Ainda assim, Amar
3 Capítulo 2 - Exceções
Notas iniciais
Edward quase não foi.
Ficou dentro do carro por tempo demais, o motor desligado, as mãos apoiadas no volante como se ainda pudesse decidir que aquilo não estava acontecendo. A igreja estava iluminada, pessoas riam na entrada, vestidos claros cruzavam a escadaria como se o mundo fosse simples.
Casamentos sempre pareceram simples para quem nunca teve que aprender a sobreviver primeiro.
Ele saiu do carro antes que pudesse mudar de ideia.
O terno estava impecável. A expressão, neutra. O controle, intacto.
Esme o viu assim que ele atravessou a porta.
O abraço dela foi firme, demorado. Ele demorou um segundo a mais do que deveria para retribuir — mas retribuiu.
Carlisle apenas tocou seu ombro.
— Fico feliz que tenha vindo.
Edward inclinou a cabeça. Não sabia como explicar que também estava.
Rosalie passou por ele já pronta para entrar, perfeita demais até para parecer real.
— Pensei que você não viria.
— Eu também.
Ela segurou o olhar dele por um instante, como se aquilo bastasse.
Antes de seguir para o altar, Emmett o puxou pelo braço.
— Obrigado por estar aqui.
Edward apenas assentiu.
Não era bom com palavras que importavam.
A música começou.
A igreja silenciou.
Edward sentou-se mais ao fundo do que deveria, como se ainda precisasse de uma rota de fuga. Observava tudo como sempre fazia — à distância, analisando, organizando, controlando.
Até que o menino das alianças entrou.
Pequeno demais para o terno que vestia. O tecido sobrava nos punhos, nos ombros. As mãos seguravam a almofada com cuidado excessivo, como se o mundo dependesse daquilo.
Ele caminhava atento demais.
Responsável demais.
No meio do corredor, tropeçou.
Não caiu.
Mas o susto atravessou seu rosto — aquele segundo exato em que uma criança procura alguém com os olhos antes de decidir se pode chorar.
O ar desapareceu dos pulmões de Edward.
Rafael também tropeçava assim.
E sempre olhava para ele antes de chorar.
Como se pedisse permissão para ter medo.
A música da igreja começou a se misturar com outro som.
Um choro.
Depois silêncio.
Seco.
Irreversível.
Edward levantou-se antes que percebesse que estava de pé. Algumas pessoas olharam, mas ele já atravessava o corredor lateral, já empurrava a porta pesada, já precisava de ar.
Do lado de fora, a noite o recebeu fria.
Ele caminhou até a lateral do prédio, onde as luzes não alcançavam completamente. As sombras eram mais densas ali. Mais seguras.
Tirou um cigarro do bolso interno do paletó.
Ficou observando-o entre os dedos.
Girando-o.
Ele odiava vícios.
Odiava qualquer coisa que tirasse controle.
Mas naquela noite, precisava de algo para manter as mãos ocupadas.
Levou o cigarro aos lábios — sem acender.
— Você sabe que isso faz mal, não sabe?
A voz veio suave, sem acusação.
Ele não se virou de imediato.
Ela estava alguns passos atrás, segurando uma bandeja vazia contra o corpo. Uniforme preto do buffet. Cabelo preso de qualquer jeito. Postura firme demais para alguém que tinha passado o dia servindo mesas.
— Eu não ia fumar — ele respondeu.
— Então está usando de enfeite?
Havia leveza na pergunta.
Ele soltou um quase-suspiro.
— Odeio qualquer tipo de vício.
Ela deu um passo mais perto, ainda sem ver completamente o rosto dele por causa das sombras.
— É assim que começa. Com exceções.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Hoje eu estava abrindo uma.
Houve um pequeno silêncio.
Ela analisava a silhueta dele.
— Casamentos costumam mexer com as pessoas — comentou. — Ou deixam inquietas.
Ele virou o rosto um pouco.
A luz lateral tocou seus olhos.
Ela piscou.
Reconhecimento.
— Ah… — o entendimento atravessou sua expressão. — Você é o cara do bar.
Ele a reconheceu no mesmo instante.
Isabella.
A garota que, semanas atrás, mantivera o queixo erguido enquanto dois homens invadiam seu espaço. A garota que não pediu ajuda — mas também não recusou quando ele interveio.
— E você é a garota que trabalha demais.
Um quase sorriso apareceu no canto da boca dela.
— Eu prefiro chamar de “pagar a própria faculdade”.
Ele observou o uniforme.
— Buffet?
— Sempre que dá. Casamentos pagam melhor que clientes inconvenientes.
A simplicidade com que ela dizia aquilo não era resignação.
Era escolha.
Ela inclinou levemente o rosto.
— Você saiu no meio da cerimônia.
— Ar fresco.
— Hm.
Ela não pressionou.
Não perguntou.
Mas os olhos dela eram atentos demais para acreditar na resposta.
O som distante da música chegava abafado até ali.
— O menino quase caiu — ela comentou, com cuidado.
O corpo dele enrijeceu.
Ela percebeu.
— Ele estava nervoso — continuou suavemente. — Mas foi corajoso.
Corajoso.
Edward engoliu.
— Crianças não deveriam precisar ser corajosas.
A frase saiu baixa, quase involuntária.
E ali não havia arrogância.
Havia memória.
Bella não perguntou o porquê.
Não tentou invadir.
Apenas respondeu, igualmente baixa:
— Às vezes a gente não escolhe.
Os olhos deles se encontraram de verdade.
Sem igreja.
Sem convidados.
Sem máscaras completas.
Lá dentro, aplausos explodiram. O “sim” havia sido dito.
Bella respirou fundo.
— Acho que acabou a parte mais importante.
Ele olhou para o cigarro entre os dedos.
Amassou-o lentamente.
Jogou-o fora.
— Parabéns para o noivo — ela disse.
— Ele merece.
Ela começou a se afastar, mas virou-se antes de entrar novamente.
— Você também poderia merecer, sabia?
Ele não perguntou o quê.
Ela não explicou.
E desapareceu pelas portas iluminadas.
Edward permaneceu ali por alguns segundos.
O ar ainda frio.
O passado ainda vivo.
Mas algo estava diferente.
O aperto no peito já não era sufocante.
Talvez porque, pela primeira vez, alguém tivesse visto a fissura — e não tentado quebrá-lo por causa dela.
Ele respirou fundo.
E, contra o instinto que o guiara a vida inteira, voltou para dentro.
Não para controlar.
Não para fugir.
Mas para ficar.
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