Aka wa ai no irodesu.
3 Inesperado.
Notas iniciais
A voz da Aiko me fez parar de andar. Me virei pra ela e observei. Ela já havia levantado e batia na yukata que estava um tanto suja, se aproximando aos poucos.
— Sim? — Respondi.
— N-Não vá embora agora... Fique aqui um pouco. Onegai.
— Eu deveria? Você deveria estar com a futura rainha. É a dama de companhia dela agora. — Falei, um tanto chateado ao pensar na cena que acontecera mais cedo.
Ela suspirou e se aproximou, acabando por segurar meu pulso quando eu estava prestes a me afastar, baixando um pouco a cabeça, cerrando os dentes e acabou por sussurrar:
— Ainda sou sua melhor amiga?
— Não sei.
— Sinto sua falta. — Aquele murmúrio me preencheu. Admito que fiquei um pouco mais feliz com aquilo, mas ela ainda estava no lado da futura rainha, pelo menos, era o que eu achava.
Suspirei fundo e a olhei. Ela parecia realmente triste. E não parecia mentir quando falara aquilo. Levantei seu rosto, apoiando os dedos em seu queixo fino, acabando por me perder naqueles olhos azuis que eu tanto admirava. Lembrei-me dela pequena, do seu sorriso enquanto corríamos entre as sakuras, queria voltar aquele tempo onde era somente eu e ela. Senti a mão dela tremer em meu pulso. Ela desviou o olhar e fechou os olhos com força, deixando algumas lágrimas escaparem.
— Ei. Não chore, por favor. Eu também sinto sua falta.
— Eu me sinto tão perdida. — Ela sussurrou entre soluços baixos. O silêncio foi preenchendo o ambiente escuro e frio aos poucos enquanto eu a olhava chorar. Aquilo parecia uma tortura. Não sei por que fiz o que fiz naquele momento. Não sei bem a necessidade disso, mas eu sempre perguntei como seria beijar a Aiko-chan. E o fiz. Fechei os olhos e continuei segurando seu queixo de leve, encaixando de modo calmo os lábios aos dela.
Desde pequena a Aiko tinha uma boca pequena e os lábios um tanto carnudos. Ela também tinha uma mania de morder o lábio inferior quando estava nervosa. Naquele nervosismo que provavelmente ela sentiu enquanto nos beijávamos, ela acabou mordendo o meu lábio inferior de leve, e eu ri abafadamente daquilo.
Não tenho muito o que falar do nosso primeiro beijo. Por que também fora meu primeiro beijo. E provavelmente o dela também. Os lábios da Aiko eram quentes e macios, e ela continuava a chorar entre o beijo, coisa que eu não entendi muito.
Depois do beijo, afastamos nossos rostos e o sentimento de estranheza e felicidade tomou conta de mim. O sorriso no rosto da Aiko era o que me mantinha forte nas horas difíceis. Eu nunca esqueceria aquele sorriso e das palavras dela antes da minha partida:
— Mesmo você estando distante, eu sempre estarei com você, Akki-sama.
Não entendi o que ela quis dizer com aquilo. Parecia uma despedida. Fomos para nossos aposentos depois de tudo aquilo. Acabei não tendo sonhos naquela noite. Talvez eu até não quisesse sonhar com nada. Estava mais preocupado com o evento que aconteceria daqui a algumas horas.
No começo do dia seguinte, eu já conseguia ouvir uma música alegre vindo do jardim do palácio. Fui acordado com a luz do sol no meu rosto e com o Yun, o meu servo e também amigo, abrindo a porta e me incentivando a acordar.
— Ouji-sama! Ouji-sama! Feliz aniversário! O senhor já está bem velhinho, uh? Brincadeira. Hahah. Levante-se! O seu café da manhã já será trazido aqui. Tem treino com o senhor Hiromi hoje, certo? Precisa estar bem disposto, também temos a comemoração do casamento e do seu aniversário que acontecerá em breve.
Cocei os olhos e mostrei a língua pro Yun, que rolou os olhos e soltou uma gargalhada, murmurando “que crianção” enquanto recolhia a bagunça do quarto. Me vesti apropriadamente e fugi do café da manhã que seria servido no quarto. Corri pelas varandas vastas do palácio, procurando a minha melhor amiga em qualquer lugar.
Acabei esbarrando com a rainha quando já estava chegando no jardim. A Aiko estava com ela.
— Ah, pelos deuses! Cuidado por onde anda, garoto.
— Obrigado pelo feliz aniversário. — Ela rolou os olhos e eu ri. Mas nem ela poderia acabar com a minha alegria parcial.
— Aiko-chan.. Eu queria falar com você em particular. Sobre ontem a noite...
A futura rainha arqueou as sobrancelhas, soltando uma risada nasal de desprezo.
— Aiko-chan! Temos que ir. Você precisa me ajudar com a yukata e os enfeites para o meu cabelo. Só você consegue dar um jeitinho nesse meu cabelo rebelde e bagunçado.
Rolei os olhos e olhei para a Aiko, a puxando de leve pelo pulso, eu explodiria se não pudesse falar o que sentira na noite passada. Ela soltou o pulso e suspirou, sem nem sequer me olhar nos olhos, murmurando num tom quase inaudível:
— Eu sinto muito. — E saiu com a futura rainha, seguindo para o jardim. Bufei. Eu odiava ver a Aiko tão submissa daquele modo, eu sabia que ela não era assim, ela mesma sabia.
O Hiromi se projetou do meu lado e riu, já perguntando:
— O que aconteceu na noite passada? — Eu consegui sorrir e brincar com ele, dizendo:
— Você tem que parar de escutar as conversas alheias.
— Vossa Alteza Real, quer fazer o maldito favor de me dizer o que aconteceu? Eu estou morrendo de curiosidade aqui.
— Eu a beijei.
— Mentira.
— Não chame o príncipe de mentiroso.
— Isso é sério? — A essa altura, já estávamos caminhando para o lugar de costume onde treinávamos diariamente.
— Acha que eu brincaria com uma coisa dessas?
— Isso é bom! Digo, você sente algo a mais por ela, não sente! Vossa Alteza, é isso ai. Tomando atitudes e conquistando a garota, gostei de ver. Agora me conte, como foi o beijo?
— Molhado. Digo, por que ela estava chorando. Mas foi bom, pra um primeiro beijo.
— Foi o seu primeiro beijo?! Com dezoito anos? Caramba. O meu foi com onze.
— E onde está essa garota que você beijou?
— Não sei, provavelmente casada com um vagabundo qualquer.
Gargalhei e lhe dei uma tapinha no ombro. O treino fora leve naquela tarde por que tínhamos eventos a comparecer mais tarde. E eu estava bem mais ansioso pelas comidas que serviriam no banquete de comemoração do que no casamento idiota do meu pai com aquela mulher idiota.
Meu pai havia me presenteado com uma yukata azul escura feita de um material maravilhoso, eu conseguia me mover perfeitamente na yukata, parecia até que estava sem roupas, devido a leveza da yukata. A vesti antes de sair do quarto e seguir com o Hiromi que estava na sua melhor yukata formal para o casamento.
— Isso vai ser uma chatice,
— Concordo. — Respondi baixo antes de seguir para o jardim. Havia muita gente aguardando o começo do casamento. Mas só uma pessoa era meu foco em meio de tantas pessoas, a Aiko. Ela estava com uma linda yukata vermelha que eu nunca havia visto antes, e no cabelo rosa, uns enfeites que conseguiam deixá-la mais bonita do que ela já era.
A futura rainha, cuja qual o nome era Yukari, e eu detesto admitir o que irei dizer agora, estava extremamente bonita. Porém era um bonito forçado, não sei bem explicar. Ela usava uma yukata branca e comprida, que se encaixara bem nela, e tinha uma trança no cabelo que chegava até o meio das costas o que tinha dado um certo realce aos seus olhos. No casamento, estavam todas as pessoas importantes.
Alguns reis que conseguiram vir, até mesmo de reinos distantes. Generais, rainhas e príncipes. Pessoas selecionadas pela futura rainha. Num momento de distração minha, eu havia parado de olhar para a Aiko, quando olhei novamente, o servo que a trazera aqui quando acontecera o grande desastre em seu reino, sussurrava algo que parecia ser importante em seu ouvido, e ela imediatamente, desapareceu entre as pessoas que prestavam atenção a cerimônia do casamento.
Achei que era algo que eles precisavam conversar, mas o problema foi que eu não a vi na comemoração seguinte, que foi meu aniversário. Nem no banquete. As pessoas já estavam começando a comentar sobre e até a nova rainha, estava um tanto preocupada.
Minutos depois do banquete, quando todos bebiam e conversavam, um servo do palácio chegara ofegante na grande sala onde todos se encontravam, se aproximando do meu pai.
— Majestade, eu queria lhe informar que a senhorita Aiko, dama de companhia da rainha, fugiu há algumas horas com o servo que a trouxe aqui quando o grande desastre aconteceu em Heian, eles roubaram um cavalo e não deixaram pistas.
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