Ainda assim, Amar
12 Capítulo 11 - Ainda Aqui
Notas iniciais
Bella acordou antes dele, ainda envolvida pelo calor do corpo de Edward. A cabeça repousava sobre o peito dele, e por alguns minutos ela apenas ficou ali, observando. A luz fraca da madrugada desenhava os traços do rosto dele com suavidade quase cruel. Havia algo indecentemente perfeito na forma como os cílios longos tocavam a pele enquanto ele dormia. A boca — aquela boca que Isabella estava perigosamente viciada em beijar — estava relaxada agora, sem a tensão habitual. Tudo nele parecia feito para desarmá-la.
Ela já sabia que o amava. Não era mais dúvida. Era uma certeza silenciosa, profunda — e um pouco assustadora. Porque amar daquele jeito significava poder perder. E, mesmo sentindo que ele também a amava à sua maneira intensa e protetora, havia um medo pequeno e persistente dentro dela: o medo de que um dia ele simplesmente acordasse, olhasse para ela e decidisse que já não a queria mais. Que fosse embora como tantas outras coisas tinham ido na vida dela.
Talvez por isso ela precisasse ouvir.
Talvez por isso as palavras escaparam antes que pudesse impedir.
— Você ainda está aqui — ela murmurou, quase como se estivesse confirmando algo para si mesma.
O peito dele se moveu sob o rosto dela.
Ele estava acordado.
A mão dele subiu devagar, passando pelos cabelos dela num gesto automático, protetor.
— Eu quase não contei nada pra você.
Bella ergueu o rosto, apoiando o queixo no peito dele.
— Sobre o quê?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Sobre o meu irmão.
O ar mudou. Apenas isso. Ficou mais denso.
Bella se apoiou no cotovelo, ficando acima dele.
— Rafael.
Ele assentiu.
O nome saiu da boca dela com cuidado, como algo frágil.
Edward encarou o teto por alguns segundos antes de começar.
— Eu tinha quatro anos quando ainda era… bom.
Ela franziu levemente a testa.
— Bom?
— A casa era um trailer velho. Pequeno. Mas era limpo. Minha mãe mantinha tudo organizado. Eu lembro do cheiro de sabão nas roupas. Lembro do Rafael correndo atrás de mim dentro daquele espaço minúsculo como se fosse um palácio.
A voz dele não estava quebrada. Estava distante.
— Ele era dois anos mais novo. Me seguia pra todo lado. Se eu pegava um copo d’água, ele queria também. Se eu saía pra brincar, ele ia atrás.
Bella permaneceu quieta.
— Quando eu estava pra fazer cinco anos, minha mãe conheceu o Travis.
O nome saiu duro.
— No começo eu não entendi. Depois… eu entendi rápido demais.
Ele respirou fundo.
— A casa ficou suja. Cheia de rato. Barata. A comida começou a faltar. Minha mãe não acordava direito. Eu já sabia procurar comida na vizinhança com seis anos.
O peito de Bella apertou.
— No dia que aconteceu, o Rafael estava chorando de fome. Eu saí pra tentar arrumar alguma coisa. Não consegui. Quando voltei… o Travis estava lá.
A mandíbula dele endureceu.
— Minha mãe estava na poltrona, com uma agulha no braço. Ele mandou eu calar o Rafael.
Bella segurou a mão dele com força.
— Eu tentei. Eu tentei de tudo. Mas ele estava com fome.
A respiração dele falhou pela primeira vez.
— O Travis me jogou contra a parede. Depois foi até o Rafael.
O silêncio ficou pesado entre eles.
— Eu não entendi que ele estava morrendo. Eu achava que ele ia acordar. Fiquei ali com ele. Três dias.
A voz saiu quase sem som.
— Três dias ao lado do corpo do meu irmão. Sem comer. Sem beber. Esperando ele levantar.
Os olhos de Bella arderam.
— Minha mãe só chamou a polícia quando acordou.
Edward fechou os olhos.
— Eu tinha seis anos. E a única coisa que eu consigo lembrar com clareza é que eu devia ter feito mais.
— Você era uma criança — Bella sussurrou.
Ele abriu os olhos devagar.
— Eu era o irmão mais velho.
Não era lógica. Era culpa.
Bella se moveu até ficar totalmente de frente para ele. As mãos dela seguraram o rosto dele com firmeza.
— Você era uma criança tentando salvar outra criança de um adulto violento.
Ele respirava com dificuldade agora. Não chorava. Mas o corpo não estava firme como sempre.
Ela deslizou a mão pelo braço dele e sentiu a tensão acumulada ali, como se o corpo ainda estivesse preparado para se defender de algo que já tinha passado.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o nada.
— Eu sei que você tem medo de que eu vá embora um dia — ele disse, baixo.
Bella prendeu a respiração.
— Às vezes eu vejo isso nos seus olhos. Como se você estivesse sempre se preparando para perder alguma coisa.
Ele engoliu em seco.
— Mas a verdade é que eu vivo com o medo contrário.
Os olhos dele encontraram os dela.
— Eu tenho medo de perder você. Porque eu sei exatamente como é perder alguém e não poder fazer nada.
A voz não estava alta. Estava honesta.
— E eu não sobreviveria a isso de novo.
Bella encostou a testa na dele.
— Você não vai me perder.
Ele fechou os olhos, como se aquela promessa fosse bonita demais para confiar.
— Eu não sou o Rafael — ela continuou, firme. — E você não é mais aquele menino de seis anos.
O tremor leve voltou, quase imperceptível.
Ela o puxou para mais perto, invertendo as posições até que fosse ela quem o envolvesse. Ele resistiu por um segundo — reflexo — depois cedeu.
Ela sentiu o peso dele relaxando aos poucos contra o corpo dela.
— Você não está sozinho agora — ela disse.
Ele demorou, mas respondeu:
— Eu nunca contei tudo assim.
— Eu sei.
Ela beijou a têmpora dele, demorando o toque.
— E você não precisa ser o forte o tempo todo.
Ele soltou um suspiro que parecia preso há anos.
O tremor foi diminuindo devagar. Não porque a dor desapareceu. Mas porque, pela primeira vez, ele não estava segurando sozinho.
Bella entendeu então que amar Edward não era apenas ser protegida por ele.
Era segurá-lo quando o passado voltava.
E naquela madrugada silenciosa, o medo que a tinha feito perguntar se ele ainda estava ali perdeu força.
Ele estava.
Não apenas ao lado dela — mas aberto diante dela.
E, pela primeira vez, isso pareceu mais forte do que qualquer fantasma do passado.
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