Fiquei ali, imobilizada pela surpresa e pela confusão que sentia, sem saber bem o que fazer. O Ryuu afastou-se lentamente, deixando a sua mão quente repousar na minha face durante mais um pouco. Ele estava visivelmente corado, mas não conseguia distinguir se seria apenas efeito do álcool ou se, talvez, ele também estivesse um pouco embaraçado com a situação. Permanecemos alguns segundos em silêncio absoluto, apenas a olhar um para o outro, enquanto eu tentava processar o que acabara de acontecer. De repente, senti o Ryuu perder forças e deixar-se cair, com a cabeça pousada nas minhas coxas. Adormecera ali mesmo.

Após algum tempo, passei a mão por entre os seus cabelos cabelos vermelhos, enquanto refletia. O meu primeiro beijo... com Ryuu, e naquele estado. Sentia-me estranhamente vazia, como se aquele momento especial que tanto ansiava, me tivesse sido roubado por circunstâncias que não compreendia completamente. Por que razão me teria beijado? Não fazia ideia se ele realmente sentia algo por mim… ou se fora apenas o efeito do álcool. Nunca havia experienciado uma situação daquelas e nunca tinha pensado no Ryuu de outra forma, a não ser um amigo próximo. Era verdade que me sentia sempre confortável ao seu lado, talvez até mais do que com outras pessoas, mas significaria isso algo mais? Sentiria ele algo por mim? E eu? O que seria sentir-se realmente apaixonado por alguém, e quais seriam os meus verdadeiros sentimentos pelo Ryuu? Iria aquele beijo mudar completamente a nossa relação dali em diante?

Limitava-me a ponderar sobre tudo aquilo, sem prestar muita atenção ao que me rodeava. Só recuperei a consciência ao ser trazida de volta à realidade pelo meu telemóvel, que vibrava. Recebera mensagens da Naomi e da Sara, ambas desejando um feliz ano novo, às quais respondi de imediato. Já passavam quase dez minutos após a meia-noite quando a Manaka, o Ichiro, o Yusuke e a Honoka finalmente regressaram ao bungalow.

- Awn, que fofos! – exclamou a Manaka, com um sorriso.

- Hm… — eu sorri, estranhamente — Foi bonito o fogo-de-artifício?

- Havia alguns tão diferentes e coloridos… — acrescentou a Manaka — Foi uma vista mesmo linda. Gostava que não tivesses perdido…

- Não faz mal… Estou contente por terem gostado! De qualquer das formas, era mesmo necessário alguém tomar conta do Ryuu…

- Ele está bem? – perguntou a Manaka.

- Sim, está. Ele apenas adormeceu e caiu aqui...

- Vejo que cuidaste bem dele!

A cena do beijo voltou a passar pela minha mente, como um flashback. Teria sido triplamente embaraçoso se este tivesse ocorrido na frente de todos; por isso, apesar de ainda me sentir desconfortável com o que acontecera, pelo menos estava aliviada por ter sido apenas entre nós e por ter conseguido levá-lo para o bungalow. Houve um breve silêncio na sala, até o Yusuke falar.

- Estás vermelha, Akaluri. O que tens?

- Não é nada… — respondi, colocando as mãos nas bochechas, para verificar a temperatura.

- O Ryuu não devia ter exagerado com as bebidas. — comentou a Manaka — Vamos para o quarto, Ichiro?

- Sim, claro. Precisamos mesmo de descansar.

O Ichiro deu-lhe um pequeno beijo na testa. Ambos foram para o quarto, após nos desejarem uma boa noite.

- Acho que vou dar uma volta.

- Como assim? – a Honoka parecia confusa — Acabamos de chegar de lá de fora, Yu!

- Quero estar um pouco sozinho.

- Sozinho? Porquê?

O Yusuke não respondeu, apenas saindo do bungalow.

- Honoka, o que se passa com o Yu? – perguntei.

- Não sei…

- Que estranho…

- Estes tempos, ele tem andado um pouco assim. De qualquer forma, não acho que haja nada que eu possa fazer, visto que ele me diz sempre que não se passa nada, quando lhe pergunto. Vou só vestir o pijama e ficar no quarto, à espera que ele volte… Boa noite.

- Isso só me deixa ainda mais preocupada… — eu respirei fundo – Mas, boa noite, Honoka.

Pouco depois dela ter ido para o seu quarto, fiquei a pensar numa forma de acordar o Ryuu, para irmos para o nosso. Toquei-lhe suavemente no ombro e sussurrei o seu nome ao pé do ouvido, mas ele não reagiu. Na esperança de o despertar, comecei a acariciar o seu cabelo novamente. Para minha surpresa, ele colocou a mão sobre a minha e, ainda de olhos fechados, esboçou um leve e discreto sorriso.

- Afinal estás acordado? – perguntei – Tens de te levantar, para irmos para o quarto…

O Ryuu suspirou e levantou lentamente a cabeça das minhas coxas, parecendo ligeiramente tonto. Ajudei-o a levantar-se do sofá e a caminhar até ao nosso quarto, onde o sentei numa das duas camas individuais. Ele deixou-se cair de lado, pousando a cabeça na almofada, mas com os pés ainda no chão. Decidi descalçá-lo para colocar as suas pernas sobre a cama e deixá-lo mais confortável.

- Hoje foi um bom dia. – disse ele.

Fiquei sem saber o que responder, apenas sorrindo. As palavras dele pareciam tão simples, mas no fundo carregavam um peso que eu não conseguia ignorar. A minha mente voltara ao beijo, às questões confusas que pairavam sobre nós. Não sentia que um "sim" ou um "também acho" parecesse ser 100% verdade, mas, qualquer outra resposta, poderia abrir a porta para uma conversa que eu ainda não estava preparada para ter. Assim que ele adormeceu, fui buscar a manta laranja que estava no sofá e cobri-o com cuidado. Peguei no meu pijama e fui vesti-lo na casa de banho, mas não conseguia afastar os pensamentos. O que significava para ele o tal "hoje foi um bom dia"? Estaria a referir-se ao tempo que passámos todos juntos ou... ao beijo? Ele lembrava-se disso ou estaria demasiado bêbado quando o fizera?

Depois de vestir o pijama, percebi que me tinha esquecido das coisas para lavar os dentes. Voltei ao quarto para as ir buscar e pousar a minha roupa. Ao sair, ainda imersa nos meus pensamentos, deparei-me com Yusuke a abrir a porta de entrada.

- Voltaste! – exclamei, dirigindo-me a ele – Está tudo bem?

- Sim… Só precisava de espairecer um pouco.

- Estávamos bastante preocupadas contigo… A Honoka está agora no quarto à tua espera, não sei se já adormeceu.

- Eu já vou para lá… Queres tomar um chá aqui comigo antes?

- Sim, claro! Vou só pousar isto na casa de banho, para usar depois.

Assim que voltei, sentei-me numa das cadeiras ao pé da mesa, enquanto ele preparava o chá numa pequena chaleira.

- Estou a fazer chá de camomila. Gostas?

- Sim, gosto bastante…

Sem dizer mais nada, ele serviu o chá nas duas chávenas pousadas no balcão ao seu lado. Com movimentos lentos, pegou em ambas as chávenas e colocou-as cuidadosamente na mesa, junto com duas colheres de chá. Ansiosa, agarrei rapidamente na minha chávena, pronta para começar a beber. No entanto, assim que a primeira gota de chá escaldante tocou na minha língua, dei um ligeiro sobressalto, devido ao choque da temperatura.

- Queimaste-te? – perguntou ele, visivelmente preocupado — Tens de esperar que arrefeça, antes de começar a beber…

Ambos rimos um pouco com a situação, acabando por mudar de assunto.

- Não faz mal se não me quiseres responder, mas… O que foste fazer lá fora, Yu?

- Fui refletir sobre algumas coisas... Transformei-me e fui a voar até ao antigo orfanato.

- Esse orfanato não tinha ardido?

- Sim... Agora está deteriorado e completamente abandonado, mas continua a trazer-me algumas recordações.

- Tens a certeza que não te sentes mal ao estar por aqui? Eu acho que este sítio é capaz de te despertar más memórias antigas…

- Eu não me sinto mal por estar aqui, aliás, ter ido ver o meu velho orfanato fez-me sentir mais... livre? Saber que já não estou preso àquele lugar e que tenho a sorte de estar rodeado pela companhia que tenho hoje, faz-me sentir muito melhor.

- Sabes, admiro bastante isso em ti... A tua forma de valorizar o que tens, sem nunca te queixares, enquanto trabalhas para alcançar os teus objetivos. Tens planos ambiciosos, mas realistas, e acredito que vais concretizá-los um dia. Isso é algo que respeito profundamente.

- Para mim, ter estas amizades é extraordinário. Sinto-me grato por não passar os dias sozinho, como quando era pequeno... Isso é o mais importante para mim. Embora tenha grandes planos para o futuro, não trocaria a companhia que tenho agora por nada. Gostava que ficassem ao meu lado, se eu realmente conseguir alcançar os meus objetivos mais tarde.

Sorri suavemente com o que ele acabara de me dizer e coloquei levemente a minha mão sobre a dele, num pequeno e simples gesto para confirmar em silêncio que eu não sairia do seu lado. Ficámos sem falar por alguns momentos, apenas a saborear o chá. Quando finalmente me lembrei de um assunto para conversar com o Yusuke e inspirei para começar a falar, fui subitamente interrompida pela entrada brusca da Honoka na sala.

- Yusuke?! Já voltaste? Eu estava preocupada contigo… Porque não disseste nada?

- Queria só beber um chá antes de ir para o quarto. Também pensei que já estivesses a dormir.

- Eu estava à tua espera, claro que não ia adormecer!

- Desculpa, devia ter dito algo. – o Yusuke respirou fundo — Também queres chá?

Depois de ir buscar uma chávena, a Honoka sentou-se na cadeira ao seu lado e foi servida de um pouco de chá. Assim que acabei de beber o meu, decidi que seria melhor deixá-los a sós, para poderem conversar mais confortavelmente.

- Vou dormir. Estou cheia de sono…

- Ok, boa noite. – responderam os dois em coro.

Depois de lavar os dentes, desejei-lhes uma boa noite ao passar pela sala, dirigindo-me ao meu quarto. Assim que me deitei, embora a cama estivesse confortável, a minha mente recusava-se a desligar, revivendo incansavelmente os acontecimentos do dia. As horas passavam enquanto eu ficava acordada, mergulhada em pensamentos. A imagem do Yusuke surgia frequentemente, seguida pela lembrança perturbadora do olho do Ichiro, pelo comportamento da Manaka, e, claro... pelo meu primeiro beijo. Como barulho de fundo, apenas se ouvia o baixo ressonar do Ryuu, que dormia na cama ao lado da minha.

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Após uma noite difícil e de pouco sono, decidi levantar-me cedo para preparar o pequeno-almoço para todos. Coloquei chávenas vazias na mesa e, enquanto preparava panquecas numa pequena frigideira, cantarolava num murmúrio as minhas músicas favoritas. Quando terminei de empilhar um pequeno lote de panquecas num prato, virei-me e dei um pequeno sobressalto, ao ver o Ichiro já sentado calmamente numa cadeira, observando-me.

- B-bom dia, Ichiro! Há quanto tempo estás aí? Não te ouvi chegar...

- Só estou aqui há uns dois minutos… Não disse nada para não te interromper a fazer as panquecas.

Pousei na mesa o prato que segurava, colocando ao lado um pacote de manteiga, um frasquinho com mel e outro com chocolate.

- Vou ver se o Ryuu já acordou… — disse, afastando-me.

Dirigi-me ao meu quarto e encontrei-o ainda deitado na cama. Decidi abanar-lhe suavemente o ombro e, chamando o seu nome, avisei-o para se levantar, informando que o pequeno-almoço já estava pronto na mesa.

- Bom dia… — disse ele, espreguiçando-se lentamente enquanto passava a mão pela cabeça, claramente com dores devido à bebedeira toda da noite anterior.

- Então? Como é que te sentes?

- Não sei, estou cheio de dores de cabeça... Mas olha, por acaso, esta noite sonhei contigo.

- Sonhaste?

- Eu não me lembro de quase nada, mas teve alguns momentos muito estranhos que envolviam uma árvore. No final, estávamos os dois sentados num sofá e acabei por te beijar. — contou o Ryuu, rindo do que ele próprio acabara de dizer.

- Ryuu… isso não foi um sonho.

- Não foi?

Ele coçou a parte de trás do seu cabelo, tentando processar o que eu acabara de dizer. Entretanto, sentou-se na cama, visivelmente tentando acalmar a sua dor de cabeça. Depois de pôr os pés no chão, pediu-me que me sentasse ao seu lado.

- Eu não sei se sabes, mas... aquele beijo, foi o meu primeiro… — disse eu.

- A sério...? Então eu devo-te mesmo um grande pedido de desculpas... Foi estúpido da minha parte.

- Eu sei que não o fizeste por mal…

- Sim, eu não fiz por mal, mas isso não significa que tenha sido correto. Eu roubei o teu primeiro beijo, sem antes saber se o querias...

- Tu não tens culpa, Ryuu.

- Em parte, tenho… Eu sei que podes não ter reparado, mas não imaginas há quanto tempo te quero só para mim. Beijar-te era algo que eu gostaria de ter feito de forma mais adequada, e não bêbado…

- Então... O beijo teve algum significado?

- Sim... A última coisa que queria que pensasses era que não teve significado nenhum. De facto, eu gosto mesmo de ti, Akaluri.

Ao ouvir as palavras do Ryuu, fiquei em silêncio durante alguns segundos, sentindo algo semelhante a borboletas na barriga, de nervosismo.

- É a primeira vez que alguém se declara a mim diretamente… — comentei.

- A sério?! Impressionante.

- É assim tão incomum?

- Não sei… Mas há uma coisa que gostava mesmo de te perguntar... — ele fez uma pequena pausa, olhando-me diretamente nos olhos — Por acaso, tu também não gostarias de mim?

Estava com receio que aquela fosse a tal pergunta que ele queria fazer. Parte de mim conhecia de vista o que era o amor, mas não saber qual seria a sensação de estar mesmo apaixonada por alguém realmente, deixava-me bastante nervosa para responder a uma pergunta daquele género. Eu própria não sabia se gostava do Ryuu. Não deveria eu já saber distinguir o que sentia, se estivesse verdadeiramente apaixonada? Ou seria isso mais difícil de reconhecer do que eu imaginava?

- E-eu… Ahm… Eu não sei…

- Não sabes? — perguntou ele, confuso.

- Eu acho que nunca estive realmente apaixonada por ninguém antes, então... eu não tenho a certeza daquilo que sinto. Quer dizer… a única coisa que posso dizer com certeza é que te acho um amigo incrível, alguém que eu não trocaria por nada. Tenho passado por situações complicadas e estiveste lá para mim, e ainda estás agora. Sei que nós somos muito próximos e eu sinto-me mesmo agradecida por te ter conhecido, mas...

- Oh lord… — interrompeu o Ryuu, suspirando para o teto com um tom desapontado — Isso soa-me a rejeição.

- Não, não!

- Não?

- Bem, eu não sei… — eu suspirei — Ryuu, eu vou ser o mais honesta que consigo, agora. Não quero dizer que gosto de ti para te deixar com esperanças e depois vir a descobrir que afinal era só confusão minha, porque sei que isso ia acabar por te magoar imenso… Quero ter a certeza de que faço o que é mais certo, por isso, preciso de pensar antes.

- Se quiseres, eu tenho uma sugestão para ti.

- Que sugestão?

- Queres namorar comigo?

- H-huh?

- Nada impede de tentarmos, para ver se resulta… Talvez assim aprendas o que sentes realmente.

- Eu acho que devia entender isso sozinha... Para além da probabilidade de sairmos ambos magoados com essa hipótese, se eu tentasse fazer como dizes e me colocasse numa relação contigo, isso não poderia também influenciar a minha resposta, inconscientemente?

- Duvido, mas sozinha apenas irias continuar na dúvida, não achas?

- Não sei…

- Vá, tu sabes que eu vou sempre cuidar bem de ti…

- Eu sei que sim, mas…

- Akaluri, não quero insistir contigo, mas é só uma tentativa. Mesmo que depois descubras que nem gostas de mim ou que até gostas de outra pessoa, eu nunca vou ficar em maus lençóis contigo só por causa disso. Ainda por cima, fui eu que sugeri.

- Eu… preciso de pensar…

- Claro, eu percebo! Tens tempo.

- Obrigada…

Após ficarmos uns breves segundos silenciosamente sentados um ao lado do outro, o Ryuu deu-me um pequeno abraço, antes de se levantar. Ele aproximou-se da mesinha que separava as duas camas e olhou fixamente para o que estava em cima dela.

- Oh? O que é isto?

Pegando no meu caderno de rascunhos, o Ryuu preparava-se para começar a folheá-lo, algo que eu não queria deixar que acontecesse.

- Não abras isso! — exclamei, estendendo a minha mão, na esperança que ele mo devolvesse.

- São desenhos teus?

- Sim…

- Então o que tens aqui que seja tão privado ao ponto de não me poderes mostrar? — ele sorriu maliciosamente — Hmmm…

- Não é nada do que estás a pensar!

- Será…?

- Ryuu… Devolve-me o caderno.

- Vem cá buscá-lo!

Assim que me aproximei dele, tentando alcançar o caderno, o Ryuu levantou o braço, o mais alto que conseguia.

- Eu sou alta! — exclamei, rindo — Esse tipo de coisa não resulta comigo!

- Mas será que és rápida?

Começámos a correr pelo pequeno quarto do bungalow, com o Ryuu a ser perseguido por mim. Ambos ríamos bastante enquanto eu tentava agarrar o meu caderno. Acabámos por sair porta fora do quarto, continuando a brincadeira. No entanto, decidimos parar assim que notámos os olhares fixados em nós. Fomos encarados por todos, que estavam sentados à nossa espera, para tomar o pequeno-almoço.

- O que estão a fazer? — perguntou a Manaka.

- Estamos à vossa espera para comer… — interrompeu a Honoka.

Comecei a falar de forma atrapalhada, tentando responder à Manaka enquanto pegava no caderno que o Ryuu finalmente tinha desistido de tentar afastar das minhas mãos. Um pouco envergonhada pela situação, guardei rapidamente o caderno na minha mochila e voltei a sentar-me no último lugar livre. Assim que comecei a comer, senti um conforto interior. Não era tanto pela comida, mas pelo facto de estar a partilhar o primeiro pequeno-almoço do ano com todos eles. Apesar dos eventos do dia anterior, todos nos esforçámos para transformar aquela refeição numa das mais alegres da nossa estadia no bungalow.

Depois do pequeno-almoço, começámos a arrumar tudo. Embora as coisas não tivessem corrido perfeitamente bem, pairava no ar uma certa melancolia por ser o nosso último dia lá, embora ninguém o quisesse admitir. Enquanto o Ichiro lavava os pratos e o Ryuu dobrava as mantas no sofá, notei que o Yusuke procurava algo na sua mochila. Ele tinha um olhar concentrado, com um ligeiro entusiasmo, o que geralmente significava que uma ideia estava prestes a surgir.

- Olhem, e se fizéssemos uma sessão de fotos antes de irmos embora? — sugeriu ele, erguendo a câmara — Acho que seria uma boa maneira de recordar esta viagem.

Aquela proposta deixara-me com um leve sorriso: uma sessão de fotos era exatamente o tipo de coisa que ele poderia lembrar-se de sugerir. Além disso, a sua ideia trouxe uma certa leveza ao ambiente, afastando um pouco os catastróficos acontecimentos que havíamos tido.

- Fotos? – questionou o Ichiro, tentando disfarçar o seu descontentamento.

- Sim, vamos! – contrariou a Manaka, ajeitando a roupa, de tão animada.

Todos juntos, saímos para o exterior, onde a luz matinal da montanha estava perfeita para tirar fotografias mais suaves. O Yu estava claramente na sua praia, ajustando a câmara, escolhendo os ângulos, e dirigindo-nos como um verdadeiro fotógrafo profissional! Cada um de nós chegou a ter o seu momento de protagonismo, embora alguns se sentissem mais confortáveis do que os outros, mas todos queríamos pelo menos participar. Para mim, as fotos de grupo foram as mais divertidas. Ríamos sem parar com cada fotografia, especialmente quando o Ryuu tentou fazer uma pose dramática e acabou por cair no chão, um momento que fora perfeitamente capturado pelo Yu. De facto, ele conseguia capturar-nos a cada um, tal como éramos. Por instantes, cheguei até a esquecer-me de que em breve deixaríamos aquele lugar. Enquanto a sessão de fotografias se desenrolava, eu sentia-me mais do que grata por aqueles momentos: por ter aqueles amigos. A câmara do Yusuke não estava só a tirar fotografias, era como se estivesse também a congelar fragmentos de alegria, que poderíamos revisitar à nossa vontade.

Entretanto, a luz do sol já começava a mudar, sinalizando que estava na hora de irmos embora. Porém, felizmente, com as fotos no cartão de memória, sentia que levávamos connosco pelo menos um pequeno pedaço daquele convívio.

_____________________________________

- Bem, foram uns dias agitados. — disse o Ryuu, enquanto pegava na sua mochila.

Naquele momento, o autocarro chegara finalmente no seu destino. Olhei pela janela e reconheci imediatamente a nossa cidade habitual. Estávamos de volta ao mesmo lugar de sempre, e a rotina repetitiva estava prestes a retomar, trazendo com ela a mesma previsibilidade do costume. Aquela sensação misturava-se com um leve pesar que sentia no ar, enquanto nos preparávamos para encarar mais um ciclo...

- Está a chover… — comentei, saindo do autocarro.

- Tens guarda-chuva?

- Não, Ryuu... esqueci-me de trazer…

- Eu também me esqueci. — afirmou ele — Parece que vou ter que dar uma pequena corrida até casa!

- Moras aqui perto? — perguntou-lhe o Yusuke.

- Sim, mais ou menos.

Após ouvir a resposta do Ryuu, o Yu abriu a mochila e, voltando-se para mim, começou a procurar algo lá dentro.

- Eu posso emprestar-te o meu, Akaluri.

- Mas… então e tu?

- A Honoka tem um também, então podemos partilhá-lo.

- Oh… Faz sentido. Obrigada, Yu...

O Yusuke entregou-me o seu pequeno guarda-chuva azul escuro. Depois de lhe agradecer, despedimo-nos uns dos outros e fomos em direções diferentes. Tal como ele e a Honoka, a Manaka e o Ichiro também partilhavam um guarda-chuva, enquanto o Ryuu usava a sua mochila para se proteger da chuva, correndo para casa. Sendo a última a sair da central de autocarros, seguia tranquilamente o meu caminho, aliviada por ter abrigo da chuva. De certa forma, esperava que, quanto mais tempo demorasse a chegar a casa, mais devagar o tempo passaria, adiando o confronto com a realidade de estar no penúltimo dia de férias. Durante o trajeto, relembrava outra vez as memórias recentes do ano novo, cada uma com a sua importância. Finalmente, chegara a casa com o cabelo ligeiramente frisado, pelas gotas de chuva que conseguiram chegar até mim. Parada em frente à porta de entrada, penteava suavemente o meu longo cabelo com os dedos, tentando parecer minimamente apresentável antes de entrar, como se alguém estivesse lá dentro à minha espera. De repente, ouvi passos que se aproximavam de mim, cada vez mais rápido.

- Akaluri!

Com um certo receio, virei-me lentamente para trás, para ver quem me chamava.