É do nada que a tristeza chega até a mim, um frio imensurável no peito, uma dor pior que o da barriga. Eu a carrego todos os dias e tenho certeza que ela nunca irá me deixar, pelo contrário, ela fará parte de mim. Como o meu nariz, meus tornozelos e minha boca fazem parte do meu corpo.
Meu velho disse hoje mais uma vez que sou muito forte por aguentá-la e eu devo ser mesmo, mas percebo que sou é criativa. A cada dia tento lidar com ela de formas diferentes. No início era tudo um meio de tirá-la de mim; passei a fazer terapias, passei a tomar remédios e me adaptar, passei a caminhar e ganhei de minha mãe um livro de autoajuda.
Eu vejo o quanto meus pais me querem me ver feliz, minhas irmãs idem. Mas pra onde vai todo esse amor? Todo esse apoio? Por que mesmo com todo o amor do mundo eu não me curo?
"Ainda que eu falasse a língua dos anjos..." é o que se passa na minha mente.
Conforme o tempo, eu aceitei a tristeza morar no meu coração, eu prometi a mim mesma lidar com ela no dia a dia. Ainda que falasse a língua dos anjos, sem sair da caverna de nada adiantaria. Foi o que entendi durante meus anos sabáticos (meu velho quem me disse isso, ele disse que estava no meu ano sabático, seria um ano de reflexão).
Caverna poderia ser traumas ou até sem vergonhice por ter se acomodado como dependente. Mas fora da caverna, eu tenho certeza que seria a expressão, além da luz do sol e um riacho envolvido por um jardim com borboletas e arco-íris.
Como eu disse, sou criativa e passei a me expressar no dia a dia a dor que sinto. Vivi por muito tempo me autocensurando, pessoa que sente vergonha de ouvir música na frente dos outros, não deve bater mesmo bem da cabeça. Mas um dia me permiti a gostar das coisas. Eu nunca li o livro de autoajuda da minha mãe, mas não precisei porque li quadrinhos que me mostraram o que era orgulho. Assim como eu li O Apanhador no Campo de Centeio e chorei muito por ver que alguém pensava como eu.
É uma droga se sentir só e é uma maravilha saber que alguém enxerga o mundo como você. Ninguém nunca me mostrou isso, só encontrei gente como eu nos livros e histórias.
Contudo, eu voltei a desenhar antes de voltar a ler, me expressar em desenhos é o que há de melhor em mim.
No entanto, eu tenho uma lembrança desagradável de uma professora ter ficado aborrecida com minha redação e ela corrigiu comigo ao lado. Resolveu muito brava que eu desenhasse para o projeto "já era pra eu ter te mandado fazer isso desde o início".
Isso foi doloroso (claro, lembro até hoje), eu pensei que só servia para desenhar e nunca escrever.
Atualmente tenho lidado com a tristeza por meio da escrita, esse é um grande desafio, porque ao contrário das outras expressões que nunca fui julgada, escrever me faz lembrar de todas as vezes que falhei. Eu não tive aula de português na segunda metade do ensino fundamental e no ensino médio.
Agora imagina o seu coração gerar palpitações que na verdade é a tristeza lhe dando chutes, como um bebê na barriga da mãe, reclamando por mais espaço. Eu precisava falar, eu tinha muito o que falar e ilustrar não estava dando conta.
Percebi que o pouco não me sustentava, eu precisava sair da caverna e eu sei que ela ainda estará no meu coração. Mas eu tenho a arte ao meu lado também. Música, cinema, quadrinhos, livros são o que me sustentam. E a escrita também. Se expressar é maravilhoso e a tristeza agradece.
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