Aimée.
1 Capítulo 1 - Doce ilusão.
Notas iniciais
Primavera — Um ano qualquer sem importância.
Sentada no banco rodeado por flores na praça mais conhecida da cidade, esperava que algo acontecesse. Algo que lhe fizesse sorrir, afinal nem as mudanças de estações lhe proporcionavam um sorriso que fosse. Com um suspiro cansado, sentiu um leve vento dançando por ali...
Os galhos das árvores cheios de flores, sendo sacudidos pelo vento e assim seu aroma dançava junto, levantou-se disposta à entrar na dança e fechou os olhos ao notar uma pequena garoa deixando o céu com um arco-íris pintado. Ao ritmo do vento dançou, movia seu corpo sem coordenação, apenas deixava-se levar... Acompanhada do arco-íris, do chuvisco, do vento e do aroma das flores, dançou a valsa que nunca lhe foi permitida.
Contudo, logo o vento passou...
Seu momento de valsar acabou e voltou para o banco, onde suspirando e observando o céu se sentou. Então, era mesmo assim? As coisas boas acabavam sem que pudesse perceber... Com o aroma das flores ainda no ar, ouviu ao longe uma leve música soando, algo como um violino. Ignorando, ergueu os olhos ao céu novamente e o arco-íris não estava lá... Olhou em volta e as árvores estavam murchas, a chuva seca.
Levantou-se do banco e correu seu olhar pelo lugar... Tudo o que encontrou fora árvores negras com galhos secos, flores mortas e sem aroma, vento frio que chorava soltando ruídos... Então, era mesmo assim? Até o paraíso que criara em sua mente fora destruído...
Fechou os olhos num aperto forte, os abriu e constatou o que já sabia... E mais uma vez sua mente havia brincado consigo...
- Aimée , hora dos remédios.
Entrando em sua prisão branca, um enfermeiro — o mesmo que abusava de si na calada da noite -, deixou sobre a cama uma bandeja de plástico com alguns comprimidos. Antes que o homem pudesse sair do quarto, a menina deixou sua voz falha se pronunciar:
- O ventilador queimou... de novo. Eu quero vento. — pediu tristonha, se jogando na cama sem lençóis.
- Quer vento? Você é estranha! — afirmou rindo antes de sair.
Porta trancada, garota drogada.
Sentindo os comprimidos agindo em seu organismo, levantou-se da cama e foi até o pequeno radinho de pilhas, procurou por outra estação que tocasse uma bela valsa... Difícil, mas quando encontrou se pôs a dançar no pequeno espaço que tinha naquele quarto e novamente entrou em seu paraíso particular...
Sanatório — Uma menina presa dentro de si mesma.
Sentada numa cama velha, sem lençóis e ruidosa, olhava as paredes sujas com o próprio sangue e ali imaginava belas árvores. Sorrindo bobamente, levantou o colchão e retirou de lá um pequeno canivete, voltando a dançar começou os cortes pelo corpo já mutilado por si.
- Posso lhe acompanhar nesta dança, bela dama?
Perdida em sua mente, via a sua frente seu príncipe encantado, vestindo azul.
- Oh, claro que sim! — estendeu a mão que pingava sangue ao vazio e voltou a dançar com um belo e apaixonado sorriso.
- És linda Aimée!
Ouvia em sua mente, então... Era real, não é?
Logo a valsa que tocava no rádio chegou ao fim...
- Vamos, Aimée! O psicólogo quer lhe ver! — acabando com a ilusão da menina, o enfermeiro tornou a adentrar o pequeno quarto.
- A pilha acabou... Eu quero valsa... — pediu tristonha, enquanto deixava que lhe vestissem a camisa de força.
- Eu arranjo pilhas para você, agora vamos.
- Quero também aromas de flores e chuva!
- Devias pedir para ser lúcida! — comentou jocoso.
- Oh, não! Muitos já são assim! Estou bem, com minha doce loucura! Quero também navalhas, por favor!
''A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia''.
Michel Foucault.
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