Air Traffic

3 Alguns caballitos depois...


Notas iniciais
O capítulo anterior estava bem chato, mas espero que esse esteja um pouco melhor... Pelo menos mereço um adesivo de #YouTried ou nem isso?

Minha chegada ao primeiro dia de aula na Bruntcliffe School não é exatamente como eu havia planejado. É claro que eu não me importaria de receber um pouquinho de atenção – principalmente de seres do sexo oposto, se não for pedir demais –, mas por outro motivo que não fosse o fato de eu ser a única da escola sem uniforme.

Como eu ia adivinhar que é obrigatório usar calça jeans escura, blusa branca padronizada da escola, que tem um colarinho, e suéter azul escuro? Como se não bastasse estar sem uniforme, ao chegar lá, eu percebo que minha situação está pior. Isso porque eu chego lá de calça legging preta, sobretudo rosa claro e botas sem salto (x).

Acredite, isso não é uma roupa arrumada demais para ir à escola, apesar de parecer. Por outro lado, foi uma escolha muito errada para essa escola. Se eu estivesse em Baltimore, isso seria apenas uma garota normal numa escola normal.

Na primeira aula, de biologia, o professor faz questão de chamar mais atenção ainda para mim, como se atravessar os corredores vestida diferente de todo mundo não tivesse sido o suficiente. Ele observa a classe inteira e conclui que eu sou a única aluna nova.

– Seja bem vinda a Bruntcliffe School – ele diz, sorrindo simpaticamente, apesar de eu ter a leve impressão de que esse sorriso é só fachada para o F- que ele vai me dar esse ano. – Como você se chama?

– Samantha – eu percebo que ele está procurando meu nome no que parece uma lista de chamada, então acrescento: – Hm, Samantha Harris.

– Você não é daqui, Samantha – eu não consigo identificar se é uma afirmação ou uma interrogação.

– Intercambista – explico. – Estados Unidos.

– Ah! – o professor exclama, num tom de "eu devia ter imaginado". – Enfim, boa sorte.

Então ele começa a dar aula, e eu perco mais da metade dela observando a classe. Não vou negar uma pontinha de felicidade que sinto ao ver que há muito mais garotos do que garotas – não ter tanta concorrência é motivo de comemoração. Há um grupo de três garotas tão metidas que parecem três cópias da Rachel McAdams em Meninas Malvadas. Sobre o resto das garotas, nada de relevante. Já os garotos... Digamos que a qualidade aqui é mais que boa. Toda a turma parece um enorme grupo de pessoas legais e sociáveis – tirando as três loiríssimas –, ou pelo menos um enorme grupo de pessoas com quem eu vou gostar de socializar.

Ao fim da aula, um inspetor do colégio me aborda, e pergunta sobre minha falta de uniforme. Eu explico o mesmo que falei ao professor de biologia; ele me diz onde é a loja da escola e avisa para eu arranjar o uniforme correto até amanhã.

No intervalo entre o segundo e o terceiro horário, me deparo com um garoto ao pegar meu material no armário quase vazio. Por ironia do destino, é um dos que eu classifiquei mentalmente como "cara de galinha" ao observar a turma de biologia. Suas sobrancelhas arqueadas e boca larga me permitem concluir que ele é daquele tipo que sorri 24h por dia, e eu preciso admitir que tenho com um certo fraco por garotos sorridentes. Ele está encostado na fileira de armários, com os tornozelos cruzados. Quando eu me aproximo do armário, tentando não encará-lo, vejo-o discretamente passando a mão pelo cabelo. Esse vício dos garotos de cabelo bagunçado é tão charmoso.

– Samantha? – ele chama como se estivesse testando meu nome.

– Alguém prestou atenção no começo da aula – digo, sem graça.

– Sempre é bom conhecer os alunos novos – o sotaque britânico dele me dá uma vontade enorme de tentar imitá-lo. – Veio de onde, Sam? Ahn, posso te chamar de Sam?

– Estados Unidos – eu faço que sim com a cabeça, respondendo a segunda pergunta. Todo mundo me chama de Sam. Ele dá uma risadinha.

– Qual dos estados, foi o que eu quis dizer – ele se corrige.

– Ah, Maryland – digo, olhando nos olhos verdes dele. – Você sabe meu nome, mas eu não sei o seu.

– Michael – ele sorri ao dizer o próprio nome, parecendo orgulhoso de ter nascido. – Ou somente Mike.

Eu só sorrio, porque não sei mais o que dizer. Mike é a prova viva de que é possível ficar bonito mesmo com esse uniforme. Ele arqueia ainda mais as sobrancelhas, num olhar convidativo e irresistível.

– Sexta-feira, 10h da noite, no HiFi. Boa parte da escola vai estar lá. Topa?

Ui! Direto ao ponto, sem muita enrolação. Gostei.

– Por que não? – sussurrei, não tentando dar em cima dele de propósito, porém fazendo isso sem perceber.

Ele dá um sorriso estilo "missão cumprida", acena para mim ao terminar de pegar o material em seu armário – que fica três portas distante do meu – e vai para a aula. A primeira pessoa da minha idade que falou comigo já me convidou para algum lugar; das duas uma: ou ingleses tem uma certa queda por estadunidenses, ou acham que somos fáceis. Tomara que seja a primeira; se for a segunda, ele está se iludindo.

Ao escutar o sinal que indica o fim da última aula do dia, eu passo na loja e compro as peças do uniforme. Até que não é tão mau assim, mesmo que eu fique parecendo estudante de um colégio interno só para garotas. Por outro lado, podia ser pior: se eu tivesse que usar saia e meias até o joelho.

Nada muito relevante acontece durante a semana, além de eu descobrir que os ingleses são meio curiosos em relação aos Estados Unidos. Todos eles me fazem várias perguntas, sobre como é ter um presidente ao invés de uma rainha (quem liga para isso?!); perguntam-me qual é meu time de futebol, e ficam pasmos quando eu digo que detesto futebol e só gosto de basquete. Como se não bastasse, um loirinho diz que vai me convencer a gostar do Leeds United, um time de futebol daqui.

A sexta-feira finalmente chega, e o tempo muda bastante durante a semana. Segunda-feira estava super frio, considerando que estamos no verão, e agora já está mais fresco (dizer que está "quente" seria forçar a barra). Quando a noite cai, eu começo a me arrumar para sair. Eu perguntei para uma garota da escola o que é HiFi, e ela me explicou que é um clube noturno bem frequentado pelos estudantes da Bruntcliffe.

Ao chegar lá – de táxi, obviamente, já sabendo que eu vou beber –, me surpreendo com a qualidade do local. O ambiente tem vários pufes e sofás espalhados ao redor de um espaço usado como pista de dança. O bar é imenso e convidativo, e há uma escada para o segundo piso. Já está lotado, mas eu facilmente encontro Mike, encostado no bar junto com várias outras pessoas, algumas que eu já vi antes, outras não. Ele está de calça jeans e camisa social azul escura, e fica meio chocado ao me ver.

– Você está realmente com esse frio todo? – pergunta.

– Não – respondo.

Eu tiro o sobretudo preto gigante, mostrando que estou vestindo um short todo coberto de paetês dourados, blusa preta de tecido e sneakers pretos (x).

– Wow – os olhos de Mike escorregam para as minhas pernas, um segundo antes de ele voltar a olhar para o meu rosto. – O que você quer beber?

– Não bebo álcool – minto, tentando parecer convincente. – Tem coca-cola?

Ele levanta as sobrancelhas, incrédulo, como se estivesse perguntando com o olhar se eu estou falando sério.

– Brincadeira! Uma dose de tequila para começar?

Ele expira, aliviado, e abre um sorriso.

– Você quase me enganou – ele se vira para o bar e chama o barman. – Duas de tequila, por favor.

Nós fazemos um brinde ridículo com os caballitos e viramos tudo de uma vez. A aguardente queima minha garganta ao descer, mesmo que eu já esteja acostumada. Nós nos aproximamos do grupo de amigos de Mike.

– Você é aquela intercambista que veio dos Estados Unidos? – pergunta um garoto moreno segurando um copo de whisky.

– Eu mesma! – respondo.

– Sam, esses são Austin, Andrew, Robert, Lucy, Paige e Taylor – ele aponta para seus amigos, um por um, começando pelo que acabou de falar comigo, e terminando nessa garota que é da minha classe de química.

– Ah, oi, meu nome é Sam – eu me apresento a eles, animada.

O que se chama Robert aponta para Mike e denuncia, nada discreto:

– Nós sabemos. Ele falou.

– O que mais ele falou? – eu fico curiosa.

– Você é bonita – diz Paige.

– Obrigada!

– Não, foi o que ele disse – ela começa a rir, mas então se desculpa: – Eu não quis dizer que você não é--

– Já entendi, tudo bem – digo, constrangida, rindo junto com ela.

– Vocês aceitam um whisky? – pergunta Andrew, pronto para fazer o pedido ao barman.

– Não gosto de misturar – Mike recusa.

– Muito menos com tequila – acrescento, me virando para o balcão. – Mais duas doses de tequila, por favor!

Conforme vamos conversando, Mike vai me oferecendo mais doses da bebida. Três, quatro, cinco, seis, os números que vem depois do seis... E ele consegue me convencer a ir para a pista de dança. Nós dançamos juntos, animadinhos demais, empolgados demais, razoavelmente bêbados, e ele envolve minha cintura com os braços. A esse ponto, eu já esqueço os nomes dos amigos deles, mas reparo que alguns deles arranjaram alguém para promover seu entretenimento durante a noite, se é que você me entende.

Eu começo a ficar tonta e afetada demais pela mistura de álcool e dança – nunca gostei muito de dançar, só bêbada mesmo –, e acho melhor sair da pista antes que fique ridículo. Mike me conduz, segurando-me pela mão, até um dos poucos sofás vazios. Ao invés de sentar ao seu lado, sou puxada pela cintura para o colo dele. Sem perder tempo, Mike leva uma das mãos à minha nuca e pressiona os lábios contra os meus. Eu pretendia resistir por mais tempo, mas, na hora, não consigo. Eu já sou fraca quando sóbria; depois dessa quantidade de tequila, fico soltinha, soltinha.

Felizmente, me resta dignidade para afastar sua mão quando ele encosta bem perto da minha bunda, mas isso não o para. Mike me agarra com tanta força que chega a puxar levemente meu cabelo ao beijar meu pescoço, o que me leva a implorar mentalmente para não acabar com alguma marca no pescoço. O que os anfitriões vão pensar se eu chegar da minha primeira noite fora já com uma marca no pescoço? Ao levantar a mão, passando-a pelo meu quadril, ele acha que eu não vou perceber quando ele levanta discretamente minha blusa, deixando minha cintura à mostra.

– Vai com calma, Mike – murmuro, ofegante, entre um beijo e outro, tirando uma das mãos das costas dele para ajeitar minha blusa.

– Calma para que? – ele responde, acariciando meu pescoço com os lábios.

Nossa, que garoto imparável! E o pior é que eu estou gostando, mas não posso deixa-lo continuar assim. Estamos no meio do clube, cheio de gente em volta, apesar de tudo estar parecendo mais animado e barulhento por causa do álcool. Tequila é meu ponto fraco – e acredito que seja também o de qualquer pessoa de 17 anos –, ela me atinge de modo que me deixa sem sentido – não literalmente, porque eu estou sentindo muito bem a mão de Mike apalpando a minha coxa.

– Porque não estamos em casa, Mike – eu tento me afastar um pouco dele, mas além de estar tonta, seu braço segurando minha cintura não colabora.

– Isso não é problema – ele começa a beijar meu ombro e abaixo do meu pescoço. Mike está mais bêbado e pior do que eu. – Na sua casa ou na minha? Estou de carro.

Eu tiro meus braços do pescoço dele e escorrego para trás no sofá, tentando soltá-lo de mim. Não consigo raciocinar direito, tudo que ele diz leva séculos para ser processado pelo meu cérebro, e eu não consigo tomar decisões direito, não estou apta a escolher o que eu quero e deixar isso claro para ele. Mas eu sei de duas coisas: ele quer me levar para a cama, e eu não vou fazer mais nada com ele nesse estado de embriaguez. Por mais que eu queira, eu bebi mais do que devia – e agora está explicado o motivo de ele ter me pagado tantas doses de tequila, logo tequila! – e eu não posso nem garantir se lembrarei disso quando acordar amanhã.

Por outro lado, não é tão fácil resistir. Ele é sedutor, beija muito bem, e agora só me resta agradecer por ainda estar consciente dos meus atos; caso contrário, ele conseguiria o que quer. Mas hoje não é o dia dele.

– Não, Mike, me solta – eu o ouço bufando, impaciente, quando levanto do sofá.

Eu ajeito minha roupa e meu cabelo, indo até a mesa onde deixamos nossas coisas. Pego meu sobretudo e dou de cara com Mike ao me virar.

– O que você tem, Sam? – ele pergunta, irritado, mas eu nem respondo. – Não vai nem me dar seu número?

– Não – digo, na lata.

Minha mão perde o rumo ao tentar pendurar a alça da minha bolsa no ombro, e ela cai no chão. Mike imediatamente se abaixa pega.

– Por quê? – ele fica indignado com minha negação, e me entrega a bolsa.

– Porque você só pensa em sexo e está muito bêbado – graças ao álcool, eu estou ainda mais sincera e direta.

Mike me encara, incrédulo, mas então sacode a cabeça, aparentando não ser compreendido o que eu disse.

– Eu te levo em casa então – ele delira.

– Você é maluco? Olha seu estado, vai ser preso até se dirigir um carrinho de plástico! Você não vai para casa dirigindo, vai?

Ele perde a paciência e desiste de mim.

– E você por acaso se importa?

– Faça o que você quiser, é problema seu – eu quase grito, antes de sair do clube e pegar um táxi. É uma surpresa eu conseguir me lembrar do endereço.

Notas finais
Essa personagem é a primeira protagonista que eu escrevo que é tão diferente de mim. Acho válido lembrar que eu não bebo feito a Sam, aliás, eu nunca bebi. E sim, eu pesquisei no Google para descobrir que caballito é o nome do copo onde se bebe tequila! Enfim, espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.