Ainda É Cedo
1 A Arte de Invadir um Asilo
Notas iniciais
–DESGRAÇAAADOS! – ela gritava para os seguranças
Isadora Wollscheid estava com muita raiva. Não acreditava que ela e Cléo haviam sido barradas na entrada da casa de repouso militar.
– Quem eles pensam que são? – grunhiu enfurecida – Por que nos barraram...
– Eles não te barraram. Eles ME barraram, mas aí você grudou no colarinho da mulher, disse que ela era uma vadia preconceituosa e então fomos jogadas na calçada pelos seguranças. – Cléo a interrompeu lembrando-a do que realmente tinha acontecido.
Isa sentou-se ao lado da amiga no meio fio.
– Nós precisamos entrevistar esse tal Sargento August Hudson. – ela insistiu
Cléo revirou os olhos.
– Isa desista disso... Não vão nos deixar entrar neste lugar. Até deixariam você entrar sozinha antes, mas duvido que depois do que disse a secretaria isso vá acontecer. Resumindo gastamos dinheiro a toa vindo do Brasil até aqui.
– Agora é uma questão de honra. NÓS duas vamos entrar nesta droga de asilo e entrevistar esse tal desse sargento. – determinou levantando-se – Viemos de muito longe para falar com esse cara. E aquela ridícula racista vai pagar pelo que fez a você, Cléo.
– Isadora esquece isso, vai! – Cléo insistiu ainda chateada – Eu já estou acostumada com esse tipo de gente. Se no Brasil, que é meu país, eu já passo por essas situações imagina aqui nos “States”? Somos só turistas...
– Exatamente! – Isa a cortou irritada – Somos turistas, temos que ser bem tratadas! Argh... Mas, o que eu poderia esperar de uma sociedade que é a maior fábrica de serial-killers do mundo? Ai que ódio! Quando esses estadunidenses de merda vão para o Brasil, são suuuuuuper bem tratados e quando alguém ousa não ser legal pronto: dia seguinte todos os jornais dizem “Brasileiros selvagens e mal-educados”.
Cléo estava meio assustada em com o estado em que a amiga estava.
– Nossa eu sou ofendida e você é que fica ass... Ah claro! – ela se interrompeu rindo – Essa não é a Isadora falando. É o Bin Laden! – zombou
Isadora escancarou a boca, ofendida.
– Cleópatra! – grunhiu
–NÃO ME CHAMA DE CLEÓPATRA! – agora era a outra que estava nervosa – Você sabe que eu odeio que me chamem assim – completou mais baixo ao perceber que havia chamado atenção de muita gente ali
Isa gargalhou, adorava deixá-la nervosa por causa disso.
– Mas, este é seu nome ué. – ironizou forçando uma cara de inocência – Cleópatra Joaquina Santos.
Se chamar de Cleópatra já tinha deixado Cléo irritada, “Cleópatra Joaquina” resultou em algo assim:

–PARA COM ISSO, BIN! – ela grunhiu
Isadora gargalhava enquanto a amiga a estrangulava.
– Ai tudo bem, tudo bem eu paro! – ela dizia sem fôlego – Mas, pera: “Bin’’?
– Bin Laden, seu ídolo! – zombou a
–Palhaça! – revidou rolando os olhos
Cléo bufou, estendendo a mão para a amiga se levantar.
– Vamos?
– Claro! Porem, precisamos de um plano. – ela respondeu analisando os muros da casa de repouso
– Fala sério, Isadora! – a mulata quase gritou de frustração – Eu disse para irmos para o HOTEL! Chega disso! Já passamos por muita humilhação hoje. Vamos voltar pro hotel e caçar outro soldado que tenha conhecido o Capitão América.
– Nããõ! – ela resmungou irredutível – Eu vim de Angra dos Reis para entrevistar esse sargento. Eu vou entrevistar esse sargento. – ela dizia enquanto escalava os muros.
– Isa! – Cléo exclamou chocada – Você tá maluca? Eu não vou ser presa nos Estados Unidos só para fazer um trabalho pra faculdade. Eu não vou escalar esse troço.
–CALA A BOCA! – ela gritou de volta já sentada no alto do muro – Seguinte, se você não quer ir, não precisa, mas terá que colaborar para o plano.
Cléo balançava a cabeça freneticamente em negativa... Isadora era louca e teimosa.
– Eu te odeio! Agora fala, qual o “plano”?
Isadora sorriu contente.
– Eba! Bom, deste lado não tem câmeras e como vimos na recepção o quarto do Sr. Hudson é o último do terceiro andar. Eu subo discretamente, entro no quarto entrevisto o velho e volto pra cá.
– E onde eu entro nesse plano?
– Você tem que atrair o povo da recepção para a portaria por uns cinco minutos. Se me virem lá, não vou conseguir entrar. – constatou
Cléo estava tão animada quanto alguém no corredor da morte, mas se sentiu na obrigação de concordar com “Bin”.
– Tudo bem, eu vou dar um jeito. – ela disse e em seguida a outra pulou para dentro do asilo.
Felizmente o pátio estava vazio, ou quase, já que apenas uma velhinha aparentemente surda estava lá. Fez sinal para a senhora dizendo que estava tudo bem e de repente o sino de incêndio tocou. “Cléo!” – pensou
E não deu outra: Era mesmo o jeito que Cléo encontrou para evacuar o primeiro andar. Isa saiu em disparada rumo ao terceiro andar, todavia não contava com um guarda na escada que ligava o segundo e o terceiro pavimento. Não tinha como voltar e não tinha como seguir... Ou pelo menos não pela escada. Em uma olhada rápida pelo lugar, percebeu que todos os quartos possuíam uma sacada e era uma em cima da outra, ou seja, dava para escalar. Direcionou-se a um quarto vazio, trancou a porta e se preparou para viver seu momento “Homem Aranha”.
– Ai meu Deus! – exclamou baixinho ao olhar o “abismo” – Odeio altura, odeio altura! Vamos lá, Isadora! Vamos você consegue!
Contou até três e se pendurou em um gancho do teto e em seguida em um vaso de flor entre os andares, quando seu pé escorregou.
–Ah! – tentou abafar um grito... Sorte sua que o quarto ficava nos fundos da casa
Depois de muito sufoco e quase morte, finalmente Isadora chegou a uma das sacadas do terceiro andar, com o coração disparado. Recuperava o fôlego e ria baixinho de sua maluquice quando vozes vindas do quarto a deixaram em alerta. Encolheu-se debaixo de uma mesa e resolveu escutar o assunto.
Do lado de dentro do quarto Steve Rogers tentava segurar as lágrimas ao rever Peggy, seu grande amor. Ao acordar teve a impressão de que tinham passado apenas algumas horas, no máximo dias, porem logo foi informado que o tempo que passara dormindo fora nada menos que sete décadas. Desde este evento tinham se passado um ano e meio e nada mudara. Não conseguia se habituar as “modernices”, não conseguia se acostumar em estar sozinho e... Até aquele dia não tinha obtido coragem para visitar Peggy.
Sabia que o tempo tinha passado, sabia que ela tinha envelhecido se casado, tido filhos. Claro que ele sabia! Mas, o coração insistia em lhe iludir que tudo era a mesma coisa. Que Peggy ainda era jovem e determinada como antes. Por mais que já tivesse se preparado a tempos para aquele momento, vê-la tão velhinha e pequena o deixou sem chão;
– Sabe, eu realmente te esperei, naquele encontro, mas você se atrasou. – disse Peggy com sua doce voz de senhorinha tentando descontrair o momento
Steve sentia os olhos arderem e apenas deu um sorrisinho de canto, tentando ser forte.
–Eu sabia que você não estava morto, mas mesmo assim eu chorei tanto, achei que não ia conseguir viver, tudo isso porque você não estava do meu lado, porque eu não ia te ver mais. – ela continuou segurando as mãos dele — Então, eu conheci August Hudson, ele me ajudou a superar o que eu estava passando, então depois de muito tempo entre nos surgiu o amor, namoramos e depois casamos. Tivemos dois filhos, fomos muito felizes, mas infelizmente ano passado ele me deixou.
– Eu... Eu sinto muito. – Steve balbuciou em um fio de voz – E que bom que foi feliz, que teve uma vida boa. Eu... – ele não aguentou e desabou em lágrimas – Por que isso foi acontecer? Por que? Eu não devia estar assim e você assim... Eu deveria ter te dado filhos, eu! Eu deveria ter envelhecido com você... Eu...E-e-eu apenas queria ter tido a oportunidade de viver.
–Steve, não se culpe,tudo que aconteceu, foi algo do destino... Tinha que acontecer. – ela ponderou limpando uma lágrima do rosto dele – Talvez se isso não tivesse acontecido você não encontrasse o seu verdadeiro amor. Talvez eu não encontrasse August.
Steve a fitou chateado.
– Eu fico feliz por você, mas eu não encontrei ninguém... Eu nunca te esqueci.
–Eu também nunca te esqueci, meu bem... Nunca. – ela reforçou – Você sempre foi e sempre será o meu primeiro amor. Eu quero que você seja muito, muito feliz assim como eu fui e peço... Por favor, por favor... Nunca se esqueça de mim.
– Eu nunca vou te esquecer, Peggy, nunca! – ele exclamou sorrindo – Você...
Um barulho vindo da sacada o impediu de terminar a frase.
– O que foi isso? – ele questionou
– Não ouvi nada, querido. – respondeu a senhorinha ao seu lado
– Eu ouvi! – ele persistiu e intrigado foi conferir
Não deu outra: Assim que abriu a porta, deparou-se com uma bela moça de olhos arregalados o fitando.
– Oi! – ela disse completamente sem graça
– Quem é você? – ele questionou bravo a levantando do chão
– Então você é o Capitão América! – ela exclamou perplexa – Fala sério, eu venho entrevistar um cara sobre o Capitão América e encontro o Capitão América.. AAH!
– Quem é você? – ele repetiu – O que está fazendo aqui?
– Dá para me soltar por favor? – reclamou e ele assim fez
– Quem está aí? – Peggy perguntou
Steve entrou puxando a garota pelo braço.
– Esta mulher estava escondida na varanda ouvindo nossa conversa. – ele explicou irritado – Quem é você, garota!
Isadora estava muito assustada e ao mesmo tempo entusiasmada.
– Eu sou Isa... Isa... – ela pensou, pensou e achou melhor não dizer o verdadeiro nome – Isabella!
– Isabella do que? E o que você está fazendo aqui, Isabella?
– Isabella Jo... Jones. Isabella Jones! – improvisou engolindo em seco – E eu sou estudante, estou aqui para entrevistar o senhor August Hudson, mas acho que errei de quarto.
– August? – Peggy perguntou estranhando – Meu August?
–A senhora é esposa de August Hudson? – ela perguntou já esquecendo a fúria do capitão e e se aproximando da idosa – Poderiam me dizer onde encontrá-lo?
Peggy abaixou o olhar.
– Eu sou a viúva de August Hudson, minha menina.
Isa não sabia onde enfiar a cara. Ao seu lado Steve estava começando a desenvolver um ódio imenso por ela.
– Ah...Ah...AH – ela gaguejava mordendo os lábios – Ai me desculpa, eu não sabia...Acho que...
– O que você está fazendo aqui? Saia já daqui antes que eu chame os seguranças. – Steve a cortou enfurecido
– Steve, está tudo bem. – Peggy tentou botar panos quentes
– Não, não está. Quem é você e porque estava escondida? – ele quase gritava – Está aqui a mando de quem?
Isadora estava perplexa e assustada, mal conseguia falar. Isso tudo só para fazer um trabalho para a faculdade.
– Calma! – ela tentou – Eu não estou aqui a mando de ninguém, só... Aí eu precisava falar com o sargento Hudson, ou a mulher dele, — ela disse olhando à senhora – E a secretaria não deixou que eu e minha amiga entrássemos por ela ser negra e segunda ela, Cléo tinha cara de “marginal” e que este era um local de família. E...
O telefone tocou cortando a explicação da garota.
– Sim? – Steve atendeu fitando Isadora
– Senhor Rogers, desculpe interromper sua visita, mas uma garota de vinte e poucos anos chamada Isadora Wollscheid invadiu o prédio. Ela esteve aqui mais cedo e sua entrada não foi permitida, todavia um de nossos seguranças a viu passar pelas câmeras e desde então estamos a sua procura. Por acaso o senhor a viu?
Steve sorriu de canto, olhando ceticamente para a menina assustada a sua frente.
– Bem, a senhorita poderia descrevê-la?
Isadora arregalou os olhos, implorando para que ele não a entregasse.
– Sim. Pele branca, olhos e cabelos castanhos, 1,70 de altura e está usando jeans e uma camiseta florida. Reconhece? – perguntou a recepcionista
Ele já estava pronto para responder um sonoro “sim, esta idiota atrapalhou uma conversa pela qual esperei 70 anos”, mas ao olhá-la mais uma vez... Desistiu. Por quê? Nem ele sabe, apenas não achou que Isabella ou Isadora merecesse ser presa por invadir um asilo militar. Sem contar que ela estava a lhe contar algo bem interessante.
– Não! Eu não á vi. – ele respondeu por fim
Isa sorriu aliviada e sussurrou um “obrigada”.
Assim que desligou o telefone, Steve cruzou os braços sorrindo ironicamente.
–Então,Srta. Wollscheid poderia me dizer realmente o que esta fazendo aqui?
Isadora bufou sentando-se em um sofá próximo.
– Desculpe. – ele pediu de modo sincero e envergonhado – Meu nome é Isadora, eu sou estrangeira. Eu vim de muito longe com minha amiga Cléo, que está me esperando lá embaixo, a fim de entrevistar o sargento Hudson, mas parece que me deram a informação errada. Não era o sargento e sim sua viúva. Desculpe-me, senhora.
– Está tudo bem. – Peggy respondeu com um sorriso doce
– Continue. – exigiu Steve ainda com pé atrás
– Então. Eu sou estudante de publicidade e meu TCC será sobre as propagandas na Segunda Guerra Mundial. Por isso, meu interesse em entrevistar alguém que tivesse conhecido o Capitão América.
– E porque a senhorita simplesmente não disse isso a recepcionista? – perguntou a velhinha – Diria tudo com o maior prazer.
A expressão facial de Isadora transformou-se em raivosa.
– Porque... – ela começou com o tom alto e ao perceber se calou – Porque minha amiga, Cléo, é negra e a recepcionista de nome Susan Bynnes a considerou “inadequada para este ambiente”. Disse que eu poderia entrar sozinha, mas eu fiquei irritada e a agredi. Foi aqui os seguranças nos colocaram para fora.
Agora todos no quarto estavam perplexos com o que havia acontecido.
– Que... Que absurdo! – exclamou Rogers com a mão no queixo
– Absurdíssimo! – conclamou Isa – E aí eu me revoltei e disse “ eu vim do Rio pra falar com esse cara. Eu vou falar com esse cara”. Resumindo a história é essa.
– Rio? Rio de Janeiro? – o capitão se interessou
– Isso aí.
Ele sorriu.
– Todos os brasileiros que conheci na guerra eram ótimas pessoas.
Isa sorriu de volta, mas não foi hipócrita de responder ‘todos os estadunidenses que conheci eram ótimas pessoas’, porque isso seria mentira.
– Bom, eu preciso ir embora. – ela disse voltando pra sacada – Obrigada por não me caguetar e desculpe atrapalhar a conversa de vocês.
– Hey! – ele exclamou – Você não vai descer por aí, vai?
– Sim!
– Eu não vou permitir isso. Alem do mais é perigoso e você não passou por tudo isso para não conseguir sua entrevista, certo?
–Awn! Você vai me ajudar? – ela perguntou meio que já agradecendo pela fofura.
–Sim, claro. É o mínimo que posso fazer depois do que você e sua amiga passaram com a recepcionista. Teriam uma péssima impressão do país se voltassem para casa sem o dever cumprido e ainda sendo descriminadas.
– Isso... Isso é muito legal da sua parte, muitíssimo obrigada.
– Só me dê um minuto. – ele pediu antes de voltar até Peggy, deixando Isadora na sacada
– Preciso ir. – ele disse olhando-a de maneira carinhosa – Mas, prometo que volto.
– Não, por favor, não volte. – ela pediu
Steve franziu o cenho, surpreso.
– O que? Co-Como assim?
– Você precisa seguir em frente. – ela afirmou olhando para a sacada e em seguida para ele – Ajude a moça e seja feliz. É só o que peço.
–Mas...
– Por favor! – ela insistiu
Mesmo atordoado e magoado, ele resolver fazer o que ela pediu. Antes precisava tirar Isadora daquele lugar e telefonou para a recepção informando que a tinha visto no sexto andar, fazendo com que todos se locomovessem para lá. Sem ninguém pelo caminho, facilmente ambos conseguiram deixar o local.
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