Ainda é cedo.

15 Capítulo 15: Usar a cabeça antes do coração


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali

Manuela

Não saímos muito tarde do casamento e acabei dormindo na casa da Laura. Essa semana seria bem mais tranquila, eu estava dando conta das matérias e apesar de ainda não estar completamente bem, eu e o Edu passamos a semana sem brigar.

E depois outra semana...

E depois outra.

Isso era estranho. Quase um mês, e nada! Ele tentava ao máximo não mexer comigo. Era “bom dia, boa tarde” e principalmente “boa noite”.

Na minha faculdade, tínhamos uma semana acadêmica por semestre, e dessa vez eu iria participar. As palestras seriam feitas por professores e estudantes e as oficinas seriam feitas pelos estudantes e supervisionadas pelos professores.

A comissão organizadora era formada principalmente por alunas do último ano. Não demorou pra perceber que tudo ficaria perfeito: elas divulgaram – já que era aberto ao público – e organizaram tudo conforme o planejamento. As turmas foram divididas entre os minicursos, as palestras, os paineis e os exames rápidos. Reunimos outras turmas da área da saúde e já tínhamos uma pequena equipe interdisciplinar completa.

-Ei – disse arrancando os fones do Edu enquanto ele mexia no computador. Ele ergueu a cabeça e me olhou, esperando o que eu diria. Seu cabelo crescia extremamente rápido, e algumas mechas já caiam sobre o rosto de novo – Quer ir me ver de jaleco amanhã?

Fiz uma daquelas carinhas de cachorro pidão, piscando os olhos.

-Não faça isso – ele disse choramingando – Com essa cara e você de jaleco... Como posso resistir?

-Eu de jaleco?

-A maioria dos caras tem queda por mulheres de jaleco.

-É sério isso? – tive que rir porque isso parecia tão ridículo, mas sem dúvida, era influência desses pornos que criavam a imagem de saltos, lingerie e um jaleco por cima. A boa e velha sexualização de qualquer profissional feminina.

-É claro que é! Eu principalmente...

Ele foi levantando o corpo sobre a mesinha de centro da sala, fechando o computador com uma das mãos.

Quando ele já estava quase lá, virei meu rosto.

-Não, Manu! – ele não mudou de posição, imitando a carinha pidona que eu tinha feito, só que nele, realmente se tornava algo irresistível. Fiz careta, me odiando por ser tão fraca.

Puxei a gola da camisa por cima da mesinha mesmo. Seu corpo girou e ele quase caiu tentando pular a mesa. Senti seus lábios e o peso do corpo por cima de mim e viramos um misto de mãos, saliva e risadas.

Nunca tinha me sentido tão viva. Pela primeira vez, eu ia usar o MEU jaleco fora das aulas! Tinha meu nome, meu tamanho! Não era nada parecido com aqueles encardidos e três vezes maior do que eu que usava da faculdade no laboratório.

Ah, que sensação maravilhosa.

O dia tinha amanhecido meio nublado. Vesti a calça jeans branca, tênis recém lavado – o que não era muito comum – e uma blusa também branca, lisa com a manga mais curtinha. Nitidamente uma aluna da área de saúde. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto e passei um batom, é claro.

O público alvo seria a comunidade mesmo e eu ficaria nas oficinas e exames rápidos. Coisinhas simples como aferir a pressão, verificação de glicemia e bla bla bla. Quem tivesse interesse era encaminhado para outras oficinas, como de nutrição e educação física, que teriam alunos que já estavam no final do curso e agendariam consultas e fariam atendimentos conforme a demanda.

Mas mesmo assim, eu já estava me sentindo tipo, A médica. Estilo Grey's Anatomy, sabe? Só que sem morrer um personagem por episódio e sem umas tragédias aleatórias.

O sorriso não saia do rosto. Eu estava orgulhosa e animada mesmo que fosse algo pequeno. Era tipo o dia 1 de toda uma vida!


Eduardo

Já falei da minha queda por jalecos? Já falei sobre minha queda pela Manu de jaleco? A roupa toda branca destacava a boca – o que só piorava pra mim – e os cabelos. Fazia tempo que ela não prendia o cabelo decentemente. Quer dizer, acho que nunca tinha visto ela com o cabelo preso de verdade, só aquelas voltas doidas entre as mechas que ela fazia. Mas eu adorava aquelas voltas, era tão bom de mexer, soltar, bagunçar e depois ver ela jogando o cabelo pro lado pra arrumar desarrumando...

Chegamos lá bem cedo e ela foi me apresentar à faculdade. Andamos pelos corredores, que tinham salas dos dois lados, com uma enorme janela de vidro, que dava visão para o interior das salas e laboratórios. As escadas eram na frente do prédio, protegidas pelo vidro que dava visão para a rua. Era um lugar bem interessante e bem grande.

Enquanto andávamos, ela tinha um brilho nos olhos. Falava das aulas, e de como se sentia em relação a faculdade. Eu nunca tinha visto alguém tão encantado ao falar de algo. Era incrível como mesmo com tudo aquilo de corpo, todo aquele tom malicioso que ela tinha e toda a maturidade, ela ainda parecia ter a pureza de uma criança ao ver o mundo.

Me vi hipnotizado por ela e quando dei por mim, estava falando.

-Manu? – interrompi ela no meio de uma frase – Temos um problema...


Manuela

-Acho que to começando a... – ele respirou fundo. Estávamos descendo as escadas, ele me interrompeu e me parou, um degrau abaixo de mim. Eu podia ver o movimento da rua pelo vidro e as pessoas estavam começando a chegar e eu só pensava “por favor, que ele não diga o que eu acho que vai dizer” – Tô começando a... Gostar muito de você! Tipo, gostar pra valer, entende?

Puta que pariu!

Meu impulso gritava “cooooooorre” em plenos pulmões, que se realmente pudesse falar para alguém ouvir, teria sido escutado por todo o prédio. Mas ao mesmo tempo, minha vontade de corresponder isso era enorme.

-Eu não quero te pressionar, só queria que soubesse porque sei lá, acabei de perceber isso e escapou. E por favor não comece a agir de forma estranha comigo. Você vai se afastar, né? Merda, eu e minha boca grande.

Por que ele tinha que falar isso aqui e agora? Eu estava congelada. Eu enfim estava começando a levar em consideração a possibilidade de começar a achar que talvez estivesse ficando encantada pelo Edu. Mas agora eu estava apavorada. Eu tenho dedo podre pra essas coisas, sempre tive o dom de ferrar com tudo! O cara pode ser perfeito, mas eu não vou conseguir ficar com ele. O “perfeito demais”, o tratamento de princesa e muita fofice me incomoda, não sei, não consigo retribuir e começo a sentir que tô sempre devendo ser igual a pessoa é comigo. E aí por não conseguir retribuir eu já fico esperando o dia que ele vai cansar e vai embora e eu vou ficar só com meus caquinhos. Eu sempre esperei e sempre aconteceu.

Eu devia estar com uma cara de pânico porque ele sentiu que precisava me acalmar.

-Ei – ele segurou meu rosto entre as mãos, me dando um beijo rápido – Não era essa a reação que eu esperava. Desculpa, eu não devia ter dito nada agora, minha intenção não foi te assustar nem te distrair. Foi sem pensar. Fica tranquila, ainda sou eu, e eu ainda vou te atormentar muito! Não tô te pedindo em namoro – ele não soltou meu rosto – Não surta, tá bom?

Eu só fiz que sim com a cabeça enquanto surtava por dentro.


Eduardo

Ela pirou. Eu pirei e estraguei tudo! Mas quando eu vi, já tinha começado a falar e era tarde pra calar a boca.

Agimos normalmente, ela foi pra sei lá o que devia fazer e eu fui andar entre as pessoas.

-Ei – me virei, encontrando o Rodrigo com a cara fechada pra mim – Podemos conversar?

-Temos o que conversar?

-Na verdade, temos sim!

Eu sabia que ele queria falar da Manu, mas eu não queria falar com ele. Nem sobre isso, nem sobre nada!

-Olha cara, eu realmente...

-É sério Eduardo!

A voz estava tão firme quanto a expressão.

Não estava nem um pouco afim de conversar com ele, mas por sorte, alguém o chamou de voltar para onde ele deveria estar.

Continuei andando, lendo os enormes cartazes espalhados, até encontrar a Manu de novo. Estava brincando com uma garotinha que devia ter uns dois anos, o cabelo escuro como o da Manu, com cachinhos na ponta e bem presos num mini rabo de cavalo.

Ela me viu observando e sorriu, de forma graciosa.

Cheguei quando ela estava entregando a garota para a mãe, dando um beijo na sua bochecha.

-Então...?

-Ela era linda né? To apaixonada.

“Eu também” pensei, mas não disse nada.

Incrível como ela se encantava rápido com uma criança, mas não conseguia gostar de mim. Eu poderia ser adorável também, se me esforçasse.

-Já te disse como tá linda toda de branco?

Suas bochechas ficaram vermelhas, ela baixou o rosto, como sempre fazia quando sentia vergonha.

-Aqui não, Edu...

-O que? Não posso mais elogiar?

-Não – ela disse em um quase sussurro, perto até demais.

Devia ser pecado tratar alguém desse jeito. Ela empurrou meu peito de leve e disse tentando prender o sorriso envergonhado:

-Agora vai porque eu tenho mais do que fazer.

Cerrei os olhos, fazendo cara de indignado. Prendi sua cintura com meu braço e dei um beijo na bochecha, enquanto ela me dava vários tapinhas e ria tentando se afastar.

-Interrompo?

Sim!

-Não, Rodrigo – ele me deu um empurrão forte dessa vez, ajeitando a roupa em seguida – Aconteceu alguma coisa?

-To precisando de ajuda.

-Sua parceira não era a Julia?

-É, mas... – era óbvio que ele só queria interromper meu momento – Ela não sabia também sobre... A minha dúvida. Pode por favor ajudar ela?

-Claro – ela sorriu simpática sem perceber a real situação – Pode ficar aqui pra mim?

-Eu fico sim, pode deixar.

Então ela saiu, nos deixando sozinhos se não levasse em conta os desconhecidos ao redor.

-Não sabia que ia vir. Na verdade, pensei que vocês tinham brigado...

Sério que ela contou pra ele?

-Estamos bem agora, sabe, pra gente é normal brigar às vezes. Mas sempre fazemos as pazes: eu peço desculpa, ela aceita, e por aí vai...

Eu usava o tom certo para irritá-lo. Era infantil mas não me contive.

-Então não consegue ficar longe, né?

-Não, e eu realmente queria ver como seria a tal semana acadêmica. Sabe como é, moramos juntos então ela me contou sobre.

-E hoje veio por que queria ver como seria ou por que não consegue ficar longe dela?

-Quer mesmo saber por que vim?

-Quero.

O tom dos dois era de desafio. E na boa, eu ia ganhar.

-Vim porque ela é mais do que uma coleguinha de apartamento pra mim, ambos sabemos disso! Vim porque não ia deixar ela sozinha com certas pessoas... Vim porque não importa quantos como você apareça querendo ela, é comigo que ela vai brigar no meio da semana porque é comigo que ela vai ficar. Porque não importa quantos “não” eu receba, eu não vou sair de perto dela. Vim porque ela me convidou e por ser algo importante para ela, eu não faltaria. Eu vim por ela, Rodrigo.

Ele me olhava furioso, enchendo o peito como um pombo para tentar parecer maior. Eu sei que era patético. Estávamos os dois tentando marcar território.

-Então vamos ver como isso termina...

-Como o que termina? – a voz dela era meio preocupada, mas a expressão mostrava outra coisa. Estava completamente animada.

-Nada – respondi o mais natural possível.

Mas o Rodrigo não fez o mesmo. Ele simplesmente ignorou a presença da Manu ali.

-É Eduardo, vamos ver como isso termina – algumas pessoas já olhavam curiosas porque a tensão entre os dois era nítida – Não acho que mereça ela.

Que riquinho babaca de merda! Tá, realmente, eu não merecia! Quer dizer, eu não mereço. Mas nem por isso eu ia desistir. Ainda mais por causa dele.

-Por favor meninos – ela disse entre dentes. A animação havia sumido – Não me façam passar por isso. Não criem uma cena hoje. Não aqui, não agora.

Manuela

-E por acaso você merece Rodrigo?

-Muito mais do que você!

Eu não podia acreditar no que estava vendo! Primeiro com o Caio, agora com o Rodrigo? O que raios está acontecendo com esse menino? Eles estavam disputando como um troféu! DE NOVO!

-E baseado em que você fala isso?

-Eduardo – segurei seu braço, já rígido, os punhos fechados. Ele estava ficando nervoso. E eu odiava isso – para agora!

-Nem preciso me basear em nada! Olha só a diferença entre nós dois, quem pode dar uma vida melhor pra ela? Não resta dúvida...

-Que sou eu! — o Edu interrompeu já começando a elevar a voz.

Os dois estavam se alfinetando como se eu não estivesse ali, ouvindo a disputa mais idiota do mundo! Dois homens das cavernas vendo quem ia arrastar a mulher pelos cabelos!

Pera? Dar uma vida melhor pra ela? Eles tão pensando o que? Que eu vou casar com algum deles?

-PARA OS DOIS! – entrei entre eles, pousando a mão no peito de cada um, estabelecendo um limite, que já estavam começando a se aproximar demais pro meu gosto. E mesmo correndo o risco de ser atingida de novo, achei melhor arriscar – Eu não tô à venda e muito menos pra disputa! Chega os dois, AGORA! Rodrigo, vai pro seu lugar! Se precisar de alguma outra ajuda, peça para sua dupla!

-Mas Manu...

-Vai!

Eu parecia uma mãe no meio de uma discussão pelo controle remoto.

Passei a vida toda sendo mãe de alguém, cuidando sempre dos outros. Eu estava cansada de ser mãe sem ter filhos.

Ele me lançou um olhar de “lamento” que eu facilmente ignorei, me virando furiosa para o Edu.

-Antes de me matar, pelo menos escuta.

-Você sempre pede pra te escutar mas nunca sabe o que falar! Tá na minha vez! – respirei fundo, tentando me acalmar – Eu não vou te matar porque eu to tentando viver em paz sabe? Tentando ficar na minha, mas você não tá facilitando! Poxa Edu, a gente acabou de brigar, você se explicou, eu entendi e ficamos numa boa. Por um mês Edu... Mas saiba que a cada vez que você pisa na bola assim, a mínima chance de eu começar a levar em conta o que rolou mais cedo lá na escada vai acabando e falta isso aqui – encenei fazendo sinal com os dedos, mostrando o pouco que era – só isso pra eu desistir, pegar minhas coisas e ir embora.

Era mentira! Quer dizer, era verdade, tudo verdade. Menos a parte de ir embora. Eu não tinha onde morar. Eu iria pra rua por acaso? Não mesmo!

-Então vê se começa a pensar antes de me envolver nessas discussões! Começa a usar a sua cabeça, antes que eu comece a usar meu coração!

Me virei, pronta para acabar com aquele papo. Mas ele não deixou.

-Manu – ele virou meu corpo, me deixando com o rosto quase colado, mas sem se tocar. Eu podia sentir sua respiração quando encostou sua testa na minha – Não vai me deixar, vai?

Tinha um “por favor!” ali por trás, que eu fingi não perceber.

Aquilo nos olhos era... Não, não podia ser. Pera, era medo?

-Não – de forma alguma – Pelo menos não agora. Mas prefiro que vá embora logo antes que eu mude de ideia.

Um mínimo sorriso fugiu pelos lábios.

-Promete de mindinho?

A voz saiu em um sussurro. Como eu podia sentir raiva com ele me olhando assim? Falando assim? Me tratando assim?

Tive que ceder.

-Prometo.

Juntamos os dedos, cruzando em seguida. Me apoiei no seu ombro, ficando na ponta dos pés para alcançar sua bochecha. Dei um beijo e disse baixinho também:

-Vai pra casa, ta?

Ele só fechou os olhos e concordou, indo embora em seguida.