Ainda É Cedo
25 Game Over - Fim de Jogo
Notas iniciais
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Angra dos Reis – Brasil
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Dona Elisa estava ficando careca. Há quase duas semanas não tinha noticias da filha, isto é, noticias dela ditas por ela. Seu Miguel em contraponto não poderia sentir mais orgulho da cria, apesar de também estar preocupado.
–Essa menina se superou dessa vez! – bradou a senhorinha socando a mesa – Olha isso Miguel! Olha! – ela apontava a TV que transmitia o Jornal Hoje – Olha o que deu você incentivar essa menina a fazer bobagem! Olha!
–EU TO OLHANDO ELISA! – gritou ele de volta – “Olha” “olha” eu tô vendo, poxa.
–E você está rindo? Tá achando isso legal? – revoltou-se com a cara de bobo do marido – A Isadora está sendo tratada como bandida e você acha legal? A Márcia do açougue não quis me vender carne ontem, sabia? Ela disse que não vende carnes para mãe de terrorista.
Miguel fitou-a enraivecido.
–Filha de uma égua essa Márcia. Você devia ter é tirado um bife da cara dela! Esse povo que acredita em manchete de jornal de Globo merece uns tapas na cara. – reclamou ele com o cenho franzido – Principalmente os que falam mal da minha filha!
–Ah e ia ajudar muito eu socar a cara dela. — ironizou — Aí é que ela ia dizer que nossa filha é uma bandida tendo uma mãe violenta. O Eduardo é outro que diz que está “preocupado”, mas não faz nada.
–E você queria que ele fizesse o que lá da Alemanha? – questionou o outro – Nem sabemos onde ela está...
O toque de mensagem do celular do homem o interrompeu.
–Elisa! – ele chamou – Olha só o que o Ed acaba de me mandar:
“Se liga na última da sua filha mais nova, pai. Isadora perdeu completamente a noção do perigo!!! Segue link.”
– CLICA! – berrou ela desesperada
–Calma mulher. – resmungou ele clicando no link com certa dificuldade.
Assistiram o vídeo com o semblante carregado de surpresa, preocupação e pânico. Até Seu Miguel que estava gostando do “trabalho” da filha agora estava demasiado preocupado.
–Put’s grilo! – praguejou – Isadora não podia ter feito isso. Isso já é demais! Vão acabar com ela! E quem são essas pessoas? E esse Capitão América? – pronuncio a patente de Rogers com inferioridade — Nunca gostei desse sujeitinho... Americanos são os piores.
Elisa deu um peteleco na cabeça do marido.
–Cala a boca, Miguel! O menino é ótimo, porem maluco como ela. – defendeu Steve – Só agora está vendo que isso vai dar zebra? EU sabia que ia dar nisso! Sabia! Sempre soube, mas você nããããããão, você deu corda. Isadora é sem noção vai botando a cara na reta, se expondo... Parece que não sabe com quem está lidando.
–Ah ela sabe com quem está lidando. – contrapôs o pai balançando a cabeça positivamente– Esse vídeo na internet foi uma grande jogada de marketing. Nossa filha é inteligente, sabe bem o que fazer para afetar os governantes. O meu grande medo é o que eles podem fazer com ela se a encontrarem. – lamentou com o coração apertado – A gente precisa saber onde ela está.
–Vão localizar a origem do vídeo, Miguel, e vão prender nossa filha. Minha nossa senhora das filhas encrenqueiras! O que será da minha Isadora! –disse Elisa sem um pingo de esperança – Pra quê meu Deus? Pra quê essa menina se mete em uma história dessas.
–Culpa desse Estava aí! – o senhor de cabelos grisalho logo acusou – E a culpa é sua também Elisa.
–MINHA? – gritou ela indignada apontando para o próprio peito.
–Sim, sua! Você não me disse que esse Estava era esse diabo de Capitão América. – continuou a acusação – Se eu soubesse já tinha decido bala nesse aproveitador. Mas, você nããããããão... Você incentivou a amizade da minha princesinha com aquele desordeiro de Satanás.
Ela fez uma careta de revolta.
–Aaaaah que lindo! Ah que lindo, o pai do ano! – zombou fazendo gestos espalhafatos com as mãos – Vai catar coquinho, Miguel! Você não dá bala nem para criança! O Estevão é boa gente, sempre soube disso. Meu sexto sentido nunca falhou. Do mesmo jeito que eu sei que ainda vou casar Isadora com ele.
–QUÊ? MAS DE JEITO NENHUM QUE MINHA FILHA VAI CASAR COM AQUELE APROVEITADOR! – grunhiu ele completamente revoltado – De jeito nenhum! Sem contar que ela tá namorando o tal do Brian, não está? Ela não foi com esse outro para lá? Não gosto dele também, mas pelo menos esse é brasileiro.
Elisa rolou os olhos e resolveu lavar sua louça.
– Brian? – perguntou rindo – E você viu algum Brian naquele vídeo, Miguel? Assim que Isadora me veio com esse Brian eu repeli. Disse pra ela que aquilo ali era amor de pica onde bate fica. Bobeira de jovem que acaba em dois tempos! O outro não, o outro é militar, sério, educado! Acho lindo militar! Pena que morre tudo na guerra! – lastimou
Miguel olhava para mulher mais do que revoltado.
–Você é uma pééééssima mãe, Elisa! Péssima! – incriminou-a
Ela colocou as mãos na cintura, agora irritada.
–Péssima por quê? Por dizer que ela e o tal do Brian eram apenas “coisa de pele” ou porque eu quero casar ela com o Estevão?
–Ela é uma criança, Elisa! – gritou ele de volta – Você fica dizendo essas coisas para minha menina! Ela não vai namorar nem casar com ninguém! NINGUÉM!
–Ela tem 21 anos Miguel. – responde ela em uma bufada
–Há dez anos ela só tinha 11. – replicou ele inconsolável – Faz pouco tempo! Dorinha ainda é um bebê! Só vai casar depois dos 35 e com brasileiro.
A mãe de Isadora fitou o esposo com o rosto cansado.
–Ai Miguel... Pai é um bicho complicado, em? Ao mesmo tempo em que diz que “minha filha é uma grande mulher! Ela está mudando a sociedade ocidental”, me vem com papinho de “minha filha é uma criança.” Acorda Miguel! – disse ela mais doce – Isadora cresceu!Não é mais aquela garotinha que vivia correndo por aí. E se você ficar dormindo daqui a pouco vai acordar e se deparar com um neto.
–NETO? – se desesperou causando uma crise de risos na outra.
–Vai trabalhar vai! – Elisa o expulsou de sua cozinha – Vai trabalhar que eu vou rezar para Deus proteger nossa menina.
Ainda em pânico com a idéia de ser avô um dia ele obedeceu à mulher e foi para a loja.
Elisa continuou a limpar sua cozinha com o coração apertado ao tentar imaginar pelo que sua filha já teria passado. Será que alguém fez maldades com ela? Estaria com fome? Com frio? Ser mãe é difícil. Da Isadora então...
Mas, se algo a tranqüilizava era saber que Estevão estava com ela. Nas duas semanas em que o gringo esteve hospedado em sua casa, Elisa pode perceber o quanto ele é era bacana e o quanto gostava de Isa. E a simpática senhorinha continuou a refletir sobre a situação da caçula até que um som forte a chama atenção. Fogos. Ou tiros, já que o último não era difícil se ouvir no bairro em que morava.
Não deu muita atenção aos sons e retornou a varrer a casa.
–DONA ELISAAAA! – uma voz máscula e desesperada a gritou e em questão de segundos o dono da voz adentrou sua residência – Dona Elisa!
– O que foi Fernando? – perguntou ela ao rapaz, que estava mais branco que papel, que trabalhava com o marido
Fernando estava arfante.
–O seu.... O Seu... Seu Miguel.
O coração da senhora parou por um segundo.
– O que houve? – inquiriu novamente engolindo em seco
– Um carro preto passou atirando na loja e...
A frase não precisou ser completa para que ela entendesse o recado. Disparou escada abaixo para a loja do marido.
–Ai, não, meu Deus, não, meu Deus, não, não, não...
Seu Miguel estava caído no chão e um de seus funcionários tentava estancar o sangramento com as mãos. Elisa cai de joelhos ao lado do marido em total desespero. Ela empurra o homem que tenta estancar o ferimento e assume seu lugar, aos prantos. Elisa rasga um pedaço de seu vestido e pressiona sobre o corte, mas o sangue borbulha. O sangue agora está por todos os lados.
Uma multidão começa a se formar enfrente a loja.
–Está tudo bem, vai ficar tudo bem! – soluçava ela acariciando o rosto agora pálido do marido – Nós vamos salvar você!
Os olhos de Miguel estão vidrados e fixos no teto enquanto ele soluça ou tenta falar alguma coisa. Um pequeno filete de sangue escorre pelo canto da boca.
Elisa solta um grito agudo de dor.
–Vai ficar tudo bem! A ambulância está chegando! – continua ela tentando passar força para ele
–Fim... Fim de jogo para mim, querida. – balbucia ele com muita dificuldade tentando sorrir – Eu quero... Quero...
–Não fala nada, você não pode se cansar! – a mulher o interrompe
Miguel segura a mão dela carinhosamente.
–Eu pré-preciso. – insisti Miguel – Diz ao... Es-Estevão...Pa-Para ele cui-cuidar da Isa. – ele termina de dizer junto ao um ganido quase selvagem, arrancando mais lágrimas da esposa – Não... Não... Deixa-a desistir.
–Diga você mesmo! Você vai sair dessa!
Mas, ele não saiu dessa. Miguel solta um último e débil sussurro:
–...A-A-Amo vo-vocês!
Todos na loja caem em prantos junto a Elisa que se joga sobre o corpo sem vida do marido.
Para Miguel, aquele era o fim. E agora mais do que nunca Elisa temia pela vida da filha. A razão daquele assassinato estava bem claro para ela... Vingança.
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SHIELD, LOCALIZAÇÃO SIGILOSA
DUAS HORAS APÓS O ASSASSINATO.
Sharon não poderia estar mais feliz. Seu plano estava saindo melhor do que o planejado. O pai de Isadora já tinha cantado para subir e a população estava ficando cada vez mais enraivecida com os ativistas revoltosos.
–Fury tenho uma ótima noticia! – disse ela, toda sorrisos, adentrando a sala do chefe.
–Pois eu tenho uma péssima! – revidou ele com o semblante de ódio.
Carter ergueu uma sobrancelha estranhando a cara feia dele e de Hill.
– O que houve?
– Olha só o que esses filhos da puta fizeram! – exclamou ele apontando o telão onde o vídeo era exibido – E o pior ainda é que esse vídeo foi postado em uma fazenda no Texas, fomos até lá e NÃO TINHA NINGUÉM! Perdemos esses miseráveis de vista. – gritava ele – Merda! Essa porra desse vídeo já tem dois milhões de acessos e foi postado a seis horas.
–Tira da rede ué. – a loira sugeriu o óbvio
–TARDE DEMAAAAAAAAAAIS!! – disse ele a plenos pulmões – Essa miséria já foi salva em computadores de todo o mundo. Já era! Você tira do Youtube e dez minutos depois já está lá outra vez.
Sharon deu de ombros.
–François acabou de me ligar e disse que o pai da vagaba brasileira já partiu para o reino dos pés juntos. – comemorou ela – Isto significa que em breve vamos saber a localização deles.
Nick pareceu se acalmar, já Hill permaneceu cabreira.
–E será que ela vai voltar para o enterro do pai? — quis saber Maria
– Com certeza! – Carter estava convicta – Aquela palhaça é toda sentimental, em dois tempos vai ligar para alguém ou voltar para casa. E se não voltar matamos a mãe. Aí ela vem.
–Também não precisamos massacrar a família inteira, Agente 13. – ponderou Fury
–E porque não? Olha só o vídeo ridículo que ela criou. – apontou a tela – E ainda tem a outra lá... A piranha do Caribe querendo justiça para outra pirainha caribenha.
–Dê tempo ao tempo. – continuou ele – a noticia vai correr por toda a internet e ela vai acabar sabendo. Vamos esperar para ver.
Sharon bufou revoltada. Por ela, mataria também a mãe, mas sem escolhas resolveu esperar.
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DIA SEGUINTE AO ASSASSINATO.
Oymyakon- Sibéria
#Steve
Após vinte e uma horas de avião, outro assalto á automóvel e mais cinco horas de carro finalmente chegamos a gelada (muito, muito, muuuuuuuuuuuito gelada!) cidade de Oymyakon.
–Sinto que vou morrer a qualquer momento! – exclamou Isa dentro de uns trezentos casacos – Tô acostumada com esse frio não, gente!
–Ah deixe de frescura! – resmungou Romanoff a rabugenta – Até que hoje está calor... Olha lá. – apontou o relógio que marcava -15° abaixo de 0 – É verão, gente!
–Calor? – falei com ironia – Verão para mim é no mínimo 25°C acima de 0.
Natasha confirmou.
–Dá última vez que estive aqui estava marcando -41°. – comentou ela – Essa é a cidade mais fria e longínqua do mundo.
Paramos o carro frente a um minúsculo banco no meio da neve.
–Vamos fazer o que aqui gente? – quis saber Dominika – Sacar um dinheiro ou roubar?
Isa e eu logo retiramos a idéia de roubo da cabeça da caribenha.
–Sei lá, foi a russa que mandou parar aqui. – explicou o motorista
Voltamos à atenção a sujeita nórdica.
–Então ,recapitulando, foi aí que viemos buscar os três milhões de Aleksey Nikolaievitch...
–Que é o tal do “barão das drogas”, certo? – questionou Isa, atenta a movimentação da rua.
A ruiva confirmou.
– Só que tinha mais de três milhões aí. – me recordei da história – E foram instruídos a levar o dinheiro todo para a base de Tobolsk. – Depois disso voltaram para o hotel em que estavam hospedados e tal de...
–Riley Gilbert. – completou Romanoff – Sim, ele apareceu com outros homens fortemente armados querendo buscar o que “era dele”. E a partir daí não sei de mais nada. Tive que voltar para matar ela – apontou Isa que se encolheu por reflexo – E Clint, doido, foi atrás do Riley que havia fugido.
–Ah então ele pode nem ter sido pego. – otimizou Sam – Vai ver ele está nas Ilhas Maldivas e a gente aqui no gelo.
Natasha negou convictamente.
–Improvável! – exclamou – Ele levou um tiro de fuzil no braço, estava sem poder usar o arco. Sem contar que se esse Riley trabalha para Nikolaievitch, o que é provável, Barton está bem enrascado. E se estivesse bem teria mandado notícias
Silencio desesperador no local. Só o motor do carro podia ser ouvido.
Isadora bufou alto.
–Tá gente, nós viemos aqui para quê mesmo? Salvar o Clint e ver se ele descobriu algo de útil para usarmos como prova. – dialogou – Então vamos logo sair desse carro e procurar por ele.
–E como quer que façamos isso? Perguntando para as pessoas ”Oi você viu um cara com um arco por aí?” – zombou a de cabelos vermelhos
–E você tem alguma idéia melhor? – quis saber Domi.
Ela negou. Rolei os olhos, irritado.
–Que ótimo! – lastimei – Viemos até aqui para olhar para esse maldito banco e descobrirmos que não sabemos onde começar a procurar.
–Eu acho que nós deveríamos sair por aí conversando com pessoas e descobrir onde são as zonas “perigosas” ou os locais de desova da cidade. – se manifestou Isa
Outros minutos de silencio que me deixavam em pânico.
–Talvez a Isa esteja certa. – quebrei a calmaria – Não há outro jeito. – Se formos sorrateiros e entrarmos em bares ou restaurantes, com certeza vamos achar alguém que saiba de alguma coisa.
–É. – concordou Wilson – E Se esse tal Aleksey é tão famoso assim, as pessoas vão ter alguma informação útil.
A russa soltou um longo suspiro.
–Tudo bem, vocês tem razão. — admitiu – Mas, vamos precisar estar disfarçado. Quem sabe até falsificar documentos.
–Com todos esses casacos, boinas, tocas, chapéus, protetor de ouvidos e olhos acho pouco provável que nos reconheçam. – disse Isa
–Ela está certa, porem o lance dos documentos é bem útil. Com documentos falsos nós podemos viajar em trens. –acrescentou Sam.
–Quanto nós ainda temos de dinheiro? – perguntei
–Seiscentos dólares. — Dominika me entregou o dinheiro – Dá para conseguir identidades e passaportes para todos nós, mas vamos ficar sem nenhum dinheiro.
–Não tem problema. – a brasileira minimizou os problemas – Ainda temos água, biscoitos e bananas que trouxemos da fazenda do Julius.
–Ótimo e onde vamos falsificar isso? – eu quis saber
–Isso eu já sei. – respondeu Natasha – Sam a três quilômetros você vai encontrar um Ciber Café. Pare lá que vou procurar na internet.
Isadora juntou as sobrancelhas, em alerta.
–É seguro usarmos a internet daqui?
–Se não abrirmos nenhuma rede social ou algo que entregue que somos nós, não. – retrucou a outra.
Arrancamos com o carro para o local e em pouco menos de dez minutos chegamos. A cada minuto que passava a cidade ficava mais fria. Não é atoa que Oymyakon é a cidade habitada mais fria do universo. Eu definitivamente não sei o que estou fazendo aqui. Odeio gelo! Acho que é trauma.
Oymyakon era uma cidade bizarra. Para se ter uma idéia de como é frio, até dentro do Café onde havia aquecedor, os computadores de hora em hora uma camada de gelo em sua tela e teclado.
Isadora, viciada em tecnologia, não pensou duas vezes antes de sentar-se frente a uma máquina. Natasha foi à outra realizar a pesquisa enquanto o resto de nós se limitou a tomar um chocolate quente que congelou segundos após sair do fogo. Que cidade horrível! Tudo branco, sem ninguém praticamente, tudo parado, tudo congelado. E se não bastasse a iguaria do lugar era comer cavalos e renas. Isso mesmo, cavalos e renas.
Oymyakon era o pior lugar do mundo. Que saudade de Nova Iorque! Que saudade do calor do Rio de Janeiro!
Meus pensamentos contra o frio e Oymyakon foram interrompidos por um grito agudo. Olhei para trás por instinto e descobri quem havia transmitido o berro de dor.
Isadora! Ela estava chorando compulsivamente enfrente a tela do computador.
Fui até lá já em pânico.
–O que foi? – me ajoelhei ao seu lado. Ela estava debruçada sobre o teclado – Isa? Isa? Meu Deus, o que houve com você?
Ela não respondia, só chorava, gritava. Levantei-me para ver o que de tão grave ela tinha visto na internet.
Isa tinha acessado o site de um jornal de sua cidade e a manchete era a loja de seu pai, Miguel, completamente destruída por tiros e o mesmo no chão. Morto. O pai dela havia sido brutalmente assassinado.
Respirei fundo uma, duas, três vezes tentando não chorar junto com ela. Tentando dar força. A abracei e ela me apertou forte, soluçando sem parar de uma forma tão pavorosa e agonizante que fiquei sem saber o que fazer.
Pressionei-a mais forte contra meu corpo, como se fosse daquela forma pudesse extrair toda a dor e tristeza que ela sentia. Dominika se aproximou com um copo d’água, que para variar estava congelando, mas ela recusou voltando a se aninhar ao meu peito.
–Calma! – murmurei me sentindo completamente impotente sobre o acontecido – Beba a água, meu amor, beba!
Ela soluçava tanto e tão rapidamente que lembrou a mim, anos antes, em um ataque de asma. Aquela lembrança e comparação só me deixaram mais abalado. Ela tremia tanto que não conseguia segurar o copo. Dei água a ela praticamente na boca. Ela bebeu um pouco e voltou a chorar copiosa e furiosamente.
Nunca tinha visto Isadora daquele jeito. Aquilo estava me afetando de uma forma assustadora.
–Me-Me-Meu pai! – sussurrou. O rosto vermelho e inchado.
Todos na lanchonete não sabiam o que fazer.
–Está tudo bem. – tentei tranqüilizá-la, tirando o cabelo de seu rosto – Você precisa respirar!
Ela negou com a cabeça antes de voltar a me abraçar.
–A culpa é minha. –segredou em meus ouvidos em um fio de voz – Era para ser eu.
Separei-me para olhar em seus olhos. Limpei duas lágrimas que rolavam.
–Não, não era. E a culpa não é sua. – eu disse com toda a convicção e certeza que sentia – Nós vamos vencer, nós vamos prender esses assassinos e ladrões. Nós vamos tudo bem? Você só precisa acreditar.
Isa voltou a gemer e pareceu ficar mais fraca e mole até que percebi que havia desmaiado em meus braços.
–Isadora? – a minha voz saiu mais fraca do que eu desejei – Isa? Acorda! Acorda!
–Isso é emocional, ela ficar bem, Capitão. – ponderou Dominika – Vamos levá-la para o carro. Quando ela acordar vai estar melhor.
Natasha disse algo em russo a garçonete e a mesma se acalmou. Voltamos todos para o carro.
Deitei Isadora no banco de trás e acariciei seus cabelos por todo o trajeto.
O carro estava em luto. Ninguém ousou dizer nada por longos dez minutos até que Romanoff disse que em Yakutsk, oitocentos quilômetros á diante, encontraríamos informações e poderíamos conseguir documentos.
Continuamos todos em silencio por mais meia hora. Isadora continuava apagada, fiquei preocupado, mas a enfermeira guatemalteca disse que seria bom para ela continuar dormindo.
–Foram eles não foram? – murmurou Sam massageando as têmporas – E para atrair a gente para o Brasil.
Ninguém disse nada. Era óbvio demais para que alguém dissesse “isso aí”.
–Barton com certeza descobriu alguma coisa útil. – pela primeira vez em semanas a russa estava sendo otimista – Quem sabe montou um dossiê e está escondido em algum canto da Rússia.
–Tomara. – respondi cabisbaixo, fitando o rosto adormecido e vermelho de minha querida.
Passados mais quinze minutos, Isadora começou a se mexer.
–Onde a gente está? – inquiriu com a voz anasalada
–Indo para Yakutsk. – respondi – Vamos encontrar ajuda lá.
Ela se sentou rapidamente no banco, fazendo uma careta. Acho que dor de cabeça.
–Para o carro. – pediu
–QUÊ? – dissemos todos em uníssono
–Eu vou me entregar para a polícia. Já chega! Não vou arriscar a vida de mais ninguém. Isso foi um erro. – retomou o choro. –PARA LOGO!
Sam freou violentamente, mas manteve as portas trancadas. Isa tentava sair com a pressa de quem estava em um incêndio.
–Abre a porta! – insistiu
–Você não pode fazer isso. – grunhi – É isso que eles querem! Vão matar você! Isso foi uma armadilha...
–ARMADILHA? MATARAM O MEU PAI PARA ME ATRAIR PARA A MORTE? – gritou ela – ÓTIMO ELES GANHARAM! EU MEREÇO MORRER!
–NÃO ,NÃO MERECE! – gritei de volta tentando mantê-la sentada – Você não pode fazer isso comigo e nem com você.
–Posso sim! – persistiu em lágrimas – Você não precisa parar por minha causa. Continuem vocês, para mim já deu! Eu não vou entregar a localização de vocês...
–VAI SIM! – se enfureceu Natasha – Se você é burra ao ponto de desistir agora, com certeza é burra ao ponto de nos entregar para salvar sua família.
–Burra ao ponto? – repetiu ela perplexa – É A MINHA FAMÍLIA! MEU PAI! MAS, ACHO QUE VOCÊ NÃO SABE O QUE É ISSO, CERTO?
Romanoff murchou na hora.
–Não faz isso, Wollscheid! – imploraram Sam e Dominika – Não faz isso, agora! Nós já estamos no fim.
Ela continuava tentando abrir a porta.
–CHEEEGA! EU QUERO VOLTAR PARA CASA! – gemeu alto – Isso é loucura!
Aquilo estava me deixando muito nervoso.
– ABRE A PORTA SAM! – gritei mais alto que todos ali.
Um segundo de silencio.
–Se ela quer ir, deixe-a ir. – falei – A culpa disso tudo é minha. Eu a coloquei nisso tudo e a morte do Seu Miguel está nos meus ombros. Não vamos manter ninguém preso aqui.
Sam destravou as portas.
Isadora desceu no meio da neve, no meio do nada.
–O que vai fazer aí no meio da neve sem carro ou dinheiro? – Dominika fez a pergunta chave
Isadora sentou-se na estrada em prantos.
–Isa volta para cá. Anda. – pedi com o que restou da minha força – Se você ficar aí vai virar comida de lobo. Nós... Nós podemos manter todo mundo seguro.
Ela ficou de pé.
–Me ajudem a conseguir um carro então. – suplicou — Eu vou para Munique, Alemanha. Para a casa do meu irmão.
Todos arfamos derrotados.
–Eu faço isso. – se voluntariou Romanoff para a surpresa de todos
A russa atravessou uma pequena floresta e então não a vimos mais. Nos quinze minutos em que ficou ausente tentei de todas as formas convencer Isa a mudar de opinião sobre voltar ao Brasil, mas nada pareceu suficiente. Nem o meu amor e nem minha preocupação.
Natasha parou ao nosso lado com um Blazer preto. Desceu do veiculo e jogou as chaves para a outra.
–São mais de dois mil quilômetros até a Alemanha. – informou a russa antes de entrar no carro — Acho que é bom saber disso. E que depois que sairmos não tem volta.
Isa engoliu em seco.
–Se eu encontrar a polícia no meio do caminho vou me entregar. Sou ilegal aqui, vão me deportar. – disse ela entrando no Blazer.
–Isa...
–Não Steve, eu não vou mudar de idéia. Adeus. – me interrompeu – Tomara que consigam completar a missão.
Não tive chance de replicar. Ela arrancou com o carro em uma direção oposta a nossa. Sam também seguiu viagem. Passei dez minutos completamente perturbado pelo que havia acontecido.
Mais vinte se passaram.
Mais dez.
Uma hora se passou.
Ninguém falava nada naquele carro. Eu sentia como se meu coração tivesse sido arrancado e ido para a Alemanha. E era exatamente o que havia acontecido.
A noite começou a cair e minha preocupação aumentar. Se a polícia a pegasse Isadora não seria deportada. Seria torturada até revelar onde estávamos. Eu não posso deixar isso acontecer.
–PARA O CARRO! – berrei – PARA O CARRO SAM!
–Não Steve, não...
–Para o carro, amor! – Dominika me ajudou
O motorista estava estupefato, mas assim fez. Desci do carro com meu escudo e uma arma.
–Pelo amooooooooooor de Deus não me diga que vai atrás dela. – disse Natasha abeira de um ataque de nervos – Já estamos quase chegando a Yakutsk não desiste agora Rogers.
–Eu não desisti. – rebati – Mas, eu preciso voltar para buscá-la. Eu não consigo, não dá. Não dá para esquecer que ela está andando sozinha pela neve. Eu tentei, me desculpem, mas eu vou voltar.
Sam suspirou. Natasha estava tão vermelha de raiva quanto seu cabelo.
–Eu entendo. – Dominika falou – Faria o mesmo por Sam.
Agradeci a compreensão.
–Sigam viagem e consiga nossos documentos. – pedi – Vou encontrar vocês, mas não atrasem nada por nossa causa.
–Jamais atrasaria. – resmungou a ruiva entre dentes
Segui meu caminho a pé pela pista. O carro deu ré.
–Toma. – Sam entregou-me duzentos dólares – Nunca se sabe.
–Obrigado. – agradeci e ele arrancou com o carro.
Cabisbaixo, marchei pelo gelo.
Andei na neve e no frio por uma hora até deparar-me com um carro popular estacionado. Felizmente estava com a chave na ignição. Não houve tempo para remorso por pegar algo que não era meu. Aquilo era guerra, era caos.
E para mim, naquele momento, a única coisa que importava era encontra Isa sã e salva.
E principalmente, antes da polícia.
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