Ainda Existe Luz
1 Ainda Existe Luz
Nosso personagem olhou pela janela e percebeu o quão belas eram as cores do espaço que contaminavam as rochas distantes que ele nunca tocaria, fora de sua mansão no vazio do planeta sem vida. As máquinas conscientes do que eram e com a liberdade de ser quem quisessem ser moviam-se pelo solo sob o céu escuro.
Wendy parou para olhar o sol daquele sistema solar para refletir o quão distante seus amigos robôs e Marco estavam de qualquer outra rocha gigante povoada nesses outros sistemas solares. Humanos eram raridade, vidas eram raridades depois de tantas guerras sem sentido.
Marco não podia caminhar pelos lados de fora de sua mansão humilde formada de cubos rochosos moldados pelos robôs voluntários. Era azul-escura e seria complicado distingui-la da atmosfera, mas não esperava visitas e nunca tinha esperado nesses anos em exílio. Estava em paz sozinho. Qualquer visita seria a sua maldição no contexto em que vivia.
Essa rocha que fazia sua trajetória elíptica e humilde ao torno daquele sol não tinha nome, e Marco tinha nascido com o nome de Jubileu, mas em sua fuga teve que mudar seu nome em alguns momentos. Jubileu, Anastasia, Ariel, Hillio, Marco. Como Marco, distante do perigo e das armas que apontavam para qualquer forma humana que os mercurianos julgassem imperfeitas, estava seguro.
Ele sentia falta de sua vida, mas não sentia falta de viver no meio podre que a realeza mercuriana tinha se tornado no decorrer dos últimos séculos. Não tinha acompanhado os acontecimentos dos últimos séculos e não existiam livros científicos que foram escrito para analisar o contexto histórico, não sabia o que tinha acontecido ou o que estava acontecendo, mas conhecia o olhar de repulsão dos que se julgavam perfeitos.
E ele mesmo não era perfeito na concepção de perfeição daqueles que o criaram e que cuspiam em qualquer um que dissesse que qualquer vida tinha seu próprio significado. Seus pais não se importavam em quem estavam atirando, eles não puxavam os gatilhos, mas seus subalternos mecânicos privados de qualquer senso moral ou qualquer função a não ser a servidão.
Marco vivia uma jornada difícil de reflexões em busca de um motivo para continuar vivo. Ele tinha motivos e podia olhá-los em seu jardim, podia encontrá-los em si mesmo e também no interior da sua mansão.
Em certos momentos os motivos que conseguia encontrar durante seu dia a dia pareciam ser tão fúteis e superficiais. Do que valia isso e aquilo... A vida parecia tão insignificante...
Apesar da lavagem cerebral que sofreu durante os seus anos de elite a perfeição não era um objetivo, até mesmo quando estava fora de si. Ele era um personagem que sorriria caso pudesse observar a vida rastejando e voando ao redor da própria vida. Ele nasceu sem conhecer florestas, animais ou outras vidas a não ser a vida humana.
A vida humana era tão banalizada e isso nem estava tão na cara dos que viviam.
Nos seus tempos livre, quando não trabalhava em seu projeto, ele escrevia. E na escrita Marco encontrava o seu refúgio favorito em que podia escrever sobre pessoas que nunca conheceu e que conhecia em suas histórias, trocavam olhares e não lhes faltava tempo para conversar sobre o que estivesse presente em suas histórias. Inventava personagens, porque não queria mais assemelhar a sua escrita aos personagens da sua vida. Não queria que nada no seu quarto, naquele planeta, naquela galáxia, estivesse associado ao seu passado.
Seu passado era uma doença que ele precisava combater. Seu passado estava destruindo o universo, e ele precisou distanciar-se daquele passado para que conseguisse perceber isso. Ele escrevia poemas também sobre como se sentia, para expressar seus sentimentos da melhor forma que podia. Ele escrevia sobre seus amigos robôs também que volta e meia apareciam em meio à noites ou dias difíceis – era difícil distinguir pelo fato do céu estar sempre o mesmo – e tentava distanciar-se do perigo que eles corriam apenas por existir.
Quando refletia sobre os laseres que lhe foram apontados e os que os seguravam, ele refletia sobre o quanto isso também era um erro. Nenhuma vida poderia existir apenas para a servidão, e, no caso, forjada apenas para isso. Ele não libertaria os soldados mecânicos da maldição da servidão e não era esse seu anseio.
Pensou no que estava ansiando naquele momento e não soube responder. No vazio do espaço seu interior também começava a se tornar vazio. Teve que começar a pensar o que poderia ansiar enquanto tomava uma xícara de café quente sentado. Tão quente que machucava as suas mãos, o que era agradável levando em consideração o frio que era comum naquele ambiente.
Há tempos não pisava fora daquela mansão e era melhor assim. Na busca de conectar-se por algo do exterior, ele se frustraria percebendo que nada havia naquele ambiente para se conectar. Os robôs eram as únicas companhias da sua vida. Os robôs eram a sua benção.
Os robôs eram como ele e nasceram dele, ele foi o primeiro a ter um cérebro funcional positrônico que conseguisse dar ao usuário a liberdade da escolha. Não podia ferir um humano, deveria ajudá-los em situações de emergência e deveria buscar o bem maior para a humanidade. Além disso, tinha o livre arbítrio. Seus colegas de exílio também eram assim.
Seus colegas de exílio antes eram limitados pelas cordas em sua mente, mas não mais. Marco não conseguiria trabalhar em prol do bem da humanidade sozinho.
No fim, era isso o que ansiava. O bem maior. O bem maior para os humanos que ainda sobreviviam. Poucos, não os conhecia e provavelmente nunca os conheceria, estavam milhares de anos-luz distantes um dos outros por medo dos juízes da perfeição. Apenas queriam viver suas vidas sem o medo de morrerem simplesmente por serem o que são. E não havia nada de errado em serem quem eram.
O medo nunca sumia. Seus pesadelos de que as sentinelas da imperfeição escaneavam galáxias em busca de vida apenas para apagá-las eram verdade. Alguns conseguiram viajar distante o suficiente para estarem seguros, outros tinham um final de história triste...
Seu projeto era o seu anseio, e duvidava se isso era por quem ele era ou pelo seu cérebro robô. Nasceu com uma doença degenerativa e recém-nascido teve que ter seu cérebro substituído por um cérebro positrônico. Ele não era um humano perfeito, apesar de vir de linhagem real julgada pela própria realeza como perfeita.
Mas que Rei apontaria para o próprio filho dizendo que deveria ser morto porque nascera doente? O seu pai. Fora escondido dele por mais de vinte anos que seu filho não era perfeito como seu pai e sua mãe. Com Vinte e Um anos, ele ouviu que deveria fugir e fugiu... Deixando pra trás as poucas pessoas que...
Nunca mais veria seu melhor amigo, mas o viu nesse mesmo dia. A realeza tinha o encontrado, e essa seria a sua morte, era o que esperava quando viu uma nave pousando há algumas centenas de metros da sua casa.
Marco não correu porque não tinha para onde correr e de nada adiantaria correr. Precisava que seus companheiros e companheiras robôs se protegessem de qualquer mal que a força opressora pudesse lhes causar. Eles precisavam continuar vivos para que a vida ainda pudesse ser salva.
Seu melhor amigo de infância e de adolescência, com quem não conversava desde os vinte anos de idade, andava com a capa da realeza e com uma escolta de soldados mecânicos por trás. Pelo solo branco amarelado arrastavam poeira enquanto os companheiros de exílio do humano residente da mansão de certa forma espantavam-se pela presença dos assassinos e escravistas. Alguns se mantinham em suas tarefas comuns como se a presença de Ferdinando não alterasse o ciclo das coisas.
Num certo ponto do trajeto até a mansão, Ferdinando ordenou aos soldados que não seguissem-no. Acertaria as contas com Jubileu do seu próprio jeito. Ele não estava ali para matar seu melhor amigo. Ele não vivia para matar ninguém, apesar de ser contrário ao que o restante da família real pregava. As ordens do rei foram de trazer a espinha dorsal do filho “imperfeito”. Ferdinando não faria isso.
Marco observou a figura que trazia ao seu cérebro mecânico memórias intensas. Memórias intensas que eram difíceis de encontrar um significado naqueles momentos seguintes do despertar de um longo período de sono. Olhou pela janela parcialmente coberta, pensando se realmente deveria aceitar a visita de bom grado ou enxotá-lo. Não tinha intenções de se unir com os matadores, mas também não queria dar adeus à sua última chance de se conectar ao seu passado. Precisava mostrar pro seu querido amigo, ou antigo amigo, que a causa do vazio existencial do universo era a busca insensata e idiota por perfeição que os lixos reais tinham. Ele sofreu isso e só agora conseguia entender.
Esperou na porta e se cumprimentaram de uma forma desnecessária. Não estariam ali para conversar qualquer coisa, para preliminares na conversa antes de chegarem ao motivo de Ferdinando estar ali. Ferdinando era agora o herdeiro do trono. Jubileu queria mostrá-lo que deveria desistir da coroa, mas não demonstrou isso enquanto conversavam na recepção humilde da mansão. Havia uma escada grande que levava ao segundo e último andar da residência, e atrás dela uma escada para o sótão. Era onde iriam depois que trocassem as palavras que estavam para trocar.
Foi naquele sótão equipado com tecnologias altamente sofisticadas para reprodução científica que o herdeiro decidiu perguntar ao seu antigo amigo se ele aceitaria criar novas ciências para o Império Mercuriano em troca de Anistia. Marco não entendeu ao que essa Anistia se referia, ele não aceitaria mais ouvir que era imperfeito ou algo assim. Enxotou-o, finalmente, e disse que não trabalharia para idiotas que não conseguem enxergar o quão idiotas quanto ele. Ele tinha preparado um discurso para tentar fazer com que Ferdinando entendesse o que estava acontecendo com o universo, para quebrar a ideia falsa que a alienação da realeza fazia com seus membros. O mundo não estava bem da forma que estava.
Era uma pequena faísca dentro de um vidro fechado em todos os lados. A faísca era constante, permanecia lá e era a única fonte de luz que remanesceu depois das luzes serem desativadas assim que o visitante deixou o recinto com os olhos de decepção. Perguntou-se o que será que seu amigo via naquela faísca... Era a única esperança que ele conseguia ter para qualquer futuro humano, qualquer futuro de qualquer vida pensante.
Por que esse encontro tinha sido da forma que acabara de ser? Sentia-se fatigado, estava repentinamente trinta anos mais velho e seus pulmões não se aguentavam mais. Apoiava-se na curta grade que separava o restante do laboratório à amostra da faísca como se não conseguisse mais aguentar a sua existência.
As risadas e brincadeiras que foram marcas da amizade entre os rapazes durante os vinte anos que conviveram simplesmente estavam ausentes. Não. Não existiam mais. As memórias tinham se tornado apenas memórias. Sua vida passada não existia mais. E ficou triste por isso pela primeira vez.
O que teria visto naquela faísca Ferdinando? Marco tinha visto paz, arte, movimento, vida, natureza, construções, mãos dadas. Um mundo que o medo da opressão não existia. Ferdinando tinha visto um mundo ao lado de Marco, apenas...
Marco morreu aos cinquenta anos. A faísca tornou-se a salvação da humanidade, futuramente.
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