Ainda assim, Amar

5 Capítulo 4 - Coincidências Repetidas


Notas iniciais
Por hoje e só dependendo amanhã trago mais um ou dois capítulos


Alguns dias se passaram após o encontro de Edward e Isabella no casamento e Isabella estava na sua cafeteria preferida.A cafeteria não tinha nada de especial.


Não era silenciosa como biblioteca, nem charmosa como aquelas vitrines de revista. As mesas eram irregulares, a pintura descascava perto da porta e o sino de entrada tocava alto demais toda vez que alguém entrava.


Mas era previsível.


E previsibilidade era um luxo para quem cresceu no caos.


Bella estava sentada perto da janela, três livros abertos, o caderno cheio de anotações apertadas demais — como se escrever pequeno economizasse espaço e, de alguma forma, vida.


Ela gostava daquele lugar porque ninguém a conhecia ali.


Ela era só mais uma estudante.


Não a filha negligenciada.

Não a enteada castigada.

Não a garota que saiu de casa com uma mala pequena e uma decisão grande demais.


Só Isabella.


Ela estava tão concentrada que não ouviu a porta abrir.


Só percebeu quando alguém parou ao lado da mesa.


— Está ocupado?


A voz não era alta.

Nem suave.


Era controlada.


Ela ergueu os olhos.


Levou um segundo.


Dois.


Reconhecimento veio devagar — sem igreja, sem sombras, sem cheiro de chocolate.


— Você.


Ele parecia diferente à luz da tarde. Menos rígido. Ou talvez menos protegido.


— Coincidência — ele disse.


Ela fechou o livro devagar.


— Engraçado como elas estão se repetindo.


Ele poderia ter escolhido qualquer outra mesa.


Não escolheu.


Sentou-se.


Houve silêncio.


Mas não era desconfortável. Era aquele tipo de pausa onde ninguém precisa provar nada.


O garçom trouxe um café preto para ele sem perguntar o pedido. Ele devia frequentar ali.


Bella notou.


— Você vem sempre aqui?


— Quando preciso pensar.


Ela inclinou levemente a cabeça.


— E hoje você precisa?


Ele olhou para a xícara como se a resposta estivesse ali.


— Talvez.


Ela não insistiu.


Aprendeu cedo que silêncio pode ser respeito.


Ele observou os livros espalhados.


— Anatomia.


— Você sabe ler de cabeça para baixo?


— Sei reconhecer obsessão.


Ela arqueou uma sobrancelha.


— Disciplina.


— São parecidas.


Ela quase sorriu.


Quase.


— Isabella Swan — ela disse depois de alguns minutos. — Acho que a gente pulou essa parte formal.


Ele sustentou o olhar.


Havia algo ali — como se nomes fossem mais sérios do que deveriam.


— Edward Cullen.


O sobrenome ficou no ar por um segundo.


Ela não reagiu.


Não sabia o peso que carregava.


E ele percebeu a leveza disso.


Era… estranho.


Ser só Edward.


— Então, Edward Cullen, você sempre invade mesas de estudantes ou estou recebendo tratamento especial?


O canto da boca dele se moveu.


Não foi um sorriso.


Ainda.


— Sou seletivo.


Ela empurrou discretamente um pedaço de bolo simples para o centro da mesa.


— Prove. É bom. E não tem nenhuma lembrança traumática envolvida.


Ele olhou para o bolo.


Depois para ela.


Depois, inesperadamente, pegou um pedaço pequeno.


Provou.


Fez uma expressão pensativa exagerada demais para ser séria.


— Aceitável.


Ela riu.


E foi ali.


Não alto.

Não expansivo.


Mas real.


A primeira coisa que quebrou não foi o silêncio.


Foi a rigidez.


E, sem perceber, Edward relaxou os ombros.


Só um pouco.


Mas o suficiente


Elas começaram a se repetir.


Três dias depois, ele estava saindo da livraria quando a viu sentada no chão do corredor de medicina, cercada de livros usados.


— Você vai comprar todos?


— São mais baratos assim.


Ele pegou um exemplar da pilha.


— Esse está desatualizado.


— Eu sei.


— Então por que levar?


Ela deu de ombros.


— Conhecimento antigo ainda é conhecimento.


Ele acabou pagando a diferença para que ela levasse a edição nova.


Sem anunciar.

Sem dramatizar.


Ela percebeu.


Mas não agradeceu demais.


— Considera um investimento social — ele disse.


Ela revirou os olhos.


— Você é irritante.


— Já me disseram.


Outro dia, foi no mercado pequeno da esquina.


Ela estava discutindo com o caixa porque o cartão tinha recusado por poucos reais.


Ele estava atrás na fila.


Pagou antes que ela percebesse.


Ela só notou quando o recibo veio junto com as compras.


Virou-se pronta para discutir.


— Você não pode sair por aí resolvendo coisas.


— Não estou resolvendo. Estou agilizando.


Ela tentou ficar brava.


Não conseguiu.


Porque ele não estava sendo superior.


Estava sendo… discreto.


E isso era novo para ela.

Aconteceu numa tarde chuvosa.


Eles estavam novamente na cafeteria.


Ela explicava algo sobre o coração humano com intensidade demais.


Desenhava num guardanapo.


— Tecnicamente, ele não “quebra”. Ele continua funcionando mesmo depois de trauma. Ele se adapta.


Edward observava.


— Você fala dele como se fosse uma pessoa.


— Talvez seja.


Ela continuou desenhando, concentrada, a língua levemente presa entre os dentes — completamente alheia ao mundo.


E então o guardanapo rasgou no meio do desenho.


Ela ficou olhando para o desastre por dois segundos.


Depois soltou:


— Ótimo. Nem o papel aguenta pressão.


A forma como disse — tão séria, tão frustrada — foi absurda.


E Edward riu.


Não foi contido.


Não foi controlado.


Foi inesperado.


Quente.


Surpreso.


Ela parou.


Ficou olhando.


— Você sabe que acabou de sorrir de verdade, né?


Ele ficou em silêncio.


Porque ela estava certa.


Não foi estratégia.

Não foi educação.

Não foi ironia.


Foi espontâneo.


E fazia anos que isso não acontecia.


Ele desviou o olhar, mas havia algo diferente ali.


Mais leve.


— Não se acostume — ele disse.


Ela sorriu de volta.


— Tarde demais.


E pela primeira vez desde Rafael,

desde a culpa,

desde o controle constante,


Edward Cullen não estava sobrevivendo.


Estava simplesmente… ali.


Com alguém que não exigia nada.


Só presença