim que olhei para o Ryuu. Notei que ele já tinha começado a atacar a garrafa de absinto.

- Sentes-te bem, Ryuu? Tu estás mesmo a ir para os piores.

- Eh? Eu? Ora mas é claro que sim, minha senhora. – respondeu ele com um estranho sorriso – JÁ NÃO BEBIA ABSINTO HÁ BUÉ!

- Baixa o tom! – exclamou a Honoka — Ainda nos vais furar os tímpanos.

- “Senhora”? Porque me chamaste senhora? – perguntei, rindo.

- Lady. Era isso... LADY! Ladycat.

- Que raios...? O que se está a passar contigo? Estás todo vermelho…

O Ryuu apenas riu, descontroladamente.

- O que achas que se passa com ele? – questionou ironicamente a Honoka — É óbvio que ele está bêbado.

- Nunca vi ninguém bêbado… Hm…

Ele levantou-se do banco de pedra onde estava sentado, dirigindo-se a mim com passos lentos e um pouco descoordenados.

- Hello.

- Não seria melhor parares de beber isso? – eu retirei o copo da sua mão e pousei-o longe dele – Estamos aqui para convivermos todos uns com os outros. Estás a ser um pouco irresponsável…

- Não! – replicou ele, encostando-se a mim, depois de se sentar a meu lado.

Apesar de ela também estar a beber um pouco, a Honoka concordava comigo, sem achar muita piada à situação. No entanto, a Manaka e o Yusuke riam-se imenso com o estranho comportamento do Ryuu, aproveitando para o provocar um pouco.

- Então, Ryuu… Em que estás a pensar neste momento? – perguntou o Yusuke.

- Aquela pessoa ali está a enervar-me. – respondeu ele, apontando para uma árvore.

- Oh! – o Yusuke riu — Porquê?

- Está ali parada a olhar p’ra mim… Deve querer levar um murro.

- Porque não vais lá dar-lhe uma lição?

O Ryuu ignorou a pergunta e começou a rir-se bastante. Ele tentou chegar até o seu copo, mas eu dei-lhe uma pequena palmada na mão para o impedir.

- Auch! – replicou ele, fingindo que lhe doera.

- Sabes o que aquela pessoa que te está a irritar me disse, Ryuu? – perguntou a Manaka, rindo — Ela disse que parecias uma doninha atropelada.

- Parem de o perturbar! — exclamei.

- Eu vou lá mostrar-lhe quem é a doninha atropelada.

O Ryuu levantou-se, arregaçando as suas mangas no caminho até à tal árvore que ele pensava ser uma pessoa. Assim que ele chegou lá, começou a falar de forma bastante agressiva, enquanto todos os outros observavam e se riam das figuras que ele estava a fazer.

- Isto é tão engraçado! – comentou o Yusuke, rindo — Nunca vi ninguém ameaçar uma árvore. .

- Eu não estou a achar piada… — afirmei — Ele pode magoar-se.

Parecia que tinha adivinhado o que ia acontecer. Assim que dissera aquilo, ouvi o Ryuu a queixar-se, após dar um forte murro àquela árvore. Eu fui rapidamente ter com ele, enquanto ele segurava a sua mão dolorida.

- Oh… Ele está bem? – perguntou o Yusuke.

- Hey, Ryuu… Então? Magoaste-te?

- Nah! — respondeu ele, sacudindo a mão.

Juntos, voltamos os dois para à beira dos outros, que já não se estavam mais a rir dele.

- Eu vou levá-lo para o bungalow e ficar de olho nele. Fiquem aqui e aproveitem o fogo-de-artifício…

Sem esperar por uma resposta, segurei na mão do Ryuu, que cambaleava ligeiramente, e guiei-o de volta ao bungalow. O caminho de regresso estava envolto numa quietude estranha, sendo apenas interrompida pelo som distante dos festejos de final de ano. Sentia a mão dele quente e pesada na minha. Ao chegarmos, ajudei-o a sentar-se no sofá e liguei a televisão, para eventualmente ouvirmos a contagem decrescente.

- QuÊ? 'Távamos BEM lá. — murmurou ele, com uma voz arrastada.

- Não, não estávamos. Ryuu… Tenta pensar um pouco no que aconteceu hoje. Achas que estares nesse estado iria deixar a Manaka e o Ichiro contentes? Tenta controlar-te… A partir de agora não bebas mais, pelo menos por hoje. Acho que estás a exagerar na quantidade…

Descontente, ele abanou a cabeça, com os olhos semicerrados de teimosia.

- Estou PERFEITAMENTE controlado.

- Se isso fosse verdade, não estarias aqui comigo agora.

Ryuu franziu as sobrancelhas, como se tentasse compreender as minhas palavras através da névoa de álcool que cingia a sua capacidade de raciocínio. Sabia que não era de todo a melhor altura para tentar argumentar. De repente, ele pousou as mãos nos meus ombros e inclinou-se para mim, os seus olhos a fixarem os meus com uma expressão um pouco séria, como se ele estivesse a tentar convencer-me a mim (e talvez também a si próprio) de que estava normal.

- Eu estou a controlar-me.

- Não estás.

- Estou sim.

- Como é que eu posso ter a certeza disso?

- Porque tu não sabes como sou, se perder o controlo…

O Ryuu olhava-me com uma intensidade quase hipnotizante, com os seus olhos cravados nos meus, enquanto os seus dedos deslizavam suavemente por uma madeixa do meu cabelo. Com um gesto delicado, colocou-a atrás da minha orelha. Tudo aquilo estava a fazer sentir-me bastante embaraçada e confusa.

- R-ryuu?! O que estás a fazer?

Ouvia a contagem de ano novo avançar na televisão. Os olhos cinza do Ryuu, ainda fixados nos meus. Cada número ecoava como um sinal de alerta na minha mente, enquanto a distância entre nós diminuía a cada segundo. No instante que a voz na televisão anunciara o zero, sentira os seus lábios quentes se encontrarem com os meus. O mundo pareceu parar por um breve instante, e tudo o que eu conseguia ouvir era o som abafado da televisão: "Feliz Ano Novo!".