Ainda é cedo.
1 Capítulo 1 - Samuel, Manuel e Eduarda
Notas iniciais
Manuela
Minha mãe não queria me largar por nada nesse mundo.
-Mãe, tá bom, chega... Eu preciso embarcar...
Minha blusa já estava marcada com as lágrimas dela. Uma fila se formava ao nosso lado. Eu precisava embarcar e minha mãe já tinha feito milhares de recomendações, principalmente "volte com a mesma quantidade que vai!". Isso ela já repetiu umas 30 vezes... O medo dela de virar avó era indiscutível.
Desde bem pequena, sempre soube a faculdade que queria fazer: medicina. Foram anos me preparando e me dedicando. O único hobbie que ainda me permitia durante o ensino médio era a dança, que conseguia me acalmar quando me sentia sobrecarregada. No tamanho desespero para passar em um vestibular super concorrido, acabei me inscrevendo em mais de 15 universidades. Consegui passar em seis, e nenhuma na minha cidade. Sem condição de manter uma mensalidade numa universidade particular na minha cidade, a única solução era me mudar. Não tínhamos mais condição de manter cursinhos e materiais de estudo, então colocando na ponta do lápis, me mudar saía ainda mais em conta. Além de que, nada garantiria uma aprovação novamente.
Tenho uma irmã que está morando longe por causa do trabalho e um meio irmão. Na verdade, ele é um primo que mora com a gente desde sempre. Assim que os resultados saíram, tratamos de começar a arrumar as coisas para minha mudança pois a vaga não fica esperando pelo aprovado. Pesquisei qual delas era a melhor e acabei escolhendo uma. Procurei algum apartamento que coubesse no meu orçamento, e não achei nenhum. Por sorte, o Sam se lembrou de uma amiga que morava sozinha. Ele ligou e ela disse que desde que eu contribuísse com as contas, estava tudo bem. Não me animei muito com a ideia de dividir apartamento com alguém que não conhecia, mas era isso ou perder minha vaga.
No grande dia, acordei, tomei um banho e vesti a roupa que já estava separada em cima da mala, já trancada. Eu só teria que levar minhas roupas mesmo. Dei a última olhada no quarto e meus olhos encheram. Eu não sabia quando veria minha casa novamente.
- Ta dando uma de menininha, Manu?
Levei um susto com o Sam. Olhei com deboche e dei um murro de leve no seu braço.
- Muito engraçado! Agora anda, coloca no carro pra mim.
Ele riu e pegou minha mala. Seguimos para o carro com minha mãe, que não disse uma palavra o caminho inteiro, enquanto eu e Sam cantávamos em plenos pulmões as músicas que tocavam no rádio, como se não fosse sete da manhã.
Meu voo saía em duas horas, e por todo esse tempo minha mãe não se acalmou. Falou mil coisas, chorou, deu bronca... Uma das filhas já tinha ido para longe, e a outra estava indo agora. Meu pai havia falecido há uns anos já. O Sam morava com a gente desde pequeno, era realmente meu irmão. Eu sabia que por ela, eu nunca iria embora. Era sua caçula. Mas ela sabia que era meu sonho e não tinha coragem de me impedir de segui-lo.
Faltavam quinze minutos para o embarque e minha mãe já estava em pânico. Repetia as mesmas recomendações de forma descontrolada e me abraçava com medo de me perder.
-Mãe, tá tudo bem... Eu volto nas férias, e ligo sempre, prometo.
-Liga nada, Manuela! Eu nem vou me iludir com essa promessa sua porque se nem em casa você tem a coragem de me dar satisfação, imagine em outro estado!
10 minutos.
- Se alguma coisa acontecer, pode voltar para casa, entendeu, Manuela?! E não quero saber de você fazendo nada de errado, você está indo pra estudar, e só! E fica esperta, uma garota como você nova na cidade... Não se deixa levar pelos espertinhos viu!
O mesmo papo de "não volte grávida".
-Mãe, fica tranquila, sei me cuidar...
Ela me olhou como se dissesse "ah sabe mesmo viu".
Cinco minutos.
- E arranje um emprego bom por lá, não te coloquei naquele curso de inglês pra você fazer qualquer coisa. Mas sem atrapalhar a faculdade! E me liga quando chegar. E me liga sempre, se não apareço por lá, e sei que não vai querer isso. Vou te passar o que puder mas você sabe que não é muito dinheiro... Então juizo viu!
Ela me largou e secou as lágrimas. Me olhou dos pés a cabeça e acenou a cabeça em negativa. Sabia que ela ia falar dos meus tênis.
-Não acredito que veio com essa porcaria... No mínimo tinha que ter lavado!
Eu apenas dei um sorrisinho, sabendo que iria sentir falta da sua implicância com meu all star quase sempre sujo.
Dois minutos.
Ela me olhou novamente. Dessa vez não havia crítica em seu olhar. Ficou na pontinha dos pés e me deu um beijo entre os cabelos.
-Te amo filha, fique bem.
Foi a minha vez de chorar agora.
-Também te amo mãe, por favor, se cuide!
Ela fez sim com a cabeça e virou as costas pra mim. Coitada da minha mãe... Eu sabia que ela morreria de chorar agora, da mesma forma que fez com minha irmã. Mas jamais admitiria.
Sequei a lágrima que desceu e olhei para o Sam. Ele não falava nada com minha mãe por perto, mas parecia meio agitado. Esboçava um sorriso de canto de boca, me olhando com ternura. Sam não era nada do que aparentava, assim como eu. Era alto, forte, tinha o corte sempre certo e um sorriso de arrancar suspiros de qualquer uma. Já havia passado muita raiva por causa daquele sorriso. Eram tantas menininhas atrás dele batendo no nosso portão que me enchia o saco. O que não era de todo ruim porque ele não valia o perfume que usava, então pelo menos não iludia ninguém. Crescemos juntos e sempre nos protegemos e por isso eu sabia que ele não era nem um pouco durão como ele tentava aparentar.
Ele se desencostou da pilastra e arregaçou as mangas da blusa.
-Vou sentir sua falta.
Foi a única coisa que saiu da minha boca.
-Que droga Manu...
Ele xingou baixinho e me puxou para um daqueles abraços de urso. Comecei a chorar de verdade enquanto ele fazia carinho na minha cabeça. Escondi meu rosto no seu peito e respirei fundo. Sabia que ele também estava chorando, mesmo que tentasse controlar.
Meu voo foi anunciado. Estava na hora.
-Cuida dela pra mim, ta? Fica de olho se ela vai tomar os remédios ou só te enganar, e se ela der outra crise...
-Eu dou conta dela, relaxa...
Nos soltamos e eu peguei minha bagagem de mão no carrinho.
Ele me deu um beijo na testa e eu fui. Não pude evitar olhar para trás uma última vez, ele ainda estava lá parado, e acenou com o celular na mão. Na mesma hora, senti o celular vibrar no bolso. No caminho para a aeronave, abri o torpedo.
"Por favor, não me odeie quando chegar lá".
Do que raios ele estava falando?
Eu não tinha ideia, mas tinha medo de descobrir quando chegasse.
O voo foi bem tranquilo. A tal amiga que dividiria apartamento comigo ia me buscar no aeroporto. Sempre quis ver meu nome em uma daquelas plaquinhas, com alguém me esperando no desembarque. Eu sei, idiota, mas não tenho culpa! Eu tinha viajado poucas vezes e agora estava sozinha. Era o momento de realizar pequenos desejos.
Minha mala foi uma das últimas a chegar, então quando saí não tinha muita gente esperando no desembarque. Algumas famílias se abraçavam calorosas, alguns caras engoliam o rosto das namoradas, uns ou outros sozinhos segurando as benditas plaquinhas. Procurei alguma garota sozinha mas não encontrei nenhuma. Apoiei minha mala com a bagagem de mão, coloquei minha bolsa no ombro e tirei o cachecol colorido que usava, ainda olhando em volta procurando meu nome. Nenhum sinal.
Me encostei na parede e esperei. Ela devia estar atrasada. Enviei uma mensagem para o Sam e para minha mãe avisando que já tinha chegado e que estava tudo bem.
Dez minutos passaram e nada. Não havia mais ninguém além de um casal ainda se engolindo e um cara no telefone. Ele segurava um papel já meio amassado numa falha tentativa de plaquinha.
-Suzy, tem certeza que você anotou o voo certo que ele chegava?
O nome Suzy me chamou atenção. Me inclinei um pouco e consegui ler a placa amassada: "Sam/Manu".
Sam? Manu?
Agarrei o puxador da minha mala e praticamente corri até o garoto, que me olhou assustado.
-Depois te ligo, Suzy.
-Você tá esperando alguém?
Ele mostrou o projeto de plaquinha como se eu fosse idiota por perguntar.
-Você conhece essa pessoa que tá esperando?
-Não, moça esquisita. E por mais que não seja da sua conta, tô esperando meu novo parceiro de apartamento, então não tenho tempo de ficar aqui conversando com você.
Qual era o nome da menina do apartamento mesmo? Sueli... Sandra... Suzana!
-Conhece a Suzana?
Ele fechou a cara.
-O que quer com a Suzy?
-Sou a nova parceira de apartamento dela.
Ele riu alto. Engraçado, eu não via graça alguma.
-Deve haver um engano, moça... — ele parou de rir quando viu que não reagi. Então, fechou a cara — Eu moro no apartamento da Suzana, e quem viria dividir apartamento comigo era um cara.
-Bem, pelo que vejo na sua plaquinha, MEU nome ta ai!
-Você é o Sam?
-Não, eu sou A Manu!
-Espera, você é uma garota!
-Sério que reparou isso agora?
-Deve ser um engano... — ele virou nervoso discando um número no telefone.
Virei as costas e peguei meu celular para tentar entender o que estava acontecendo.
-Alô?
-Por favor, me diga que isso é uma pegadinha! Cadê a Suzana?
-Pelo visto acabou de conhecer seu novo parceiro de apartamento.
-Sam, não tem graça.
E foi aí que ele me explicou. A Suzana estava viajando fazendo intercâmbio há mais de quatro meses e quem estava morando no apartamento dela era seu irmão, o bendito dito cujo que eu havia acabado de conhecer. Ele tinha explicado tudo pra Suzy, e ela ligou para o irmão avisando que ele não iria mais ficar sozinho no apartamento, que um cara – Sam ou Manu – iria dividir a casa com ele.
-Desde quando eu sou um cara?
-Ela me disse que ele não ia aceitar se fosse uma garota.
-E por que não me contou?
-Pelo mesmo motivo que ele não ia aceitar uma menina! Você iria querer se eu falasse que ia dividir com um cara? Acredite, eu te conheço o bastante pra saber que não.
Ele tinha razão...
Ele respirou fundo, o que fazia quando estava impaciente. Eu até podia imaginar ele sentado passando as mãos pelos cabelos. Olhei para o tal cara, ele também discutia no telefone.
-Escuta Manu: me desculpa, ok? Mas era a única forma de você ir. Sempre te ouvi dizer o quanto queria isso... E não era uma vaga em um apartamento que ia te impedir. Você sabe que a gente não ia conseguir manter um apartamento só para você e dividir com uma pessoa totalmente desconhecida não era a melhor das opções também. Ele deve ser um cara legal se for metade do que a Suzy é. Eu não teria te colocado nisso se achasse que era perigoso. Será que dá pra tentar pelo menos? Nem que seja só por um tempo... Seis meses ok? Pra você pelo menos fazer o primeiro semestre da faculdade... Se for tão ruim assim, eu juro que arranjo dinheiro e te pago um apartamento pra ficar sozinha. O primeiro semestre vai ser corrido pra você, nem vai precisar conviver com ele.
Entortei a boca em recusa. Eu tinha escolha?
-Jura?
-Juro de mindinho. Eu não te deixaria ficar com alguém que fosse arriscado para sua segurança.
Acabei deixando um sorriso escapar. Qual a chance de acontecer algo assim? Olhei para trás, o cara parecia nervoso, mas já havia desligado o telefone.
-Tenho que desligar...
-Espera! – ele praticamente gritou – Se ele bancar o engraçadinho com você...
-Cala a boca!
Então eu desliguei. Respirei fundo e me virei. Ele parecia tão furioso quanto eu...
-Acho que nem eu nem você temos escolha, ok? Começamos errado – parei de frente para ele e estendi a mão – Prazer, Manuela.
Ele enfim levantou a cabeça, tinha um sorriso de canto de boca, debochando da situação.
-Prazer, Eduardo.
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