Ainda

2 Sexta-feira, 3 de junho


- Vamos! Meninas! Já estamos atrasadas!

- Pronto, mamãe! – a pequenina de cabelos trançados vinha segurando um pinguim de pelúcia desajeitadamente, enquanto tentava, ao mesmo tempo, arrumar a alça de sua lancheira sobre o pequeno ombro.

- Rosinha, meu anjo. – a mulher olhou no relógio de pulso uma vez mais, parecendo impaciente, e então se abaixou para ajudar a menina – Eu já disse que o Pepe não pode vir com a gente.

- Eu falei isso para ela, mamãe. Mas a Rosa não me ouve. – disse a mais velha, dando de ombros enquanto se sentava no banco traseiro do carro, colocando fones de ouvido em suas orelhas.

- Guida, por que você não ajudou sua irmã a... – olhou para a filha e viu que ela já não a escutava mais. Suspirou pesadamente e ajudou a pequena filha a subir na minivan.

- Ela anda fazendo isso com frequência. – o homem apareceu segurando a terceira filha do casal no colo, lançando um olhar repreensivo para a jovenzinha que fingia não perceber os pais falando a seu respeito – A Margarida agora está com essa mania de falar alguma coisa para a gente, mas não faz a menor questão de ouvir o que temos para dizer em retorno. Tem certeza de que foi uma boa ideia dar esse Ipod para ela? Ainda acho que a Guida é muito nova para essas coisas, Nádia.

- Ela vai fazer dez anos mês que vem, Jorge. – a mulher estava sentada no banco, ao lado da pequenina de tranças, assegurando-se de que o cinto de segurança estava bem ajustado. Então se levantou, jogando os cabelos negros para trás. Olhou uma vez mais em seu relógio de pulso e balançou a cabeça negativamente, como se se recusasse a aceitar que estava atrasada. Fechou a porta traseira do veículo e tratou de logo entrar no carro também. Todos os seus gestos eram apressados e ela evitava fazer qualquer contato visual com o marido – Bom, eu já vou indo. Não esqueça que hoje é o dia do animal de estimação. O hamster da Violeta está na área de serviço e...

- Eu sei onde o hamster dela está. – Jorge caminhou em direção à esposa, que agora já estava sentada no banco do motorista, afivelando o cinto de segurança. Nádia, como se percebesse a aproximação do marido, fechou rapidamente a porta do carro. Ainda assim, Jorge se encurvou um pouco, para ficar à altura da janela e bateu no vidro, de leve, pedindo que a mulher o abaixasse.

- Vamos almoçar juntos hoje?

- Não sei, Jorge. Eu estou muito atarefada. – Nádia respondeu enquanto fingia arrumar o retrovisor.

- Ei. – o homem usou um tom mais firme, mas não rude, para chamar a atenção da esposa. Para fazê-la olhar para si – Nádia. – chamou o homem, com a voz demonstrando toda a firmeza que também se tornava visível em seu semblante – É só um almoço. Pode ser no refeitório do jornal, mesmo.

Um segundo de hesitação. As mãos firmes no volante apertaram a borracha da direção, quase cravando as unhas ali. Ela sabia muito bem o que podia acontecer agora. Nádia, nos últimos tempos, vinha tentando não encarar o marido, evitava a proximidade. E agia assim porque conhecia bem o que ocorria quando seus olhos encontravam os dele.

- Jorge, eu estou com o prazo apertado... – ela começou a falar, já em um tom de quem se sabe vencida. Os olhos muito negros começaram a se voltar, tímidos, para a figura dele. E, quando finalmente os olhares se encontraram, ela compreendeu que fora derrotada, mais uma vez.

Aquele olhos... O olhar daquele homem ainda guardava um poder absurdo sobre ela.

Não; na verdade, não eram apenas os olhos. Era uma combinação que Nádia nunca seria capaz de explicar. Os olhos castanhos, que ora pareciam cor de chocolate, ora ficavam esverdeados – dependendo de como a luz incidia sobre eles – derramavam nela um calor, um não sei que sentimento de estar em casa, de sentir-se segura, protegida, confortável, que se tornava simplesmente impossível escapar da agradável sensação que eles transmitiam.

Aquele irresistível olhar do Jorge, por si só, tinha um poder devastador sobre Nádia. Mas, como se isso não fosse o bastante, aquele homem possuía ainda o sorriso mais maravilhoso sobre a face da Terra.

Não era um sorriso programado para ser atraente. Entretanto, era. Simplesmente era.

O sorriso do Jorge era bonito. Não era um sorriso criado, pensado, feito sob medida para chamar a atenção, para embelezar uma fotografia ou ganhar a simpatia alheia. Talvez a beleza desse sorriso estivesse justamente aí. Sua simplicidade possivelmente fazia desse sorriso ainda mais marcante, mais apaixonante.

Essa era a verdade. Aquele homem tinha um sorriso apaixonante. Único. Do tipo que se poderia ver uma só vez, mas jamais seria esquecido.

Mesmo depois de tanto tempo, Nádia sabia que não conseguiria fugir do poder que aqueles olhos tão cálidos e aquele sorriso tão cativante tinham sobre ela.

- Está bem. – sua voz vinha quase sumida, enquanto se permitia perder-se naqueles olhos – Almoçamos juntos.

Pronto. Lá estava. Aquele sorriso.

Avassalador, apesar de sutil e discreto.

Por um instante, ela quase se entregou. Por um segundo, Nádia quase se esqueceu de suas tristezas e fraquezas; por um momento, quase verbalizou um pedido de perdão e disse que se esqueceria de tudo e viveria feliz com ele pelo resto da vida, apenas para continuar tendo aqueles olhos e aquele sorriso para si.

No entanto, foi passageiro. O sentimento de revolta e desespero ainda permanecia dentro dela.

E Nádia se calou.

- Ótimo. Eu ligo para você e combinamos onde nos encontrar. – Jorge se afastou com a criança no colo e Nádia aproveitou para ir embora. Chave na ignição e logo o carro entrava em movimento. Olhando para trás, pelo retrovisor, viu a imagem do marido ir diminuindo, até sumir de seu campo de visão.

Jorge ficou ainda algum tempo parado, em frente à casa em que moravam, apenas olhando na direção em que o carro partiu.

- O que está acontecendo com ela? – perguntou para si mesmo, com um semblante preocupado. Mas então olhou para a menina em seus braços e sorriu paternalmente – Vamos para a sua creche? – deu meia-volta, dirigindo-se à residência.

oOoOoOo

- Mamãe, eu quero ir para a casa da Bel hoje.

- Ah, agora a senhorita está falando comigo? Muito bom, Guida. Só quando é do seu interesse, não é mesmo, querida? – Nádia respondeu, em tom irônico, olhando pelo espelho retrovisor para a filha que parecia emburrada.

- Todas as minhas amigas vão. Só eu não posso? Por quê? – a menina de cabelos tão escuros quanto os da mãe fez um olhar desafiador e cruzou os braços, em um gesto imponente.

- O fato de todas as suas amigas irem não é um excelente argumento, Guida. – Nádia respondeu, com a voz tranquila, agora sem tirar os olhos da pista.

- Mamãe! Isso é injusto!

- Filha, não tem nada de injusto aqui. Você está de castigo, então não vai para a casa da sua amiga. É simples. Seu pai e eu já falamos sobre isso com você.

- É injusto! – a menina gritou uma última vez e então voltou a colocar os fones de ouvido nas orelhas enfeitadas por brincos coloridos.

Nádia suspirou e, poucos minutos depois, estacionou a minivan em frente à escola das filhas. Desceu do veículo e abriu a porta traseira para as meninas descerem. Margarida saiu, mas deixando clara a sua insatisfação. Jogou a mochila amarela com detalhes em preto sobre um dos ombros e saiu pisando forte, sem esperar pela irmã nem se despedir da mãe.

- Mocinha! Espere um pouco! – Nádia ainda falou, tentando se fazer ouvir, mas a garota seguia caminho sem parecer escutar seus chamados – Ah, droga. Esses fones de ouvido... – a mulher balançou a cabeça, em reprovação, e então olhou para a filha do meio, que a observava curiosa. Ajudou-a a se livrar do cinto para então pegar a mochila rosa e a pequena lancheira vermelha da menina, enquanto a garotinha apenas abraçava o pinguim de pelúcia – Sua irmã e eu vamos ter uma conversa séria hoje à noite...

Nádia e a pequena garota de tranças caminharam rápido rumo ao portão da escola. Lá dentro, a mãe começou a andar, ainda mais apressada, pelos corredores. Mochila rosa dependurada em um ombro, alça da lancheira segurada pela mão esquerda, enquanto a direita ia puxando a filha, que tentava, com suas perninhas curtas, acompanhar o ritmo ditado pela mulher que, a todo minuto, voltava a checar o horário em seu relógio de pulso. A criança andava em silêncio, apenas olhando atenta para a mãe. Quando finalmente chegaram à porta da sala de aula, Nádia entregou o material escolar à professora e abaixou-se para dar um beijo na testa da filha:

- Não perca o Pepe de vista. Se você esquecê-lo de novo, não vai adiantar chorar. Seu pai não virá de novo aqui, à noite, atrás dele. – sorriu carinhosa para a menina – Vai cuidar direitinho do Pepe?

- Vou. – a menina abraçou o pinguim ainda mais forte, como se lembrasse nesse momento que não conseguia dormir sem seu bichinho de pelúcia – Tchau, mamãe!

- Tchau, meu amor. – Nádia se pôs de pé e começou a caminhar pelo corredor da escola, a passos largos.

- Mamãe! – o gritinho veio já de uma distância considerável. A mulher voltou-se para trás e viu a filha correndo, até alcançá-la para abraçar-lhe as pernas.

- Rosa? O que foi? – a mãe indagou e depois olhou para a professora, que vinha atrás igualmente confusa.

- Não abandone a gente, mamãe... – a pequena criança, que se recusava a largar as pernas de Nádia, choramingava.

- Abandonar? – a mulher piscou os olhos negros, sem compreender. A professora a observava de forma interrogativa – Querida, o que está dizendo? A mamãe não vai abandonar vocês.

- Nem o papai? – a menina finalmente encarou a mãe, com os olhos bastante úmidos.

- O... papai? – Nádia engoliu em seco. – Abandonar o papai? – a mãe repetiu, enquanto a professora arqueava uma sobrancelha, à espera de uma resposta – Meu bem, que absurdo é esse que está dizendo...? – em sua voz, não conseguia transmitir a força que desejava – A mamãe ama vocês. – acarinhou o rosto da filha, limpando as lágrimas que escorriam ali – De onde tirou essa ideia? – riu nervosamente.

- Está nos seus olhos, mamãe. – a resposta de Rosa, tão madura para sua idade, desconcertou Nádia ainda mais. Por isso, a mulher não conseguiu articular qualquer coisa para dizer em retorno. Apenas fitava a menina que, embora houvesse dito palavras tão adultas, mantinha em suas feições o aspecto infantil que denotava o receio de perder algo importante.

Os olhos de Rosa eram iguais aos de Jorge. E conseguiam ser tão profundos quanto.

Nádia pigarreou, tentou um sorriso não muito bem sucedido e voltou os olhos densos e escuros para a professora – Crianças... são capazes de ver coisas onde não há nada. – buscou rir, na tentativa de fazer com que essas palavras demonstrassem uma leveza que não sentia.

No rosto da professora, havia certo compadecimento. Mas Nádia não permitiu que ela dissesse qualquer palavra:

- Eu preciso ir. Estou muito atrasada. – disse para a professora e então se desvencilhou suavemente dos bracinhos da filha, que parecia resignada – Desse jeito, a mamãe vai chegar atrasada ao trabalho, querida. Você quer que a mamãe se atrase?

— Não... – a voz da pequena trazia uma dor que foi capaz de dilacerar o coração de Nádia. Porém, ela manteve-se firme. Fez uma última carícia nas tranças acastanhadas da menina para, em seguida, dar as costas à filha e seguir seu caminho, sem olhar novamente para trás.

oOoOoOo

Nádia trabalhava em um importante jornal da cidade. Era uma colunista respeitada, pois tinha conseguido transformar uma coluna sobre o cotidiano em uma das seções mais lidas do periódico. Ela tinha talento suficiente para transformar notícias pesadas, que eram manchetes da parte policial, em suaves reflexões que costumavam trazer alento a uma sociedade aflita. Possuía também criatividade o bastante para, em dias mais parados, fazer da receita de um bolo de laranja uma interessante crônica sobre os pequenos prazeres da vida, filosofando sobre a efemeridade do tempo.

Seu trabalho como colunista era uma de suas paixões e, mesmo vivendo de prazos, cobranças e, não raro, estresses, Nádia acreditava que não poderia jamais ter optado por qualquer outro tipo de emprego. Às vezes, brincava dizendo que, se pudesse nascer de novo, se pudesse refazer sua vida, certamente mudaria em vários aspectos, tomaria uma série de outras decisões, exceto em relação à profissão escolhida.

Assim, era já quase uma hora da tarde e a mulher via-se compenetrada em seu trabalho, escrevendo a coluna para o dia seguinte. Digitava freneticamente algo sobre como escutar uma determinada canção era capaz de transportar uma pessoa para épocas passadas, quando seu celular tocou.

Nádia não parou o que fazia. Apertou o botão do aparelho e, posicionando-o entre o ombro e o ouvido direito, atendeu a ligação.

- Sim? – ela disse, com os olhos fixos na tela do monitor à sua frente.

- Nádia? Oi, amor. Sou eu.

Ela já sabia. Jorge havia dito que ligaria e ele sempre cumpria sua palavra.

- Eu estou muito ocupada agora, Jorge. – começou a falar, embora soubesse que tinha se comprometido a almoçar com o marido. Entretanto, a necessidade de fugir falava mais alto. E buscaria aproveitar-se do fato de que, por meio de uma ligação, não se sentiria absorvida por aquele envolvente olhar.

- Nádia, você precisa almoçar. Não quis tomar o café da manhã, então tem que fazer uma refeição decente agora.

De fato, Nádia saíra apressada de casa pela manhã. No início do dia, o marido se viu particularmente carinhoso e isso a apavorou. Ela vinha juntando forças para se libertar, para fazer o que seu coração pedia que fizesse... Contudo, quando o esposo ficava daquele modo, era tão difícil repelir qualquer contato com ele!

Mas como podia ser possível? Seu coração seria tolo o bastante para abandonar um homem como Jorge?

Não havia uma explicação sensata. Nádia apenas sentia que tinha de fazer. Não era a atitude mais racional, sabia bem. Mas o desespero ia tomando conta de si, cada vez com mais intensidade. E ela já não se preocupava mais com a lógica de suas ações. Deixaria apenas que seu coração a guiasse.

Não tinha sido uma escolha, por assim dizer. Era mais como se essa fosse a única solução. A única saída. O que ela sentia, não era capaz de compreender ao certo. Seu coração mandava; ela precisava obedecer.

Num primeiro momento, Nádia quis resistir. Como assim, abrir mão do homem com quem estava casada há dez anos? Como ela poderia abandonar seu primeiro e único namorado?

Todavia, a força que a impelia era mais poderosa. Seu coração não lhe pertencia mais. Havia outra pessoa. Nádia amava outro homem.

No começo, sentiu-se mal com essa constatação. Era como se estivesse traindo Jorge.

Porém, pensando com mais cuidado, concluiu que não. Aquilo não poderia se afigurar como traição. Em primeiro lugar, porque nem sabia ao certo quem era esse homem que agora ocupava tanto de seus pensamentos. Em segundo, porque, justamente por desconhecê-lo, nunca pudera ter qualquer relação mais concreta com ele.

“Tola”. Era como se chamava toda vez que se flagrava pensando nesse homem misterioso. Não sabia quem ele era. Ou melhor, sabia sim. Era uma projeção de suas mais profundas fantasias.

Tão profundas que nem as conhecia ao certo...

De qualquer modo, seu coração já a alertava para isso. Amava o enigmático homem que agora povoava seus sonhos de mulher.

No entanto... Nádia não conseguia permanecer indiferente a Jorge.

Por algum tempo, pensou que isso era devido à convivência e ao inevitável carinho que sempre sentiria pelo pai de suas filhas. Mas depois percebeu que era bem mais que isso.

Era como se houvesse outra Nádia dentro de si mesma. Uma outra Nádia e com vontade própria. Uma Nádia que resistia e lutava bravamente, que não parecia disposta a abrir mão de Jorge.

Uma Nádia tão apaixonada que quase não se reconhecia nela.

Porém, refreava esse desejo que parecia surgir de algum recôndito de sua alma. O amor novo, cheio de frescor, que nutria pelo desconhecido era mais forte. Tinha certeza disso. Era o desejo consciente. Logo, deveria prevalecer.

- Eu já lanchei por aqui mesmo. – mentiu – E estou com o prazo apertado. Não posso sair agora, Jorge. – falava enquanto os dedos deslizavam ágeis pelo teclado.

Do outro lado, fez-se silêncio. Um sentimento de culpa começou a se formar em Nádia:

- A gente se vê hoje à noite. É até bom, porque precisamos conversar com a Margarida. Ela foi um pouco insolente quando a deixei na escola...

- Nádia...

- ... Ela ficou insistindo, dizendo que queria ir para a casa da Bel, mesmo depois de a gente ter falado a ela que não...

- ... Nádia...

- ... Eu repeti que ela não iria; aí a Guida colocou os fones no ouvido e me ignorou o restante do caminho. E, quando chegamos à escola, ela simplesmente deixou o carro sem dizer qualquer coisa; nem ao menos quis levar a Rosinha para a sala. Sabe, você tem razão; é melhor tirarmos o Ipod dela e...

- Nádia!

Agora, quem se calava era ela. Os dedos finos e longos pararam, imóveis, sobre o teclado.

- Eu não quero falar sobre a Guida agora! Eu quero saber o que é que está havendo com você! O que está acontecendo com a gente?

- Não sei do que você está falando, Jorge... – a voz de Nádia quase desapareceu, o que comprovava que algo estava realmente errado.

- Conheço você bem demais para acreditar nisso. – o tom de voz de Jorge mostrava bem o quanto ele estava incomodado com essa situação – Mas eu não quero discutir por telefone. Hoje à noite vamos conversar. – finalizou a ligação deixando claro que aquilo não era um pedido. E Nádia, por mais orgulhosa que fosse, reconhecia que devia isso ao marido. Era o mínimo que poderia fazer pelo homem que sempre se mostrou o companheiro perfeito.

oOoOoOo

Quando Jorge finalmente chegou, Nádia estava sentada em uma cadeira, na cozinha, à espera dele já há um considerável tempo.

Jorge se demorou mais do que o esperado. E não foi por acaso. Embora ele estivesse determinado a conversar e discutir, de uma vez por todas, sobre tudo o que estava ocorrendo em seu casamento, uma parte sua tinha um imenso receio do que aquilo poderia representar. Seria o fim?

Não ter certeza sobre essa resposta deixara Jorge apreensivo. Por isso, demorou-se mais em seu último trabalho. Era fotógrafo free-lancer, porque não gostava de sentir que havia alguém controlando seu trabalho. Porém, apesar de não possuir um emprego fixo, seu talento nunca permitira que lhe faltasse qualquer coisa. Recebia muito bem por cada trabalho e, por sinal, trabalho era algo que nunca lhe faltava. Nem ofertas para se estabelecer em um emprego regular, de modo que Jorge sabia que, no instante em que quisesse, poderia optar por esse estilo de vida, se assim desejasse ou necessitasse.

À tarde, esteve em um parque, tirando fotos do pôr-do-sol para uma revista. As fotografias, como sempre, ficaram excelentes. Ele, entretanto, deixou-se contagiar pela melancolia das imagens gravadas pela lente da sua câmera. Melancolia era o sentimento que a revista desejava enxergar nas fotos encomendadas e, como o excelente fotógrafo que era, Jorge conseguiu captar isso muito bem. Tão bem que se viu invadido por um forte sentimento nostálgico por conta desse último trabalho.

Devido a isso, demorou mais que o normal para desmontar seu equipamento. Estava pensativo, taciturno. Lembranças de sua vida com Nádia foram passando como flashes por sua mente e acabou não percebendo o tempo passar.

Quando deu por si, já havia escurecido completamente. Tinha ficado dentro do seu jipe, depois de guardar nele todo o seu equipamento, ensimesmado, com a vista perdida na bonita paisagem do parque, olhando para o nada, ou para dentro de si mesmo.

Despertou desse estado por causa do estrondo de um trovão. Sentiu o vento frio da noite bater contra o seu rosto. Era o prenúncio de uma tempestade, que cairia em breve. Deixou que o ar escapasse lentamente de seus pulmões. E, com o semblante sério, deu a partida no veículo, a fim de encontrar o que seu destino lhe reservava.

- Você demorou. – Nádia foi quem falou primeiro, sem se levantar de sua cadeira.

- O último trabalho do dia foi mais longo do que pensei que seria. – desculpou-se em um tom vazio, enquanto retirava a pasta-carteiro que trazia transversalmente sobre o peito, para então colocá-la sobre a mesa.

- Quer jantar? Eu fiz lasanha. – a mulher tinha uma voz séria, algo triste. Olhava para o marido como se antecipasse que aquele era o começo do fim.

- Não, obrigado. Eu comi algo no caminho para casa. – desconversou. Não havia se alimentado desde a hora do almoço, mas não sentia fome – E a Guida...?

- Eu já falei com ela. Tivemos uma briga feia durante o jantar. Prolonguei o castigo dela por mais uma semana. A Guida está impossível, Jorge. Precisamos ver como vamos lidar com ela, porque eu não...

- Seria importante descobrirmos primeiro como vamos lidar conosco. Com o nosso casamento. – Jorge, que agora estava sentado em uma cadeira de frente para Nádia, interrompeu-a. Os olhos castanhos estavam em sua coloração mais bonita, devido à pouca luminosidade da cozinha. Entretanto, transmitiam uma tristeza palpável, que fez com que Nádia engolisse em seco.

Ela não disse nada, nem poderia. O que falar para aquele homem, que agora parecia tão vulnerável diante dela? Os olhos, aqueles olhos, pediam-lhe para que não dissesse o que ela necessitava verbalizar.

Nádia ficou estática. Se não fosse pela respiração agitada, poderia ser perfeitamente confundida com uma estátua.

- O que está havendo? Por que você... – a voz de Jorge vinha embargada. O homem deslizou a mão pelos cabelos castanhos, nervoso – Por que está fazendo isso com a gente, Nádia?

A mulher baixou o rosto. Não poderia encarar aqueles olhos.

- Eu sei que isso não é recente. Já faz uns seis meses, pelo menos.

Nádia ergueu o rosto, surpresa.

- Achou que eu não tivesse percebido? – Jorge sorriu tristemente – Você realmente deve me achar estúpido...

- Não, Jorge! Eu nunca achei que você...

- Quem é ele? – o homem impediu-a de prosseguir novamente. E a pergunta veio dura, cortante.

- Como... como é?

- Quem é ele? – repetiu, ainda mais enfático – Não se faça de desentendida! Eu tenho o direito de saber, não acha? – sua fala era agora quase agressiva, como se Jorge começasse a compreender uma raiva que sentia e a que, por muito tempo, não dera vazão.

- Não sei do que está falando. – Nádia levantou-se da cadeira, trêmula. Não sabia aonde ir, mas subitamente só conseguia pensar em fugir. Fugir daquele momento, fugir de si mesma.

- Me responde, Nádia! Eu só quero saber o nome dele, droga! – Jorge levantou o tom de voz, inconscientemente. De repente, todas as mágoas que lhe vinham acometendo nos últimos tempos ganhavam voz.

- Não grite, vai acordar as meninas! – a mulher respondeu, de costas para o marido, caminhando em direção à porta de vidro que separava a cozinha da área que levava ao quintal. A pouca luz que iluminava o ambiente era proveniente da lâmpada que estava acesa do lado de fora.

Jorge levantou-se de supetão. Tinha aberto as comportas que mantinham presos tantos sentimentos e, agora, não poderia voltar atrás. Precisava viver essa dor. Se esse era o fim, então viveria plenamente esse momento. Havia suportado em silêncio por tempo demais. Nem tinha se dado conta do quanto guardara em seu peito; contudo, conhecia agora as sensações que se negara a enxergar.

- Quem é ele, Nádia? É só o que eu quero saber. – aproximou-se da esposa por trás e parou ali, a uma pequena distância. A mulher olhava para fora, como se apreciasse a chuva que começava a cair sobre a grama do quintal.

- Não é ninguém, Jorge. – a fala da esposa veio firme, segura – Nunca estive com outro homem, a não ser você. – ela falava, com os braços cruzados e os olhos fixos nas gotas d’água que vinham caindo em maior quantidade.

Jorge riu, de forma sarcástica – Certo. Então, está me dizendo que não há outro homem em sua vida?

Nádia não soube o que dizer. Responder negativamente a essa pergunta poderia dar um fim àquela conversa desagradável, mas, ao mesmo tempo... Seria como se estivesse negando algo a si mesma. Algo que ela não poderia jamais negar.

O homem que Nádia amava existia. Ela apenas não sabia como encontrá-lo, mas sentia que ele era real. Não poderia negar sua existência. Isso significaria desistir de encontrá-lo...

O silêncio foi resposta suficiente para Jorge:

- Você não é capaz de ser sincera comigo. – riu dolorosamente – Nem ao menos pode me oferecer um pouco de verdade agora. – o homem deslizou os dedos pelos fios castanhos; o sorriso triste trazendo a ele um semblante melancólico – Quando foi que...

- Não me pergunte quando. – interrompeu-o Nádia – Nem quando, nem como, nem por quê. Eu não tenho como responder a qualquer dessas perguntas, Jorge. Apenas... é assim.

Certeira demais. Aquelas palavras atingiram Jorge de forma fulminante. Por que fazê-lo tão abruptamente? Ela deveria tê-lo deixado ao menos formular a pergunta. Seria tempo o bastante para que, ao menos, conseguisse se preparar para uma resposta como aquela. No fundo, ele sabia que Nádia diria algo assim. Mas entre o saber e o sentir, há uma grande distância, que nem sempre se está preparado para percorrer.

- Certo. – foi curto e seco em sua resposta. Não haveria como reagir de outra maneira. Estava acabado.

O fim de uma relação, o fim real, é muito simples. Ao contrário do que muitos pensam, quando um casal decide se separar, a decisão é calma. Pacífica. Quase serena.

Quando as duas partes compreendem que não há mais o que se fazer, elas simplesmente se afastam. Sabem perfeitamente bem que está acabado e todo o resto significará apenas desgaste. Por isso é tão tranquilo quando se chega a esse ponto.

O problema é quando uma das pessoas envolvidas acha que ainda não se fez todo o possível. Se um dos lados acredita nisso, então o fim, que, em verdade, não é o fim propriamente dito, faz-se conturbado.

Jorge esteve alguns segundos dividido entre esses dois sentimentos. Uma parte sua enxergava em Nádia que nada mais se podia fazer para salvar aquele casamento. Não foram necessárias tantas palavras para perceber isso. Aliás, palavras agora seriam excessivas. Ele conseguia sentir na esposa a negativa de tudo, a negativa daquela existência, daquela vida. Era quase palpável o quanto tudo parecia errado naquele momento, o quanto Nádia já tinha tomado sua decisão dura e irrevogável e, por consequência, o lógico e correto era terminar. Simplesmente acabar.

Por outro lado, o Jorge que ainda se via apaixonado pela mulher com quem se casara não aceitava que tudo pudesse chegar ao fim desse modo. Não; não era possível e ele não poderia permitir. Eles tinham construído uma família juntos! E havia amor ali, porque aquilo era amor, não havia outra palavra para designar esse sentimento! Ao mesmo tempo em que ele sentia o quanto sua esposa era a própria negação de tudo, sabia que, em algum lugar, naquela mulher que conhecera quinze anos atrás, havia alguma dúvida. Precisava haver! E, se havia, essa dúvida era motivo o bastante para Jorge persistir!

Nádia virou-se para trás naquele momento, como se compreendesse que a conversa tinha acabado ali. Provavelmente, iria sair da cozinha, pois a presença do marido a incomodava ainda. Entretanto, ao se virar, deparou-se com a imagem de um Jorge que, visivelmente, travava uma batalha interna sobre como agir a partir de agora. Ele não olhava para a mulher, olhava para dentro de si mesmo, em busca de respostas. Portanto, os olhos castanhos do marido não deveriam representar perigo agora. Ele não olhava diretamente para ela, então Nádia não corria o risco de ser tragada por aquela sensação causada de forma única pelos envolventes olhos do fotógrafo.

Contudo, a visão daquele homem, em um momento de fragilidade, mexeu com Nádia. Mexeu profundamente. Ela não estava preparada para aquilo; foi um golpe baixo e inconsciente, certeiro e devastador. Jorge tinha conseguido atingi-la quando nem ao menos buscava fazê-lo.

Ela nunca o vira tão... perdido. Tão necessitado de alguém que lhe estendesse a mão para guiá-lo, para apresentar-lhe o caminho.

Nádia sentiu algo dentro de si crescer com força e fome. Uma sensação poderosa, que parecia querer devorá-la. Era como se houvesse uma outra Nádia, que resistia, que lutava, que a todo custo tentava fazer com que ela levasse sua mão até Jorge.

Todavia, esse contato, agora, colocaria tudo a perder. Acabava de destruir um laço entre eles. O toque entre suas mãos faria com que fosse prontamente reatado, porque o desfeito era recente demais.

A mulher fez um gesto como se buscasse demover esse sentimento de si. Fingiu que faria um rabo de cavalo com seus longos fios negros. Mas faltava-lhe algo para amarrá-los, então permaneceu com as mãos ali, presas ao seu cabelo, parecendo ocupada em encontrar algo para prendê-lo enquanto dava dois passos para fugir.

Jorge foi mais rápido. Em um gesto breve, alcançou seu braço.

Suavemente.

- Nádia...

Aquela voz preencheu o ambiente por inteiro. Não apenas o ambiente; preencheu Nádia como um todo. Aquele toque reconstruiu o que se havia colocado abaixo há apenas alguns minutos. E um sentimento ressurgia.

Não; na realidade, não ressurgia.

Algo novo aparecia subitamente.

Diferente, assustador.

Nádia se sobressaltou. O que estava havendo? Quem era ela?

Era pavoroso. Parecia se perder de si mesma naquele instante. Seus olhos escuros piscaram, seguidamente, como se assim fosse mais fácil compreender.

Ela desvencilhou-se do contato com o marido e viu-se sufocada. O local estava tomado pela presença de Jorge. E, dentro de si, uma outra presença a sufocava.

Fez correr, com quase desespero, a porta de vidro que dava para o quintal. Saiu por ela, apressada, em busca do ar fresco da noite.

- Nádia...? – Jorge preocupou-se ao ver a esposa tão estranhamente agitada. Seguiu atrás dela, com uma expressão interrogativa – Você está bem? – indagou com a voz macia, buscando acalmá-la.

A mulher quis gritar para que ele não falasse assim. Que voz era aquela? Nádia não conhecia a voz do marido. Ou melhor, era capaz de reconhecê-la, mas, ao mesmo tempo, a sensação que aquele tom rouco causou em sua pele foi muito distinto. A voz de Jorge era a mesma; por que então parecia ser a primeira vez que a ouvia? Como podia ser que parecesse conhecê-la apenas agora, e que isso lhe causasse arrepios gostosos?

Começou a andar desnorteada, como se buscasse algo em que se apoiar. Buscou a chuva, como se a água pudesse lhe ajudar a se encontrar, porque a água sempre tivera esse efeito sobre si. Sempre fora responsável por trazer-lhe o equilíbrio, alguma paz de espírito.

No entanto, não era o que se passava agora. A água fria escorria pelo seu corpo, e a angústia crescia mais e mais. Nádia estava agitada, não compreendia o que acontecia consigo e o medo tomou conta de seu corpo trêmulo. Lágrimas começaram a descer pelo seu rosto, misturando-se às gotas pesadas da tempestade que caía.

Jorge alcançou-a logo e, não entendendo o que se passava, mas enxergando o desespero da esposa, abraçou-a com firmeza, tentando ser o apoio que ela parecia procurar. Nádia ainda agitou-se um pouco em seus braços, mas ele apenas fechou-os ainda mais em torno dela, aninhando-a contra seu peito, deixando claro que não se afastaria:

- Calma, amor... Eu estou aqui. — a voz do homem de cabelos castanhos pareceu exercer um efeito sobrenatural sobre a moça. E, como em um passe de mágicas... A mulher se acalmou.

Deixou-se ficar abraçada pelo marido.

A respiração, antes acelerada, foi entrando em um ritmo mais compassado.

Ficaram minutos intermináveis assim. Quando, finalmente, Nádia ergueu o rosto, devagar, para fitar o marido, ela parecia outra pessoa.

Havia um sorriso tão bonito em seus lábios rosados que Jorge pareceu não reconhecê-la.

Era Nádia, sem sombra de dúvidas. Como poderia não ser?

Contudo, aquele sorriso... aquele brilho que cintilava nos olhos negros...

Como uma pessoa pode parecer tanto consigo mesma, e não ser?

Jorge soltou a mulher à sua frente e deu um passo para trás.

Não fizera por mal; tinha sido apenas um reflexo.

Olhava confuso para aquela mulher, que o encarava fixamente.

Apaixonadamente.

- Nádia...? – perguntou enfim, em um tom desconfiado, arqueando uma sobrancelha.

A moça sorriu. Um sorriso ainda mais belo que o primeiro.

E Jorge sorriu também. Afinal, essa é a única resposta que se pode dar a um sorriso tão sincero, tão puro, tão contagiante.

O sorriso de Jorge era sempre avassalador. Irresistível. Por isso, a mulher deu um passo a frente, acabando com a distância que o homem havia imposto há poucos segundos.

- Eu amo você. – ela disse, enquanto pousava delicadamente as mãos sobre os ombros dele. A declaração tinha um tom de confidência, de algo proibido; tinha o frescor da novidade e trazia como reação o susto daquilo que é inesperado.

Jorge não compreendia. Aquilo era o que mais desejava ouvir de sua esposa, mas... essa frase, tão cativante e doce, não fora dita pela sua mulher.

Aquela não era a sua esposa.

Poderia ser?

A mulher de longos cabelos negros, cujos fios molhados já se colavam ao seu rosto, parecia notar a confusão no homem que amava.

Não queria que ele se assustasse.

Não permitiria que ele lhe fugisse.

Uma das delicadas mãos viajou até a nuca de Jorge, sentindo a maciez de seus cabelos.

Ela conhecia aquela textura. Mas era a primeira vez que a sentia, de fato.

Trouxe-o para mais perto. Mas o que provavelmente atraiu o rosto de Jorge para o da mulher haviam sido aqueles olhos, negros e profundos como a escuridão que os envolvia. Magneticamente, ela atraía Jorge com um olhar poderoso.

Os olhares de ambos não se desprendiam um do outro.

A respiração quente, crescente com a proximidade, tornava-se visível naquela noite fria e tempestuosa.

E, como os olhos que pareciam ter se encontrado, os lábios se tocaram parecendo velhos conhecidos.

Entretanto, o sabor era outro. O beijo foi familiar, mas parecia inédito.

Como dois adolescentes que acabavam de descobrir o primeiro amor, aquele beijo desabrochou. Foi tímido, a princípio, com Jorge sem saber exatamente como tocar o corpo daquela mulher. Ainda há pouco, tinha abraçado a esposa com a certeza e a segurança de quem a conhecia há mais de dez anos. Mas agora era tudo tão distinto...

Tão novo...

A mulher estava igualmente retraída no começo. Só que, ao contrário do que ocorria com Jorge, não era por se ver confusa. Ela sabia perfeitamente o que acontecia, quem era, onde estava. Aquilo era tudo o que mais queria. Por isso mesmo, desejava aproveitar aquele momento ao máximo. Vivenciá-lo até o último segundo, sem pressa.

Ela queria conhecer o sabor do beijo daquele homem, o homem que amava, com quem sonhava todas as noites nos últimos meses.

Nádia nunca soube dar a Jorge o devido valor. Mas ela faria tudo ficar certo agora. Ela amaria Jorge como ele merecia ser amado...

Começou a intensificar aquele beijo, demonstrando que queria mais, muito mais. Queria Jorge por completo. Os braços envolviam as costas largas do homem, que se sobressaltou em um primeiro momento com essa mudança de atitude, pois o beijo dela deixava de apenas fazer o reconhecimento inicial. Ela agora queria desbravá-lo.

O susto foi fugaz. Jorge logo se viu inteiramente tomado por aquela sensação inebriante.

Algo dentro dele lhe dizia que havia alguma coisa muito errada ali. Ou muito certa; Jorge não saberia dizer. Somente sabia que não se podia negar àquele beijo, tão demandante e apaixonado.

Apaixonante.

Não desejava que aquilo terminasse, porque se afogava em uma sensação desconhecida, e o que não se conhece causa um certo furor, desperta sentidos, faz a pessoa sentir-se viva como nunca. No entanto, seus pulmões reclamaram o ar que desaparecera por inteiro naquele beijo que lhe arrancara o fôlego. Afastou a face afogueada, apenas um pouco, mas manteve seu corpo colado ao da mulher. Não poderia se afastar. Ela o atraía de uma forma completamente nova e se sentia tão preso que não se movera dali, embora a chuva os estivesse ensopados a essa altura.

Encostou sua testa à dela e fechou os olhos, buscando ar.

- Quem é você...? – perguntou, por fim. A voz baixa veio quase em um sussurro.

Então abriu os olhos, que agora brilhavam esverdeados, e fitou a mulher.

Ela apenas sorria.

E o mistério dançava em seus lábios risonhos.