Akai Ito (Fio Vermelho) - Primeira Temporada
32 Capítulo 32 – Descobertas
Notas iniciais
Sayuri se olhava no espelho com uma séria expressão. Ele analisou bem seus cabelos ruivos que se encontravam soltos e caíam como cascata em suas costas, e depois para seu corpo magro e bem delineado que estava escondido pela delicada e rendada camisola.
Aquela manhã tinha tirado as medidas para que o kimono de casamento fosse confeccionado, além das roupas para a noite de núpcias e outras que pretendia fazer para levar para Akai.
Ele estreitou os olhos encarando seus próprios olhos verdes, mas sua mente vagou para o que tinha acontecido ontem. Depois que chegaram a Masao, havia recolhido ao seu quarto, tomado um banho e se arrumado para o jantar especial que seu pai organizou. Recordava o quanto estava nervoso. Nesse jantar, se achava presente a família real, o alfa de Akai e o Beta. O imperador decidiu deixar os ‘conselheiros’ de fora, e a pedido de Yunsuke, o general e seu filho participaram.
Sayuri nunca esteve tão nervoso, afinal era momento delicado. Ele temia que seu pai recusasse, mas Ryo soube agir de forma apropriada e acima de ‘aliança’ de paz, ele pediu sua mão em casamento ao seu pai e não imperador... Disse o quanto respeitava e amava Sayuri e o queria como seu esposo. Tinha sido tão lindo, que Nanami, Shuichi e Sayuri debulharam em lagrimas, certamente os três eram os mais sensíveis do grupo.
Yoshikazu manteve-se sério. O seu discurso não ficou para trás, disse o quanto seus filhos eram especiais e como Sayuri – seu bebê – era único e querido. Deixou bem claro que mataria Ryo se o fizesse sofrer ou chorar... Mas no final, perguntou se era isso que Sayuri queria, e recebendo resposta de confirmação, deu sua benção.
Tinha sido realmente um momento perfeito, além do que Sayuri imaginou como seria seu noivado. Devido o pouco tempo que o Alfa poderia ficar longe de seu Vilarejo, o casamento tinha sido marcado para dali à quatro dias, e os preparativos se encontravam a todo vapor. O imperador tinha decidido que faria um casamento duplo, onde seus três filhos se casariam e se tornariam homens com suas próprias famílias.
Mas havia algo que incomodava Sayuri, o fato que mal pôde ficar com Ryo... Conversar ou dar boas risadas como faziam. Seu coração apaixonado se achava apertadinho e sofria pela falta do lobo. Ryo tinha se tornando mais precioso que o ar para ele, e o desejava pertinho dele. Contudo, com tantos preparativos, medidas, testes de vestimenta e cuidados de beleza, aquele dia Sayuri não tinha visto seu noivo ou seu amado amigo Nanami. Estava literalmente entediado.
— Que tédio... Não vou conseguir ficar quatro dias aqui! — Sayuri murmurou com um sorriso travesso. Na tradição de Masao, o noivo ninshin deveria ficar durante os preparativos do casamento isolado de todos, apenas preparando o corpo e a mente para o grande momento, mas nunca que o pequeno e imperativo príncipe conseguiria.
Sayuri desfez de suas roupas impecáveis, deixou os seus longos cabelos soltos e então seguiu para a varanda de seu quarto. Fechando os olhos, ele deixou que a magia da transformação apossasse de si, e dentro de segundos, um pequeno e ruivo gatinho estava em lugar do príncipe. — Meow... — Miando animado, o pequeno animal pulou na marquise da varanda e seguiu para parapeito do castelo. Ele certamente encontraria seu ‘noivo’.
Sayuri seguiu pelo parapeito até que chegou a próxima janela. Pulou na marquise da mesma e olhou para dentro da sala.
Aquele era o quarto de Nanami e Kensuke, e pelo visto, não se encontravam ali. O gatinho pulou dentro do quarto e seguiu pelo lugar até que chegou perto da cama e com habilidade, subiu nela.
Ele sentiu o cheiro que ela exalava... Mistura de Kensuke, Nanami e sexo... Isso fez seu pelos arrepiarem e se certamente estivesse na forma humana, coraria... Claro que a mente fértil de Sayuri voou longe e imaginou como eram os dois na cama... Devia ser uma coisa linda que ainda daria um jeito para assistir.
“Ohh... À noite irei vir espiar... Certamente farão coisinhas...”, Sayuri pensou com um sorriso de gato, se era possível. Ciente que não teria como fazer ‘travessura’ ali já que o casal estava em falta, ele desceu da cama e seguiu para a porta.
Os empregados do castelo estavam a todo vapor e correndo para preparar tudo, tal qual nenhum deles se atentou para o filhote de neko que transitava por ali. Sayuri seguiu apressadamente e de maneira despercebida para a área dos dojôs, de onde seria a presença de seu noivo.
Quando chegou, ele se esgueirou para entrar no dojo e se encolheu atrás de vários colchonetes de luta. Ele viu Roan em movimento de defesa, e sorriu ao perceber quem era o oponente dele. Pelo visto Ryo tinha arrumado um companheiro de treino. Sayuri deitou sobre as patas e ficou observando seu noivo lutar contra Roan, e como seus movimentos eram belos.
As orelhas felpudas arquearam quando viu o sorriso de Ryo tornar-se faceiro, e pelo que conhecia dele, o lobo havia percebido sua presença.
— Por hoje chega... Podemos continuar amanhã se não se importar. — Ryo falou tirando o suor da testa. Ele estava lindo no kimono de treino e uma faixa na testa.
— Sim! Eu que lhe agradeço... Realmente lutar com um lobo é mais difícil, mas divertido. Normalmente treino com o príncipe Shuichi, mas com ele grávido, o perdi como companheiro de treino. — Roan disse esticando os braços.
— Mesmo horário amanhã? — Ryo perguntou.
Roan acenou com a cabeça em despedida. Ryo não se moveu até que o guerreiro neko estivesse longe do dojo. O Beta dos lobos moveu-se para perto dos colchonetes e agachou-se em frente ao mesmo. — Sayuri... Saia.
O gatinho saiu lentamente e olhou cauteloso para o noivo. — O mocinho não deveria ter saído do quarto. Pelo que me disseram, é tradição dos gatos que o ninshin fique isolado.
— Meow... É tedioso... — O gatinho disse.
Ryo acabou caindo na gargalhada. — Ok, então o que posso fazer para acabar com o tédio de meu lindo gatinho?
Sayuri – ainda na forma de neko – pulou do colo de Ryo e esticou o corpo manhosamente. — Uh... Eu quero... Mostrar a cidade para você... Que conheça meus lugares favoritos... Onde brincava ou aonde ia para encontrar com Nana-chan... Vamos? Eh... Vamos? — Pediu agitado.
Ryo fez um expressão de que estava pensando, mas no final assentiu. — Claro, vou adorar apreender tudo sobre meu lindo noivo. Mas não terá problema se os demais virem você fora do castelo?
— Eu vou na forma de gato escondido em seu obi... Ninguém irá me ver. — Sayuri disse com sua esperteza.
Ryo esticou e pegou o gatinho nos braços para levantar em seguida. — Então vamos ao passeio... Travesso!
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— Este lugar... — Kensuke olhou para o pequeno barracão que provavelmente não caberia ele dentro.
— Esta foi minha casa por toda minha infância. — Nanami declarou envergonhado, ele parecia como se não fosse digno de olhar para Kensuke. As lembranças imediatamente assolaram em sua mente, Nanami então correu para dentro da pequena casa feita de madeira, aos pedaços. Provavelmente não havia reparo algum que pudesse modificar aquele lugar, ela somente podia ser demolida.
O loirinho bateu a porta atrás de si quando entrou na pequena cabana, mas obviamente por estar emperrada, essa não fechou. O coração de Nanami apertou amargamente quando viu que a casa que fora seu lar por tantos anos, se encontrava um caos. Os poucos móveis estavam quebrados, poeira e teia de aranha tomava conta do lugar, fora que muitos itens estavam espalhados. Ele não pode evitar que as lágrimas viessem aos seus olhos azuis.
Nanami levou as mãos à boca e segurou o soluço. Ele sabia que ali não era mais seu lar... Que agora tinha uma bela casa e uma família, mas ele cresceu naquele humilde barraco... Foi onde a sua avó fora sua única família e cuidou dele da melhor forma.
O gatinho pulou assustado quando sentiu uma mão em seu ombro, mas acalmou quando sentiu o cheiro de quem pertencia e então relaxou contra o corpo maior. Deixou que os braços de Kensuke rodeassem seu corpo e o consolasse.
— Esse é... O lugar onde cresci... Está bagunçada por que fui levado daqui a força pelos guardas... E não tive ninguém para cuidar. — As lágrimas percorreram a face de Nanami, nublando sua visão e apertando seu coração.
Kensuke moveu o esposinho o fazendo ficar de frente para si, sua grande mão embrulhou a face do loirinho e recolheu cada gota de lágrima. — Não chore meu amor... Eu sei que deve ser difícil... Mas tente pensar que tudo o que passou o fez mais forte, corajoso e o lindo gatinho que é hoje.
Nanami acenou com a cabeça e limpou alguns resíduos de lágrimas grosseiramente. — Sim! Sou mais forte por isso... Venha... Vou mostrar onde dormia... Tem umas coisas que quero pegar... Se ainda tiverem aqui. — Nanami falou puxando o marido lobo pela mão. Eles seguiram dois passos e chegaram ao minúsculo quarto, que diferente da cozinha, não estava tão quebrado.
— É aqui? Mas tem apenas um quarto? — Kensuke perguntou.
— Sim! Eu é minha avó dividíamos... Ela ficava com a cama e eu dormia no futon. — Nanami respondeu. Ele passou a procurar ao redor, não tinha muitas coisas, mas algumas eram queridas. Encontrou os novelos de lã de cor rosa que Sayuri sempre lhe dava. O lenço de seda na cor rosa que sua avó lhe deu em aniversário de 10 anos... O último que comemorou com ela, já que dois meses depois veio a falecer. Pegou uma caixinha e sentou com ela na cama. — Aqui tem algumas fotos... Poucas...
Kensuke sentou-se ao lado de Nanami, enquanto esse abriu a caixa. O loirinho começou a retirar as fotos e mostrar ao marido. Uma dele criança – 4 anos – com sua avó, um de sua avó sozinha, ela com o marido que Nanami não conheceu... Ela e seu pai jovem, uma de Nanami com 7 anos levando um cesto de pãozinhos para vender, mas foi quando uma das fotos caíram ao chão, que Kensuke abaixou para pegar e seus olhos se arregalaram quando viu.
— Quem são? — Perguntou ao amado curioso.
Nanami pegou a foto de Kensuke e ficou olhando. — Ah... São meus pais e tio... Aqui, meu papai Misaki... Meu outro pai Naoki e meu... Não sei quem é esse... — Disse apontando para o jovem parecido com seu pai, porém mais baixo.
Kenuke franziu o cenho. — Nana-chan... Esse loirinho... Ele parece com... — O Alfa calou. Aqui não podia ser verdade. — O que aconteceu com seus pais?
Nanami deixou uma expressão triste cobrir seu rosto. — Minha avó falou que quando teve a grande guerra e a besta foi libertada... Meu pai Misaki morreu... E o Naoki foi expulso da Vila... Por que falaram que ele foi culpado da besta ter destruído tudo. — Ele sentiu seus olhos arderem.
— E esse quem é? — Apontou para o outro jovem na foto.
— Ah... Vovó disse que era irmão de papai Naoki... Meu tio... Mas ele desapareceu. — Nanami disse reparando melhor a foto. — Ele... Pa-parece... — Olhou confuso para o marido.
— Parecem com Myra e Yamato... Talvez um pouco mais jovens... — Kensuke disse. Não havia engano, aquele loirinho de mechas rosa era totalmente o desconhecido que haviam encontrado na floresta... O moreno menor, mesmo que jovem, lembrava muito a Yamato. Kensuke virou a foto e reparou nos nomes: Misaki, Naoki e Yato. — Você me disse que seu pai Naoki era um feiticeiro e pantera não é? — perguntou recebendo um aceno de Nanami.
— Por quê?
— Acho que Yamato pode ser Yato, seu tio... E Myra... De alguma forma devia estar... Preso... No seu colar...? — Kensuke deduziu pensativo. Na verdade, sua mente trabalhava na teoria.
Nanami ficou olhando para a foto. Ele se sentia estúpido, por que por anos cresceu vendo a foto de seus pais, e quando um deles simplesmente aparece na sua frente, ele simplesmente não associou. Seu pai Naoki era um feiticeiro, seria bem provável que algo assim fosse verdade.
Ele escondeu os olhos com as mãos e seu corpo balançou diante do choro e soluço. — Eu sou idiota... Não percebi... — Murmurou.
— Eh, jamais diga isso! — Kensuke ditou puxando as mãos do esposinho. — Você é doce e gentil... Ultimamente aconteceu muita coisa em sua vida, é normal que tenha esquecido. E mais... Vamos descobrir se isso realmente é verdade.
Nanami assentiu com a cabeça. Ele achegou para mais perto do marido e aninhou contra seu peito. — O-obrigado...
— Sim! Agora... Que tal irmos? Quero passar naquele mercado para comprar um doce... Você quer doce? — Kensuke disse tentando animar o loirinho.
Um sorriso adornou a face de Nanami e ele pulou batendo palmas. — Sim! Só deixe-me achar uma sacola para colocar as coisas que levarei comigo...
— Claro! — Kensuke levantou e ajudou o gatinho encontrar uma sacola e guardar todas as coisas que queria. Não eram muitas, apenas os pertences mais preciosos para Nanami. Ao deixarem a pequena cabana, um bom número de pessoas passavam perto com seus pescoços esticados querendo bisbilhotar sobre a vida de Nanami, mas esse não ligou... Pois agora tinha um marido ao seu lado, o que era mais importante.
Aquela fora sua vida por anos, mas agora era passado... Pois seu lar era na vila dos Lobos. Por isso levaria consigo somente as lembranças preciosas, e tudo que fora ruim, deixaria para trás.
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Reunindo alguns bastões de madeira do tatame, Eiji os organizou em uma caixa apropriada que ficava ao canto da sala.
— Por hoje acabou, nos vemos amanhã pela manhã para o treinamento. — Eiji fez uma revêrencia e alguns dos alunos retornaram seu gesto educado, embora alguns somente olharam para ele com indiferença. Espere, que diabos era essa reação?
Eiji olhou para eles indo embora, quando um último correu para ele e entregou seu bastão.
— Obrigado. — Eiji agradeceu, tomando o bastão em mãos. Eles eram alunos jovens que desde crianças treinavam para se tornarem ótimos samurais e servir à Masao.
— General, vai ficar afastado na próxima semana não é? — Eiji olhou para o rapaz, não compreendendo suas palavras.
— Desculpe?
— Ah, o senhor sabe muito bem do que estou falando, não me leve a mal. — Ele estava com um sorriso torto, como se zombava de algo que Eiji não entendeu.
Bem, ele precisava terminar de organizar esta sala e depois poderia ir encontrar com seu filho. Mas seus pensamentos não mudaram de rumo, ou melhor, ele não conseguia pensar em nada a não ser no que aquele garoto lhe dissera ha momentos atrás.
— O que ele quis dizer...?
Roan entrou no recinto e cerrou a porta fechada, um grande sorriso iluminava seu rosto bonito e másculo. Eiji só poderia ter orgulho, Roan já era um homem formado e não precisava mais dele, apesar de que ele bem que gostaria que ele precisasse de seu pai, Eiji mal adimitia, mas tinha medo de perdê-lo, visto que ele poderia em breve se casar e criar uma família longe dele.
Eiji não poderia impedir. Mesmo que isso significasse que ele ficaria sozinho.
E ele temia isso.
— Pai, já terminou? — Roan perguntou, seu polegar por cima do ombro. — Estava pensando se gostaria de almoçar conosco... Quero dizer, convidei Amano para almoçar naquele restaurante novo no centro, o que acha?
Mesmo que fosse uma ótima ideia, Eiji não sabia se era bom ele ir, afinal ele iria atrapalhar o "casal".
— Uh... Hum... Eu não acho que posso, tenho que levar uns relatórios para o Imperador, então não creio que terei tempo. — Ele descartou depois de gaguejar um pouco. Mas sabia que seu filho perceberia a mentira em seus olhos. Eles entendiam muito bem um ao outro.
— Pai... — Roan colocou as mãos no quadril e suspirou. — Eu já te chamei várias vezes para conhecer Amano, porque diabos não quer vê-lo? Eu te disse, vai gostar dele, é um bom homem, e Ninshin. Embora ainda não tenhamos nada além de amizade.
Eiji se virou para ele com o seu olhar cauteloso. — Tudo bem! — Por fim concordou, mas uma coisa ainda estralava em sua mente. — Querido, há algo especial acontecendo na próxima semana?
Roan olhou para ele e então coçou o queixo, até que seus olhos cresceram enormes e ele teve suas bochechas minimamente coradas.
— É o período de acasalamento dos gatos. Como pode ter se esquecido de algo assim, já era para estar se preparando, não? — Roan perguntou envergonhado. Ele não era um Ninshin, o que o fazia sentir-se estranho falar sobre esse assunto com seu pai.
— Deuses! — Eiji colocou suas mãos na cabeça. Por pouco ele não havia lembrado desse período. Ele não podia deixar de comprar os remédios mais tarde na farmácia. No domingo, teria que se trancar em casa e em seu quarto.
Mas isso não explicava o que aquele seu aluno lhe dissera mais cedo. Nenhum dele sabia sobre ele ser um Ninshin, não que houvesse alguma regra que o proibisse de ser general só porque ele poderia gerar, mas normalmente ninguém entre os samurais era um Ninshin, e ele temia não haver respeito se os outros soubessem desse fato.
Os únicos que sabiam dessa verdade era o Imperador, seu filho, e agora o herdeiro também sabia. Ninguém poderia ter contado seu segredo, poderia?
— Está tudo bem pai? Vamos? — Roan apertou seu ombro e Eiji sorriu forçado para ele, mas foi com ele.
O dia estava claro, bonito, mas os pensamentos de Eiji estavam longe temendo que Yunsuke houvesse aberto sua grande boca para contar sobre seus sentimentos.
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Quando as grandes portas foram abertas, Yoshikazu adentrou em seu escritório com um suspiro. Ele estava cansado, com os preparativos do casamento de seus três filhos, parecia levar parte dele, porque ninguém simplesmente fazia as coisas sem consultá-lo? Ah, com certeza pelo fato de que queria ter um dedo em tudo o que tivesse haver com o casamento de seus filhos.
O salão estava sendo preparado e encontrava-se belíssimo, mas ainda haviam mais decorações a serem postas, e mais arranjos que estavam apenas esperando chegar lá do outro lado da cidade.
Um pouco mais aliviado, desde que tomara esta hora para descanso, ele sentou-se em seu assento principal de couro, olhando para algumas pinturas na parede de seu escritório. Em seguida seu coração latejou em seu peito quando os sentimentos que ele detinha em seu peito aflingiram sua mente, era sempre assim quando estava sozinho.
Seu olhar vagou para fora das cortinas e além das grandes janelas. O verde bonito das montanhas lhe dava um certo alívio, vontade de sair lá para fora e correr em sua forma de gato, pulando de galho em galho, como ele fazia na juventude. Embora ele não fosse tão velho, sentia-se como um.
As lembranças do passado sempre estavam lá, e ainda doíam como o inferno dentro dele. Saudades daquele que hoje era seu maior inimigo embora o mesmo estivesse desaparecido há mais de dez anos. Ele ainda amava aquele que fora seu melhor amigo, algo dentro dele lhe dizia que Naoki era inocente, porém o que ele fizera naquela época foi imperdoável.
Por causa de Naoki, Yoshikazu perdeu muitos de seus homens, um terço da vila foi dizimado pelo monstro que fora libertado pelo feiticeiro. Além de que grande parte da Vila dos Lobos da montanha do norte também sofreram perdas.
Seu coração dizia uma coisa para ele, mas sua mente outra. Como ele poderia lutar contra isso? Tinha vezes que ele se arrependia de ter expulsado Naoki de sua Vila e somente gostaria que tivesse esganado seu ex amigo até a morte para vingar aqueles que se foram por causa dele. Mas algo dentro dele lhe disse que deveria apenas expulsá-lo.
Muitos questionaram seu governo depois disso, mas em seguida Yoshikazu reergueu a vila, fortaleceu os exércitos e criou a segurança e paz que todos desejavam. Até porque ele criou um laço de paz com os lobos e estava com o líder deles sob seu mesmo teto.
Ele era um gato e mesmo que seu animal estivesse tremendo quando estava na presença do Alfa lobo, ele não demonostraria seu medo. Só esperava que essa paz soberana continuasse por muitos e muitos anos. Uma guerra não valeria de nada, mas ele faria se fosse para proteger suas terras e seu povo.
As vezes Yoshikazu apenas queria ser um homem comum, um camponês para que não precisasse ter todas essas preocupações e responsabilidades. Ele tinha desistido de um amor por conta de sua posição. O que ele faria? Ele jamais brincaria com os sentimentos de Eiji, mas ele não poderia fazer seu coração recuar do amor que sentia, somente parecia doloroso a cada dia, mas ele suprimiu com cada fibra de seu ser.
Não seria desonroso e não quebraria regra alguma. Eiji era seu General, ele não precisava de mais problemas, o homem era força pura, embora fosse um Ninshin, ele tinha criado um filho sozinho, e comandou todas as suas tropas sem erro.
Ele foi o melhor general que Masao já teve. Como destruir isso? Ele nunca faria, embora fosse tão difícil, sentia-se como se estivesse morrendo as vezes.
Um cheiro novo o tirou de seus devaneios. O Imperador olhou franzindo a testa para as portas de seu escritório. Não era um cheiro ameaçador, mas lhe lembrou muito... Naoki.
Arrastando a porta aberta, ele olhou para a figura que se assustou ao vê-lo.
— Você? O que faz aqui? — Perguntou a figura pequena de Nanami ali em frente a ele, tremendo como uma folha.
— Uh... Er... S-Se não fosse muita interrupção... Eu queria... Não, gostaria de falar, de dizer... Ou melhor, vossa majestade... Ai! — Nanami puxou seus cabelos em frustração. Ele somente não sabia ser cordial, as palavras de repente sumiram, ele treinou tanto para dizê-las.
Yoshikazu suspirou, lutando com a vontade de sorrir e deu espaço para o pequeno entrar em seu escritório quando viu alguns dos empregados que estavam no corredor olhar para eles.
— O que devo a sua visita? Espero que seja rápido, estou em meu horário de descanso. — O Imperador disse em descaso, voltando-se para sua cadeira depois de trancar as portas. Nanami estava olhando para seus pés e ainda tremia. — Vamos, diga! Não me faça perder tempo. — Yoshikazu estreitou os olhos naquela pequena figura que o lembrava tanto o esposo de Naoki, Misaki. Mas em uma versão infantil.
— Eu... Desculpe, estou nervoso. —Nanami olhou para ele sob seus cílios, mordendo seus lábios e seus dedos trêmulos brincavam uns com os outros. — Você não vai me matar por estar em seu escritório, vai?
Os olhos do Imperador se arregalaram.
— Não é como se eu quisesse vir aqui, mas eu tinha que falar com o senhor! — Nanami acabou dizendo mais alto do que deveria. — Perdão... — Ele voltou a abaixar a cabeça.
Yoshikazu suspirou e se inclinou em sua mesa relaxado.
— Apenas diga o que tem para dizer e saia.
— Minha avó costumava dizer que meu pai era muito íntimo do senhor. — Nanami começou e sua curiosidade começou a sobressair sobre seu medo e nervosismo de estar falando com o líder de Masao. —Eu queria saber sobre ele... Por que ele foi embora?
Yoshikazu engoliu um caroço na garganta. Ali estava o filho de seu antigo melhor amigo, aquele em quem mais confiou e foi seu confidente. Seu coração apertou tão forte em seu peito como se fosse explodir com a dor. Aquela criança não era culpada, mas ele estava muito ciente do que ela passou em sua cidade, porém seu orgulho e devoção ao seu posto, nunca o permitiu protegê-lo.
Nanami sofreu sozinho nas mãos dos cidadãos de sua cidade e mesmo quando ele soube da morte de sua avó, ele nunca fez nada.
Arrependimento era uma merda, bateu nele como uma mesa de pregos.
— Você sabe muito bem que seu pai nos traiu. Ele foi o maior traidor que Masao já tivera. Por causa dele perdemos um terço da Vila, e essa dor nunca foi superada, mesmo depois que ele se foi.
A lembrança de que fora ele mesmo que autorizou mandar o garoto para Akai, mesmo que na época todos pensassem que lá era um calvário de lobos, que eles iriam devorá-lo.
E ele simplesmente o sacrificou como se ele tivesse alguma culpa.
Yoshikazu olhou para Nanami, e veio-lhe a necessidade de chorar, porém ele nunca faria algo assim na frente do garoto.
— Meu pai não fez isso! Ele não traiu ninguém, eu sei... Algo em mim me diz que ele era inocente! — Nanami levantou a voz batendo em seu peito. — Minha avó me contava como gentil ele era e como ele me amava. — As lágrimas vieram sem freio a correr pelo rosto pequeno de Nanami. — Eu... Eu queria encontrá-lo...
O Imperador assistiu Nanami chorar ali em frente a sua mesa, e mais arrependimento bateu-lhe friamente em seu peito. Somente olhando para Nanami, ele não poderia culpá-lo de nada. Ele tinha proibido seus filhos até mesmo de chegarem perto do garoto, como se ele fosse uma doença.
— Eu não sei aonde ele está. — Ele respondeu com sua voz quebrada. — Mas ele foi um homem muito poderoso. Ele era muito forte, e sim... Ele o amava muito. — Yoshikazu segurou Nanami quando era um bebê.
— Eu sabia... Eu vou provar! Provarei que ele não foi o culpado! Meu pai nunca faria algo assim... Eu simplesmente sei disso. — Nanami declarou para então se aproximar da mesa, enxugando grosseiramente as lágrimas e olhando diretamente nos olhos de Yoshikazu. — Eu juro!
Você não pode fazer isso... Ele é o culpado... Não me faça crer em algo impossível... Era o que a mente de Yoshikazu gritava naquele instante. Mas ele simplesmente assentiu.
— Eu... Queria me desculpar por vir tomar o seu tempo, mas eu ainda tenho mais a dizer. — Nanami colocou as mãos em seu colo e então se ajoelhou e fez a reverência em que sua cabeça tocava o chão. — Gostaria de agradecer pela oportunidade que me deu... Mesmo que não fora com boas intenções senhor, eu conheci meu marido e hoje sou muito feliz. Obrigado por ter me enviado para Akai.
O Imperador arregalou os olhos em surpresa, mas logo seu rosto foi tomado por um sorriso sincero. Ele não costumava sorrir tanto, mas aquele garoto era um caso raro. Ele fez algo que nunca pensou que faria. Se ajoelhou ao lado de Nanami e ajudou-o a erguer seu corpo, olhando nos olhos azuis celestes do mesmo, vendo o brilho de esperança neles que o fez lembrar de que ele também tinha esperanças, em algum lugar dentro dele.
— Me perdoe... — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer antes que as próprias lágrimas enchessem os seus olhos. — Eu não fui bom pra você pequeno, mas me perdoe por isso. Com certeza seus pais seriam muito orgulhosos de você se eles te vissem hoje.
Nanami chorou, e inconscientemente ele abraçou Yoshikazu como se ele fosse seu pai há muito tempo perdido.
Yoshikazu pediu sigilo sobre aquele acontecimento entre eles. Nanami ainda era visto como o filho do traidor, e estranho seria para os outros se soubessem que eles agora eram bons amigos. Mas algo dentro de Yoshikazu o fazia ter esperanças.
Continua...
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