Akai Ito, o fio vermelho do destino.
8 Desesperança
Notas iniciais
As luzes de neon daquela balada me deixavam tonta enquanto eu esbarrava nas pessoas, o grave do som fazia o chão tremer e não importava o quão rápido eu andasse, parecia que chegar à saída era impossível, o ar parecia rarefeito, estava sufocando naquele lugar. Quando finalmente cheguei à porta de saída senti uma mão segurar meu braço com firmeza, puxei sem olhar para trás e saí do prédio.
Respirar novamente em um ambiente aberto nunca foi tão aliviador, me encostei em uma parede ainda chorando quando Jin saiu pela mesma porta dizendo:
— O que a Ayana te disse?
— Chega de jogos, Jin – disse olhando para o nada – Me fala logo tudo o que sabe.
Jin andou na minha direção e parou na minha frente, eu não o olhava, mas ele tentava manter algum tipo de contato visual que eu recusava desviando o olhar. Estava destroçada depois do que vi e Jin se mantinha paciente.
O silêncio se manteve enquanto eu olhava o nada e ele tentava chamar minha atenção até que Jin rompeu o silêncio:
— Sente que precisa afogar as mágoas?
O olhei sem esboçar nenhuma reação e disse:
— Sinto que preciso saber de toda a verdade.
— Se eu disser talvez você não acredite. Você precisa ver.
— Então me mostre!
— Precisamos ir até o Japão e falar com a família que Kei pertence.
— Pensei que pertencessem a família Yamagoshe.
— Eu sim, mas Kei não.
— Isso está confuso.
— É mais complexo do que parece.
— Me explica que eu vou entender.
— Você ama muito o Kei, então a verdade para você vai ser como o pior dos venenos. Se você tomar de uma vez pode ser que sucumba ao veneno.
— Porque você se importa tanto?
— Posso te responder essa pergunta contando o porquê o anel é tão importante e para fazer isso – me entregou o lenço que trazia no bolso do paletó — eu preciso afogar as minhas mágoas.
***
Duas da madrugada, meu batom vermelho já estava completamente borrado manchando a minha quinta taça de vinho, isso se tivesse feito a conta direito e Jin tomava uísque, não sabia quantas doses ele já havia bebido, estava preocupada com outra coisa, queria saber a verdade e ele estava me enrolando. O lugar para onde ele me levou era um bar luxuoso no centro de Xangai, cheio de objetos vermelhos e dourados em toda a decoração do lugar, tentei ao máximo olhar e observar minuciosamente aquele ambiente, manter meu cérebro focado de certa forma controlava minha embriaguez e me ajudava a não permitir que meu acompanhante me enganasse.
Bebíamos em uma mesa privativa isolada do som e de outras pessoas do bar, ele estava apreensivo e eu muito mais calma do que quando saímos da festa da família Yamagoshe. O clima por mais que parecesse descontraído, era tenso, Jin parecia perceber que não havia mais como fugir dos meus questionamentos, então antes que eu o indagasse, ele resolveu abrir a boca:
— O anel que você está usando era da minha noiva. Ela trabalhava com design de joias e quando eu pretendia pedir ela em casamento, pedi que ela desenhasse um anel dos sonhos e ela desenhou esse anel, descreveu cada detalhe. – Jin começou a encarar o copo vazio em suas mãos — Então o encomendei, mas ela nunca chegou a usar.
Jin parecia pesaroso, já sabia que o anel era exclusivo, mas o fato da noiva nunca ter usado a joia me intrigou:
— Porque ela nunca usou o anel?
— A Saori teve leucemia quando éramos crianças, ela fez o tratamento e se curou, porém anos depois ela teve um tumor no fígado. Era maligno, ela fez um novo tratamento e então se curou. Foi o que eu pensei na época. Sempre passei semanas viajando resolvendo problemas jurídicos das empresas da família Yamagoshe que não percebi que ela estava morrendo. O anel demorou tantos meses para ficar pronto e quando ele finalmente estava em minhas mãos, descobri que o tumor havia tomado o pâncreas e parte do intestino da Saori, foi questão de meses até ela falecer.
Fiquei em silêncio observando Jin se servir novamente com o uísque enquanto seu pesar ser transformava em melancolia e a tristeza parecia cada vez mais aparente em sua face:
— Entrei para a máfia com dezesseis anos porque meu pai abandonou minha mãe e ela não tinha dinheiro para arcar com meus estudos. – suspirou — Eu queria ter condições de ter uma vida digna no futuro. Fazer uma faculdade, ter uma casa, uma família, tudo que eu nunca tive na infância. E quando a Saori morreu eu vi todo meu esforço cair pelo ralo. Toda a minha esperança.
— Não sei o que passou pela sua mente quando pensou que a máfia seria um bom caminho. – Respondi sem pensar e não notei a frieza em minhas palavras.
— Quando se é um mestiço, pobre e tem que trabalhar para sustentar sua mãe doente, você não tem muitas opções. E não pense que eu não tentei fazer as coisas do jeito certo, porque eu tentei. Você não tem ideia do quanto é difícil sustentar uma casa sozinho com dinheiro de carregador de compras. Quando entrei para a família Yamada no Japão tudo melhorou tão rápido, conseguia estudar, trabalhar e o dinheiro dava para cuidar da casa. Era errado, eu sei, mas foi a forma que eu encontrei de cuidar da minha família.
O relato de Jin sobre sua infância difícil me abriu os olhos sobre como eu sempre fui uma pessoa privilegiada. Eu não tinha ideia do que era trabalhar para me sustentar ou precisar cuidar de mim mesma. Sempre tive meu pai me dando tudo. Depois de ouvir o relato dele, me senti mais aberta para ouvir o resto da história:
— Neste ponto você tem razão. Eu não tenho ideia do que é passar por isso.
— O senhor Yamada me adotou como filho – continuou — e viu que eu não seria um bom executor. Então ele pagou meus estudos e a faculdade, trabalhei para ele para pagar tudo que ele fez por mim e até o dia da morte de Saori, para construir a casa que nós viveríamos juntos. Quando a Saori morreu a casa estava pronta, tinha fotos nossas por todos os lugares, poderia sair da família Yamada quando eu quisesse, não tinha mais dívidas, mas ai ela morreu e eu queimei todas aquelas lembranças durante um surto depois de beber. Kei me impediu de morrer queimado.
Jin abaixou a cabeça olhando para o copo, seu rosto estava vermelho, mas não consegui dizer se era por causa do álcool ou se ele estava chorando.
Jin esteve comigo durante o meu momento mais sombrio e desesperador, ninguém mais do que ele sabia como era sentir como eu estava me sentindo... O vazio causado por toda essa desesperança. E então, movida por este pensamento, analisei tudo que ele disse e conclui que se ele queimou a casa com as lembranças que tinha da Saori, aquele anel, aquele lindo anel era a única lembrança que ele tinha dela, retirei o anel do meu dedo e coloquei sobre a mesa, empurrei suavemente em direção a Jin e disse:
— Essa é a única lembrança que você tem dela. Deveria guardar com mais cuidado.
— Ela nem chegou a usar isso – empurrou novamente na minha direção – nem sei por que ainda o guardo.
— Você guarda porque é importante para você, do mesmo jeito que eu preciso saber onde e como está o Kei – disse empurrando o anel na direção dele novamente – Você guarda porque em cada curva desse metal retorcido tem uma parte do amor que você sente pela Saori. E de alguma forma isso é tudo que acalma esse sentimento de desesperança dentro de você.
Jin pegou o anel, o encarou por alguns segundos e depois me olhou dizendo:
— Você é uma pessoa linda, Alice. E eu não sei porque você ama o Kei, mas eu sei porque ele teve que entrar na sua vida e acabar como ela. Exatamente como ele sempre fez com tudo que toca.
— Eu vi um lado do Kei que eu não conhecia hoje – relatei olhando para a taça vazia em minhas mãos para evitar contato visual com Jin – Ayana me mostrou o vídeo do seu teste como executor. Aquele Kei não era o Kei por quem eu me apaixonei. Não era o Kei que eu encontrei cantando hallelujah em um karaokê.
— Até mesmo um assassino faz suas preces a noite – Jin bebeu, se serviu novamente de uísque e continuou – Não sou respeitado na família por causa daquele vídeo, não sei como a Ayana conseguiu ele já que estava com o senhor Yamada no Japão e ele me disse que havia destruído a fita.
— Ela tinha em mp4 em um computador.
— Merda de tecnologia.
Nós dois rimos e então eu disse:
— Uma coisa eu não entendi... Yamada ou Yamagoshe... Qual a família de vocês?
— Yamada é a vertente japonesa da família Yamagoshe. Os patriarcas das famílias são irmãos por parte de mãe. Eu cresci na família Yamada, mas depois que a Saori morreu, me mudei para Xangai e adentrei na família Yamagoshe por recomendação do senhor Yamada. Kei sempre foi leal as duas famílias, então trabalhava como executor para as duas.
— O melhor executor – acrescentei.
— Ah, sim.- respondeu com sarcasmo — Como poderia esquecer. O melhor.
Acabei rindo do sarcasmo de Jin e me recordei da atitude de Kei no vídeo, da brutalidade com o seu “melhor amigo”, então tive que questionar a amizade dos dois:
— Sempre pensei que você e o Kei fossem melhores amigos.
— E porque não pensa mais?
— Um amigo não faz o que ele fez com você naquele vídeo.
Jin ficou em silêncio e bebeu seu uísque enquanto eu o encarava, ele parecia querer dizer algo que não tinha forças para dizer sóbrio, então me senti na obrigação de incentivá-lo:
— O que você quer dizer com toda essa bebedeira? Por favor, fale o que quer falar.
— Essa situação é tão irônica – sorriu – mas acho que não tem uma forma sutil de dizer o que eu tenho para dizer.
— Então diga.
— Se eu for seguir a sua lógica de que a atitude de Kei no vídeo não foi a de um amigo, devo dizer que a atitude de Kei também não foi a atitude de alguém que te ama. E eu pensava que ele te amava.
— Não estou entendendo.
— Ele deixou com você o pendrive que está deixando sua família inteira em risco.
— Talvez ele só quisesse que eu levasse a público as informações.
Jin sorriu irritado e então me olhou com desprezo antes de dizer o que seria seu xeque mate:
— Foi o Kei – disse sem rodeios – Foi o Kei que mandou os executores jogarem seu carro do desfiladeiro.
O olhei assustada. Ouvir aquilo daquela forma foi como ser alvejada por um tiro a queima roupa no coração, senti uma forte palpitação, minha garganta ficou seca e me mantive encarando Jin até que ele pegou a garrafa de uísque e colocou uma dose na taça que eu segurava, sem pensar duas vezes eu bebi.
Senti meu rosto ferver e então revirei os olhos antes de questionar Jin:
— Por quê?
— Porque o Kei não se importa com nada – me encarou com os olhos marejados – e nem com ninguém. Tudo que ele toca ele destrói.
— Se ele me quisesse morta não seria muito mais fácil esperar a lua de mel e ai me matar enquanto eu dormia?
— Seria o óbvio. – Jin disse bebendo mais uísque – Acontece que o Kei se tornou muito imprevisível depois de te conhecer.
— Imprevisível?
— Quando algo atrapalha o Kei, ele mesmo tira do caminho. Matar não é um problema para ele e então para te matar ele manipulou executores do senhor Yamagoshe.
— Talvez eu não estivesse atrapalhando.
— Você era uma aresta que ele precisava aparar.
— Aresta?
— O caminho mais rápido para chegar até o Kei. Ele precisava eliminar você.
— Isso não faz sentido – estendi a taça na direção de Jin e ele me serviu mais uísque – Se ele não se importa comigo, porque eu sou o caminho mais rápido até ele?
— Alguma coisa fez com que ele ficasse com você por tanto tempo. Fez com que ele quisesse casar com você.
— Alguma coisa... – respondi impaciente – Ele me amava por isso quis ficar comigo.
— Porque você quer tanto humanizar o Kei? Dar sentido a essa atrocidade que ele fez?
— Não é dar sentido. – estava confusa para explicar ao Jin, não sei era bebida ou se realmente não havia argumentos – Eu quero acreditar nisso.
— Auto preservação, o sentimento mais primitivo do ser humano.– Assentiu Jin – O Kei sabia do bebê?
— Porque você se importa se ele sabia ou não? Isso vai mudar seu pensamento?
Não percebi quando entrei na defensiva durante a conversa, mas aquele assunto me incomodava e não queria falar sobre ele, mas como sempre Jin tinha a capacidade de ser incisivo e tirar a verdade de mim. Ele afastou a garrafa de uísque de nós dois e segurou minha mão direita sobre a mesa dizendo:
— Quando você apareceu lá na sua casa e me encontrou estava completamente instável, parecia querer morrer e foi por isso que decidi fazer algo por você caso você me pedisse. Quando te conheci você era completamente o oposto de toda aquela instabilidade. Kei me apresentou uma garota alegre e altiva, com uma vivacidade e felicidade radiante. E na minha frente, naquele dia estava o oposto de tudo aquilo.
— Você queria felicidade de alguém que quase havia morrido? – tentei puxar minha mão de volta mais ele a segurou com firmeza – Meu irmão estava a beira da morte!
— Quando me falou que tinha perdido bebê parecia estar falando que tinha perdido um par de brincos ou um anel, tão fria.
— Você queria que eu estivesse sofrendo?
— Você está sofrendo! Sofrendo escondida atrás deste muro de indiferença que criou para si. Foi indiferente até quando falei do bebê.
— Porque se importa agora? – gritei — Porque se importa com isso agora?
— Eu não me importo. – ele respondeu incisivo e me olhando nos olhos — E isso não é um problema porque eu não era pai do seu filho, mas você era a mãe. Deveria se importar.
Fiquei paralisada após ouvir aquilo, eu deveria me importar, mas não tinha entendido porque me convenci de que não me importava, eu tinha que sentir aquela dor, por mais que não quisesse, me lembrei do que disse para mim mesma para não sentir nada, eu disse que não tinha tido tempo para amá-lo e talvez isso fosse verdade, mas também foi uma perda, ele também me deixou e tudo isso por causa do Kei. Aquilo estava doendo. E então tudo o que eu fazia naquela mesa de bar era chorar segurando firme a mão de Jin.
Jin disse que não se importava com o que eu estava sentindo, mas ele me olhava como se fosse importante que eu estivesse sentindo aquela dor, abandonando a frieza que usei de abrigo. Entre aquelas lágrimas, suspirei e olhei nos olhos dele dizendo:
— Talvez você tenha razão. Eu estou sofrendo.
— Eu sei que você está sofrendo – ele disse me olhando com uma expressão acolhedora – compartilhamos da mesma desesperança, e com isso precisa de um motivo para seguir em frente e então depositou todos os seus esforços na vontade de rever o Kei. Quando estava no carro, desmaiando este foi o momento de maior sinceridade que eu vi em você. Você queria morrer para salvar seu irmão. Foi só ai que eu tive certeza de como toda aquela situação estava afetando você. Pelo Kei você sente raiva, mas pelo seu irmão... É só amor genuíno... Você não está aqui pelo Kei, você não quer estar lá para não ver seu irmão morrer.
— Eu não posso fazer nada além de morrer para ajudá-lo...
— Você pode ser feliz. Voltar para a sua faculdade e viver a sua vida bem. Senão pode fazer por você, faça pelo seu irmão.
Fiquei pensativa e percebi o quanto Jin estava certo, então decidi que a melhor decisão seria voltar para casa e ficar com a minha família:
— Vamos embora desse lugar. Desse país. Eu só quero voltar para casa.
— Tudo bem, nós vamos.
Suspirei e soltei a mão de Jin devagar, dessa vez ele não a segurou. Nos preparamos para levantar das cadeiras quando alguém parou a frente de nossa mesa e disse:
— Ah, não – disse a voz feminina – Já vão embora? Queria pagar a última rodada de bebida... Tenho uma ideia melhor. Vamos levar a festa para outro lugar?
Neste momento, eu e Jin, um pouco alterados por causa do álcool reconhecemos aquela mulher e em coro dissemos:
— Ayana?
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