Akai Ito (Fio Vermelho) - Primeira Temporada
54 Capítulo 54 — Caos em Akai
Notas iniciais
— Chizu... — Nanami murmurou preocupado. Sua pequena mão acariciou as costas do outro, enquanto torcia os lábios. Não sabia o que falar para ameniza a dor que Chizuru devia estar sentindo.
Aquele dia era para ter sido perfeito, mas havia terminado em grande tragédia. Seiji humilhou Chizuru diante de toda a vila, praticamente falando que ele era fácil e um vadio. Mas Nanami sabia que não era verdade. O fato de Chizu-chan ter perdido a virgindade antes do casamento, não o tornava um qualquer... E nada fazia entrar na mente de Nanami que Seiji fizera aquilo. O beta sempre se mostrou respeitoso, cuidadoso e apaixonado pelo lobinho branco.
— Ele... Seiji... Ele me enganou... Eu sempre o amei... Sou um burro! Burro! — Chizuru gritou arrasado, se sentando no futon e batendo em sua cabeça com os punhos fechados. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar e as bochechas coradas de raiva. — Eu quero morrer... Sumir... Agora eu sou um sujo e imundo! — Ele agarrou a gola do kimono de Nanami. — Por quê?! Por que ele fez isso comigo...?
Nanami sorriu tristemente. Ele pegou as agressivas mãos de seu amigo e o puxou para seus braços. Fez Chizuru deitar com a cabeça em seu colo e ficou acariciando-lhe.
— Eu não sei... Mas isso não parece certo. Seiji não faria algo assim. — Nanami murmurou, pensativo. Seu coração pesado.
— Mas era ele... Jogou meu amor fora. — Chizuru disse desolado.
Se achavam no quarto do casal Alfa, enquanto a festa ainda rolava ao longe, Nanami ofereceu-se para cuidar de Chizuru, juntamente com Sayuri, enquanto Kensuke e Ryo lidavam com a situação do beta traidor.
A porta do quarto se abriu, dando espaço para Sayuri que carregava uma bandeja de madeira. O ruivo tinha o olhar penalizado. Sentou-se sobre as pernas ao lado do futon e colocou a bandeja ao chão. Sayuri tomou a xícara com o chá âmbar cuidadosamente. — Aqui, beba um pouco. Vai ajudar. — Murmurou.
— Não quero... Me dê veneno e ficarei feliz. — Chizuru dramatizou.
Nanami deu lhe um tapinha na cabeça do lobo e o fez se sentar. — Ninguém vai morrer... Não vou deixar! Agora tome o chá que Say-chan fez com carinho. Eu aposto que houve algum mal entendido.
Chizuru negou com a cabeça. — Não houve... Era ele... Falou... Sobre... Eu acabei realmente me entregando para ele. Tinha somente nos dois... Eu quero morrer... — Chizuru gritou em desespero ao final de suas falas.
Nanami bufou e estapeou o rosto de um Chizu histérico, fazendo Sayuri e ele arregalarem os olhos.
Chizuru olhou espantado para o gatinho branco e levou a mão onde recebeu o tapa.
— Controle-se! Eu juro... Vou resolver isso. Não acredito que Seiji faria algo tão... Cruel. Há um dedo de maldade nisso, tenho certeza, e irei achar o culpado. Agora beba a merda do chá. — Gritou de volta.
Chizuru acenou com a cabeça e pegou a xícara, bebendo lentamente o chá. Tomou somente a metade e retornou a deitar. Nanami acariciava seus cabelos e Sayuri cantou uma suave canção. Ambos os afetos ajudaram o moreninho a dormir.
Quando o lobo fugiu para a terra dos sonhos – sem sonhos na verdade – Nanami ajeitou-o na cama e se levantou, fazendo um sinal para Sayuri o acompanhar. Somente quando alcançaram a sala do primeiro piso da casa, ousaram conversar.
— E agora Nana-chan? O que faremos? Se for verdade... Chizuru nunca vai se recuperar. Sempre foi tão fanático com essa coisa toda de tradição dos lobos, casamento... E pela forma que ama Seiji.
Nanami colocou uma firme expressão no rosto. — Não! Seiji não fez isso... E vou descobrir quem foi. — Ele podia sentir em seu mais profundo.
Sayuri suspirou. — Você sabe... Kensuke não o ouvirá... É seu precioso irmão, nada o fará desistir de fazer justiça.
Antes que Nanami falasse algo de volta, seus pais entraram pela porta frontal. — Ah, que bom que os achei aqui. — Naoki tinha Misaki ao seu lado, enquanto estavam de mãos dadas. — O Alfa ordenou que não saíssem de casa. Na verdade, me pediu para colocar um feitiço ao redor da casa.
— Para...? — Nanami perguntou preocupado.
— Para que não saiam. — Respondeu seu pai.
Nanami irritou-se. Era obvio que Kensuke queria evitar que ele se envolvesse naquela situação. — Quem esse lobo idiota acha que é? Ken-chan não pode simplesmente decidir que me torne um prisioneiro... E ainda usar o meu pai para isso.
Naoki olhou preocupado. — Pequeno... Eu entendo a preocupação dele. Você tende... A se envolver demais em problemas.
Misaki saiu de seu lado e foi até o gatinho branco, o abraçando carinhosamente. — Não fique bravo Nanami... Tudo se resolverá... Não é Nao-chan?
— Prometo descobrir a verdade sobre essa situação, mas fique em casa. — Naoki pediu sincero. Ele se sentia inquieto, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.
Nanami suspirou. — Eu prometo esperar aqui então. Ao menos até o Alfa machão estúpido voltar. Porque se ele vier com essa história de enforcamento de novo, o castrarei! — Gritou furioso, assustando os outros em seu modo de agir, já que Nanami costumava ser sempre doce e gentil.
— Ok! Agora... Vou colocar a barreira protetora. Ao menos por via das dúvidas de algum ataque. — Naoki disse escondendo sabiamente as palavras.
— Faça isso! — Nanami deixou-se aninhar contra Misaki, pois ficar pertinho assim de seu papai progenitor, o ajudava a acalmar.
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Sua respiração estava afoita e todo o seu corpo reclamava de dor. Os punhos se achavam revestidos com grilhões e correntes feitas de prata, cuja mesma o impediria de usar seus poderes e escapar.
Suas costas ardiam, ao que podia sentir o sangue escorrer em sua pele. Normalmente se curaria rápido, mas devido as correntes de prata, seu corpo recebia o castigo como um mero mortal.
Seiji não estava entendendo nada. Havia ido a sua casa para pegar seu presente para Nanami, e quando retornou fora abordado por Ryo e vários sentinelas, sendo acusado de crimes hediondos. Foi então levado à prisão, no mais profundo dela, e alguns sentinelas ocuparam-se em espancá-lo.
— Me solte! — Seiji gritou.
— Vai morrer seu monstro! Como pôde ter feito aquilo com o príncipe?! — Um dos soldados ditou furioso.
— Mas eu não fiz nada... Onde está Kensuke? Alfa... Alfa! — Seiji gritou em socorro.
O som de passos pelo corredor fora da cela se fez presente, e então o Alfa e Ryo entraram em seu campo de visão. Ryo tinha um olhar preocupado e confuso, mas o de Kensuke brilhava em puro ódio. Ele ergueu a mão para os sentinelas se afastarem do prisioneiro, e então circulou o corpo de seu ex-amigo, observando suas feridas.
— Seu asno maldito! — Kensuke gritou ao que chutou o estômago de Seiji, o fazendo se curvar de dor. O Alfa pegou uma grande mexa de cabelo e ergueu a face contorcida de dor de Seiji para cima, o encarando de perto. — Como pôde nos trair assim? Eu confiei em você. Era meu amigo. Lhe dei meu precioso irmão e o trata como um nada?!
— Ken... O que? Do que está falando? Eu não fiz nada disso. — Seiji se defendeu.
— Nega que deflorou Chizuru? Que noivou com ele somente para se aproveitar dele? Por quê? — Kensuke gritou, largando o agarre nos cabelos de Seiji com brutalidade. Esse manteve o olhar firme em Kensuke.
— Do que? Eu amo Chizuru! Noivei com ele porque o quero como meu esposo mais do que qualquer coisa... Sou capaz de tudo por ele... O amo mais do que minha própria vida, então jamais o machucaria. — Seiji gritou de volta a sua resposta.
Kensuke furioso bateu seu punho fechado contra a parede de pedras lapidadas. — A vila toda está de prova. Você ficou agarrando outro ninshin na festa... Disse para todos que meu irmão... Ele… Abriu as pernas para você. Que era uma pessoa fácil!
Seiji arregalou os olhos completamente surpreso. Olhou para Ryo, e esse confirmou com a cabeça. — Não sei quem fez isso, mas não fui eu... Tinha ido à casa pegar o presente do Cadela Alfa. Eu respeito e sempre respeitei Chizuru!
— Vai negar que provou do néctar dele? — Kensuke bravejou, fazendo praticamente todos na sala se encolherem intimidados.
Seiji o olhou firme. — Não! Eu… Eu e Chizu fizemos amor... Aconteceu... Mas o amo de verdade e vou me casar com ele. Jamais o trairia ou o humilharia. Tem que acreditar em mim! — Suplicou.
O lobo de Kensuke grunhiu. — Deixe-o na cela. Quero a segurança redobrada. — Kensuke ordenou altivo. Ele saiu da cela, sendo seguido por um apreensivo Ryo, e não demorou em que os outros sentinelas saíssem também e trancassem a cela. Seiji gritou, implorou para ser escutado, mas a ordem do Alfa seria seguida à risca.
— Alfa? — Ryo perguntou de repente.
— Não Ryo! É com meu irmão caçula com quem ele brincou. Nem mesmo Nanami me convencerá de soltá-lo. Hoje ainda, Seiji morre. — Disse Kensuke não aceitando resposta, enquanto seguia para a casa de seu pai. Precisava dos conselhos do mesmo para agir de maneira sabia.
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— Anda rápido, Mi-chan! — Shou disse ao filho quando entraram em casa e esse saiu correndo.
— Xixi! Xixi. — O pequeno cantou quando saiu correndo para o banheiro.
Shou balançou a cabeça em negação e riu. Somente seu pequeno mesmo era assim. Por anos viveu somente para Minky. O pequeno era a alegria e razão de viver. Mesmo que fosse o filho ‘daquele’ monstro, o amava imensamente. Não! Minky era filho de Yamato agora, pois os dois se reconheciam como tal.
O curandeiro ainda não podia acreditar que era feliz. Que a vida lhe deu uma segunda chance para o verdadeiro amor. Sorrindo, Shou ajeitou algumas almofadas no sofá e depois alisou seu kimono, até que alguém entrou. Erguendo o olhar, deparou-se com Yamato próximo a ele.
— Amor, achei que iria nos esperar... — Shou começou a dizer caminhando para Yamato, mas parou no último instante. Olhou desconfiado para o marido. Não sabia como explicar isso, mas havia algo de diferente nele.
— Olá docinho. Não pude esperar... Sempre estou excitado por ti. — Yamato falou friamente aproximando-se de Shou, carregava um olhar cheio de malícia, mas quando deu dois passos, Shou afastou três.
— Não! — O curandeiro negou com a cabeça.
Yamato inclinou a cabeça para o lado. — O que foi? Não vai satisfazer seu maridinho.
Shou sentiu certo terror percorrer o seu interior, o mesmo medo de anos atrás. — Eu acho que...
— Pai! Terminei. — Minky gritou do banheiro, interferindo no clima sombrio e estranho.
Shou olhou para porta do corredor e voltou o olhar para onde Yamato estava antes, encontrando o lugar vazio. — O que...? — Não entendeu nada. Dando os ombros, seguiu para o banheiro a fim de ajudar seu pequeno a limpar-se, e quando terminaram, saíram para retornarem a festa.
Seguiram de mãos dadas pela vila, e quando chegaram onde ocorria a festa, se depararam com Yamato cochichando algo com dois sentinelas. Shou se aproximou com cuidado.
— Retornaram. Senti a falta dos meus dois anjinhos! — Exclamou com um largo sorriso tomando Minky em seus braços e beijando a testa de Shou. Ele olhou para a expressão confusa de Shou. — Tudo bem, amor?
Shou assentiu. Não estava entendendo nada. Não sabia como explicar, mas esse Yamato parecia tão diferente do anterior.
— Tudo bem? E Chizu-sama? — Shou perguntou de volta. E claro que mesmo que a festa rolasse solta, todos comentavam sobre o ocorrido. Shou lamentava e temia que o príncipe lobo passasse pelo o que ele mesmo teve de enfrentar no passado.
— Foi para a casa do Alfa. Nanami e Sayuri estão cuidando dele. Precisamos animar a festa e acabar com as fofocas. — Falou Yamato. Ele não estava gostando de nada. Parecia que as coisas estavam saindo completamente do controle.
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Nanami olhava para a porta principal da casa com nervosismo, enquanto prendia o lábio inferior nos dentes. Naoki havia colocado a barreira, assim, Nanami não podia sair de casa, o que atrapalhava seus planos. Sabia que Kensuke aumentaria o cerco, e não deixaria que ele invadisse a prisão novamente.
Seus pais haviam ido dormir e Sayuri ficou no quarto cuidando de Chizuru. Nanami sabia que deveria ir dormir também, pois era tarde da noite, porém não conseguiria...
Ele suspirou quando ouviu passos, e se segurou ao lado de seu kimono quando o Alfa entrou pela porta dianteira. Kensuke tinha os ombros caídos, denunciando todo o seu cansaço. Devia ser madrugada adentro, e a festa tinha praticamente acabado.
Ryo seguia logo atrás do Alfa e fez a Nanami um sinal de negação, como se o alertasse para tomar cuidado.
— Ken-chan... — Nanami começou, mas seu marido ergueu a mão o fazendo parar. — M-Mas...
— Não! Por favor... É o meu irmão que foi humilhado e machucado. Não vou tolerar isso de ninguém... Nem mesmo daquele que por anos foi um dos meus melhores amigos. Me respeite. — Kensuke disse firme, não dando brechas para nada.
Nanami suspirou. Virou-se para o beta e falou: — Say-chan está com Chizuru... No quarto principal.
— Irei vê-los. — Disse Ryo, ao que rapidamente saiu do hall de entrada. Não queria ficar entre a briga de casal.
Kensuke manteve o duro olhar.
— Chizu-chan chorou muito, mas demos um chá medicinal para dormir que Shou indicou. Está descansando... Amanhã ficará melhor. Mas está em nosso quarto... Teremos que dormir no quarto de hóspedes. — Nanami informou, ao que lentamente se aproximou do marido. — Papai Nao-chan colocou uma barreira protetora ao redor da casa, por segurança. — Suas pequenas mãos foram ao rosto do Alfa.
— Nanami... — Kensuke sussurrou.
— Apenas me prometa que agirá com calma. Será sábio. Eu sinto... Ken-chan... Aqui! — Apontou para seu coração. — Que existe algo errado nisso tudo. Alguém tramou isso. O amor de Seiji por Chizu é verdadeiro. — Falou calmamente.
Kensuke suspirou. — Agirei com sabedoria se me prometer não fazer nenhuma travessura como da última vez. — Pediu suplicante.
Nanami torceu os lábios, mas no final suspirou. — Prometo não invadir a prisão, soltar o prisioneiro e fugir da vila com ele. — Falou divertido. — É o máximo que terá de mim.
Kensuke acabou puxando Nanami para seus braços, o envolvendo totalmente e apoiando o queixo no topo da cabeça dele. — Já é algo. Desculpe gatinho... Sua festa de aniversário foi arruinada.
Nanami abanou a cabeça. — Foi perfeita... Bem, tirando essa confusão toda. Obrigado Ken-chan, adorei! Assim que essa maluquice acabar iremos comemorar... Somente nós dois. — Disse Nanami corando.
Kensuke sorriu verdadeiramente depois de toda a tragédia. — Meu lindo... Somente você mesmo pode me acalmar... — Falou suavemente. Afastou Nanami o suficiente para beijar seus lábios, algo doce e terno. — Vamos tomar um banho e irmos dormir.
Nanami assentiu com a cabeça. Então tomou a frente e puxou o marido pelo braço. Imaginava como ser líder era difícil para Kensuke, por isso era seu dever cuidar dele.
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Na manhã que se seguiu, a vila inteira ainda dormia. Depois de uma noite de festa e muitas emoções, todos mereciam um descanso, aproveitando que já era fim de semana.
Shou levantou mais cedo do que deveria, ainda cansado, mas sabia que tinha tarefas a fazer por conta de ter um filho pequeno e agora um marido, além de seu consultório que precisava de uma limpeza.
Preparando o café da manhã, ainda vestindo pijama, sentiu uma presença estranha por perto. Ele olhou ao redor como se procurasse pelo que fosse, porém nada encontrou.
— Acho que estou imaginando coisas... — Balançou a cabeça em negação. A questão era, desde a noite passada ele havia sentido que coisas fora do normal estavam acontecendo ao seu redor.
Primeiro "aquele" Yamato fora do comum, depois Seiji agindo como um total idiota na festa, e agora essa sensação de ser observado. Não eram olhos bons, com certeza.
Depois de ter o café feito e coberto sobre a mesa com os pães, leite e sucos, Shou correu para os quartos limpando as mãos em seu avental.
— Acordem seus dorminhocos! Já passa das dez e o café está na mesa! —Shou entrou em seu quarto, agora compartilhado mutuamente com Yamato, sacudindo os ombros dele e recebendo resmungos de sono. Depois correndo para o quartinho de Minky e abrindo as janelas. Minky fez um enorme bico e se cobriu com o edredom, resmungando igualmente.
Shou sorriu e então foi verificar seu pequeno jardim fora de casa. Havia também nos fundos da casa uma pequena horta com verduras e alguns legumes. Ele aproveitou para aguar as plantas, já que fazia algum tempo desde que havia chovido em Akai.
Aquela sensação parecia mais forte. Ele havia ficado desconfiado, olhando para todos os lados, mas tendo certeza de que nada realmente perigoso estava em seu campo de visão, ele decidiu ignorar.
Terminado de regar, ele foi até seu consultório, adquirindo a vassoura do canto e começou a varrer a frente de sua casa, um pouco de uma bagunça da noite anterior sendo empilhada em um monte. Não se conformava com a falta de educação de algumas pessoas para jogar lixo em vias públicas, apesar que não era tanto para reclamar.
— Seu verme infeliz! Como ousa me trair! — Um ninshin descontrolado estapeava seu parceiro no meio do pavimento. Shou estava de olhos arregalados.
— Mas eu juro que não fiz nada! Pergunte aos meus amigos, estava com eles o tempo inteiro! — O varão se defendeu, mas não teve efeito algum no ninshin que continuava a atacá-lo com fúria.
— Eu vi você lá, imbecil! Você estava beijando outra cara! Seu cafajeste! — O ninshin gritou furioso. Shou assistiu assustado e então decidiu que era mais seguro dentro de seu consultório. Ele fechou a porta e colocou sua testa contra ela.
— Uh... O que está acontecendo ultimamente? — Ele não tinha ideia. Até que uma voz flutuou até ele, suave e mansa.
— O que há de errado, meu amor?
Shou congelou inteiro no lugar. Seus olhos se arregalaram ao máximo e ele abriu a boca para gritar por socorro ao ouvir aquela voz que tanto tinha medo, mas nada saía, suas cordas vocais não funcionavam.
— Você não mudou nada, Shou. Continua sendo o mesmo bobinho daquela época.
Shou se virou muito lentamente, suas costas contra a porta, mas ele estava prestes a girar a maçaneta e sair correndo para muito longe de casa. Ou melhor, ele tinha que gritar por Yamato... Salvar seu Minky.
Young estava lá, encostado contra a bancada de braços cruzados contra sua yukata e um sorriso de escárnio, enquanto seus olhos miravam Shou com uma mistura entre malícia e ódio.
— Eu descobri que encontrou uma pantera para cuidar de Minky... Não tem mesmo capacidade de lidar com isso sozinho? — Zombou. — Bem, isso não importa desde que Minky é meu, e eu vou levá-lo comigo hoje. Você nunca mais o verá!
O coração de Shou foi de mil a zero, ele sentiu sua pressão arterial subir tão rápido que suas pernas passaram a tremer. Ele se sentiu impotente, incapaz de se proteger ou proteger Minky.
— Maldito... C-Como ousa voltar...? — Finalmente algo saiu. — K-Ken vai matá-lo!
— Ken? — Ele riu de zombaria. — Acha que Kensuke tem a capacidade de fazer algo contra mim? — Ele balançou a cabeça. — Ele não sabe que estou aqui e nunca saberá. Vou levar Minky, mas antes, há algo que preciso fazer. Uma pequena brincadeira para me distrair. — Ele riu baixo, mas o que certamente não parecia normal, como se ele estivesse sofrendo de alguma loucura. — Vem aqui Shou, vamos brincar...
— Não! N-Não... — Shou tentou abrir a maçaneta, mas se esqueceu que ele mesmo a tinha trancado. Inutilmente tentou pescar as chaves no bolso, mas elas caíram ao chão e Young, aquele cujo amou acima de tudo e de todos em sua adolescência, o verme que o deixou sozinho com uma criança para criar e foi banido da vila, estava ali, tão perto, prestes a agarrar o seu pescoço.
Shou correu fora da porta, através da bancada. A outra porta que dava de encontro a sua sala de estar, que estava trancada também. Novamente Young estava perto de mais e o agarrou pelo braço. Shou tomou um béquer de cima da mesa, que era menos do que um instrumento de laboratório feito de vidro que continha algum remédio em que estava formulando, e jogou o líquido no rosto de Young, tendo a oportunidade de escapar novamente enquanto o outro gritava por ter seus olhos atingidos.
— Nunca! Nunca permitirei que leve Minky! Ele é meu filho e agora de Yamato! Nunca será nada seu, eu juro! — Ele gritou, mas novamente Young se recuperou. Em sua face agora não detinha mais sorrisos ou brilho em seus olhos, mas era somente raiva, ódio e fúria.
— Eu vou matá-lo, vou destruí-lo, assim como farei com cada maldito cidadão dessa Vila! Akai não existirá mais! — Gritou de volta. Tomando uma das estantes repletas com tubos de ensaio e instrumentos de laboratório. Shou caiu para trás quando tropeçou, e Young aproveitou e empurrou a estante para cima dele. Todos os utensílios de vidro caíram sobre Shou e ele gritou pedindo socorro.
Yamato ouviu do outro lado da porta. Ele tinha chegado a cozinha para o café, com Minky ainda fazendo suas higienes matinais, e ouviu certo murmúrios nada agradáveis vindo do consultório do curandeiro. Depois dos sons de vidro quebrando e os gritos de Shou, ele se desesperou para entrar.
Por sorte havia uma chave reserva com ele e ele conseguiu destrancar. Seu coração trovejou quando encontrou Shou caído contra a parede, uma estante enorme o prendendo e uma porção de vidro quebrado e poções misturadas no chão.
— N-Não... Cuidado Yamato! — Shou gritou para ele, sua voz rouca e falha. — Ele... Foi ele...
Yamato olhou ao redor. Não havia mais ninguém no consultório. Mas a janela estava aberta e a bagunça estava feita, prova de que houve uma luta até segundos atrás.
Preocupado e desesperado. Yamato puxou para cima a estante, a colocando encostada contra a parede como deveria ser. Vendo o estado de Shou, que mesmo sangrando com algumas feridas do vidro quebrado, tremia e sua face detinha puro terror.
— Ele... Foi ele, Yama... Young estava aqui... — Choramingou. Sua voz quebrando com o desespero quando ele gritou de horror para seus braços manchados com sangue.
Minky apareceu na porta e gritou horrorizado com a cena. Yamato imediatamente foi para Shou e gritou Minky.
— Minky, vai procurar o Alfa! Corra! — Ordenou a criança. Minky em seu estado de choque pareceu não ouvir, seus olhos arregalados enquanto olhava para o estado de seu pai, histérico. — Minky! Vá logo, eu imploro! — Gritou novamente, ao que somente essa vez, Minky piscou e assentiu, correndo rapidamente para fora.
— Fique calmo, Shou... Vou tirá-lo daí. Tudo ficará bem, meu amor. — Shou soluçou. O choro não queria ir embora. Ele ainda estava em pânico como se ao invés de Yamato o estar ajudando, ele estava era lhe espancando. — Calma... Não chore... Shhh...
Demorou certo tempo até que o choro cessasse, mas Shou ainda permanecia com aquela expressão de medo e horror. Yamato o pegou em seus braços com cuidado, tendo certo medo de caso algum caco de vidro havia infiltrado na pele do curandeiro. E pisando com suas duras botas contra a bagunça do consultório, ele o levou para dentro da casa.
Não entendia exatamente o que havia acontecido aqui, mas certamente alguém o machucou e Yamato jamais o perdoaria. Seja lá quem fosse, morreria lentamente e seria torturado até se arrepender amargamente de ter nascido.
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Nanami estava na cozinha se esforçando para preparar algo comestível com a ajuda de Megume que havia se oferecido para ajudá-los, Kensuke estava em frente a porta de seu próprio quarto, cujo qual, estava sendo o de Chizuru provisóriamente.
Ponderava em como agir com Chizuru. Seu coração estava apertado, porque o que ele viu ontem, se certamente o abalou como havia feito e a todos os outros, imaginava como esmagado o coração de seu irmão estava.
— Com licença. — Kensuke abriu a porta de correr, e Sayuri olhou para ele curioso. Mas Kensuke havia reparado em olheiras no gato ruivo, sinal de que não havia dormido nem um pouco essa noite e possivelmente chorado. — Poderia me deixar a sós com Chizuru? Vá tomar um tempo com Ryo, ele estava me perguntando sobre você.
Sayuri assentiu, se levantou e foi até ele. Olhando-o nos olhos e suspirando, para então sair do quarto.
Isso queria dizer que nada estava bem. Droga.
Kensuke se aproximou cautelosamente e então se sentou ao lado do grande futon. Chizuru estava deitado de costas para ele, e parecia tão derrotado, como se todas as suas forças tivessem sido sugadas para fora dele. Foi então que Kensuke acariciou o ombro dele, absorvendo como Chizuru era magro e frágil comparado com ele. Era o seu irmão caçula, seu sangue. O amava tanto que era muito doloroso vê-lo dessa forma.
— Ah... Ken... — Chizuru se moveu lentamente, até se sentar. Estava de cabeça baixa e suas mãos nervosas, trêmulas, em seu colo.
Kensuke suspirou, não sabendo como abordar qualquer assunto com Chizuru, mas ele fez exatamente como o seu coração pediu. Ele era o Alfa, costumava se mostrar carinhoso somente ao seu esposo. Mas seu irmão caçula precisava de alguém agora, não Sayuri ou quaisquer dos amigos dele para abraçá-lo, mas sim de seu irmão mais velho, seu irmão de sangue.
Sua mão moveu o queixo de Chizu, erguendo sua face para olhar em seus olhos envergonhados que não queriam fitá-lo.
— Olhe para mim Chizuru... — E mesmo assim ele não obedeceu. Mas Kensuke continuou, mesmo enxergando as olheiras e como a face de seu irmão se encontrava avermelhada por tanto chorar. — Você deixou mesmo... ?
Chizuru piscou diversas vezes e abaixou a cabeça, assentindo.
— Você me odeia agora? — Seu irmão perguntou em um mero sussurrar, sua voz quebrada.
Kensuke usou as costas de sua mão para acariciar o lado do rosto de Chizuru, o fazendo olhá-lo nos olhos pela primeira vez.
Chizuru pensou que haveria ódio e raiva nos olhos de Kensuke por ter perdido sua pureza antes do casamento, mas era completamente o contrário. Havia lá tanto amor, tanta bondade para com ele, que as lágrimas, que ele pensou que haviam secado, estavam lá novamente escorrendo livremente pelas bochechas.
— Você é meu irmãozinho, meu único e sempre será. — Kensuke falou suavemente, não deixando de acariciar o rosto de Chizuru, colhendo uma lágrima, depois outra. — Eu o amo... Sempre o amei e amarei. Eu estou aqui para você, Chizu-chan.
Chizuru fez beicinho quando todas as emoções se afloraram dentro dele, a dor e a mágoa foram mais fortes e ele não resistiu em cair contra Kensuke que o abraçou ternamente e forte, chorando além de seus pulmões.
— Eu quero esquecê-lo... Eu não posso mais suportar Ken-chan... — Ele chorou e chorou, por tanto tempo que Kensuke não soube contar. Mas ele havia chorado junto, porém nunca diria isso a ninguém.
Kensuke apenas permaneceu ali, abraçando seu irmão, enquanto a dor dele se esvaía.
Quando se deu conta, quase cochilando com o silêncio que veio de repente, permanecendo por um tempo. Percebeu que Chizuru havia dormido. Talvez por finalmente ter chorado de verdade, expulsado a dor, que antes era maior, pelo menos lhe tinha dado algum alívio agora.
Colocou-o contra o futon e o cobriu delicadamente com o edredom, beijando sua testa antes de cair para trás com um grande suspiro.
O que tinha virado sua vida. Certamente as coisas estavam perigosas. Por que Kensuke tinha a sensação que haveria mais?
A porta se abriu em um estrondo, inclusive assustando Chizuru na cama. Kensuke olhou abismado para Minky, que estava com a face toda manchada por lágrimas e suas bochechas vermelhas. Ele parecia completamente assustado, em pânico.
— Minky!
— A-Alfa! Meu papai... Meu papi... — Era a unica coisa que conseguiu dizer entre seus soluços.
Kensuke correu para a criança e fechou a porta atrás deles, ambos permanecendo no corredor. Não demorou em que Sayuri e Nanami viessem preocupados.
— Calma Minky... O que houve com seu pai? — Kensuke se ajoelhou e perguntou cauteloso para a criança que enxugava briscamente as lágrimas e detinha o nariz escorrendo.
— Papai Yama... Pediu para correr aqui e te chamar... Meu papi... Ele está ferido! — Terminou suas falas com um beicinho e então caindo em um choro sonoro que doeu os ouvidos de Kensuke.
— Nanami e Sayuri, cuidem dele, por favor. Vou ver o que está acontecendo! — O Alfa saiu apressado, descendo as escadas e encontrando com um Ryo desesperado, correndo desde a porta e alarmado.
— Alfa! Temos problemas!
— Eu já sei... É Shou. Parece que foi ferido. — Correu desde as escadas. Mas Ryo balançou a cabeça, se inclinando e apoiando em seus joelhos, ofegante pela corrida.
— Não... Parte da Aldeia está em chamas!
Kensuke arregalou os olhos, terror fez parte dele, quando ele correu para fora e puxou Ryo com ele. Olhando desde fora de sua casa, o que ele mais temia estava acontecendo. Seu coração trovejou no peito com a fumaça negra que subia para o céu abundante, os gritos de socorro e de desespero chamavam por Kensuke.
Com o coração na mão e medo ultrapassando-o, Kensuke correu para salvar sua amada vila.
Continua...
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