Ainda é cedo.
5 Capítulo 5 - Velhos hábitos não morrem
Notas iniciais
Manuela
Acordei no domingo com o toque do celular.
-ESQUECEU QUE TEM MÃE? Eu sabia que isso ia acontecer, sabia Manuela...
-Mãe, calma.
-Você disse que ia ligar sempre!
-Mãe, eu liguei na quarta...
-Mas hoje é domingo Manu, eu podia ter morrido!
-Mãe, credo! Para de besteira. Eu falei com o Sam ontem e sempre estamos trocando mensagens. Tá tudo bem por aí?
Ela contou que minha irmã ia conseguir voltar nas férias, me fazendo prometer que eu também voltaria. Disse que o Sam estava saindo com uma menina nova. Se durasse, talvez desse pra conhecer.
Passamos uns 20 minutos no telefone, contei tudo que tinha contado ontem pro Sam. Desligamos e fui trocar de roupa.
Lavei o rosto, escovei os dentes e segui o cheiro do almoço. Na verdade, o arroz refogando. Tem coisa melhor do que o cheiro do alho fritando?
-O que temos hoje?
Me inclinei sobre o balcão e peguei um pacote de biscoitos no pote.
-Arroz novo com, adivinhe só – ele abriu a geladeira – ovo! Vai querer?
-Aceito. Mexidos por favor, não gosto deles fritos inteiros.
-Sim senhora! — ele respondeu com voz de comando, brincando.
Ele começou a fritar os ovos e colocou em um prato raso. Me servi de arroz e sentei de pernas cruzadas na mesa. Ele terminou de montar o prato dele e se sentou também.
-O que quis dizer com aquilo ontem?
-O que?
-“Sou um problema” – ele imitou minha voz – “Gosto do calor”.
Ele ergueu a sobrancelha, como se dissesse “e aí?”.
-O que tem?
-O problema é gostar do calor, ou o calor que é o problema?
O riso escapou, não consegui segurar.
-O problema meu caro, é que... Não tenho medo do calor. Tenho medo de sentimento. Acho eles um tantinho… — perigosos, maldosos e arriscados — Filhos da mãe, digamos. Gosto do físico, do toque, do envolvimento do momento, entende? Não está nos meus planos prolongar nada na vida além dessa superfície.
-Tem medo de se apaixonar? De ir além do físico?
Me ajeitei na cadeira. A conversa estava começando a ir para um ponto desconfortável. A verdade era que sim, eu tinha medo de sentir algo. Mas ao mesmo tempo, eu tinha uma enorme curiosidade de saber como era realmente gostar de alguém, chorar, brigar, amar... Fazer de tudo por essa pessoa. Assim, alguém que não seja sua família, é claro. Mas eu não disse nada disso e entrei na defensiva, como sempre.
-Eu deveria ter medo?
-Você disse que os sentimentos são filhos da mãe. Deveria ter medo deles então?
A voz dele estava mansa, e aqueles olhos me engolindo. Eu era uma boa jogadora, e ele também. Tinha até medo de pensar no que isso podia dar.
Me levantei e coloquei meu prato na pia, saindo sem olhar para trás.
-Talvez Edu, talvez...
Eduardo
Mais tarde, recebi uma ligação da Suzy que me deixou furioso. No geral, eu sou um cara bem calmo, apesar de impulsivo, mas sou um pouco protetor demais. Não queira me deixar nervoso. Não consigo descarregar a raiva com facilidade e isso faz com que eu acabe perdendo o controle às vezes. Não de bater em alguém, mas de descontar da forma errada e me machucar. Seja sentimentalmente ou fisicamente.
A Suzy me colocou em alguns esportes e lutas mas concordamos que não deu muito certo pois eu tentava colocar tanto pra fora que só parava quando alguém me alertava sobre algum machucado. Corrida? Eu corria até ter calos porque já que não tinha outra pessoa para estabelecer um limite, eu ia até o meu limite que às vezes era meio inexistente. Boxe? Eu batia no saco até os dedos ferirem. Natação? Eu não parava enquanto não ficasse sem ar ou com câimbras. Eu não sabia reconhecer o momento de parar, nunca parecia suficiente. Sempre dava pra fazer mais uma repetição, mais uma tentativa. Provavelmente era uma questão psicológica que uma terapia de muitos anos poderia ajudar, mas eu ainda não me sentia pronto para buscar ajuda sobre isso. Se só fazia mal pra mim mesmo, então tudo bem.
Já estávamos conversando há algum tempo, como era comum. Até ela me contar que havia voltado com o idiota do ex dela, Carlos. Ambos tinham ido fazer intercâmbio mas pouco antes da viagem, terminaram quando a Suzy viu ele trocando mensagens com uma outra pessoa. E não era a primeira vez! E não parava por aí: o cara era um ogro! Machista, ridículo, se achava dono da Suzy. Não sei o que raios ela via nele... Ela sempre dava a mesma desculpa de “ele não é assim”, mas eu sabia que não ia demorar pra ele machucar ela de novo. E de novo. E de novo. E dessa vez, eu não tava perto para ajudar. E saber que ele estava lá e eu não era o motivo da minha agonia diária.
Eu realmente não entendia! A Suzy era a pessoa mais doce e cuidadosa do mundo, mas também sabia ser dura e sempre era responsável. Porra, a guria me criou quando mal sabia se cuidar ainda! Já ele era um merda! Um zero à esquerda, um parasita. O cara não tinha nenhuma expectativa pra vida, só viajou porque ela convenceu ele na esperança de ele melhorar, se descobrir ou qualquer besteira do tipo que pudesse justificar ou impulsionar alguma melhora que ela usaria como desculpa para continuarem juntos. Eu nunca acreditei e nunca gostei dessa fantasia, mas ela se agarrava nessa ideia impossível. A Suzy era incrível mas ele era a fraqueza dela. Era uma relação nitidamente tóxica.
Discutimos até eu não conseguir mais gritar e ela começar a chorar a ponto de não conseguir mais falar. Até que desligou.
Eu tremia de raiva, e sem pensar, dei um murro na parede. E depois outro. Até que ouvi as batidas na porta.
-Edu?
Ela abriu a porta devagar, com os olhos arregalados de susto.
-Me deixa, Manuela.
Minha mandibula estava tão apertada de ódio que quase rosnei ao responder. Descontrolado como um cachorro de rua. Senti minhas mãos tremerem e esquentarem e já sabia o que vinha a seguir. Sentia cada veia do meu corpo saltar com a pressão subindo por conta da raiva. Sempre começava desse jeito e eu nunca sabia como ia parar. Mas não me impedi porque a sensação de fogo dentro de mim me explodiria. Dei mais um murro na parede. E outro. E outro. Até ela me parar.
-Ei, para Eduardo!
Ela se aproximou mas no mesmo instante recuou, e pensando depois: ainda bem. No acesso de raiva, eu podia acabar a afastando e sei que não seria de forma delicada.
Eu nunca soube explicar, mas eu sempre sentia que guardava tudo dentro de um barril cheio de pólvora e ele explodia de uma vez, sem o menor controle. Era como se me consumisse e eu não sentisse mais nada, então precisava me forçar a sentir algo. E muitas vezes, esse algo era dor física para ignorar o que machucou por dentro. Era sobrepor uma dor a outra. Uma fuga autodestrutiva.
-Ta se machucando, seu idiota!
-Eu não me importo – disse entre dentes — Sai daqui!
Eu não ligava se ia quebrar a mão, só queria dar um jeito de tirar aquilo de mim. O medo da Suzy se machucar, a raiva daquele imbecil. A frustração de não poder fazer nada sobre.
-Eu me importo, não vou ficar vendo você se machucar assim.
Me virei com tudo pra ela, e as palavras saíram sem sentir.
-Então não olha! Não to pedindo ajuda e não vou falar pra sair de novo!
Seus olhos encheram e ela deu um passo para trás, mas não desistiu. Voltou para o meu lado e segurou meu braço em vão. Ela sabia que não tinha força nem tamanho pra me segurar, mas só o toque dela já teve grande efeito. E graças a deus porque pensar que poderia machucar ela por ser esse idiota… Não!
Eu queria me machucar, não machucar ela. Era meu processo destrutivo. Nunca iria me perdoar se machucasse alguém no meio disso tudo. Então assim que meu corpo entendeu que tinha outra pessoa ali, eu acordei daquele transe. Parei pra realmente ver o que fazia. A parede estava marcada com o sangue que escorria da minha mão, que tremia pelo esforço.
-Para por favor, tá me assustando.
A voz dela saiu em quase um sussurro, assustada. E então acordei pra toda a situação quando enfim consegui encarar seu rosto. Ela estava com medo de mim. E foi aí que eu percebi que isso doía muito mais do que qualquer machucado que eu pudesse causar em mim. Deixei meus ombros caírem, me dando por vencido. Que grande babaca eu sou!
Ela segurou meu braço e foi me levando para o banheiro. Não recusei a ajuda porque só sentia vergonha. A dor não era nada perto do constrangimento que sentia. A raiva se transformou em tensão e senti todo meu corpo se enrijecer só de pensar na possibilidade , de que podia ter machucado ela por pura falta de controle. A vergonha me acolhia como um cobertor quentinho no inverno. Mas não merecia esse conforto.
Apesar de ter ficado tanto tempo com a Rachel, ela não conhecia essa parte de mim. Os benefícios do namoro: quando a coisa aperta, os dois têm suas respectivas casas para voltar e lidar da sua forma com os sentimentos. Tinha muito tempo que isso não acontecia e me senti um merda por ainda me permitir esse hábito tóxico. Eu julgava a Suzy pelo namoro dela mas eu não era diferente. Ambos faziam mal e poderiam ser evitados. Ambos éramos reféns de situações que nós nos colocamos.
Ela buscou uma cadeira e colocou ao lado da pia, abrindo a torneira e colocando minha mão embaixo. Fiquei observando a água vermelha descer pelo ralo. Os cortes ardendo e eu só pensava que merecia sentir aquilo.
-Não sai daqui.
Sua voz era um sussurro apenas. Saiu e ouvi ela mexendo em algumas coisas. Voltou com algumas gazes e remédios e se sentou no chão, de joelhos.
Desligou a torneira e esperou um tempo para a água escorrer. Pegou uma gaze e molhou com algum remédio.
Ela colocou em cima e eu me encolhi com o ardor que sentia.
-Shiiiu – ela fazia como se eu fosse uma criança – é só pra limpar. Mas tá conseguindo mexer bem então parece que não quebrou nada.
Lavou as mãos e começou a espalhar uma pomada.
-Quer conversar?
-Melhor não.
Minha voz saiu rouca como se eu não falasse há anos. Ela levantou minha mão, terminou de lambuzar de pomada e fechou tudo com uma faixa e esparadrapo.
-Vai doer por um tempo, ficar roxo e tem que cicatrizar. Mas não parece que é a primeira vez que faz isso... – ela levantou os olhos pela primeira vez desde que tinha começado, me encarando – Me assustou, Eduardo.
-Me desculpa.
Nunca me imaginei numa situação dessa, ainda mais com uma garota como a Manu. Ela parecia ser daquelas duronas, e agora parecia tão... Frágil. Se levantou e me deixou lá, sozinho. Vi pela porta aberta do corredor que ela pegou um balde e um pano e entrou no meu quarto. Ouvi um soluço disfarçado. Me levantei e parei na porta. Ela tentava tirar a marca do sangue da parede.
-Manu...
-Ta tudo bem Eduardo, só vou limpar isso aqui.
Peguei seu braço e ela se esquivou.
-Manu, não tem que fazer isso, é sério…
-Deixa Edu – ela falava entre soluços – Deixa.
Esfregava a maldita marca como se a vida dependesse disso. Não era só o que ela viu, tinha mais alguma coisa. Seja lá o que fosse, eu era um merda por despertar isso nela. Ela parecia realmente assustada, mas não era comigo, porque não recuou quando me aproximei.
Tirei o pano das mãos dela, mesmo sobre protestos. Ela acabou aceitando o abraço, e continuou a chorar, escondida no meu peito. Passei a mão ainda boa pela sua cabeça, tentando acalmá-la.
-Qual o problema?
Ela balançou a cabeça, negando. Não forcei nada, assim como ela não me forçou. Ela tinha faculdade amanhã cedo, eu também. Era melhor cada um ir dormir, pra se acalmar. Ela era mais baixa que eu, então prendi sua cintura com meu braço e ergui um pouco seu corpo, colocando seus pés acima dos meus. Fui caminhando devagar pro seu quarto, abraçado no corpo imóvel. A cabeça apoiada no meu peito, os braços segurando o próprio corpo, como se tentasse se proteger. Abri a porta e entrei. Ela tinha decorado o lugar. Algumas fotos espalhadas pela parede vazia de frente para a cama, o guarda-roupa tinha mudado de lugar. Havia um espelho daqueles antigos em forma oval, e uma cadeira no lado oposto do quarto, cheia de roupas e bagunças.
Me aproximei da cama, e curvei meu corpo sobre o seu. Ela se deitou puxando a coberta amarrotada para cobrir o corpo. Puxei o cobertor até a cintura e ela se virou de costas pra mim, se encolhendo.
Me sentia um lixo por trazer, seja lá o que fosse, a tona pra ela. Queria poder pedir desculpas, fazer algo pra melhorar, mas sabia que precisávamos de um tempo. Acho que pela primeira vez, me toquei o quão errado era esse impulso de me ferir. Porque entendi que não afetava apenas a mim.
Alguém traga um prêmio de maior babaca do dia para mim, o lixo ambulante que desperta traumas alheios por não saber lidar com os seus!
Fechei a porta, voltei para o meu quarto e enviei uma mensagem para a Suzy falando que a amava.
Acordamos no dia seguinte praticamente na mesma hora. Ela foi tomar banho e eu fui na padaria. Era como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Não tinha nada no seu rosto que mostrasse que ela chorou ou algo parecido. As olheiras que marcavam seus olhos eram as mesmas de todos os dias.
Tomamos café e ela começou a contar sobre as aulas que teria, e eu sobre os trabalhos que ainda tinha que fazer até o final da semana.
Ela correu pro quarto e pegou as coisas da faculdade, largando no sofá.
-Vem, preciso trocar seu curativo.
Buscou uma bacia e lavou minha mão, dessa vez com soro, que não tenho ideia de onde arranjou. Vi pequenos hematomas espalhados entre os nós dos dedos e alguns cortes causados pelo impacto da pele nua na parede. Refez tudo e saiu correndo, sem dizer mais nada sobre.
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