A xícara de chá que Charlotte tinha em mãos foi-se ao chão em fração de segundos. Se houvesse alguém ao seu lado naquele exato momento, ela pediria gentilmente que a beliscasse para certificar-se de que não estava sonhando. Um sentimento de alívio atingiu, subitamente, seu peito. Elisabeta, com seu jeito espontâneo e descontraído de sempre, gritou em alto e bom som: “sur-pre-sa!”. A garota correu em passos rápidos até a porta, desviando-se de Darcy e abraçando Lorde Williamson com todas as suas forças.

— Calma meu bem, assim você derruba este velho homem. – Disse Lorde Williamson, após quase perder o equilíbrio. Charlotte passava as mãos carinhosamente nos cabelos do pai, que a observava com doçura no olhar.

— Desculpem-me Darcy, Elisabeta... Mal os cumprimentei. É que fui tomada pela emoção de ver meu pai. Como puderam ocultar de mim a sua volta? Isso não se faz! – Disse com a voz entrecortada, em meio a lágrimas e sorrisos. – Papai, que bom vê-lo novamente! O senhor parece... ótimo!

— Também estou imensamente feliz em revê-la minha querida. Estou de volta e, desta vez, para ficar definitivamente! – Disse, sentando-se no sofá. – O reencontro com Darcy e Elisabeth em Londres me fez rever meus conceitos, e aqui estou eu!

Charlotte estava absolutamente confusa com a situação. Entretanto, não podia ocultar sua imensa felicidade com a ideia de ter seu pai por perto novamente. Apesar da relação conturbada dos últimos tempos, ela sentia falta do seu carinho, dos seus conselhos diários. A pedido de Lorde Williamson, a moça fora poupada de saber o que havia ocorrido com ele em Londres. Darcy não gostava da ideia de ter que mentir para a irmã, principalmente por conhecer seu temperamento de detestar omissões. Mas decidira aceitar o pedido do pai. Após passarem algumas horas conversando, Lorde Williamson foi aconselhado por Elisabeta a descansar um pouco, pois, desde que chegaram de viagem, não pararam um só momento. Após acomodar o pai em um dos aposentos do andar inferior da casa, Darcy subiu até seu quarto levando consigo suas bagagens e as de Elisabeta. Ficaram só as duas cunhadas na sala. Charlotte segurou as mãos de Elisa, olhando fixamente para ela.

— Estou muito animada Charlotte, durante esses longos dias de viagem tive horas extensas de puro ócio, já que não tinha muita coisa interessante a fazer naquele navio. Porém, era exatamente nesses momentos que minha cabeça enchia-se de ideias para a nossa pesquisa do livro. – Enquanto falava, os olhos de Elisa brilhavam, e de seus lábios brotava um belo sorriso. – Mal vejo a hora de colocá-las no papel antes que escapem da memória. – Elisa ficou de pé, demonstrando entusiasmo. Charlotte tentou manter contato visual com a cunhada, mas falhou miseravelmente. Não sabia como começar, mas sabia que tinha que contar o que havia ocorrido. Sentia um pouco de remorso por não tê-la avisado antes. E estava certa de que não poderia seguir com aquele segredo por muito tempo. Elisabeta intuitivamente percebeu que Charlotte estava escondendo algo. E tratou logo de arrancar-lhe a informação.

— Oh Charlotte, eu aqui toda empolgada e você com essa carinha... Está preocupada? Por acaso tem algo a ver com seu relacionamento com Olegário?

— Não Elisa, Olegário e eu estamos indo muito bem... Só não sei como meu pai irá reagir quando se inteirar de nosso namoro. Mas, é por outra razão que estou preocupada. Por gentileza, pode me acompanhar até o escritório?

— Claro que sim... – As duas caminharam juntas até a outra sala. Elisabeta estranhou ao tocar a mão esquerda de Charlotte, que apresentava uma frieza incomum.

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Como assim Charlotte? Que absurdo é esse? Como nosso livro e pesquisa foram totalmente destruídos? – Depois de ouvir o relato de Charlotte, Elisa sentiu sua visão ficar embaçada e escurecer de repente. Os objetos ao seu redor pareciam girar. Em seguida, a moça perdera completamente os sentidos. Charlotte desesperou-se ao vê-la caída no chão. A garota começou a chamá-la insistentemente pelo nome, sem obter sucesso. Com muita pressa, Charlotte colocou uma almofada embaixo da cabeça de Elisabeta. Em seguida, correu até a sala gritando desesperadamente por Darcy, que acabara de sair do banho. Ele desceu as escadas correndo, profundamente alarmado.

— Darcy, Elisabeta está desmaiada no escritório. Por favor, fique com ela enquanto ligo para Rômulo. – Charlotte falava com a voz entrecortada, como se tivesse acabado de correr uma maratona inteira.

Sem entender nada e sem a mínima pretensão de fazer questionamentos, Darcy correu até a sala, desesperando-se ao encontrar Elisabeta inconsciente. Com bastante cuidado, ele a levou até um dos quartos próximos ao escritório. Darcy deitou Elisabeta delicadamente sobre a cama. Tocando seu rosto, suplicando-lhe que retornasse. Tirou-lhe os sapatos, tocando-lhe os pés. Poucos minutos depois, Lorde Williamson aproximou-se deles, demonstrando preocupação genuína para com a nora.

— Não dá, não consigo mais esperar Charlotte, vou até a cidade buscar Rômulo. – Disse, passando as mãos no cabelo e andando de um lado ao outro do quarto. – Já fazem mais de 20 minutos que minha esposa está desacordada. Tentamos de tudo e ela não retorna.

— Calma meu irmão! Dr. Rômulo já está a caminho. Vocês acabarão se desencontrando. Não podemos deixar que o desespero nos consuma. Sei que você está preocupado, papai e eu também estamos, mas nossa Elisa ficará bem. – Disse-lhe, tocando o ombro do irmão.

— Sim, meu filho. Sua irmã tem toda razão... Não podemos nos desesperar. Acredito que Elisabeth esteja cansada da longa viagem que fizemos. Lembre-se que, desde que regressamos, ela nos orientou que fôssemos descansar, mas não quis fazer o mesmo. Deve ter sofrido uma queda de pressão. Logo será controlada. Acalme-se por você, e por ela também. – A calma que Lorde Williamson e Charlotte tanto suplicavam só começou a dar indícios quando Rômulo passou por aquela porta. Darcy começou a fazer inúmeras perguntas ao concunhado, antes mesmo que ele começasse a examinar Elisabeta. Era nítido seu nervosismo. Rômulo aconselhou que Darcy se retirasse daquele cômodo por alguns minutos. Do contrário, seria ele quem também sofreria um possível desmaio. Com bastante relutância, Lorde Williamson conseguiu encaminhar o filho até seu quarto. Charlotte perguntou se poderia permanecer naquele cômodo, recebendo, em seguida, o consentimento de Rômulo. Apesar de preocupada, a moça demonstrava, também, calmaria. Após realizar alguns procedimentos, minutos depois Elisabeta começara a retornar, para a alegria e alívio de Charlotte. Elisa estava completamente confusa, sentindo uma forte dor de cabeça. Perguntou o que havia acontecido e por qual motivo Rômulo a fitava enigmático. Após fazer algumas perguntas adicionais à cunhada, não restavam mais dúvidas, Elisabeta era a mais nova futura mamãe do Vale do Café.

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