Akai Ito, o fio vermelho do destino.
12 Eu sou apenas um humano
Notas iniciais
Não consigo dormir em hospitais. Descobri isso naquele dia, Ayana estava respirando com ajuda de aparelhos até que os médicos conseguissem tirar toda a tetrodotoxina do organismo dela. Jin estava dormindo, sedado. Ele teve algumas queimaduras nas pernas. Não poder ficar com eles nos quartos estava me deixando angustiada. Andei pela área livre do hospital várias vezes para controlar a ansiedade.
Os homens nas vans haviam levado Kei e eu estava ali, sozinha. Não tinha para onde voltar, dei sorte que o Jin estava com as nossas coisas no carro e eu consegui trocar de roupa. Nunca me imaginei de moletom, tênis e coque malfeito andando por um hospital na China torcendo para que pessoas que eu mal conheço não morressem.
Andei pela lanchonete do hospital e me sentei em um banco, o dia estava amanhecendo, e quanto mais o tempo passava, mas ansiedade eu sentia. Estava me preparando para dar mais uma volta pelo hospital quando um senhor se sentou ao meu lado. Ele falava inglês com um sotaque chinês, demorei para me recordar quem era o homem:
— Alice?
— Oi, desculpa, mas não me lembro do senhor.
— Hiroshi Yamagoshe.
Olhei assustada para o homem, porém ele me olhava com um olhar gentil e calmo, atrás de nós dois haviam dois homens vestidos de preto, tentei ficar calma, ele não parecia querer me fazer mal, mas os dois caras mal encarados atrás de nós faziam o contraste deste sentimento. O senhor Hiroshi pareceu ler meus pensamentos quando disse:
— Me desculpe, um homem como eu precisa andar protegido.
— Tudo bem. – respondi menos tensa – Ayana vai ficar bem?
— Já está fora de perigo. Em algumas horas os médicos vão tirar os sedativos e ela vai poder respirar sozinha.
— Eu tentei tanto fazê-la desistir dessa ideia. – disse aflita encarando o senhor Yamagoshe – Mas que garota teimosa essa sua filha!
— Só existem duas coisas mais certas no universo, uma é o sol nascer e se pôr e a outra é que não existe a menor possibilidade de alguém impedir Ayana de fazer o que ela quer.
Sorri desviando o olhar e completei:
— Neste ponto somos muito parecidas.
— Ayana sempre teve um gênio difícil. Só a irmã a entendia e me surpreendi quando ela me disse para invadir o galpão e garantir a sua segurança. Minha filha nunca teve muitos amigos.
— Ela me disse. E de certa forma eu sei lidar bem com gente assim. Acho que foi por causa disso que nos tivemos essa sintonia.
— Você era a noiva do Kei, não é?
— Sim.
— Não sei se te falaram sobre as regras de território, mas tentar matar um membro da minha família no meu território é uma falta grave. Kei vai ser punido severamente por essa atitude.
— Kei já fez mal para tanta gente. Até para mim. Não sei o que dizer nem o que sentir. Só quero que Ayana e Jin fiquem bem para que eu possa me despedir deles e voltar para casa.
— Isso é bom. Vou garantir que Xangai seja um lugar seguro para você até o dia que embarcar para o seu país.
— Obrigada.
— Não foi só por causa disso que eu vim falar com você.
O homem me olhou aflito, parecia bem melancólico e não entendi o porque daquilo até que então ele disse algo que mudaria toda aquela situação:
— Peço perdão. Perdão por tudo que a minha filha fez para você.
— Eu aceitei ajudar a Ayana no galpão. Então eu tenho que me desculpar por ter parado de pedir para ela desistir dessa ideia tola.
— Eu não estava falando da Ayana.
— Como?
— Estava falando da Pei. Fui um péssimo pai quando não a impedi da primeira vez que fez.
— Primeira vez? – o olhei sem entender – Do que você está falando?
Hiroshi me olhava com um misto de vergonha, tristeza e pesar e eu já não entendia o que ele estava falando, nunca vi Pei na minha vida e agora ele dizia que a ela havia feito algo ruim para mim. Quando Hiroshi abaixou a cabeça e parou de me encarar senti que sabia o que ele me diria:
— Lógico que a Ayana não te contou a verdade. Ela queria a sua ajuda. Você nunca a ajudaria se soubesse que a Pei vinha tentando te matar há anos. Eu tentei fazê-la deixar o Kei de lado, mas ela estava apaixonada, obcecada por ele.
Minha mente foi longe, um atropelamento e vários quase atropelamentos, quase acidentes de carro e por fim o atentado que quase matou o meu irmão e matou meu filho. Quantas dessas coisas foram causadas pela Pei? E eu nem deixei Kei se explicar, porque Jin não me falou nada? Algo me dizia que ele sabia de tudo. Kei poderia ser inocente e eu não estava pronta para saber disso. E muito pior que isso, Kei estava nas mãos do Yamagoshe após ter feito a maior burrada de sua vida. Jin precisava me dar algumas explicações.
Fiquei tanto tempo dispersa que o Hiroshi precisou me chamar a realidade:
— Alice?
— Desculpa – pisquei algumas vezes – porque está me dizendo isso agora.
— Precisava me desculpar e espero que seus sentimentos em relação a punição de Kei não tenha mudado.
— Estou confusa. Preciso saber dessa história direito.
Muitas coisas passavam na minha mente naquele momento, eu vinha culpando o Kei por tudo quando a verdadeira responsável por toda a desgraça que havia tomado a minha vida tinha sido a Pei. Foi difícil me manter calma quando me lembrei de Chris, meu irmão estava quase morto no hospital por causa dela, eu perdi meu filho, caramba! Estava sentindo um misto de ódio e tristeza, mas havia algo mais naqueles sentimentos, aquele aperto no coração de quando você descobre que está sendo injusta com alguém por culpa de outra pessoa. Nem percebi quando comecei a deixar as lágrimas caírem. Para piorar Hiroshi não calava a boca. Ficava perguntando repetidamente “Você mudou de ideia?”, com uma voz calma de quem finge que se importa com algo. Tentei formular algo para dizer, mas só consegui tentar fazê-lo entender a merda que a filha deve havia feito na minha vida. O encarei tentando manter a calma e falei pausadamente:
— Você sabe que eu perdi muita coisa por causa da sua filha.
— Ayana conseguiu os órgãos para o seu irmão. Ela realmente se sentiu culpada pelo que Pei fez com vocês. Agora se você quiser um bebê... A Pei que era boa em conseguir isso para as pessoas.
Por alguns instantes eu havia esquecido que estava falando com um criminoso, tráfico de crianças... Pei era envolvida com isso.
Acenei negativamente com a cabeça enquanto mantinha um sorriso sarcástico, queria ficar longe daquele homem, então novamente o olhei e disse:
— Nossa conversa já acabou?
— Não é só isso.
— Então o que é?
— Você tem algo que me pertence.
Na hora que ouvi isso, me lembrei do pendrive que estava com a minha família e que a Lydia havia prometido pegar, mas não tinha me dito se havia conseguido:
— Jin vai me levar para casa e vou entregar a ele. Não quero nada que possa colocar minha família em perigo. — suspirei e então falei aflita — Senhor Yamagoshe eu não queria estar aqui, na noite depois da sua festa, Jin me convenceu que era melhor eu voltar para o Brasil e ficar com a minha família. Se a Ayana não tivesse me sequestrado, eu estaria em um avião voltando para casa hoje. Isso é tudo que eu quero.
— Em nome dos anos de bons serviços do Kei – ele disse sério – Ele me pediu para conversar com você uma última vez.
— Uma última vez?
— Ele tentou matar minha filha. Uma Yamagoshe. Atacar um Yamagoshe no nosso território é punível com a morte. Quanto mais rápido você falar com ele, mais rápido eu faço o que tenho que fazer.
Ouvir aquilo me deixou em choque. Sabia que Kei tinha feito uma grande burrada quando prendeu Ayana no galpão em chamas, mas agora ele seria executado.
O senhor Yamagoshe me deu um cartão com um telefone para que eu avisasse quando estivesse pronta para falar com Kei e eu peguei e guardei no bolso da calça.
Me levantei rapidamente antes que ele falasse mais alguma coisa. E então ele apenas acenou para que eu seguisse para onde eu queria ir e eu o fiz. Andei pelo hospital até o quarto onde Jin estava, felizmente encontrei um médico que falava inglês e ele pode me dizer que Jin podia receber visitas e estava fora de perigo.
Entrei no quarto e me sentei em uma poltrona perto da cama, tirei o tênis e abracei minhas pernas de forma que consegui apoiar meu queixo nos meus joelhos, não fiquei nessa posição por muito tempo, depois apenas fiquei sentada com perna de índio. Olhando Jin dormir. Ainda conseguia deixar algumas lágrimas insistentes caírem, por mais que eu tentasse secar, não conseguia manter meu rosto seco.
Mantive meus olhos fixos em Jin até que ele acordou, umas três horas depois. Quando ele olhou para mim, sabia exatamente o que tinha acontecido:
— Me desculpa. Não devia ter mentido para você. Eu só queria... – ele começou a tossir – só queria...
Ele não conseguiria falar sem beber água, então andei até uma jarra de água e coloquei um pouco em um copo, peguei um canudo e segui até a cama dele e então ele começou a beber desesperado. O coitado tinha tossido tanto que estava com os olhos lacrimejando. Tive que fazer umas piadas com ele:
— Olha se não é o garoto em chamas.
Jin riu de forma brusca e quase engasgou com água o que nos fez rir ainda mais, então tive que completar a gracinha, mesmo que algumas lágrimas ainda insistissem em cair e minha voz estivesse trêmula:
— O corpo gosta tanto de fogo que está rejeitando água? – ele riu novamente – É, estou rindo, mas só Deus sabe o alívio que senti quando te vi saindo daquele galpão com a Ayana. Foi como ver um herói dos quadrinhos ao vivo.
Jin sorriu solicito com a minha expressão de preocupação e olhou sua perna com algumas ataduras especiais para queimados:
— Mas eu sou humano. E é isso que acontece quando humanos brincam com fogo.
— É eu sei que você é humano e saber disso quando te vi sair de lá com fogo nas pernas me deu um puta susto. Ainda bem que não queimou muito.
— Eu queria te contar a verdade, Alice. – Jin disse enquanto segurava minha mão livre – Mas o Kei achou que te colocaria em perigo. Foi quando houve o atentado e você quase morreu. Ai eu tive que arrumar um jeito de te deixar a salvo... Então eu invadi a sua casa e plantei aquela folha de pagamento falsa em japonês. Eu errei em te trazer comigo e em pensar que comigo você estaria segura. Eu falhei.
— Espera – realmente, não esperava por isso – Então os arquivos no computador eram falsos?
— Em parte. Haviam arquivos nas coisas do Kei que eram importantes para a Pei. Aqueles arquivos em mandarim e no pendrive que seu pai escondeu de você.
— O pai da Pei me disse que ela poderia conseguir um bebê para mim.
— Sim. A Pei era a responsável por organizar o tráfico de crianças para outros países. Ela tirava as crianças das mães e as vendia. Kei não se sentia confortável com isso.
— Kei executava pessoas e não se sentia confortável em relação a venda de pessoas...- fui sarcástica — Interessante.
Jin me olhou com repulsa, largou minha mão e disse com desprezo:
— Não seja intransigente, Alice. Você por um acaso já viu alguém tirando um bebê recém nascido de uma mãe? Pega a sua dor pela perda do seu filho e triplica ela.
— Não quis dizer que é menos pior do que matar alguém.
— Quando uma mãe dava muito trabalho para entregar o bebê, a Pei matava a pobre mulher. Na frente de outras mulheres para que elas vissem o que acontecia com quem tentasse algo. – as palavras pareciam sair como navalhas da boca de Jin, como se ele conseguisse sentir a dor de cada uma das mulheres e até a decepção de Kei — Kei namorou com a Pei até descobrir que ela era a chefe do tráfico de crianças, quando ele te conheceu só teve mais um motivo para deixá-la. Kei veio para o Brasil assim que descobriu a verdade sobre Pei e depois de te conhecer ele voltou ao Japão, se fixou na família Yamada e deixou de prestar serviços a família Yamagoshe. Também terminou o compromisso com a Pei. Isso custou o dedo mindinho dele.
— Então ele pertenceu a família Yamagoshe.
— Exatamente. Eu abandonei os Yamada antes do Kei, quando ia me casar, mas depois que descobri que Kei precisava de mim, entrei para a família Yamagoshe com apoio do senhor Yamada e então convenci o senhor Yamagoshe que traria o Kei de volta para um pedido de perdão.
— O Yamagoshe não quer um pedido de perdão. Ele quer matar o Kei.
— O Kei provocou isso quando tentou queimar Ayana viva.
Comecei a andar de um lado para outro no quarto enquanto falava:
— Nós temos que fazer alguma coisa – disse pensativa – Não podemos permitir isso.
Jin me olhou com frieza e respondeu com calma:
— Não.
Pensei não ter ouvido direito, então pedi que ele repetisse:
— O que você disse?
— Eu disse que não.
Andei até Jin revoltada e gritei:
— Ele é seu amigo, Jin!
— Um homem – me encarou com seriedade e completou com uma voz grave – deve pagar pelos seus erros.
— Porque você e a Ayana mentiram para mim? Era o plano de vocês durante todo esse tempo?
— Não, Alice. Kei precisava daquele computador que estava com a Ayana e me pediu para pegar de volta, ele me disse para usá-lo como moeda de troca. Sabia do desejo de vingança da Ayana.
— Então aquele computador vale a vida dele?
— Para Kei vale.
— Isso não está certo.
— Muitas coisas não estão certas e você não sabe toda a história toda.
— Então me conte!
— Essa história não vai ter um final feliz se você quiser que as coisas terminem do jeito certo.
Me sentei na poltrona que havia no quarto e me mantive olhando para Jin enquanto ele mergulhava no profundo de suas lembranças, trocando sua expressão séria e fria, por um olhar de tristeza e pesar. Fiquei em silêncio, Jin estava se preparando para dizer algo muito doloroso, provavelmente mais doloroso para ele do que para mim. Foi quando me lembrei da conversa com Ayana sobre a noiva dele, Saori.
Antes de começar a falar, Jin respirou fundo como se buscasse forças e tentou não me encarar:
— Sei que a Ayana te falou da Saori. Ela te falou sobre Kei interceptar as minhas cartas e não me deixar saber do estado de saúde dela. O que a Ayana não te falou foi que não houve cartas da Saori porque ela pediu que Kei me poupasse de vê-la definhar até morrer. Ayana também não te disse que quando eu perdi a minha noiva, Kei perdeu a irmã.
— O que? – me levantei em sobressalto – Então, você não tem motivos para se vingar do Kei? Mas e o vídeo?
— Kei era meu chefe e tinha que me supervisionar. Ele tinha que me ensinar como fazer.
— Porque deixou que a Ayana me envenenasse contra o Kei dessa forma? – Questionei aflita e falando alto — Porque permitiu que eu nutrisse ódio por ele? Sabia quem era o responsável pelo atentado que acabou com a minha vida e ainda sim deixou que eu culpasse o Kei! Porque fez isso?
— Porque Kei queria que você o odiasse. Que o odiasse a ponto de querer distância dele. Mas uma coisa me confundiu... O pendrive, não sei por que ele deixou com você... Ele deveria prever que o senhor Yamagoshe estava disposto a ir atrás de você pelo pendrive. Kei nem se quer me disse que estava com você. – suspirou — Consegui o computador achei que poderia resolver a história do pendrive depois, mas eu devia saber que Ayana tentaria alguma coisa. E ela sabia que se eu estivesse no galpão, Kei não teria coragem de machucar ela. Ela forjou tudo isso para que o pai executasse Kei. Não acredito que ela foi capaz de tudo isso para se vingar.
— Ela se usou como isca. E queria que você entrasse no galpão, esperamos você entrar, mas você não entrou. Não era para as coisas terem terminado como terminaram.
— Kei entrou disposto a matar Ayana e seu eu estivesse lá...
— Ele não teria feito o que fez? – completei – Ouvi do próprio Kei que sua ausência ia ser ruim para Ayana.
— Ele me pediu para não entrar. Eu poderia ter impedido essa catástrofe.
— Não, não poderia. Kei entrou naquele galpão disposto a matar Ayana e quando ele percebeu que eu estava ali ajudando ela, pensei que ele iria me matar também.
— Não. Isso ele não faria.
— Como você tem certeza disso?
— Você sabe. – ele disse desviando o olhar – Ele te ama.
— Não.
— Eu estraguei tudo te trazendo aqui.
— Você não tinha como saber.
— A Pei mandou que te matassem no seu país, porque não tentariam nada aqui?
— Ayana não estava tentando me matar – segurei a mão dele — Eu te proíbo de se culpar por isso.
— Vá embora desse país, Alice. – Jin puxou sua mão bruscamente — Pegue suas coisas no carro, o computador do Kei e vai embora.
— Não vou levar o computador. Quero devolver o pendrive. O próprio senhor Yamagoshe me pediu para devolver.
— Claro – respondeu com firmeza – Naquele pendrive tem provas que podem destruir toda a família Yamagoshe. Assim como no computador haviam provas contra a família Yamada.
— Então façamos a troca. Eu dou o pendrive para os Yamagoshe e você entrega o computador para os Yamada, a não ser que tenha um plano melhor.
— Não – respondeu desviando o olhar – seu plano é o mais coerente.
Ficamos alguns segundos em silêncio até eu relatar a proposta do senhor Yamagoshe:
— O Yamagoshe me disse que Kei quer falar comigo antes da execução.
— Então vá, ele deve ter algo importante para dizer. Vá e depois volte para casa e esqueça todo esse inferno que viveu aqui.
— Só saio de Xangai, depois de saber que você e a Ayana ficaram bem.
Jin fechou os olhos e levou as mãos para a face, arrastou suas mãos pela face até que passou os dedos nos cabelos e disse:
— Porque tão teimosa?
— Preciso ter certeza que você vai ficar bem. Eu me importo com você. Porque quando eu estava no Brasil e não tinha ninguém para conversar sobre a vontade de me matar para salvar o meu irmão, eu só pensava em conversar com você.
— Alice...
— Porque você não me julga. – interrompi – E fora o Chris, só você ousou me dizer que a minha avó dizia coisas cruéis para mim. – as lágrimas começaram a rolar em meu rosto enquanto eu falava — Enquanto todas as pessoas só falavam do abandono do Kei, do bebê e do Chris, você foi o único que viu que eu estava desmoronando por dentro, por trás de toda a minha frieza. Que me confrontou com as palavras certas. Quando eu estava naquele galpão, eu não queria que o Kei viesse me salvar. Eu queria que você viesse. Eu sei que estava muito bêbada, mas infelizmente é verdade. Você e a Ayana, foram as melhores pessoas que já conheci.
— Você – Jin disse sorrindo, como quem repreende uma criança por algo bobo – Está precisando conhecer pessoas.
Acabei rindo do deboche dele e tive que comunicar algo mais sério, uma ideia que surgiu na minha mente. Fruto de toda aquela impotência que eu estava sentindo em relação a Kei e a Chris:
— Quando alguém é bom igual você, Jin. As pessoas tem que elogiar. Obrigada por tudo que você fez por mim desde que o Kei foi embora.
Jin parou de sorrir e me encarou em silêncio, ele pareceu pressentir o que eu diria depois:
— O senhor Yamagoshe saiu do hospital há três horas. – andei até a porta do quarto com calma e disse tocando na maçaneta – Vou atrás deles e impedir essa execução.
Neste momento a calma deu lugar a ansiedade e então Jin gritou:
— Fora de cogitação, Alice. Se você tentar algo para salvar o Kei vai ser executada junto com ele. Você não pode fazer nada!
— Eu não podia fazer nada pelo meu irmão no Brasil. – respondi com calma me voltando para Jin – E aqui...
— Se você morrer aqui – Jin disse aflito – ai sim, nunca mais verá o seu irmão. E você disse para ele! Que ele não ficaria sozinho!
— O que?
Demorei para me atentar sobre o que Jin estava falando, até que percebi que ele apontava para o meu braço, o braço com a tatuagem e então eu sussurrei:
— Enquanto eu existir... Você nunca estará só.
— Você ainda tem esperança. Não se deixe levar por esse sentimento de inutilidade. Eu ainda tenho muitas verdades para te contar. Só quero que você me ouça.
— Eu quero... – respondi sem controlar as lágrimas — fazer algo pelo Kei.
Jin me encarou com pesar, seus olhos tristes me fizeram entender que ele estava se sentindo pior do que eu. Ele me olhava como um pai olha um filho que está insistindo em se ferir e com uma voz tremida e calma ele disse:
— Quero te dizer por que você não pode fazer nada.
— Porque eu não posso fazer nada?
— A escolha não é sua.
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