[Hyuna P.O.V.]

Uma intensa luz alaranjada, que emergia por detrás das montanhas, já se podia observar através da grande janela aberta. Era sinal de que o final da tarde se aproximava rapidamente, e que eu devia regressar a casa.

- Já estás quase vestida e eu ainda aqui deitado, a tentar recuperar o fôlego! Para os padrões de uma rapariga, devo dizer que te arranjas depressa.

- Não é nada demais. — respondi — Apenas tenho coisas para fazer, por isso tenho mesmo que me despachar.

- E vais-me deixar aqui sozinho? Que romântico.

- Acho que sabes cuidar de ti. Aliás, esta é a tua própria casa, por isso é normal eu não ficar.

- Também pode ser a tua, se assim quiseres. — ele riu — Tens passado tanto tempo aqui que já começo a questionar-me sobre isso!

- Tem algum problema?

- Não, pelo contrário!

- Bem me parecia.

Olhando-me uma última vez ao espelho, ajeitei alguns fios de cabelo despenteados. Depois de me despedir, saí da casa do Seishou, transformando-me para poder chegar mais rápido ao meu destino. Já passava mais de um mês desde que conhecera aquele rapaz. Curiosamente, o tão aguardado verão chegava precisamente naquele dia, e para meu infeliz descontentamento, estava calor na rua.

Toda a experiência de conhecer o Seishou tinha sido bastante agradável. Ele tinha razão sobre o facto de eu passar bastante tempo na sua casa, afinal, esta tinha sido criada pela sua magia, por isso, os custos para qualquer coisa lá dentro — incluindo a comida — estavam abaixo de zero, contrariamente ao apartamento no qual eu morava. Talvez assim conseguisse poupar algum dinheiro. Também gostava bastante da localização da sua casa, que ficava isolada nos arredores da cidade. No entanto, a razão principal por eu me encontrar lá tantas vezes, era porque, estranhamente, nos dávamos extremamente bem um com o outro, embora tivéssemos morais e personalidades completamente diferentes, quase como se, de alguma forma, nos completássemos. Ele era uma pessoa muito mais bondosa e altruísta do que eu, o que se reflete na sua magia, que apenas consegue ser usada por razões positivas, todo o oposto da minha. Esse facto deu origem a várias conversas interessantes entre nós. No entanto, não podia negar que uma das fortes razões para o meu envolvimento com o Seishou era a nossa química, que era mais do que incrível, em literalmente todos os aspetos.

Assim que cheguei ao meu apartamento, encontrei o Yusuke a sair.

- Chegaste! — exclamou ele — Estava com receio de ir embora, sem me certificar que ias voltar. Ao menos, sei que estás bem. Onde estiveste?

- Não é relevante, mas porque esperaste?

- É que, desde os acontecimentos do ano novo...

- Não precisas de dizer mais nada... Eu entendo. Agora vai trabalhar, antes que te atrases.

- Oh, mas eu hoje não vou trabalhar.

- Não? Então porque tens tanta pressa para sair?

- Porque a Honoka foi agora às compras e eu usei a desculpa de que ia limpar a casa para não ir com ela. Assim, aproveito para sair com a Akaluri. Já passou uma semana desde que fizemos um mês de namoro e ainda não tivemos oportunidade de celebrar.

- Hm... Mas a Honoka vai perceber que a casa não está limpa.

- Por isso é que te ia pedir a ti... Não te importas de o fazer? Tenho sido eu a limpar nas últimas semanas, porque quase não passas tempo cá, e a Honoka é muito baixa para chegar a certos sítios. Já te adiantei a casa de banho, por isso faz só o resto, por favor.

Cansada de toda a atividade física que acabara de ter na casa do Seishou, não pude evitar dar um grande suspiro. Não me apetecia nada limpar a casa, especialmente naquele momento, mas seria injusto recusar. Era verdade que há várias semanas fugia das tarefas domésticas, mas isso não podia durar para sempre. Por isso, acedi.

- Está bem, mas depois ficas a dever-me uma.

- Claro! — exclamou ele — Obrigado, Ichigo.

O Yusuke sorriu e deu-me um breve abraço de agradecimento, que, para ser honesta, me fez sentir ligeiramente desconfortável.

- Achas que vais conseguir manter esse namoro em segredo por muito mais tempo? — questionei — Parece dar mais trabalho do que outra coisa, e não acho que isso seja o melhor para a Akaluri. Porque não contas simplesmente à Honoka?

O Yusuke suspirou, ajeitando a franja, talvez enquanto pensava numa desculpa qualquer.

-Sei que devia contar-lhe, mas é muito provável que ela reaja de forma negativa... Ela gosta de mim há quase um ano, e o problema é que a Honoka não aceita que mais ninguém sinta algo por mim. Quando suspeitou sobre a Akaluri, ainda antes de começarmos a namorar, a Honoka foi logo ter com ela para lhe dizer mentiras, esperando que ela desistisse de sequer ser minha amiga... Agora, se ela soubesse que começámos a namorar, nem quero imaginar o que poderia fazer.

- Faz sentido, mas, mais cedo ou mais tarde, ela vai acabar por descobrir. Não é melhor contares-lhe tu diretamente?

- Sim, eventualmente terei que lhe contar...

- Vai ser pior se ela descobrir sozinha, porque também saberá que lhe mentiste, mas tu é que sabes, não me quero meter. Depois não digas que não te avisei.

Deixando o Yusuke à entrada, fechei a porta atrás de mim e fui até à cozinha buscar os produtos para limpar o apartamento. Sem dúvida alguma, iria tomar um grande duche depois de tudo aquilo.

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[Akaluri P.O.V.]

- Talvez um pequeno mil-folhas de morango...

- Previsível. — riu o Yusuke — Já sabia a quilómetros que ias escolher essa sobremesa.

- De facto, é bastante previsível! — concordei, rindo.

Olhando para mim, o Yu pousou a sua mão fria delicadamente por cima da minha. Atrás dele, uma paisagem encantadora destacava-se: um pequeno chafariz iluminado, adornado por uma estátua de um dragão de bronze, rodeado de flores. Não podia deixar igualmente de reparar no lindo céu noturno, tão limpo e cintilante, que acrescentava um toque de elegância àquela noite de finais de junho.

- Escolheste um sítio muito bonito para virmos jantar.

- Conheço bem o centro da cidade e achei que este seria o local ideal. Sempre quis vir aqui, mas esperei por uma ocasião especial...

- Vejo que sim, mas porque demoraste a chegar hoje? Acabaste por não me dizer...

- Estava à espera que a Ichigo voltasse. Ela tem andado muito fora de casa, e temo que algo de mal lhe aconteça, como no ano novo...

- Mas o Hideki já não lhe pode fazer nada... Ele já não está vivo, afinal...

- Eu sei, mas a Ichigo é imprevisível. Às vezes aventura-se demasiado e depois guarda tudo para si. É quase impossível saber se ela está em perigo ou não.

- Eu acho que ela se sabe desenrascar bem, Yu. Ela não só tem cabeça como também é forte e determinada. Não precisas de estar sempre preocupado a vigiá-la.

- Não a vigio, só queria saber o mínimo para ficar descansado, mais nada.

- Acho que te preocupas demasiado com todos... Devias pensar mais em ti.

- Engraçado seres tu a dizer-me isso! — riu o Yusuke — Devias ouvir os teus próprios conselhos.

- Oh, tu sabes bem o que quero dizer!

- Sim, eu sei.

- Mas bem, voltando ao assunto anterior... Finalmente acabei os exames! Achas que podemos fazer mais planos agora?

- Sim, sim. — o Yusuke olhou de canto para o seu telemóvel — Mas ainda não pensei muito nisso.

- A sério? Eu estou ansiosa por mergulhar numa piscina de água fresquinha! O que achas?

- Sinto-me igual. — comentou ele, guardando o telemóvel no bolso — Mas preferia ir à praia.

- Temos de ir, um dia destes... E falta pouco mais de um mês para o teu aniversário! Alguma pista sobre o que eu te possa oferecer?

- Não precisas de me oferecer nada, Luri... Nunca dei muita importância ao meu aniversário.

- Mas vais fazer dezanove anos! Temos de celebrar, de alguma forma.

- Não sei...

O Yusuke apenas suspirou, discretamente olhando de volta para o telemóvel na sua mão.

- Então? — perguntei — O que se passa?

- Como assim?

- Estás constantemente a olhar para o telemóvel... Aconteceu algo?

- A Honoka não para de me mandar mensagens, a perguntar-me onde estou e a pedir que volte para casa. Está a incomodar-me...

- Ela sabe que estás a jantar fora comigo?

- Eu não lhe disse.

De repente, o telemóvel de Yusuke começou a tocar. Presumi que fosse a Honoka.

- Não vais atender? — perguntei.

- As mensagens dela são um pouco preocupantes, mas a Ichigo está em casa também... Não preciso de atender.

- Se achas importante, não te vou julgar, se quiseres atender. Sei que, às vezes, pode ser complicado.

- Obrigada, mas prefiro aproveitar o tempo contigo. Tens andado tão ocupada com os exames, que não temos estado assim tantas vezes juntos. Agora que já acabaram, pelo menos podemos sair em paz, enquanto esperas pelos resultados.

- Os exames foram relativamente fáceis, acho que não terei de os repetir. Por isso, temos até ao final das férias de verão para fazermos planos. Depois, com a universidade, já não sei...

- Já decidiste qual é o curso em que gostarias de te inscrever?

- Ainda não tenho a certeza. Tenho algumas ideias, mas até saber as minhas notas e as médias necessárias, vou apenas pesquisando os cursos que há disponíveis.

- Tenho receio que escolhas algo longe desta cidade...

- Pois, também eu. — concordei — Não gostava de ficar longe de ti e ter que te ver só de tempos a tempos...

- Nem eu... Sinto que o tempo que passo contigo nunca é suficiente. Mas bem, não vamos já pensar no pior dos casos! Primeiro, vê os cursos; depois, discutimos o que fazer em relação às tuas escolhas, está bem, Luri?

- Sim, tens razão.

Saber que Yusuke partilhava os meus sentimentos aquecia o meu coração. Naquele momento, só queria saltar da cadeira e abraçá-lo! No entanto, o empregado aproximou-se, e informámos que o prato principal tinha sido excelente. Pedi uma pequena sobremesa para finalizar o jantar, o tal mil-folhas que tanto me apetecia. Quando o empregado se afastou, tivemos uma inesperada surpresa.

- Yu, estás aqui! Não me respondeste às mensagens. Estava a ficar preocupada...

- Ah, desculpa; não as vi. — mentiu ele.

- Não avisaste que não ias jantar em casa hoje... — disse ela, deslizando a sua mão pelo braço do Yu — Pensei que querias estar comigo, no teu único dia de folga desta semana.

- Já há algum tempo que queria vir aqui... Assim que surgiu a oportunidade, combinámos tudo meio de repente, então acabei por não ter tempo de te avisar.

"De repente?", pensei. Já fazia quase uma semana que estávamos a tentar jantar os dois juntos em algum lugar... Não queria contradizê-lo em frente à Honoka, mas estaria ele a esconder-lhe o nosso namoro? A ansiedade apertava-me o peito, mas limitei-me a observar a conversa, para evitar colocar o Yusuke em maus lençóis. De qualquer das formas, eu sabia que ele devia ter uma boa justificação para tal.

- Entendo. — comentou ela — Bem, aproveitem então o vosso jantar. Peço desculpa pelo incómodo... Adeus.

- Espera. — pediu o Yusuke, segurando-lhe no pulso — Como soubeste que eu estava aqui?

- Não é preciso conversares comigo. Só quero deixar-vos em paz.

A Honoka fixou-o durante uns segundos, fazendo uma força brusca para conseguir retirar o braço da sua mão. Parecia claramente descontente e saiu a correr. A expressão de Yusuke tornou-se preocupada, como se quisesse segui-la. Ele continuava a olhar para trás, tentando calcular para onde ela se dirigia.

- Ela não está a ir para o apartamento...

- Queres ir atrás dela? — perguntei.

- Querer, não quero, mas... conhecendo bem a Honoka, eu não acho que seja boa ideia deixá-la apenas ir.

Antes de dizer algo, esperei que Yusuke tomasse uma decisão. Enquanto isso, tomei um último gole do meu sumo de maçã.

- Não te quero obrigar a ficar... — comentei, assim que pousei o copo — Se fosse possível, até ia contigo, mas alguém tem de ficar para terminar o jantar e pagar a conta.

- Eu sei, Luri. Não te importas que vá, só para me certificar que ela está bem? Há muito tempo, prometi-lhe que a protegeria de situações perigosas e não gosto de quebrar promessas... Ainda por cima, a Honoka é frágil na sua forma humana... E ela é como uma irmã para mim.

- Não tens de justificar-te, Yu. Eu entendo. Ficarei aqui à tua espera...

O rapaz de roupa escura levantou-se da sua cadeira e deu-me um pequeno beijo carinhoso na bochecha. Escreveu num guardanapo o local onde achava que Honoka poderia ter ido, caso fosse necessário eu aparecer. Logo de seguida, o Yu retirou uma certa quantia de dinheiro da sua carteira azul escura, que pousou delicadamente na nossa mesa de toalha encarnada.

- Isto é para pagar o jantar, caso eu demore, ok? Desculpa, não queria ter de sair assim. Prometo compensar-te depois.

Com passos largos, Yusuke correu na direção em que Honoka tinha seguido. Ter sido deixada sozinha fazia-me sentir triste, mas compreendia que, por vezes, lidar com seres como nós (especialmente a Honoka), não era fácil... Sabia que o Yusuke esforçava-se sempre para manter as pessoas que gostava seguras e felizes. Conhecendo a Honoka, ela não se safava bem sozinha na sua forma humana e mortal. Pelo que a Sara me dissera um dia, esse era um dos maiores problemas de quem tinha imortalidade na sua forma mágica.

Tentei distrair-me da situação, contemplando o céu estrelado. Mesmo estando sozinha, sabia que aquele céu escuro, decorado de pequenas luzes cintilantes e uma lua reluzente, estaria sempre por cima de mim e das pessoas que mais gostava; tentando iluminar qualquer escuridão que nos envolvesse. De certa forma, as estrelas lembravam-me dos bons momentos que passara com o Yusuke, algo que associo muito à sua presença... Observá-las trazia-me conforto na sua ausência.

Enquanto me perdia literalmente no mundo da lua, reparei numa discreta flecha de luz, que indicava certamente uma estrela cadente. Nunca antes tinha visto uma. Gostava de ter partilhado aquele momento com o Yu... "Deveria pedir um desejo?", pensei. Eu sorri ligeiramente ao quão ingénua aquela ideia me parecia. No entanto, cerrei as mãos uma na outra e fechei os olhos, por um momento.

- Desejo ter força suficiente para apoiar todos aqueles que mais amo nos seus momentos mais difíceis. — sussurrei discretamente para mim.

Sabia que não era um cometa longínquo ou uma forma distante de gás iluminado que poderia resolver qualquer tipo de problema ou situação na minha vida, mas um pouco de esperança e alívio nunca fez realmente mal a ninguém.

- A menina ficou só? — perguntou o servente, acabado de voltar — Ainda quer que traga a sobremesa para o seu parceiro?

- Não é preciso... — respondi — Ele teve de sair, mas gostaria de comer a sobremesa que escolhi, se não se importar que fique aqui mais um pouco, à espera que ele volte.

- Claro, não há problema nenhum.

Algum tempo depois, o empregado trouxe a sobremesa: um mil-folhas de morango decorado com framboesas, mirtilos, chantilly e açúcar em pó. Embora a sobremesa fosse apelativa, o meu estômago estava demasiado agitado para me apetecer comê-la. Mas, afinal, tinha tempo para a terminar, certo? Não parecia que ele fosse voltar tão cedo...

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[Honoka P.O.V.]

Uma parte de mim sabia que o Yu podia estar a seguir-me, mas não tive coragem de olhar para trás e confirmar. Eu só queria estar sozinha, para libertar toda a raiva que fervilhava dentro de mim. Há muito tempo que observava as suas ações e, depois de tudo o que vi nos últimos meses, finalmente cheguei ao meu limite. Havia ainda tanta coisa que eu não sabia, então apenas podia imaginar.

Quando encontrei um local isolado, sentei-me num canto discreto, retirando uma pequena polaroid da carteira. Nela estava o Yusuke sorrindo, enquanto me abraçava. A foto estava um pouco escura, mas eu ainda me lembrava do momento exato no qual ela tinha sido tirada.

- Idiota... — sussurrei — Porque é que ele se comporta como se ela fosse a prioridade?

Sempre só desculpas, invenções e segredos... Era bem difícil aguentar com todo aquele peso dentro de mim, sem me poder expressar tal como queria. Fingir que estava tudo bem, quando na realidade sentia um ódio profundo, era insuportável. Eu não queria que o Yu visse aquele meu lado, mas estava cada vez mais difícil suprimi-lo. Qual seria a dificuldade dele me contar logo a verdade e ser direto comigo? Porque ele não disse logo que só queria sair e passar todo o santo dia com aquela menina irritante?!

- Honoka! — ouvi-o chamar, ao longe — Estás bem?

- Foi desde aquele dia que não dormiste em casa, não foi? Tudo começou aí, não foi?

- Huh? — ele aproximava-se de mim, devagar.

- Não te faças desentendido! Vocês começaram a namorar no mês passado, quando estiveste fora de casa, não foi? Nunca me contaste onde ficaste a dormir nessa altura. Sabes o quanto me culpei por isso?

- Eu tive motivos para ficar fora nessa noite e, sim, tiveste a ver com isso. Não te lembras de como te estavas a comportar? Que razão tinhas para mentir à Luri? Ela nunca te fez mal.

- O quê?! Não inventes mais histórias ou desculpas. Não vês o quanto isso me magoa? Vocês os dois são a razão pela qual estou a agir assim. Só quero que tudo volte a ser como antes...

- Eu escondo estas coisas pelo bem de todos. Por favor, olha à tua volta e reflete sobre o que dizes e fazes, especialmente quando algo me envolve. Às vezes, parece que só pensas em ti. E, por mais que goste de ti, eu não posso aceitar esse tipo de atitude.

- Tem algum mal eu ser egoísta com a pessoa que gosto? Se não gostavas disso, era só falar. Se vieste até mim só para me rebaixares, prefiro que vás embora. Não preciso de me sentir pior do que já estou.

- Tu sabes que não foi por isso que vim... E, embora seja próximo a ti, eu não te pertenço, Honoka. Não tens razão para agir de forma tão egoísta comigo, muito menos para te fazeres de vítima em situações que tu mesma criaste.

- Fazer-me de vítima?! Desde quando? Eu não tenho culpa que a tua relação com aquela insuportável seja uma grande m*rda e uma piada autêntica. Só quis livrar-nos de incómodos, aos dois!

- Quem és tu para julgar isso de fora? E por que isso te afeta tanto? Alguma vez me declaraste o que sentias e tentaste fazer as coisas da forma correta, antes de recorrer a mentiras para me afastar dos outros?

Eu não podia negar o argumento do Yu. Era verdade que eu sempre havia agido de forma egoísta com ele, sem nunca ser clara ou honesta sobre as minhas verdadeiras intenções, mas... eu simplesmente não tinha outra escolha. E nada do que ele dissesse tiraria aqueles pensamentos negativos da minha cabeça. Assim que preparava a minha resposta, a tal rapariga de cabelo branco apareceu, correndo.

- Yu! — chamou ela, ignorando a minha presença.

- Desculpa estar a demorar... — respondeu ele — Mas já passou assim tanto tempo, para teres vindo cá?

- Não passou muito, mas o restaurante encheu-se e senti-me mal em ocupar uma mesa sozinha, já tendo comido e pago...

Era difícil parar de revirar os olhos com tanta treta que eu ouvia sair da boca dela. Obviamente, ela tinha vindo cedo para não perder o drama, nem nos deixar os dois sozinhos mais tempo. Aproveitei a distração para tentar escapar para outro lugar, sem que notassem.

- Honoka. — chamou o Yusuke — Não acho que a nossa conversa tenha acabado.

- Não quero falar sobre isso com ela aqui.

- Luri... Desculpa, mas não te importas de esperar ali ao pé dos bancos, enquanto acabamos a conversa, por favor?

Ela olhou para o Yusuke por alguns segundos antes de responder. Era óbvio que ela não queria sair dali, especialmente depois de ter vindo tão cedo só para não nos deixar a sós. Não fazia ideia como os homens poderiam ser tão cegos, às vezes.

- Está bem... — concordou ela, afastando-se.

Soltei um grande suspiro. Sentia que tudo aquilo podia ter ser evitado se eu simplesmente desaparecesse. Pior ainda, aquela menina afastou-se apenas o suficiente para não nos conseguir ouvir, mas manteve o seu olhar atento, fixado em nós.

- Estou cansada... — comentei — Estou velha demais para esta confusão. Já nem sinto raiva ou ódio, só cansaço.

- Eu posso ter causado confusão ao esconder coisas, mas, como já disse, tens noção de que tudo isto começou por tua causa, certo? É por isso que digo que te fazes de vítima, embora não goste de o dizer. Eu assumi o pequeno mal que fiz e já me tentei redimir, ao admitir a verdade. Como podes dizer que estás cansada e cheia de raiva de uma confusão que tu mesma criaste?

- Foi engano meu. Não pensei que as coisas chegassem a este ponto.

- Então o que pensaste que iria acontecer? Nunca te declaraste e ainda assim esperavas que eu ficasse sozinho, se conseguisses afastar todas as mulheres que aparecessem diante de mim?

- Não é bem assim, Yu...

- Não mintas, Honoka. Eu sei tudo o que fizeste e tudo o que serias capaz de fazer.

- Huh?

- Não estou só a falar das mentiras que contaste à Akaluri. Isso é o menos grave... — ele olhou para mim, de forma séria — Sei que fizeste um acordo com o Hideki para raptar a Hyuna. Era impossível ele saber tanto sobre ela sem a tua ajuda. E, tendo em conta que tu sabias que aquilo que o Hideki mais queria era meter as suas mãos sujas na Hyuna, nada podia ser mais útil para poderes afastar mais uma rapariga de mim, sem que eu suspeitasse disso. É lógico.

- Do que estás a falar? A Ichigo é minha amiga, nunca lhe faria isso. Nem conheço esse tal Hideki.

- Então porque e que me tentaste desencorajar de procurá-la, quando ela desapareceu? E como explicas isto?

O Yu retirou um papel dobrado do seu bolso e atirou-o agressivamente para o meu colo, a seguir cruzando os seus braços, enquanto me encarava de pé. Nunca o tinha visto agir daquela forma antes. Ele devia estar extremamente afetado com a situação...

- O que é isto? — perguntei, desdobrando o papel.

- Todas as anotações feitas sobre as informações que deste ao Hideki e os vossos planos para ele conseguir fazer o que fez. Os poderes da Hyuna, a rotina, o sal, a visita à mãe no ano novo; tudo. Descobri isso no seu bolso, pouco depois da sua morte.

- Ele morreu?!

- Sim. A Hyuna tentou poupá-lo, mas não aguentou mais e usou os seus poderes. E aí também estão as tuas iniciais e uma alcunha: Fumi, que se parece muito com o teu apelido. Isso foi uma grande pista.

- Que parvoíce. Não podes assumir uma coisa dessas apenas baseando-te numa alcunha aleatória...

- Eu sei disso. Só te acusei quando soube que tentaste contactá-lo várias vezes, mas ele nunca atendeu... porque já estava morto.

- E quem te disse isso?

- Não importa, Honoka. O que importa é que, mesmo que eu estivesse sozinho, não era assim que eu me apaixonaria por ti... Tu não sabes o quanto eu te agradeço por me teres salvo daquele incêndio quando era criança e o quanto eu te aprecio por me teres ensinado tanto, desde o momento em que me acolheste. No entanto, eu sempre te vi como uma irmã mais velha e sempre te irei ver dessa forma.

- Ugh... — resmunguei — Parece que estou a falar com uma porta.

- Porque dizes isso?

- Eu já percebi, Yu! Sei que nunca vais gostar de mim como eu gosto de ti! Não é difícil entender isso.

- Desculpa, eu só queria deixar claro.

- Sinceramente, quem se importa? Eu já me conformei que nunca vais gostar de mim, apenas te queria ter de alguma forma, mesmo que isso significasse que nunca pudéssemos namorar algum dia.

O Yusuke franziu ligeiramente o nariz, sem saber o que responder. Eu entendia que não era comum ouvir alguém dizer aquilo, mas eu já não me importava mais com o que ele pensava de mim. Tudo estava perdido.

- Isso é... extremamente tóxico e manipulador... — comentou ele.

- Qual é o objetivo de me dizeres isso? Achas que vou mudar agora, com mais de 200 anos? É tarde demais. Pensa o que quiseres.

- Nunca é tarde para refletir e mudar. Gostava que te acalmasses e reconsiderasses a tua atitude.

- Não posso. Já tentei inúmeras vezes parar de sentir o que sinto por ti, mas acabo por engarrafar tudo dentro de mim, sem conseguir suprimir... Sei que não é bom, que é anormal...

- Não diria bem "anormal". Tens todo o direito de gostar de alguém, mas não entendo o porquê desse comportamento...

- Eu apenas agi instintivamente, sem pensar... mas, no final, não deu em nada.

- Não é só porque não aconteceu nada entre nós que te deves sentir livre de culpa.

- Eu já entendi. Já chega.

- Ok... Posso só saber desde quando começaste a sentir isso por mim?

- Prefiro não dizer.

- Acho que me deves essa resposta, depois de tudo.

Não sabia bem porque ainda tentava esconder a verdade. Ele já sabia tudo de negativo sobre mim. Os meus planos, as minhas mentiras, o meu egoísmo. O que poderia ser pior do que já havia sido revelado? Talvez falar fosse um alívio, para mim. Depois de refletir e reunir coragem, cerrei os punhos e engoli em seco, olhando para o chão.

- Eu sempre senti isto por ti, Yusuke...

O rapaz não conseguiu esconder a sua expressão de choque, que rapidamente se transformou em repulsa. Sentir que a pessoa que eu mais amava tinha nojo de mim, era algo pesado de suportar. Eu entendia os motivos dele, mas não podia evitar sentir-me daquela forma. Cada vez menos conseguia ver a razão pela qual eu decidia continuar a manter-me na grande agonia que era viver eternamente. O que me levou a pensar que isso seria uma boa ideia? Ao contrário dos seres mágicos puros de fénix, eu tinha a sorte de ter uma forma humana, o que me dava a oportunidade de escolher o meu fim. Antes, pensava que era uma maldição, mas naquele momento, percebi que era exatamente o contrário. Depois de ponderar, levantei-me e tomei a decisão final de me transformar.

- O que estás a fazer? — perguntou ele.

Ao longe, vi a rapariga aproximar-se, preocupada, como se temesse que eu magoasse o seu querido "namorado". Ao ver-me completar a transformação, ela também se transformou, seguida pelo Yusuke.

- Não precisam de se transformar. — disse.

- Então porque o fizeste tu? — perguntou ele.

Não quis responder. Sabia que o Yu não aceitaria a minha decisão, por mais que ele estivesse magoado comigo. Comecei a criar um pequeno fogo alaranjado que fluía das palmas das minhas mãos, aumentando rapidamente.

- Afastem-se. — mandei.

- Não. — retorquiu o Yu — Por favor, para.

Ele aproximou-se e agarrou os meus pulsos, impedindo-me de mexer as mãos.

- Larga-me, Yusuke. Não tenho medo de te afastar à força, se for preciso.

- Faz o que quiseres, mas eu não vou sair.

Respirei fundo, fechando os olhos, e concentrei os meus poderes de fogo nos braços, sentindo uma energia pulsar dentro de mim. Era como se um rio de lava fluísse desde o centro do meu corpo às pontas dos meus dedos. O calor intenso, subia das minhas mãos até aos meus ombros, tornando-se mais potente a cada segundo. E então, o fogo espalhou-se por todo o meu corpo. Mesmo assim, o Yusuke ainda me segurava. Ele usava os seus poderes protetores, mas não eram fortes o suficiente, pois já notava a sua pele começar a queimar. Ele não recuava. A sua expressão misturava dor e convicção, como se estivesse disposto a aguentar tudo para me proteger... ou para me deter. Na verdade, eu não sabia qual.