Semanas passaram e não tinha ouvido mais nada sobre o Hikari nem a Hyuna. Infelizmente, o Yusuke também parecia muito ocupado, porque era costume falarmos bastante por mensagens, mas fazia alguns dias que ele mal me respondia. A Sara e a Naomi começaram a passar mais tempo juntas depois das aulas, muitas vezes sem pensarem em convidar-me. Elas combinavam ir trabalhar para o café às mesmas horas; estudar juntas em casa da Naomi ou da Sara; irem passear ou fazer alguma coisa em conjunto, etc. Teriam elas talvez começado a namorar, sem eu saber? Não me queria mesmo intrometer no meio das duas, pois sabia que a Sara gostava da Naomi, então, fosse o que fosse, estava contente por elas e apenas lhes desejava o melhor possível. No entanto, isso não deixava de me fazer sentir posta de lado, em grande parte.

O Ryuu era o único que, naquela altura, estava mais disponível para mim, mas aí o problema era outro: eu comecei a evitá-lo depois do ano novo. Muitas das vezes que ele queria passar tempo a mais comigo, eu dizia sempre que tinha alguma coisa para fazer, especialmente se fosse para estarmos os dois sozinhos. Mesmo assim, ele fazia sempre questão de pelo menos me acompanhar até casa ou até ao café. Sentia-me mal por estar naquela situação, mas era um pouco estranho para mim estar com o Ryuu, porque eu mal tinha tido tempo para me concentrar em pensar no que sentia e na nossa relação, para finalmente lhe poder dar uma resposta. Fazia-me sentir uma pessoa horrível pensar que outras pessoas eram a causa do meu mal-estar, sendo que eu própria também era causa do mal-estar de alguém. Eu já não sabia como agir na presença do Ryuu, visto que fazia semanas que eu o andava a deixar pendurado. Entretanto, já estávamos na última semana do mês. Era segunda-feira, então eu estava na cantina com a Naomi e a Sara, como já era habitual.

- Akaluri? — ouvi a Naomi chamar — Faz algum tempo que só estás a passar o garfo pelo prato.

- Parece que estás a assassinar os feijões. — acrescentou a Sara, rindo — É um pouco assustador.

- Ah… Peço desculpa. Estavam a dizer algo?

- Não, mas tu também não estavas a falar… — respondeu a Naomi.

- Pois… — eu sorri forçadamente.

- Estás muito estranha. — continuou ela — Passa-se alguma coisa ou apenas não gostas da comida?

- Não é nada.

- Se tu o dizes…

A Naomi era a última pessoa a quem eu podia contar fosse o que fosse. Ela não fazia ideia da existência de seres como nós, mesmo que toda a gente do nosso círculo de amizades tivesse alguma relação com isso. O desconforto que vinha junto com aquele silêncio era notável. Estariam elas desanimadas apenas por minha culpa? Talvez eu me estivesse a envolver demasiado dentro dos meus problemas, ao invés de tentar afastá-los. No entanto, era praticamente impossível para mim afastar-me de coisas que ainda estavam por resolver. Eu não queria deixar o Ryuu sem uma resposta minha muito mais tempo, mas não era da noite para o dia que ia conseguir entender os meus sentimentos por ele, principalmente tendo em conta que nunca estive realmente apaixonada por ninguém antes.

- Hey! — ouvi uma voz atrás de mim.

- Ryuu! Olá! — cumprimentou a Naomi — Acho que acabaste de nos salvar a vida… Ou pelo menos o almoço.

- Eu? Porquê? — ele pousou o seu tabuleiro à minha frente e sentou-se na cadeira — Oh… Já entendi o que queres dizer.

- Entendeste? — questionou a Sara.

O Ryuu colocou o seu dedo indicador por baixo do meu queixo, levantando assim a minha cabeça, para que eu olhasse diretamente para ele.

- O que tens, Akaluri?

O toque da sua mão e o direto contacto visual que estava a ter com ele, fez-me instantaneamente revisitar a memória do beijo do ano novo. Fiquei visivelmente embaraçada com a situação, e sem querer acabei por lhe empurrar rapidamente o pulso para o lado, o que fez com que a sua mão caísse dentro da minha tigela de sopa. A Naomi e a Sara olhavam para mim, um pouco chocadas e confusas, enquanto ele limpava a sua mão com um guardanapo, sem dizer nada. Depois dele trocar a sua tigela de sopa pela minha, o Ryuu levantou-se e mudou de lugar. Eu não podia acreditar que tinha acabado de piorar as coisas.

- O que foi isto? — perguntou a Naomi — E nem te atrevas a dizer que não é nada outra vez!

- Desculpa, eu só…

- Não é a mim que tens que pedir desculpa… O Ryuu só te estava a tentar animar. O que te deu para fazeres isso?!

- Naomi… — interrompeu a Sara — Não fales assim… Eu acho que ela não fez de propósito. Se calhar ela apenas se assustou, porque não estava à espera… Deixa-a explicar o seu lado primeiro, antes de tudo.

- Sinceramente, eu nem percebo bem o que fiz…

- Vai falar com ele. — afirmou a Naomi.

Com isso, eu respirei fundo e peguei na tigela de sopa que estava no meu tabuleiro. Depois, dirigi-me até ao Ryuu, e sentei-me ao pé dele.

- Olha, Ryuu… Eu não tenho mais fome. Podes ficar com a tua sopa, não precisavas de ma ter dado.

- Tu não comeste quase nada… Acho que não me devias estar a dar a sopa de volta. Come.

- A culpa foi minha da tua mão ter caído na sopa, então não merecia que me desses a tua em troca. Eu não queria mesmo ter feito aquilo, foi apenas por reflexo e sem qualquer intenção...

- Não faz mal, é claro que eu não ia ficar chateado contigo por uma coisa dessas; sei que foi sem querer.

- Então porque saíste da nossa beira?

- É porque… — ele suspirou — Às vezes parece que tens uma aversão a mim ou algo do género… Então apenas achei que era necessário eu sair dali, mais nada.

- Porque pensas isso?! Não é verdade!

- Desde o ano novo que tens andado a evitar-me bastante e mal olhas para mim... Cada vez que te falo, respondes de forma curta. Cada vez que te toco, por mínimo que seja, tu desvias-te logo por instinto ou afastas-me. E eu sei que isso é tudo culpa minha. Eu causei esse sentimento em ti. Nunca te devia ter beijado daquela forma; nunca te devia ter dito nada em relação ao que sinto; fui estúpido...

Eu não fazia ideia do que responder ao Ryuu, mas sabia que aquela não era uma conversa para termos no meio da cantina. Precisávamos de estar apenas os dois e esclarecer melhor as coisas. Não gostava de estar naquela situação com ele e não o queria magoar.

- O que vais fazer depois das aulas? — perguntei.

- Vou para casa, apenas. Porquê?

- Posso ir contigo e ficar lá um pouco? Para falarmos…

Acabei por convencer o Ryuu a voltar para o nosso lado e o almoço terminou de forma relativamente positiva. Pouco depois, ele teve que se separar de nós para ir para a sua aula. Eu a Sara e a Naomi só tínhamos mais uma hora de multimédia e acabávamos por aquele dia. Depois de passar a aula inteira desatenta, decidi ficar à espera do Ryuu. Ao sair da sala, a Naomi reparou que eu não estava a ir em direção à saída.

- Vais ficar? — perguntou ela.

- Vou esperar pelo Ryuu. Ele só acaba daqui a uma hora.

- Oh! — ela sorriu — Queres que te acompanhe na espera?

- Não vais levar a Sara à paragem dela, como costume?

- Acho que ela pode ir sozinha, pelo menos por hoje. Eu notei que estes tempos nunca tenho ficado contigo ao fim das aulas. A Sara não vai ficar chateada comigo, até foi ela que sugeriu! E eu precisava imenso de falar contigo. Há muita conversa que temos de por em dia. Eu sei que há coisas que não gostas tanto de falar por mensagens, então podíamos aproveitar!

- Ah… Está bem então. Mas porquê hoje?

- Sei que tens andado em baixo este último mês… E, como as coisas estão a correr bem para mim, no geral, eu acabei por me esquecer um pouco de olhar em volta… Queria também pedir desculpa, se te pareci um pouco agressiva na cantina.

A Naomi estava correta, mas não a queria fazer sentir-se mal por isso. Ela não tinha culpa de nada e estava a tentar fazer um esforço para que eu me sentisse melhor, já para não referir o facto que eu tinha sido a primeira a afastar-me, antes de tudo, embora tivesse motivos.

- Não te preocupes… Não é obrigação tua tomares conta de mim, nem estares sempre a prestar-me atenção. Todos temos os nossos altos e baixos, então fazes bem em aproveitar o tempo, enquanto não acontece nada de mal na tua vida. Em relação a mim, isto vai passar.

- Eu sei que não sou obrigada a fazê-lo, mas sou tua amiga. E, ser amiga, é também preocupar-se com a outra pessoa. É claro que temos todos os nossos altos e baixos… mas os altos podem ser melhor aproveitados com a companhia certa, não sozinha e a ignorar os outros... E, em relação a ti, os baixos podem ser mais suportáveis com apoio de alguém. Eu sei que estou a falhar nisso contigo...

- Também já falhei contigo antes…

- Mas eu não estava assim tão mal! E também tinhas coisas com que lidar. No teu caso, simplesmente parece que caíste num poço!

- Acho que não devíamos comparar… Sendo muito ou pouco, tu estavas mal na mesma e eu quase não estava lá para ti. Pior ainda, parte da culpa de estares mal era minha…

- Akaluri, esquece isso. Eu estou bem agora e já resolvemos as coisas. Vamos sentar-nos nos bancos ao pé da sala do Ryuu; não quero que a conversa demore e que ele acabe por sair, sem o veres…

A Naomi acompanhou-me até lá, sentando-se comigo. Começamos então a falar sobre a nossa recente falta de presença nas vidas uma da outra, que não era habitual. Antes eramos capazes de contar quase tudo uma à outra, mas naquele momento sentia que lhe estava a esconder mais coisas do que aquelas que lhe contava. Tínhamo-nos afastado consideravelmente, no entanto, eu não tinha outra escolha. Já tinha corrido riscos suficientes ao mostrar-me ao Hikari e ao revelar-lhe todo aquele mundo escondido, só para depois ele desaparecer da minha vida, ainda por cima. Teria sido também por isso que ele sentiu uma forte vontade de se afastar de mim, de repente? Talvez tudo o que ele me tenha contado tenham sido só desculpas e, na verdade, a culpa fosse minha… Eu não queria que acontecesse o mesmo com a Naomi.

- Há uns meses atrás, era eu que te criticava por não passares tempo comigo, mas agora sou eu que estou a fazer isso… — continuou ela — Aliás, quando conhecemos a Sara, eu vi-a logo como uma ameaça à nossa amizade, então não me dei a mim própria uma oportunidade de a conhecer realmente e acabei por ficar muito ciumenta... Tão ciumenta que isso acabou por me confundir.

- Como assim?

- Durante umas semanas, houve uma fase que eu pensava que gostava de ti… Mas descobri que estava enganada.

- Oh… Eu não fazia ideia. Mas como descobriste que afinal não era esse o caso? Como é que sabes distinguir se estás mesmo apaixonada por alguém ou não?

- Eu tive muito tempo para pensar sobre o assunto. Tive tempo para comparar como me sentia e o que pensava quando estava contigo e quando estava sem ti, por exemplo.

- O que isso significa?

- Quando gostas de alguém, tu queres fazer tudo pela pessoa, queres vê-la feliz e queres sempre passar tempo com ela. Mas isso não é assim tão diferente de uma grande amizade, certo?

- Sim, foi isso mesmo que pensei…

- O que é diferente, é o lado egoísta, essas questões e esses ciúmes que surgem das mesmas coisas que, normalmente, não aparecem de forma tão intensa na amizade. Por isso é que fiquei confusa...

- Mas também se pode sentir ciúmes numa amizade, não?

- Sim, é possível, mas nunca são iguais. Na amizade, podes sentir ciúmes por pensares que outro amigo é mais importante para alguém do que tu, mas conformas-te rapidamente com isso e não te deixa muito abalada. Agora, quando gostas de alguém, tu sentes ciúmes porque querias estar no lugar da pessoa que te cria esses ciúmes. Tu queres ser a pessoa mais importante e especial aos olhos de quem gostas e isso pode fazer-te sofrer enquanto não for uma realidade, especialmente se tiveres mesmo a esforçar-te para tal.

- Mas isso não é um bom sentimento…

- Pois, mas gostar de alguém não é só sentir coisas boas, principalmente se o sentimento não é correspondido. E ciúmes não são a única coisa que permite saber se gostas de alguém… Aliás, há pessoas que quase nem os sentem! Quando gostas de alguém, tu simplesente sentes que essa pessoa é como uma segunda casa para ti. Por vezes, até te pode fazer sentir que és má pessoa, por estares praticamente a querer guardar alguém inteiro só para ti... Queres ser a única pessoa que conhece certas facetas de quem gostas; queres estar presente tanto nos momentos importantes da sua vida, como nos mais pequenos progressos; queres saber tudo sobre a sua vida e sobre o que lhe vai nos pensamentos e no coração. O mais comum no amor é sentir toda essa vontade e esse tal "egoísmo".

Eu comecei a pensar no que a Naomi estava a dizer. Era verdade que uma vez ou outra já tinha sentido alguns ciúmes numa amizade, especialmente com o Hikari. No entanto, nunca tinha sentido nada disso em relação ao Ryuu. Existiria sequer alguém na vida dele que me pudesse fazer sentir algum tipo de ciúmes? Como me iria sentir se alguém começasse a namorar com ele ou se ele gostasse de outra pessoa? Eu tentava imaginar várias situações na minha cabeça, mas nenhuma delas me provocava esse tipo de sentimentos negativos. De qualquer das formas, imaginar não era igual a ver as situações acontecerem realmente, então continuava sem ter certezas. No entanto, eu sabia que não o queria guardar só para mim. Era verdade que tinha interesse em conhecer mais sobre a vida do Ryuu e aquilo que ele pensava, mas não me importava de não ser a única a saber tais coisas. Na verdade, até me fazia sentir um pouco triste que mais ninguém conhecia certas facetas dele, tal como eu, embora isso também me fizesse sentir especial.

- Obrigada, Naomi. Acho que, graças a ti, vou poder esclarecer o que sinto.

- Como assim? Tu gostas de alguém?!

- Era essa a minha dúvida... Como eu nunca me apaixonei por ninguém antes, não sabia se era isso que sentia agora.

De repente, a campainha tocou, o que me fez levantar rapidamente do banco. O Ryuu foi o primeiro a sair da sala.

- Pensei que te ias esquecer. — comentou ele — Vamos lá?

A Naomi olhou para mim com um leve sorriso assim que o Ryuu apareceu, dando-me a entender que ela tinha percebido quem era. Depois, despediu-se de nós à saída da escola e seguiu um caminho separado. Entretanto, eu e o Ryuu passávamos pelas mesmas ruas de onde já tinham sido retiradas todas as decorações festivas, e quase não falamos até chegar à sua casa. Por alguma razão, eu sentia-me bastante nervosa enquanto subíamos no elevador em pleno silêncio, até ao quinto andar. Assim que ele colocou a chave na fechadura e começou a rodá-la, surgiu um barulho de pequenas patas a correr pelo chão. O Ryuu abriu então a porta de entrada do seu apartamento e o seu cão não conseguia ficar quieto de tão animado, assim que nos viu.

- Wolfo! — eu ajoelhei-me no chão, de braços abertos — Que saudades…

O animal abanava a cauda enquanto pousava as suas patas dianteiras nos meus ombros. Com isso, eu acabei por pegar nele ao colo, embora o Wolfo não fosse um animal pequeno. Ao mesmo tempo, o Ryuu aproveitou para lhe fazer umas pequenas festas na cabeça. De seguida, ele apresentou-me o apartamento, que não era muito grande. A cozinha partilhava o mesmo espaço da sala e havia um pequeno corredor que levava até ao quarto e à casa de banho. Assim que entramos no seu quarto, ele disse para eu me sentar na cama.

- É melhor pousares o Wolfo no chão, senão ele adormece no teu colo e vais começar a cheirar como ele.

- Ah, está bem…

Eu fiz o que ele me dissera e o cão saiu do quarto, indo deitar-se na sua pequena cama azul, ao pé da porta. O Ryuu fechou então a porta do quarto e sentou-se na cadeira da secretária, pegando na sua guitarra, que estava pousada no suporte ao lado. Ele começou então a tocar algo muito baixo e devagar, enquanto falava.

- Então, querias falar comigo? — perguntou.

- Sim, mas vais estar a tocar guitarra ao mesmo tempo? Isso não te vai distrair?

- Isto acalma-me um bocado. Eu sei que não parece, mas estou um pouco nervoso por estares aqui… Então prefiro tocar guitarra, para não arriscar fazer algo estúpido contigo, só porque estás no meu quarto. Já agora, queres ficar cá para jantar? Assim podia cozinhar ao mesmo tempo, em vez de estar aqui com a guitarra no colo. Olha que eu cozinho bem!

- Infelizmente, não posso ficar… Preciso de sair relativamente cedo, porque tenho que fazer o jantar lá em casa. Hoje a minha mãe chega mais tarde do que o costume e acho que não vai ter vontade de fazer nada…

- Ah, está bem; mas assim não vai dar para falarmos muito.

- Mais uma razão para sermos curtos e diretos. Já se passou quase um mês desde aquilo... e eu tenho medo que a situação se enrole demasiado e acabe por quebrar a nossa amizade.

- Em termos de espera, um mês não é quase nada, Akaluri. Prefiro que tenhas a certeza da tua resposta, do que apenas apressares tudo e acabares por cometer um erro.

- Mas eu prefiro dizer-te já o que penso, agora, mesmo que depois mude de ideias. O que importa é saberes com clareza o que me vai na cabeça neste momento, pelo menos…

- Sim, visto por esse lado, até podes razão. Se é isso que queres fazer, go ahead…

Comecei então a falar com o Ryuu, contando-lhe sobre as minhas impressões e tentando ser sincera com ele. Tinha receio da sua reação àquilo que eu poderia dizer, então tentava nunca ir às extremidades de qualquer frase. Não queria que algo que eu dissesse fosse causar um enorme impacto nele. Eu estava um pouco nervosa, por vezes confundindo-me um pouco no meio das palavras, mas o mais importante era que o Ryuu entendesse direito.

- Não te vou dizer que fiquei contente com o beijo… — continuei — …porque foi algo que poderia ter sido evitado.

- Eu sei, Akaluri. Só quero que tenhas noção que, se estivesse completamente sóbrio, não teria feito nada disso… Desculpa.

- Não tens que me pedir desculpa, eu sei que não tinhas más intenções e sei que não estavas plenamente sob controlo de ti mesmo. Eu confio em ti, sou tua amiga e, felizmente, foi apenas um simples beijo nos lábios e mais nada, embora tenha sido o meu primeiro…

- Não gosto de sentir que te roubei algo importante. Eu imagino que tinhas muitas expetativas de como iria acontecer esse primeiro beijo e de certeza que "um amigo bêbedo roubou-me o primeiro beijo" não era uma delas.

- Pois...

Após ouvir a minha resposta, o Ryuu parou de tocar uns segundos, fazendo uma ligeira expressão de pena e arrependimento, enquanto olhava para mim. Ele pousou então a guitarra no suporte e sentou-se a meu lado.

- Eu sei que pode parecer estúpido esta frase vir de mim, mas tenta esquecer isso… — sugeriu ele — Tenho a certeza que o teu segundo beijo vai compensar tudo num fechar de olhos.

- Talvez... mas eu acho que o primeiro é sempre dos que mais acabam por nos ficar gravados na memória, não?

- O beijo que te dei foi apenas um toque de lábios… De certeza que, se o teu próximo for algo mais especial, tu vais lembrar-te desse com mais clareza. Porque não contas o teu primeiro beijo somente quando deres um a sério?

- Um beijo a sério?

Sem querer usar palavras, o Ryuu apenas colocou a ponta da língua para fora, apontando para ela. Aquele gesto fez-me pensar na Hyuna, quase de imediato. Lembrei-me do beijo que ela tivera com o Hideki no início do mês. Fiquei um pouco embaraçada ao tentar imaginar-me nessa situação, mas, estranhamente, não estava a conseguir formar essa imagem na minha mente de forma clara. Com isso, acabei por desligar um pouco daquilo que o Ryuu estava a dizer.

- E é por isso que eu não gosto de bolo de limão.

- Huh? Como assim?

- Só disse uma coisa aleatória para confirmar se me estavas a ouvir. E, pelos vistos, não estavas mesmo!

- Oh, desculpa... Não te importas de repetir?

- Não faz mal. Eu percebo que estejas um pouco perturbada com tudo e eu também só estava a enrolar naquilo que dizia.

- Mesmo assim, eu gostava de saber.

- Apenas dei um exemplo com experiências passadas.

- Quais experiências? O teu primeiro beijo?

- Yes. Eu também não acho que o meu primeiro beijo tenha sido bom. Estava muito longe daquilo que imaginava. No entanto, o segundo já foi algo mais especial.

- A sério? Como foi o teu primeiro beijo?

- Bem… Queria ter sido eu a tomar iniciativa e dar o primeiro passo, mas estava tão nervoso e envergonhado que até estava a começar a suar um pouco. Para me distrair disso tudo e tentar acalmar-me, eu estava sempre a beber.

- Não me digas que ficaste bêbedo!

- Não! Nessa altura eu nem bebia coisas alcoólicas. O que estava a beber eram latas de refrigerante de limão. Eu estava num evento qualquer na capital, sentado nas bancadas com ela, a lanchar. Tínhamos passado uma manhã super boa e sempre na conversa. Até acabamos por dar as mãos enquanto andávamos! Não estava quase ninguém naquela zona, contrariamente ao resto do edifício, então achei que seria o melhor momento para o fazer, mas era algo que nunca tinha feito, então não sabia bem como agir... Eu gostava muito daquela rapariga e era a minha primeira crush correspondida na vida, então isso acabava por me pôr ainda mais nervoso, porque não queria estragar tudo… No final, ela entendeu aquilo que eu queria fazer e acabou por ser ela a ter a iniciativa de me beijar. Só que ela fez aquilo tão de repente, que eu não estava à espera, então, ela beijou-me enquanto eu ainda tinha refrigerante na boca, sem que o pudesse engolir... por isso, acabei por fazer o oposto.

- CUSPITE-O NA BOCA DELA? — perguntei, enquanto ria.

- NÃO! Mas quase… Tenho sorte que o beijo foi só nos lábios, mas como eu tinha a boca cheia, eu babei o refrigerante todo, que me escorreu da boca ao pescoço. Ela fez uma cara super desconfortável e nunca mais falamos sobre isso, nem combinamos mais saídas juntos. Ou seja duas desgraças no mesmo dia: perdi todas as chances com a minha crush e fiquei com uma recordação embaraçosa.

Eu não sabia o que responder à história dele. Nunca tinha ouvido algo parecido e, por um lado apesar do desenrolar infeliz e catastrófico, era algo muito engraçado, então apenas me conseguia rir do que acabara de saber.

- Eu não acredito! — exclamei, entre os risos.

- Mas olha que é bem verdade! Tenho sorte de agora poder olhar para trás e achar graça a essa situação ridícula, mas se esse tivesse sido o meu primeiro e único beijo, não acho que estaria a rir dele agora, porque tinha um peso diferente.

- Acho que já entendi…

- Vês? Mais tarde, sei que vais olhar para trás e sentir tudo aquilo que aconteceu de uma forma bem diferente. Depois do meu próximo beijo a sério, que já foi com a minha primeira namorada, foi um beijo bonito e correspondido, num parque ao anoitecer. Foi algo muito mais especial.

- Ainda bem que o mais importante correu melhor e que agora olhas para o outro como algo engraçado… — eu olhei para as horas no meu telemóvel — Oh… Já está a ficar tarde para eu ir! Tenho mesmo que continuar a falar...

- Diz o que tens para dizer então.

Eu fiquei algum tempo calada enquanto olhava para o chão, tentando lembrar-me do que já tínhamos falado antes e daquilo que eu ainda tinha para lhe contar. Com isso, acabei por lhe dizer o que achava que sentia por ele, quais eram as minhas intenções e aquilo que eu esperava, tendo esses sentimentos em conta. Por vezes, o Ryuu parava-me naquilo que dizia, sem que eu pudesse acabar de explicar o sentido ou o porquê. Via-se que ele também estava nervoso, mas eu deixava passar e tentava sempre concluir as minhas afirmações, no final.

A conversa demorou bastante, não só porque era difícil para mim expressar coisas que ainda não estavam plenamente claras na minha cabeça, mas também porque o meu estado de espírito estava pior do que nunca, naquelas últimas semanas. Eu não tinha experiência nenhuma com aquele tipo de situação, por isso, sabia que tinha que pensar três vezes antes de dizer fosse o que fosse. No entanto, por mais nervosos que estivéssemos os dois, tudo acabou de forma calma. Houve um ambiente muito pesado pelo meio da conversa, mas aos poucos foi-se dissipando. Isso era sobretudo devido ao facto de eu sentir que algum peso se livrava das minhas costas, à medida que ia falando. O Ryuu comentou que admirava a minha coragem de lhe dizer aquilo que pensava e sentia diretamente. Depois de nos despedirmos com um forte abraço à porta do seu apartamento, eu consegui sair do prédio com tempo suficiente para chegar rápido a casa e cozinhar qualquer coisa para o jantar.