Notas iniciais
Hannah: Olá galerinha... Obrigada por lerem e comentarem... Vocês tem ajudado muito a nos dar inspiração e incentivo em escrever. Muita coisa ainda virá na história, por isso continuem acompanhando... Bjs

Capítulo 29 – Desconhecido

A dor alastrava em todo seu corpo, como se mil facadas fossem fincadas em cada pedacinho de seu corpo e eram torcidas lentamente. Seus olhos tremularam, se achavam pesados e teve que lutar para forçá-los a abrir. Lentamente as pálpebras se abriram, mas sua visão estava turva. Demorou alguns segundos para que visualizasse ao redor, e percebesse que se encontrava em seu quarto, na cama em que dividia com seu marido e na casa onde chamava de lar.

Seu coração aliviou as batidas quando se deu conta que estava salvo. As cenas daquele momento terrível saltearam sua mente, querendo roubar sua sanidade. Com custo, Nanami moveu-se colocando deitado de lado na cama e chorou baixinho. Seu pequeno corpo sacudiu devido aos soluços e choro, e era algo que não podia controlar.

Sua pequena mão moveu e buscou pelo objeto que por muitas vezes fora seu amparo e porto seguro, mas sua mão não o encontrou. Angustiado, deslizou a mão por seu pescoço e colo, porem não havia sinal dele. Assustado e ignorando a dor, Nanami se sentou no futon. Abriu o kimono branco de algodão e procurou novamente por seu pingente, mas nenhum sinal dele.

“Cadê? Cadê?” Gritou em sua mente. Aquele colar era a única coisa que tinha de seus pais. Sua avó sempre lhe disse o quanto era importante e que jamais devia tirar ou perder, e pelo visto havia sumido. Em desespero, Nanami jogou os cobertores da cama longe, e tateou a mão por toda extensão do futon, cobertas e pelo quarto, mas não havia sinal de seu precioso quartzo em forma de coração.

— Cadê? Onde está? — Ele indagou sem esperar realmente que alguém fosse responder, apenas desejava fortemente que fosse aparecer.

Nanami percorreu todo o quarto, ignorando a dor de seu corpo. Quando não havia mais lugar para procurar, ele se sentou no chão e fungou. As lágrimas de tristeza debulharam de seus olhos. Esfregou-os e formou um bico nos lábios.

Foi quando um estalo em sua mente lembrou lhe de quando se deparou com os bandidos e estes o sequestraram. Recordou vagamente que lutou contra eles, e que quando um dos gêmeos puxou os seus cabelos, sentiu o feixe do colar romper. Era isso, o colar havia sido perdido na floresta.

Fungando, ele fechou os olhos e deixou a transformação apossar de seu corpo. Parecia estar acostumando com isso. Levou alguns minutos para que diminuísse, e logo sumiu da vista dos olhos. O pequeno gatinho saiu do meio do kimono branco. De alguma forma, a dor de seu corpo amenizou por estar na forma animal.

Com as pequenas patas, ele seguiu para fora do quarto. A cabecinha se curvou tentando captar os sons da casa e os cheiros. Ainda que não pudesse controlar 100% seu instinto felino, conseguiu sentir que Kensuke, Sayuri e Ryo se achavam na casa. A culpa o tomou por estar mais uma vez saindo sem avisar e correndo risco de ser sequestrado novamente, mas o colar era importante demais para ele.

Nanami moveu-se em sentido a escada e desceu em total silêncio, ainda que com certa dificuldade. Parou no final dela, esperando para ter certeza de que não havia sido descoberto por ninguém. Confiante que sua ‘travessura’ não havia sido descoberta, ele correu em sentido a porta principal e saiu de casa.

Sentia a brisa da noite acariciar os seus pelos brancos e trouxe junto os cheiros da Vila, mas ainda assim continuou correndo, ignorando os protestos de seu corpo.

Podia sentir a terra contra suas patas, ver as luzes das casas e as conversas das pessoas. Praticamente não havia ninguém pelas ruas do Vilarejo, denunciando que era tarde e todos se achavam recolhidos em seus lares.

De repente, a Vila Akai pareceu maior do que era, considenrado que estava na forma felina. Atravessou todo o lugar e chegou às margens da floresta. Seu corpo travou quando o medo apossou de si. Lembrou-se de tudo que aconteceu, da dor e perigo, e isso o impediu de prosseguir.

"Seja corajoso... Estou contigo filhote” Aquela voz desconhecida veio, a mesma de quando Kensuke estava doente.

“Mas... Por que não me ajudou...?” Nanami murmurou. Sim, aquela voz que havia ajudado com Kesunke, não fez o mesmo quando foi sequestrado... E sentia raiva por isso.

“Por que apenas o colocaria em um perigo maior ser fizesse...” Disse firme.

— Não importa... Deixe-me em paz. — Nanami disse furioso. Grunhindo de raiva, ele moveu-se e entrou na floresta. Seguiu andando devagar até o local onde havia sido sequestrado com Minky. Ainda na forma felina, ele passou a procurar em todos os lugares possíveis. Ele queria seu colar.

Depois de minutos procurando, o desespero cresceu em si, pois não achava seu colar em lugar algum. O gatinho branco deitou no chão e escondeu os olhos verticais com as patinhas. Estava pronto a chorar quando sentiu uma presença e um dedo indicador tocou sua orelha com o guizo, fazendo um tinido soar.

Por incrível que fosse, Nanami não sentiu medo, ao contrário... Sentiu-se seguro. Ele retirou as patinhas dos olhos e olhou para cima. Eletricidade percorreu seu corpo ao deparar com os olhos âmbar de seu marido.

— Gatinho travesso! O que está fazendo? Fugindo de mim? — A expressão de Kensuke era preocupada, mas não havia raiva em seus olhos ou em sua vóz. Seu tom era gentil e seu olhar carinhoso. Ele tomou Nanami em suas mãos e colocou em seu colo.

Nanami ronronou de novo e de novo, esfregando sua cabeça contra a mão do Lobo Negro. Fechando os olhos, ele deixou a magia apossar de si, e em instantes o gatinho deu espaço para um menino nu. Ele tremeu e encolheu-se mais contra corpo do marido e fungou.

— Ken-chan! — Seus braços rodearam o pescoço do Alfa e sua face escondeu-se contra seu peitoral. — Sinto muito!

— Shii! Tudo bem. Importante que está seguro agora. — Kensuke disse gentil. Ele acariciou os cabelos louros e as costas do seu esposinho. — Por que saiu de casa? Está ferido, não devia nem ter levantado da cama.

Envergonhado, Nanami ergueu a face e encarou o outro. — Eu... Eu perdi...

— Perdeu? O que? — Kensuke realmente não entendeu do que o gatinho falava. Ele havia percebido que Nanami acordara e curiosamente o viu sair de casa. Poderia ter impedido, mas algo lhe dizia que precisava deixar Nanami ir onde pretendia, e devia segui-lo.

— O meu colar... De coração... — Nanami disse fungando. Ele estremeceu novamente. Sua pele nua se arrepiou diante do vento gelado. — É importante... É a única coisa que tenho dos meus pais...

Kensuke sentiu o coração apertar. Havia escutado de Sayuri sobre a história do seu gatinho, e sabia o quanto Nanami sofreu ao crescer sem os pais. Tinha noção o quanto aquela jóia era preciosa para ele.

— Está escuro, podemos procurar amanhã. — Kensuke disse, mas Nanami negou com a cabeça.

— E se alguém achar e pegar para ele? Ou algum animal levar para longe? Não! Tenho que achar agora. — Nanami disse com um grande bico nos lábios.

Kensuke respirou fundo. Não era fácil contrariar o loirinho, ainda mais com ele ferido e dengoso. — Ok! Fique aqui sentadinho que irei procurar.

O sorriso que surgiu nos belos lábios de Nanami foi suficiente para alegrar a Kensuke, em saber que pequenas coisas poderiam fazer seu gatinho feliz. Ciente que estava frio, Kensuke retirou a camada superior de seu kimono e rodeou os ombros do loirinho, e então seguiu para procurar o colar.

Nanami vestiu corretamente o kimono – que mesmo grande – ajudou esquentar seu corpo. Ele acompanhou o trabalho do marido, porém viu que Kensuke não teve sucesso em encontrar seu colar. O desespero abateu Nanami novamente. Ele esfregou os olhos tentando impedir as lágrimas de cair e tentou se conformar.

— Neh Ken-chan, vamos voltar para casa. Vai ver alguém o achou e pegou para si. — Falou tentando mostra-se forte.

— Amanhã pedirei a alguns guerreiros para procurar! De dia será mais fácil. — Kensuke decretou. Ele não estava indo desistir, pois sabia o quanto era importante para Nanami.

O loirinho acenou com a cabeça e se levantou. Seus pés vacilaram e quase caiu se não fosse pelo amparo do Alfa. — Obrigado. — Nanami agradeceu baixinho.

— Tudo por ti! — Kensuke disse gentil. Ele estava pronto para pegar Nanami no colo quando um baixo gemido veio até eles. Ele olhou para o esposo para ter certeza que não tinha se ferido mais ou estava com dor, porém Nanami o olhou curioso e negou com a cabeça. — Quem...?

O som veio novamente, então eles perceberam que era um choro fino, como de alguém machucado.

— É alguém ferido... Aqui perto! — Nanami disse penalizado.

— Eu... Vou levá-lo para casa e depois voltou para... — Contudo Kensuke não pode terminar de falar.

— Não! E se a pessoa tiver entre a vida e a morte? Não podemos ignorar... Vá lá ver. — Disse o gato firme.

Kensuke sorriu. Ele adorava essas façanhas de Nanami, a forma que ele poderia se importar com todos e sempre disposto em ajudar, mesmo que muitos não tinham esse cuidado de volta para com ele.

— Fiquei aqui! — Kensuke disse firme. Não queria correr o risco de se afastar e Nanami se machucar. Após receber um aceno do esposo, ele inclinou para frente e roubou um selinho dele, então saiu em sentido ao som.

Nanami agarrou as duas mãos no tecido do kimono e ficou na ponta dos pés, tentando acompanhar Kensuke com os olhos, apesar que um dado momento o perdeu de seu campo de visão. Ele mordeu o lábio inferior e sacudiu as orelhas, fazendo o sino tinir. Estava começando a se arrepender por enviar Kensuke para averiguar aquele som quando viu seu marido retornar. Arqueou uma das sobrancelhas quando percebeu que o Alfa retornava com algo nos braços. Seus olhos cresceram em dois pires quando contemplou o embrulho encolhido contra o corpo de Kensuke.

O desconhecido se achava totalmente nu e tremendo, um jovem de pele alabastro, cabelos loiros longos e além de orelhas e rabo de gato como os dele.

Nanami abriu a boca em espanto. Ele não sabia explicar, mas de repente seu coração bateu algumas batidas mais fortes. Ele adiantou até Kensuke e olhou para o desconhecido nos braços dele.

— Eu o encontrei deitado inconsciente entre alguns arbustos... Parece chorar em meio ao sono... O conhece? Talvez seja do seu antigo vilarejo. — Kensuke falou.

Nanami negou com a cabeça. — Eu... Não conhecia todos da cidade de Masao... Talvez Say-chan saiba do desconhecido. — Disse ao que tocou o braço do homem e sentiu que um choque percorreu seu corpo. Reparou que ele estava gélido, provavelmente com frio. Claro que incomodou um pouco que seu marido se achava com outro nos braços, e esse se encontrava nu, mas tentou pensar que estava ajudando alguém. — Vamos para casa.

— Consegue andar? — Kensuke perguntou preocupado.

— S-sim! — Nanami afirmou. Doeria um pouco, mas poderia aguentar até chegar em casa.

Ele colocou-se ao lado de Kensuke e traçou seu braço com o dele, e seguiram lado-a-lado. A caminhada fora lenta, pois Nanami não podia andar muito rápido. Em todo momento o loirinho manteve os olhos no desconhecido. Não dava para ver muita da feição do gato estranho, mas pelo corpo podia perceber o quanto era delicado.

Quando finalmente chegaram em casa, Sayuri e Ryo saíram para recebê-los. O príncipe fora até seu amado amigo e o abraçou. — Por que saiu de casa? Que matar-nos de susto? — Sayuri recriminou a Nanami.

— Desculpa... É que perdi meu colar. — Nanami disse com um bico fofo.

Sayuri suavizou o olhar. Ele sabia o quanto esse colar era importante ao amigo. — O achou?

Nanami negou com a cabeça. — Mas achamos ele... Parece que está ferido e é um gatinho. O conhece de Masao?

Pela primeira vez Sayuri olhou para o Alfa e depois para o embrulho que este levava nos braços. Olhou curioso ao estranho. — N-não... Quero dizer, olhando assim, não parece familiar...

— Nanami-sama e ele devem estar congelando. Vamos entrar! Deixe que o levo para o quarto de hóspedes, e Say-chan vai preparar um chá para o Cadela alfa. — Ryo sugeriu, e tomou o desconhecido dos braços do amigo e alfa.

— Agradeço! Venha Nana-chan. — Kensuke chamou no que tomou Nanami em seus braços e sem esperar por resposta dele, o levou para casa justamente em sentido ao quarto deles.

Sayuri queria ir com o amigo, mas entendeu que o Alfa Lobo queria cuidar pessoalmente do próprio esposo. Conformado, foi fazer o chá que Ryo sugeriu e depois iria ajudá-lo a cuidar do estranho.

–oo0oo-

Aquele dia estava sendo mais ensolarado do que nunca foi antes, parecia que realmente era primavera.

Nanami acordou sentindo muito menos dor do que no dia anterior. As lembranças rapidamente vieram à sua mente, e ele sentiu um sentimento estranho em seu coração, parecia importante dentro dele verificar aquele homem que eles encontraram na floresta, mas Nanami estava um pouco hesitante quanto a isso.

Sentindo-se quase completamente curado, Nanami se sentou no futon e visualizou as roupas dobradas e prontas para vestir. Ele imediatamente pensou que quem as deixou para ele fosse Chizuru. Perguntou-se que horas eram, mas ainda era manhã, o sol que adentrava pela janela era cálido e inofensivo.

Tomou seu tempo em vestir-se e se preparar, ele era esposo do alfa agora, então tinha um grande desejo por se manter arrumadinho e bonito, Kensuke sempre o elogiava, e isso era uma alegria a mais para ele.

Nanami saiu do quarto, e viu o corredor vazio. Ele decidiu que não custava nada ir conferir o gato estranho que encontrou. Conforme ele foi se aproximando do quarto, mais apreensivo ele ficava. Mas o fez. Assim que entrou ele topou com Kensuke sentado ao lado do futon em que o estranho dormia profundamente, e reparou em como Kensuke estava olhando fixamente para o ser como se o admirasse.

Nanami não entendeu o que sentiu, mas seu coração pesou e ele fez uma careta muito feia.

— Kensuke! — Ele chamou por ele entre os dentes. Sabia que algo estava estranho, mas ele não seria um bobinho! — O que pensa que está fazendo?

— Eh?! — Kensuke quase caiu para trás quando notou Nanami ali. Isso não era para ser assim, ele mesmo se assustou, normalmente sentia o cheiro de Nanami de longe. Mas incrivelmente... Aquele estranho tinha um cheiro parecido com Nanami, apenas com uma pitada de diferença.

Ele sorriu desconcertado.

— Eu estava reparando nele... Venha cá ver uma coisa. — Kensuke chamou Nanami com o dedo, e o gatinho aproximou dele muito lentamente e ainda com um bico muito grande.

— Não precisa reparar nele... Você não pode. Somente pode reparar em mim, não é? — Nanami indagou mais como uma afirmação e seus olhos queimaram sobre Kensuke que soltou uma leve gargalhada. Ele não estava brincando, mas Kensuke via graça em tudo o que ele dizia. Nanami nunca poderia falar sério com alguém se isso continuasse dessa forma.

— Oh meu amor... — Kensuke fez Nanami sentar-se em seu colo e o abraçou e beijou com carinho, seu esposo reagiu de forma mais linda, ronronando e se encolhendo em seus braços. — Isso é verdade... Mas não é como se eu me interessasse por ele, mas apenas estava reparando em como ele se parece com você, olhe.

Nanami com um biquinho menor olhou para o homem dormindo profundamente. Ele parecia que nunca iria acordar, até mesmo soltou um pequeno ronco. Talvez estivesse muito cansado de ter vindo de Masao até aqui.

Quando olhou para o rosto delicado, de lábios avermelhados e bochechas rosadas, além dos longos cílios loiros. Nanami quase sentiu como se fosse uma versão dele mais adulto. Era estranho... Realmente estranho estar na presença dele.

O que mais fazia a aparência dele ser semelhante eram os cabelos loiros com sutis madeixas rosadas. Iguaizinhas as de Nanami.

— Um sósia? Sayuri me contou uma vez que leu em um livro que falava que cada ser humano possuía sete sósias em todo o mundo. Pessoas muito parecidas. Apesar de que não somos humanos... — Nanami rolou uma mecha de seu cabelo em seu indicador. Kensuke o pegou de surpresa quando roubou seus lábios em um beijou suave e carinhoso, o que fez Nanami imediatamente se derreter no colo do Lobo Alfa.

— Pode ser... Talvez pode ser um parente distante seu também, ele é um gato como você. — Kensuke falou com um sorriso. Nanami brilhou, ele amava aquele sorriso, e pensar que talvez aquele homem pudesse ser um parente distante seu, era muito interessante.

Kensuke envolveu seus grandes braços em torno de Nanami e o puxou para perto até seus lábios se tocarem sem esforço algum. Ele beijou Nanami, mimando-o. Era manhã de sábado, ele não tinha nenhum compromisso, a não ser mimar seu pequeno esposinho lindo. Ele mordeu seus lábios, lambeu-os e brincou com a língua de Nanami, arrancado doces gemidinhos do gatinho. Kensuke amava como Nanami correspondia a ele, era mesmo um amor doce e meloso, ele nunca imaginou — antes mesmo de conhecer Nanami — de que um dia iria sentir esse desejo tão tremendo de paparicar seu amante.

Porém seus paparicos estavam sendo feitos no lugar errado.

— Vocês... Vocês formam um casal tão bonito.

Kensuke congelou, mas Nanami continuou a enchê-lo de beijinhos. Nem mesmo percebeu a voz estranha que soou pelo quarto.

O Alfa abriu seus olhos e afastou um Nanami entorpecido por um momento para olhar para o estranho que estava com olhos enormes para eles assistindo tudo com grande interesse.

— Podem continuar... Apenas façam de conta de que eu não estou aqui. — Ele abanou para eles com seus olhos tão azuis celestes como os de Nanami.

Kensuke respirou fundo, ele realmente se assustou dessa vez. Seu lobo interior se deitou derrotado, fazia muito tempo desde que ele se assustou assim.

— Você acordou... Ótimo, precisamos ter uma conversa. Sente-se bem? — Perguntou.

Foi então que Nanami percebeu como estava, e rapidamente saiu do colo de Kensuke e sentou-se comportado, extremamente corado.

— Claro... Eu me sinto tão bem... Parece que dormi por mais de uma década. — O rapaz respondeu ao que sentou um pouco zonzo, quase tombando para o lado. — Opa! — Ele se endireitou e sorriu timidamente para eles. — Eu gostei dessas roupas... Cores bonitas.

Nanami olhou para o homem sem saber o que dizer. Ele era tão bonito que ele mesmo estava admirado. Ele estava usando pijamas que eram de Chizuru.

— Menos mal... — Kensuke suspirou e pegou a mão de Nanami na sua, ao menos para não deixá-lo fora do assunto. — Como é o seu nome? Por que veio até meu vilarejo. Sabe que somos lobos?

O estranho arregalou os olhos. Ele ficou a olhar para Kensuke e depois para Nanami por segundos incontados. Ele parecia perdido, coçou o queixo, então passou a mão por seus cabelos e bufou... — Eu... Eu não me lembro... Eu não me lembro de nada...

— Não se lembra? — Nanami ficou impressionado. — Você perdeu a memória?

— Uh... Acho que sim... — Ele respondeu com sua voz embargada. — Não... Não posso lembrar nem mesmo do meu nome... — O jovem gato parecia tão perdido, seus olhos se encheram de lágrimas, e ele parecia que fosse desmoronar. — Eu não sei como vir parar aqui... Não me lembro...

Nanami se sentiu penalizado pelo estranho, vendo as lágrimas não derramadas em seus olhos, ele mesmo fungou com a ideia de ter perdido a memória. Como seria? Ele ponderou sobre isso, mesmo que seu passado tenha sido cruel e solitário, ele não queria perder as lembraças de sua avó, de quando conheceu Sayuri e os momentos que passou com ele, além de Kensuke... Somente de pensar em esquecer tudo sobre Kensuke, era tão triste como para fazer seu coração adoecer.

Nanami então tomou uma decisão, ele ajudaria o gato estranho a se lembrar de seu passado.

— Kensuke. — Nanami chamou pelo marido que o olhou com grandes olhos, ele parecia penalizado pelo estado do outro também. — Temos que ajudá-lo... Deixe-o ficar até se lembrar, deve ser temporário.

— Tem razão... Pode ficar o tempo que precisar, é bem-vindo em nossa Aldeia. Ao menos até que recupere sua memória, não deve ser por muito tempo, provavelmente temporário. — Kensuke falou gentil para o outro que somente assentiu e deu-lhe um sorriso triste.

Nanami foi escoltado por Kensuke para fora do quarto, mas sem antes ter uma última visão do homem. O mesmo era tão delicado como Nanami... Mas ele parecia tão miserável. Nanami o viu se encolher e então começar a chorar. Ele queria voltar lá e consolá-lo, porém Kensuke olhou para ele com um olhar de "melhor deixá-lo sozinho". E então fechou a porta.

— Ele... Kensuke... — Nanami estava prestes a chorar. Ele achava que sua situação nunca foi muito boa, mas aquele ser parecia muito pior. — Temos que ajudá-lo, mas como?

— Eu não sei... Mas só o tempo poderá dizer. — Ele tomou Nanami em seus braços e beijou sua testa com carinho. — Pedirei a Shou para verificá-lo, mas creio que não há algo que possamos fazer para a memória dele voltar. Teremos que pensar em um jeito.

Nanami mesmo que triste, se sentiu satisfeito com a resposta do marido. Ele era mesmo um ótimo Alfa, e se preocupava com as pessoas, até mesmo quando era um desconhecido como aquele gato. Isso mostrou a Nanami, que ele tinha muita sorte.

–oo0oo-

Yunsuke olhou para o horizonte sentindo-se tão solitário como nunca antes esteve. Seu coração ansiava pela presença de Shuichi... Seu amado Shuichi.

Aquele que era sua outra metade. Haviam nascido do mesmo ventre, apenas com uma diferença de segundos. Yunsuke veio primeiro, e de surpresa, ele havia ganhado Shuichi em seguida. Aquele que estaria consigo para sempre.

Yunsuke passou a mão pelo peito e se sentou na varanda da casa do ancião em que estava hospedado. Lembrou-se de quando eles eram crianças, desde lá ele já sentia que queria Shuichi muito mais do que irmão. Teve que rir das vezes em que beijou-o enquanto o mesmo dormia, ele nem sabia desse detalhe. Mas Yunsuke jurou guardar somente para ele.

Sempre o amou e pensou que não fosse correspondido, por isso ficou com tantos homens e mulheres, como meio de tentar esquecer e ignorar estes sentimentos. Tal qual foi sua surpresa quando descobriu que Shuichi sentia o mesmo por ele.

E agora eles teriam um filho... Tão rápido... Estava louco para voltar logo para casa e ter Shuichi em seus braços e pode cuidar dele como merecia.

— Pensando no príncipe Shuichi? — Eiji apareceu com um sorriso cálido em seu rosto. Quem pensava que ele era um homem sério, estava enganado. Ele somente era sério em meio a uma batalha, fora dela, ele era um homem bem legal de se ter uma conversa. Yunsuke sempre gostou dele, como um segundo pai para ele.

Embora ele nunca gostou muito de Roan, seu filho. Exatamente por achar que um dia Shuichi teve algum relacionamento com ele.

— É claro... Em quem mais pensaria? — Respondeu se inclinando para trás em suas mãos.

— Talvez em seu pai. Ele deve estar louco de saudades de seu herdeiro. — Eiji brincou e recebeu um grande sorriso de Yunsuke.

— Acho que você deve estar pensando tanto nele quanto eu. — Yunsuke respondeu, sabendo que Eiji era muito fiel a seu pai e praticamente vivia pela honra dele. Mas ele não esperou ver o rosto do homem tão corado como ficou. Ele teve que engolir em seco, e naquele momento percebendo como Eiji ficou desconcertado e desviou o olhar, ele raparou uma coisa nova.

Seu pai sempre fora solitário, mas nunca demonstrou. Talvez Yunsuke soubesse o porque agora. Eiji também era um homem viúvo, mas nunca se mostrou solitário. Isso não era normal... A não ser que tivesse um amante.

Os olhos de Yunsuke se tornaram enormes com a conclusão.

— Posso te fazer uma pergunta, Eiji?

— Claro, príncipe. — Ele respondeu com um sorriso mais aliviado. — O que gostaria de saber?

— Roan é seu único filho... Quem foi o progenitor? — Ele perguntou por uma simples curiosidade. Eiji ergueu as sobrancelhas e pareceu um pouco envergonhado pela pergunta.

— Pensei que soubesse disso Yunsuke... — Ele suspirou e então respondeu. — Eu sou o progenitor dele, embora seja seu general.

Yunsuke ficou ainda mais suspreso, mas algo dentro dele já sabia disso.

— Não me importo com isso, mesmo que seja um Ninshin, é forte e tornou-se general por sua perserverança e força. — Yunsuke falou firme. — Quando eu assumir como Imperador, ainda será o meu general até quando decidir se aposentar.

Yunsuke não esperou receber um sorriso tão iluminado com o que Eiji deu-lhe em seguida.

— Obrigado por sua consideração... Mas creio que somente continuarei em meu posto até que seu pai se aposente. Eu trabalhei por muitos anos como general, e acho que logo será hora de encontrar alguém mais jovem e mais capaz para ajudá-lo, príncipe. — Eiji viu que Yunsuke iria retrucar, mas ele continuou. — Porém, sou grato... E se não se importa, indico Roan pela minha posse... Sei que fará uma seleção, mas, por favor, inclua-o, é um soldado muito capaz e hábil com espadas.

Yunsuke torceu as sobrancelhas. Embora ele não gostasse de Roan, ele tinha que admitir as habilidades do homem. — Tudo bem, ele poderá participar da seleção quando chegar a hora. — Mas isso não significava que ele fosse contratá-lo como general, somente se ele o surpreendesse e fosse bom em liderança como Eiji fez por tantos homens. O homem tinha um grande respeito do Imperador. — Você sente algo pelo meu pai? — Yunsuke simplesmente deixou a pergunta escapar. Ele bateu em sua boca, não devia ter perguntado isso. E percebeu como Eiji ficou ainda mais desconcertado agora. — Desculpe... Eu somente me senti curioso...

— Oh céus... — Eiji passou a mão pelo rosto e olhou para o horizonte bonito. — Eu nunca pensei que teria essa conversa com você. Nunca fui de falar dos meus sentimentos.

Yunsuke sorriu, ele era como ele, mesmo sendo um Ninshin. Ele viu o homem criar Roan desde pequeno juntamente com eles, e ele sempre se mostrou muito gentil e amável, mas não sentimental.

— Bem, se senta a vontade para me responder da forma que achar melhor. Essa conversa somente ficará entre nós, nem mesmo irei dizer a Shu-chan sobre isso. — Yunsuke falou.

Eiji se sentiu satisfeito com isso.

Eles ficaram em silêncio por um determinado tempo. Yunsuke pensou que o homem não iria respondê-lo, mas quando estava desistindo da resposta, ele a ouviu em baixo tom, mas suas orelhas de gato captaram nitidamente.

— Eu o amo.

O herdeiro olhou para ele. Seu próprio coração bateu forte. Ele estava ouvindo seu general contar sobre seus verdadeiros sentimentos por seu pai. Isso era estranho, mas ele aprovou.

— Seu pai sabe o que sinto por ele... Embora eu tenha me confessado quando era apenas um adolescente, ele nunca me deu uma resposta, então eu acho que nunca fui correspondido...

— Mas e... Seu filho? Você se casou, mesmo amando meu pai? — Yunsuke perguntou confuso.

Eiji olhou para ele com uma expressão tão amarga que Yunsuke nunca pensou que veria mais do que expressões gentis em seu general.

— Quando seu avô era o Imperador, ele decretou o meu casamento com um soldado que eu nem ao menos conhecia. Ele era um bom homem, embora eu não o amasse. Tive Roan, mas depois que fiquei viúvo, decido tornar-me um soldado em seu lugar, por causa da grande guerra. E seu pai quando assumiu como Imperador, fez me seu general, e eu fiz tudo por sua honra e fui grato a ele, pois ele me ajudou muito todo este tempo.

Yunsuke escutou com atenção, ponderando sobre a história.

— Logo após a guerra, Masao entrou em crise, pois perdemos muitos homens, muitos lares foram destruídos, e tivemos uma fase de escassez de comida... Minha casa se foi graças a um incêndio, e eram somente eu e Roan que ainda era uma criança. Mas seu pai nos acolheu no palácio e nos ajudou a suportar aquela fase. — Disse com olhar nostálgico. — Eu sempre amei seu pai, mas não creio que algum dia terei alguma chance. Somente estar ao lado dele e ajudá-lo é o suficiente para mim. Vivo pela honra dele e de meu filho. Você é a primeira pessoa para quem eu conto essa história, obrigado por me ouvir. De algum modo, me sinto um pouco aliviado. — Eiji sorriu. — Se me permite, vou dar um passeio, nos vemos a noite. — E ele se levantou e foi-se por um caminho qualquer.

Yunsuke ficou olhando para as costas de seu general até que ele sumiu no horizonte. Seu coração estava apertado. De alguma forma ele sabia que Eiji tinha ido chorar. Ele era um homem com um coração tão forte. Como ele poderia aguentar viver com o homem que amava sem ser reivindicado.

De alguma forma ele também sabia que seu pai devia sentir algo por ele. Seu pai era tão apegado ao general.

Yunsuke apoiou suas mãos nos joelhos e olhou para o céu. Dentro dele ele fez uma espécie de juramento. Se seu pai realmente amasse Eiji, ele iria ajudar esse relacionamento acontecer. Shuichi iria saber dessa história, ele saberia o que fazer.

Continua...

Notas finais
Miky: Olá *-* Obrigada por ler! Espero que tenham gostado do capítulo, tanto quanto eu e Hannah adoramos escrevê-lo! Próximo domingo tem mais :3 Espero que tenham curtido o novo personagem-q Beijinhos e até a próxima!