Sentia o toque suave de uma mão fria na minha bochecha. Aquele pequeno quarto estava envolto numa atmosfera leve e alegre, resultado da brincadeira que havíamos começado. Naquele momento, ambos paramos por instantes, tentando recuperar o fôlego. O meu olhar encontrou o dele, e por um segundo, o tempo pareceu abrandar. Com um gesto delicado, afastei o cabelo que lhe caía sobre o olho esquerdo, revelando os seus olhos, que pareciam duas jóias preciosas. Mesmo na luz suave e difusa do quarto, eles brilhavam com vários tons de castanho, reluzentes como um axinite. Como resposta, ele ofereceu-me um gentil sorriso, que logo expressou alguma malícia, como se planeasse o seu próximo ataque. Antes que eu pudesse antecipar o que viria a seguir, ele agarrou numa almofada e, com um olhar desafiador, lançou-a na minha direção. A guerra de almofadas recomeçava para uma segunda ronda, e o quarto voltara a encher-se com o som dos nossos risos.

Lá estava eu novamente, perdida nos meus pensamentos. Sem notar, um pequeno rascunho do cenário que recordava, estava já desenhado no meu caderno. Sonhar acordada era um hábito meu durante as aulas aborrecidas, no entanto, só conseguia rever em ciclo os momentos que tinha passado na casa do Yu. Apesar de já ter passado mais de uma semana, aquelas memórias continuavam a invadir os meus pensamentos com frequência. De repente, dei um pequeno sobressalto quando senti uma mão tocar no meu ombro. Voltando à realidade do presente, eu fechei o meu caderno de forma veloz, embaraçada.

- Estás viva? — perguntou a Naomi — A aula já acabou... Hoje almoças connosco?

Já não me recordava da última vez que tinha almoçado com as minhas amigas da turma, se é que ainda fazia sentido chamá-las assim. Era verdade que, naqueles últimos tempos, elas isolavam-se as duas, fazendo tudo em conjunto. Sentia uma certa culpa por não sentir tanto a falta delas, como pensei que iria sentir. No entanto, eu sabia que aqueles meses tinham sido preenchidos por tantos acontecimentos, que me mantiveram constantemente ocupada. Talvez isso explicasse o facto de não sentir tanta saudade.

- Claro. — respondi — Onde querem ir, desta vez? Reparei que não andam a comer na cantina.

- Bem... — continuou a Sara — Hoje estávamos a pensar em ir almoçar ao novo buffet coreano que abriu.

- Abriu um buffet coreano cá? Desde quando?

- Como é que não sabes disso, Akaluri? — questionou a Naomi, indignada — Costumas saber das novidades tão cedo quanto eu!

- Tem acontecido várias coisas ultimamente... A minha cabeça está noutro lugar.

A Sara fixou-me durante uns segundos, entendendo perfeitamente que a vida de um ser como nós não era sempre fácil de conjugar com a parte humana. Mesmo não passando tanto tempo com elas quanto antes, pelo menos sentia-me aliviada que a Sara compreendia o meu lado, sem que precisasse de lhe explicar. Ela conhecia bem os problemas que a Hyuna tinha causado, mas estava longe de imaginar todo o resto.

- O que queres dizer com isso? — perguntou a Naomi — Aconteceu alguma coisa de mal?

Eu não podia contar-lhe nada sobre o que se tinha passado no ano novo em relação ao Hideki, ao Ichiro, à Hyuna e à Honoka... Tudo isso estava relacionado ao nosso mundo, que ela nem conhecia. Sentia-me ainda mais triste de nem lhe poder sequer contar das únicas partes boas daqueles últimos meses, pois muitos desses cenários envolviam o Yusuke.

- Não é nada... Deixa estar.

- Acho que essa virou a tua fala mais típica. — comentou ela — Desembucha logo, de uma vez!

- Naomi, não insistas... — defendia-me a Sara — Acho que ela prefere distrair-se.

- Mais uma razão para vires connosco, então!

Juntas, fomos até àquele novo restaurante enquanto conversávamos pelo caminho. Assim que lá chegamos, não foi difícil pegar num prato e começarmo-nos a servir. Tudo parecia extremamente delicioso.

- Na verdade, Akaluri, nós convidamos-te hoje porque te queremos contar uma novidade. — disse a Sara.

- Que novidade?

- Na semana passada, eu e a Sara celebrámos um mês de namoro!

Ao ouvir aquela frase vinda da Naomi, quase me engasguei com o japchae. Elas já namoravam? Parecia que ainda há pouco estava a Sara em minha casa, em janeiro, a contar-me o que sentia por ela. Estava tão orgulhosa dela ter tido coragem de lhe declarar os seus sentimentos, especialmente depois da experiência mórbida que havia tido com a presença do seu irmão... A Sara era mesmo incrível.

- A sério?! — exclamei — Parabéns! Como aconteceu?

- Foi num dia que fui dar explicações à casa da Naomi e acabamos por nos beijar... Depois declaramo-nos.

- Estou muito contente por vocês! Desejo-vos as maiores felicidades.

- Obrigada! — respondeu a Naomi — Mas então e tu? Alguma pessoa especial na tua vida?

- Huh? — questionei, embaraçada — Como assim?

- Alguma pessoa que gostes... Ainda me lembro que há uns meses estavas a perguntar coisas sobre isso. Era sobre alguém em específico?

- Eu só te perguntei aquelas coisas em janeiro porque era outra pessoa que gostava de mim, mas eu não tinha a certeza do que sentia... Alguns conselhos da Sara, juntamente com a tua resposta, fizeram-me entender que não sentia o mesmo por ele, então acabei por rejeitar a declaração.

- Mas alguém se declarou a ti?! — questionou a Naomi, chocada — Quem foi?! Foi o Ryuu?

- Como é que adivinhaste logo?

- Eu acho que, pensando um pouco, era meio óbvio. — comentou a Sara, rindo.

- Oh... Eu não tinha reparado até ele me dizer.

- Mas isso já é normal vindo de ti. — afirmou a Naomi — Nem sei como não prestas atenção nessas coisas...

- Pois... Eu apenas assumo que isso não acontece.

- O quê? Alguém se apaixonar por ti?

- Sim.

- Ai, que negativa! — exclamou ela, suspirando — Tens tanta coisa boa em ti para alguém se apaixonar, aliás, já cheguei a ver alguns rapazes gostarem de ti antes do secundário também!

- A sério? — perguntei — Eu só me lembro daquele que deixou um papel na minha mochila, mas que acabei por reconhecer a letra...

- Oh não... Esse foi logo o mais burrinho! Olha, e não te lembras do... Como é que ele se chamava? — ela parou uns segundos, pensativa — Bem, esquece. Ele também devia ser estúpido!

Eu ri com o comentário da Naomi. Era bom vê-la tentar melhorar o meu estado de espírito. Na verdade, sempre tive algum receio de começar um namoro, temendo que um dia acabasse mal. Preferia crescer e amadurecer, trabalhando para minimizar os meus defeitos antes que estes pudessem causar problemas numa relação. Afinal, o meu objetivo ideal seria manter-me sempre com a mesma pessoa, por mais difícil que isso fosse, especialmente numa primeira tentativa. No entanto, também era verdade que, sem nenhuma experiência, nunca conseguiria continuar a evoluir nesse aspeto, ficando limitada à minha própria perspetiva. Aquela conversa levou-me a questionar se já não seria altura de derrubar as paredes que limitavam a minha visão do amor. Como seria esse mundo, assim que nele entrasse com os meus próprios pés?

- Tens algo novo para contar, além disso? — perguntou a Sara.

- Nem por isso...

- De certeza? — insistiu a Naomi — A mim parece-me que tens... Já não contas nada há tanto tempo!

Encolhi os ombros, tentando disfarçar. Felizmente, a Sara mudou de assunto para algo mais leve, o que nos permitiu terminar o almoço de forma agradável. Sentia-me realmente contente pela relação das duas; sabia que cada uma estava em boas mãos. No entanto, eu precisava de me afastar um pouco delas, especialmente da Naomi, para garantir que não as colocava em apuros. Decidi então deixá-las passear a sós, durante o resto da tarde. Como ainda tinha algum tempo, fui caminhando lentamente para o café, até me encontrar com a Honoka.

- Oi, Akaluri. Precisamos de falar.

- Olá... O que se passa?

- Prefiro ir direta ao assunto. Gostas do Yusuke?

- Sim, claro.

- Não sei se entendeste a minha questão... Estou a perguntar se estás apaixonada por ele.

- Oh... Ahm...

Senti o meu coração acelerar, como se uma chama repentina o tivera incendiado. Uma onda de ansiedade tomou conta de mim, tornando difícil que qualquer palavra conseguisse sair da minha boca. O que sentia eu, afinal, pelo Yusuke? Nunca antes me havia feito essa pergunta, e incomodava-me que fosse outra pessoa a despertar essa dúvida em mim, sobretudo a Honoka. Nunca tinha prestado tanta atenção ao que sentia, mas naquele momento, confrontada pela possibilidade, era incapaz de ignorar o efeito que aquela simples pergunta me causava.

- Então? — perguntou ela, impaciente.

- Eu não sei...

- Como assim não sabes? Não é óbvio, quando gostas de alguém? Já faz quase um ano que tenho em mim engarrafados os meus sentimentos pelo Yu, que não consigo mais negar. Queria somente confirmar se também tinhas noção disso, em relação a ti.

- Ah... Era só isso que me querias dizer?

- Não. — respondeu ela — Vim cá pedir que te afastes dele. Tenho a certeza que o Yusuke só aceita a tua presença por pena e gentileza. Ele não gosta de ti da mesma forma que tu gostas dele e eu não quero que o deixes confuso com nenhum esquema teu.

- Mas o Yusuke está comigo de livre vontade... Nós somos muito próximos e falamos imenso. Eu não acho que ele se sinta assim, como dizes... E não sei de que estratégias falas, eu só ajo normalmente, não planeio coisas.

- Não vês o quão simpático e prestador ele é para ti? Porque achas que isso acontece? É só porque ele não gosta de ver ninguém triste.

- É verdade que às vezes me sinto mal e ele ajuda-me... Mas isso também acontece no sentido oposto! Eu também o tento apoiar quando ele não se sente bem. O Yusuke já fez muito por mim, independentemente se isso deixava outro alguém triste ou não. Acho que estás enganada em termos da relação que eu tenho com ele...

- Não me interessa. Ele tem outras pessoas que o podem ajudar melhor do que tu, especialmente eu, que estou sempre do lado dele. É impossível te importares assim tanto com ele, como eu me importo.

- Eu não tenho culpa de não morar com o Yusuke, como tu ou a Ichigo. Infelizmente, não posso estar presente para ele todos os dias, porque temos vidas separadas. Mas isso não significa que não me importo com ele ou que sejas a única pessoa com quem ele se expressa...

- Devia ser apenas eu. Afinal, eu conheço-o há muito mais tempo. Ele já me chegou a falar de ti algumas vezes e não está contente.

- Eu ainda estou a conhecer o Yusuke, mas garanto-te que até nem tu sabes tudo sobre ele. Ao contrário do que pensas, eu interesso-me bastante pelo que ele tem para me dizer, sempre. E como assim ele não está contente comigo? O Yu nunca me disse isso...

- Mas ele disse a mim e é isso que importa. Agora, podes fazer o favor de te afastar dele? Isso ia melhorar bastante os nossos dias. E, já agora, não o chames mais de Yu, dá-me nojo.

Não sabia o que responder à Honoka. Afastar-me do Yusuke era a última coisa que queria fazer, mas seria verdade o que ela dizia, ou estaria apenas a executar outro plano para afastar qualquer pessoa que se aproximasse dele? De qualquer forma, era algo que me deixava profundamente triste, só de pensar… Estaria ele descontente comigo? O que poderia eu ter feito de errado? Essas questões não me saíam da cabeça e precisavam de ser respondidas o quanto antes. Eu não queria desiludi-lo, muito menos magoá-lo. Tudo o que eu desejava era ver o Yusuke feliz e fazia o meu melhor para que isso acontecesse. Acreditava que, pelo menos comigo, ele conseguia sentir-se bem, mas... talvez não fosse esse o caso, na realidade?

- Honoka... Não tens o direito de me obrigar a fazer nada em relação ao Yusuke. Ele não te pertence e não podes afastá-lo de toda a gente. Se houver algum problema entre nós, cabe a mim e a ele resolvê-lo. Não há lugar para te intrometeres nisso... Não és a namorada dele e também não és sua irmã, nem sua mãe, apesar de teres idade para tal. Já basta teres andado a planear aquelas coisas com o Hideki. Podes pensar que ninguém sabe, mas informo-te que eu sei tudo, até ao mais ínfimo detalhe. Por isso, se há alguém que deve afastar-se do Yu, essa pessoa és tu, não eu.

Eu não esperava dizer aquilo de forma tão direta e firme, e pela sua reação, nem ela o esperava. Não era habitual eu falar daquela forma, mas como se tratava do Yusuke, não podia permitir que ela falasse assim dele e da nossa amizada, sem tentar defender. A Honoka lançava-me um olhar furioso; uma expressão que nunca antes tinha visto no seu rosto. Ela tentava sempre papel de pessoa doce, inocente ou discreta e reservada, na presença do Yusuke, mas, por alguma razão, parecia uma pessoa completamente diferente quando estávamos sozinhas. Isso deixava-me apreensiva. No final, ela foi-se embora sem me dirigir mais uma palavra. Talvez eu tivesse ganho aquela discussão. Mas o que iria ela fazer? Só de pensar nas possibilidades, o meu estômago dava voltas e a minha respiração tornava-se pesada. Não me sentia mais capaz de continuar o meu dia, como se nada tivesse acontecido...

- Sim? — disse o Yusuke, atendendo o telemóvel.

- Yu... A Honoka veio falar comigo.

- A sério?! Então era por isso que ela nunca mais voltava... a mim ela disse-me que ia ver montras. O que é que ela te falou?

- Bem... Ela disse que tu não gostas realmente de mim e que apenas andas comigo por pena ou simpatia.

- Porque é que eu ia fazer uma coisa dessas?

- Não sei. Ela contou-me que não estavas contente comigo... Estou a fazer algo de errado?

- Claro que não! Eu sei que não tens andado muito bem, Luri, mas não me tens feito mal nenhum, pelo contrário. Eu gosto de estar contigo.

- Então porque é que ela disse aquilo? Ela pediu que me afastasse de ti, para que te sentisses melhor...

- Não faço ideia... — ele suspirou — Talvez tenhas razão no que disseste há uns dias; deve ser só um plano para te afastar de mim...

- Yu... Se há algo em mim que te incomoda, por favor diz-me, para que eu possa melhorar. Eu não quero afastar-me de ti, mesmo que seja Honoka a pedir.

- Ela não tem o direito de te pedir uma coisa dessas. Se me tivesses feito mal, eu próprio te diria e, se necessário, afastava-me de ti. Mas, como vês, nada disso aconteceu. Sabes bem que eu te adoro, Luri.

- Ok... Eu também te adoro, Yu.

- Assim que a Honoka chegar a casa, eu falo com ela.

- Não precisas! Não quero que ela saiba que te contei isto... Imagina o que pode acontecer...

- Tens razão... Vou falar com cuidado, mas preciso mesmo de conversar com ela sobre isto. Vou tentar abordar o assunto de outra forma e ver se ela entende. Mas não te preocupes, Luri, eu garanto que não te vai acontecer nada de mal.

- Ok, obrigada. Boa sorte, Yu.

- Obrigado a ti, Luri. Bom trabalho no café!

Falar com o Yusuke tinha-me ajudado a retirar um certo peso que a Honoka me havia causado. Foi um alívio confirmar que ele não tinha nenhum problema comigo. No entanto, a minha preocupação não havia desaparecido completamente. O que mais me questionava naquele momento, era se a conversa entre eles iria correr bem. Conhecendo a sua facilidade em manipular situações e pessoas, temia que ela tentasse virar a situação a seu favor, de alguma forma. E se ela conseguisse plantar dúvidas na mente do Yusuke...? Aquela ansiedade apertava-me o peito, e a expectativa pelas próximas horas tornava-se quase insuportável. Estava ansiosa por ouvir as novidades, mas também receava o que elas poderiam trazer.

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Antes de voltar para casa, decidi ir dar uma volta para espairecer um pouco. Entretanto, apanhei de surpresa a Manaka, que tinha já acabado o seu turno no café.

- Ah! Olá, outra vez, Akaluri! — exclamou ela.

Ela veio a correr em minha direção, dando-me um grande abraço, ao qual correspondi de igual forma.

- Olá... Está tudo bem? — perguntei.

- Sim, mas, e contigo?

- Também.

- Tens a certeza? É que... Hoje, no café, mal nos conseguimos falar, mas não me parecias muito contente. E... da última vez que nos vimos, tu saíste da casa do Ryuu completamente do nada... Nem sequer cantaste os parabéns. Não é costume teu agir assim.

- Eu sei... Peço desculpa. Não me sentia bem.

- Mas aconteceu alguma coisa? Eu perguntei ao Ryuu, mas ele disse que era melhor deixar-te em paz.

- Nós falamos os dois na casa de banho, quando fomos lavar as mãos... Eu apenas disse que estava preocupada com ele, por causa dele ter convidado a sua ex-namorada, mas ele não aceitou isso.

- Porquê?! Isso nem faz sentido. É óbvio o motivo de estares preocupada com algo assim.

- Não sei... O Yu disse-me que o Ryuu não o deve ter feito de propósito e que só não devia estar a saber como lidar com a minha preocupação, depois de o ter magoado...

- O Yusuke? Mas ele não estava lá na festa...

- Ele encontrou-me lá fora, encharcada, e perguntou o que se passava comigo... Entretanto nós falamos e ele levou-me até à casa dele, para tomar banho e um chá. Ele não queria que eu ficasse doente.

- Isso foi muito querido da parte do Yusuke. — a Manaka sorriu — E, bem... Eu consigo entender isso, mas, ora, tu és amiga dele e não é pela rejeição que deixas de o ser. Naturalmente, ainda te preocupas!

- Mas o Ryuu disse que aquela foi a sua decisão e que a minha opinião sobre isso não lhe interessava de todo.

- Oh... Ele não me respondeu assim quando falei com ele mais tarde, sobre o mesmo assunto. Não sabia que também o tinhas tentado fazer.

- Como é que ele te respondeu a ti?

- De forma normal. Ele disse que entendia.

- A sério? — perguntei, de forma retórica.

Ouvir aquilo não me fazia sentir nada bem. Mesmo que eu lhe tenha fragilizado os sentimentos, não era justo o Ryuu me responder daquela forma, sendo que agia de outra, logo a seguir, com a Manaka. Eu percbia o porquê dele o ter feito, mas não era justificável. Eu ainda era sua amiga e, para além do mais, também tinha sido convidada para a sua festa, tal como a Manaka.

- Não te preocupes com isso, Akaluri. Como o Yusuke disse, ele não deve ter feito de propósito. Vai-lhe passar.

Eu não sabia se devia acreditar naquelas palavras, por isso permaneci em silêncio. Antes, também acreditava que a fase do Hikari iria passar, mas o oposto aconteceu. Que garantia tinha eu de que o Ryuu ficaria na minha vida, quando a minha experiência anterior sugeria o contrário? Seria eu apenas uma pessoa que servia de companhia quando útil, mas facilmente descartável assim que havia outro alguém para substituir essa presença? Alguma vez serei o suficiente para que alguém não me deixe de lado um dia? Quase todos o fizeram, pelo menos uma vez... Cada um à sua maneira. Poucos se esforçaram para recuperar a ligação. Na maioria das vezes, deixavam o laço entre nós enfraquecer, até desaparecer por completo. Não valia a pena continuar a esforçar-me somente do meu lado, apenas para enfrentar o mesmo desfecho... Preferia não comentar sobre o caso, deixando o Ryuu decidir se queria continuar a amizade, tal como me tinha sido aconselhado pelo Yu.

- Tenho que ir para casa agora. — disse.

- Está bem... Queres que te acompanhe?

- Não é preciso. A tua casa fica para o lado oposto.

- Tens a certeza?

- Sim, tenho. A minha casa não é longe daqui sequer.

- Está bem. Se eu não tivesse obrigações agora, ia contigo, mesmo que não quisesses! Mas preciso mesmo de ir para casa... O Ichiro está à minha espera. Fica bem, Akaluri! Bye bye!

- Tu também! Bom jantar.

A Manaka agradeceu, seguindo o seu caminho logo de seguida. Continuei a minha caminhada até chegar a casa, mas não conseguia afastar aqueles pensamentos negativos. Assim que cheguei, fui diretamente para o duche, na esperança de que a água du chuveiro me ajudasse a relaxar e a distrair-me. No entanto, essa tentativa revelou-se inútil. O ambiente em casa estava longe de ser sereno; uma grande discussão entre a minha mãe e o meu padrasto ecoava no andar de baixo, como tantas outras vezes. Já se tornara um som de fundo, habitual, que eu preferia ignorar. A minha paciência para esse tipo de conflitos estava praticamente esgotada, e não queria desperdiçar mais energia com algo que se repetia incessantemente. Decidi então procurar refúgio na música e fiquei apenas deitada na cama. Estranhamente, a minha mente insistia em revisitar os acontecimentos que havia recordado naquela manhã, durante a aula. Era como se quisesse forçar-me a enfrentar algo que eu não conseguia compreender totalmente. A minha cabeça estava uma grande confusão. O que é que estava a acontecer? Seria possível que aqueles pensamentos tivessem algum significado que me escapava? Tinha passado o dia inteiro a questionar-me, a sentir que algo estava em falta na minha vida ou que não batia certo, como se a peça essencial do puzzle estivesse perdida. Foi no meio daquele turbilhão de incertezas que, de repente, o meu telemóvel tocou.

- Yu! — exclamei, ao atender — Estava à espera de novidades da tua parte...

- Luri... Achas que posso ir para tua casa?

- Huh? Quando? Porquê?

- Tem calma, eu já te explico tudo.

- Desculpa, só estou preocupada... Onde estás agora?

- Acabei de sair do meu prédio e estou a andar em direção à tua casa... Só te queria perguntar se podia ficar aí, para evitar fazer o caminho todo para nada.

- Ahm... — eu fiquei uns segundos a pensar — Bem... Da última vez não houve problema com a Hyuna. Desde que sejas o mais discreto possível, eu posso ajudar. Vou deixar a janela do meu quarto aberta, para entrares, ok?

- Obrigado. Até já, princesa.

O Yusuke desligou. Não era habitual ele tratar-me por essa alcunha, mas achei engraçado. Seria aquilo uma referência à história da Rapunzel, visto que ele ia entrar pela janela do meu quarto? Ou talvez fosse uma alusão a Romeu e Julieta, que conversavam em segredo à noite, junto à varanda? Não entendia bem a razão dele me ter chamado assim, mas decidi não pensar mais no assunto. Abri a janela do meu quarto e, ao retirar os auriculares, reparei que a discussão tinha migrado para o quarto da minha mãe. Felizmente, isso deixou-me a oportunidade de descer as escadas. Entrando na cozinha, notei que lá estava pousada uma simples caixa transparente, repleta de uma apetitosa salada César e dois pequenos pães de alho quentinhos. Talvez fosse um sinal que já haviam jantado os dois, deixando a minha parte de lado. Tinha sorte que a quantidade que sobrava era grande o suficiente, mas decidi fazer uns ovos mexidos também, só para ter a certeza que ambos ficávamos satisfeitos ao dividi-la. Quando voltei para o meu quarto com o jantar, o Yusuke entrou pela janela, e eu pousei a comida na secretária. Sem dizer uma palavra, ele aproximou-se de mim e deu-me um abraço demorado, ao qual correspondi com igual intensidade. Do seu cabelo, emanava o habitual cheiro a maçã verde e menta, que, por alguma razão, me deixava sempre mais tranquila.

- Cheiras bem. — comentou ele, enquanto me abraçava.

- Estava mesmo agora a pensar nisso em relação a ti! Gosto muito do champô que tu usas...

- A sério? Não sei bem como me sentir em relação a isso, porque eu uso champô de mulher. — o Yusuke riu ligeiramente — E peço desculpa que isto tenha sido tão repentino...

- Não faz mal, Yu... mas o que aconteceu?

O Yusuke sentou-se na minha cama e convidou-me a sentar-me ao seu lado, para conversarmos.

- Falei com a Honoka, e ela não ficou contente por eu a ter confrontado sobre o assunto. Explicou-me que apenas se preocupa comigo. Como sempre cuidou de mim desde que me salvou do orfanato em chamas, a Honoka só confia nela própria para estar ao meu lado.

- Oh... Não tinha pensado dessa forma...

- Não interessa a desculpa que ela dá, Luri. É bom que ela parece ter algum motivo, mas é impossível justificar uma tentativa de homicídio com isso... E também não justifica o facto de ela te ter mentido sobre mim e ter pedido que te afastasses. Acho melhor distanciar-me da Honoka por um bocado, pelo menos até ela se acalmar e repensar no que fez. Posso ficar aqui?

- Sim, claro. Se for apenas um dia, não vejo problema... Estou aqui para te ajudar. Só tens de ser discreto e cuidadoso. Quando houver gente em casa, não podes sair do meu quarto, nem fazer muito barulho.

- Entendido, e muito obrigado.

- Não tens de agradecer! Vamos jantar agora. Deves estar com mais fome do que eu.

O Yusuke pousou a sua mochila ao pé da minha estante. Entretanto, eu coloquei uma cadeira ao pé da que já se situava na secretária, para nos podermos sentar os dois, a jantar. Decidi ligar o meu portátil para podermos ver um filme de animação enquanto comíamos o delicioso pão de alho e, depois, a salada. A seguir, fui buscar um baralho de cartas, que acabou por nos entreter durante mais uns instantes: o Yusuke sabia intermináveis truques de magia. O que nos impediu de continuar, foi que eu me lembrei que ainda tinha uns trabalhos de casa por fazer.

- Agora já não sei se vai dar tempo... — comentei.

- Claro que vai! Qual é a disciplina?

- Oficina das artes...

- Ótimo! Eu sou bom nisso. Posso ajudar-te.

- Não te importas? Eu não sou muito de trabalhos manuais...

- Eu ajudo, não te preocupes. — afirmou o Yusuke.

Peguei no material necessário e, assim, começámos o meu trabalho: uma pequena maquete do meu quarto. Enquanto trabalhávamos juntos, acabámos por falar sobre diversos temas, e a conversa fluia de forma natural. Descobri então que o seu estilo favorito era a Arte Nova, um dos meus favoritos também, embora preferisse o Impressionismo. Sabia bem ter alguém que pudesse falar comigo sobre aquele tipo de assunto, com tantos detalhes a acrescentar. Para além das pessoas da minha turma, quando tentava ter conversas sobre arte, sentia que eram monólogos, pois não tinham grande conhecimento sobre o tema. Havia muito que eu não sabia também, mas sempre me interessava.

Com o passar do tempo, o céu ia escurecendo e as estrelas começaram a surgir do lado de fora da janela. Encantados pelo suave brilho azulado, decidimos preparar duas pequenas chávenas de chá, assim que terminamos a maquete. Passámos então algum tempo na varanda, apreciando o luar com uma reconfortante bebida quente.

- Isto faz-me lembrar quando olhámos para as estrelas no início do ano. Aquela manta vermelha era tão quentinha…

- Também estava a pensar nisso. — comentou o Yu — Lembro-me que, nesse dia, foi a primeira vez que choraste ao pé de mim.

- Desculpa por isso. — disse, rindo.

- Não tens de pedir desculpa. Tinhas motivos para estar naquele estado. Até eu fiquei abalado com tudo... Eu compreendo.

- Obrigada por teres ficado lá comigo. De alguma forma, as estrelas naquela noite fizeram-me sentir mais calma... Tens mesmo jeito para encontrar constelações no céu.

- Achas? — perguntou o Yu, sorrindo.

- Sim, definitivamente! A verdade é que, cada vez que olho para o céu estrelado, lembro-me do quanto gostas de falar sobre as estrelas. Talvez hoje pudesses contar-me mais sobre elas?

- Claro, se quiseres.

Já passava da meia-noite, mas o Yu continuava, com energia e entusiasmo, a partilhar os seus conhecimentos sobre as diferentes constelações visíveis no céu noturno. Acompanhava facilmente o seu discurso, pois era algo que me interessava. No entanto, perguntava-me como era possível que, apenas com a sua presença, toda a negatividade nos meus pensamentos se havia dissipado, mais uma vez. Nunca tinha encontrado alguém assim antes, que fosse capaz de o fazer. Nunca me tinha dado tão bem àquele nível com nenhuma outra pessoa, tal como me dava com o Yu. Impressionava-me como a sua simples presença podia afastar o que mais me perturbava e trazer-me tanta serenidade. Custava-me acreditar que conseguia estar assim com alguém, falar sobre tudo sem receios, sem filtros, sem ansiedade e sem conflitos. No entanto, ao mesmo tempo, era como se eu não estivesse tranquila de todo. Sentia algo tão diferente e inabitual para mim que, sempre que pensava no assunto, sentia borboletas na barriga…

Notando que eu estava claramente perdida no mundo das nuvens, o Yusuke entrelaçou discretamente os seus dedos nos meus, continuando a beber o chá, como se nada fosse. De repente trazida de volta à realidade, pousei a minha chávena vazia no parapeito da varanda, sem comentar sobre o que acabara de acontecer. Afinal, apesar de não o ter pedido, não era como se eu não quisesse que continuasse; especialmente sendo algo tão carinhoso.

- Gosto muito de ti, Luri.

- Eu também gosto muito de ti, Yu.

- Não... Acho que não estás a entender bem o que eu quero dizer...

- Como assim?

O Yusuke pousou cuidadosamente a sua chávena sobre a minha. Virando-se para mim, segurou também na minha outra mão, fazendo-nos ficar frente a frente. Ficámos assim por uns momentos, apenas a olhar um para o outro. Eu não entendia bem o que estava a acontecer, por isso apenas esperava que ele formulasse a sua resposta. O Yu largou lentamente as minhas mãos, colocando a sua mão direita na lateral do meu rosto. Aproximou-se ligeiramente, segurando firmemente a parte inferior das minhas costas, com a outra mão. À medida que o Yusuke ia cerrando os olhos, senti as minhas pálpebras acompanharem naturalmente esse movimento, como se estivesse presa numa espécie de hipnose. Quando os nossos lábios estavam a meros milímetros de se tocarem, o Yu parou, deixando que a sua respiração quente se misturasse com a minha. Ele mantinha a boca ligeiramente entreaberta, aguardando que fosse eu a dar o próximo passo. Num repentino instante, senti uma ardente chama florescer no meu peito; e então, num impulso, fechei a distância que sobrava entre nós.

Enquanto o beijo se prolongava, eu perdia-me completamente no momento. Toda a timidez que sentira ao vê-lo aproximar-se, simplesmente desaparecera. O mundo parecia ter-se reduzido ao espaço que ocupávamos e o tempo parecia ter deixado de existir. Nunca antes tinha sentido algo assim. Sem conseguir evitar, envolvi o seu pescoço com os meus braços. O meu coração batia de tal forma, que o sentia quase a explodir. Todo o sangue do meu corpo aquecia aos poucos, à medida que o beijo se intensificava, cada vez mais. Quando finalmente nos afastámos um pouco, para recuperar o fôlego, senti a sua testa encostar na minha. As suas mãos não largavam a minha cintura, e os meus braços o seu pescoço. Por um breve momento, ficámos assim, na simples presença um do outro. Apenas o som da nossa respiração se ouvia.