Aidan e o mundo indie
2 Paredes brancas
Notas iniciais
A casa não é velha. Na verdade ela é uma daquelas casas que foram construídas para dar um ar retro mas realmente só tem 15 anos de construída. O mais interessante nela é o interior. O meu pai já foi hippie, na verdade ele foi por bastante tempo, então o interior da casa é cheia de coisas coloridas e confortáveis que não fazem muito sentido juntas. Mas de certa forma é legal, não digno da Vogue, mas o suficiente para dar um ar aconchegante.
— Então, o que mudou com a reforma? – eu pergunto – não estou vendo muita diferença.
— Reformamos os quartos apenas- A Natalie responde enquanto tira uma roupa suja do chão- E o jardim também. Tentamos fazer algo com a cozinha mas lá eu não tenho muita autoridade.
—Eles brigavam todo dia tentando decidir a cor das pastilhas- O Daniel fala, finalmente, uma sentença maior que “oi” – O que? É verdade. Eu não aguentava mais.
Enquanto eu e o Lucas levamos as coisas para o meu novo quarto eu não deixo de perceber algumas mudanças pela casa: a parede do corredor é agora um salmão forte, que dá uma sensação de calor, a sala ganhou um tapete novo, colorido como o pai gosta e o teto recebeu pinturas à mão do mar e de sereias com cabelo de fogo.
O meu quarto, no entanto, ganhou uma nova janela. Grande e branca, assim como todo o quarto.
— Achamos melhor não pintar enquanto você não chegasse. Quando você escolher a cor nós podemos te ajudar.
Com isso o pai nos deixa à sós, provavelmente para preparar o jantar junto com a Natalie.
—Você é tão sortudo em puder ficar aqui.
—Você queria morar aqui?
Lucas não responde de primeira, ele para e pensa. Eu sei bem o que ele tá pensando. A nossa mãe ficaria um caco se isso acontecesse.
—Você sabe que o pai não é tão legal assim. Não sei como a Natalie aguenta a bagunça dele.
O Lucas ri.
Assim que entramos na casa já podemos ver roupas espalhadas pela sala. Aposto que a Natalie tentou limpar para que chegássemos com a casa limpa, mas o pai tem o superpoder de sujar tudo em tempo recorde.
—Você acha que o Daniel tem medo que eles se separem?
Eu penso nisso as vezes. Como seria, se fosse com a minha mãe que meu pai tivesse agora? Eu provavelmente teria medo, de passar por tudo aquilo de novo se eles se separassem.
—Acho que ele tá apavorado.
O Lucas ri de novo. Ele criou a tese de que o Daniel é um rei gótico do mal que não tem sentimento a não ser raiva.
Terminamos de arrumar nossas coisas no armário, porque por incrível que pareça, nós somos organizados. Era arrumar o quarto ou passar uma semana sem internet lá em casa. Minha mãe é melhor que muito ditador...
A Natalie grita da cozinha que é hora do jantar e eu penso que nós provavelmente vamos ter um daqueles jantares estranhos em que só o pai e Lucas ficam discutindo. Sentamos na mesa da sala onde um monte de comida gordurosa se encontra.
—Olá, pizza!
—Não se empolga muito não, Lucas, ela é vegetariana.
—Quem, na vida, compra uma pizza vegetariana? – eu falo indignado.
Ok, o pai pode ser hippie o quanto quiser mas não me negue a calabresa!
— É mais saudável, tem mais nutrientes e ...
—Ainda sim engorda- diz o Daniel com um sorriso sarcástico.
Acho que o Lucas tá certo, nosso irmão é o rei dos góticos sarcásticos do mal.
Tirando que ele não é gótico. Mas, ok.
O jantar continua com o Lucas argumentando que precisa de uma dieta que inclua 10 pepperonis por noite. O que não faz sentido mas é o meu irmãozinho, então eu apoio. O Daniel continua calado mas sorri com facilidade das brincadeiras do Lucas. A Natalie encara o espinafre da pizza como o condenado encara a forca. E o pai fala sobre vitaminas e nutrientes que realmente não importam até começarem a faltar.
Basicamente, esse foi um jantar normal. Talvez um pouco mais animado que o usual, mas normal.
Depois de ver três episódios de The Walking Dead na TV, todos nós nos recolhemos para o nosso quarto. Todos menos o Lucas e o pai que resolvem ficar e continuar a maratona. Acho que se fosse normal para os pais escolherem um filho favorito, o Lucas ganharia preferência total do pai. Mas isso seja talvez por causa da idade mental do pai...
Depois de fazer toda a higiene necessária para um garoto que passou 8 horas em um avião, eu vou para cama. O sono não vem de primeira, coisas banais como a cor que eu vou escolher para as paredes passam pela minha cabeça. Porém coisas não banais também passam, como: será que minha mãe tá bem? Será que a Laura pensa em mim? Será que a escola vai ser um saco?
Sinceramente, eu não sou bom em fazer amigos. A maioria dos meus amigos são os que conheci no infantil por isso nunca tive a facilidade de conhecer alguém novo e já atualizar o status dele como amigo na minha vida. Isso provavelmente não faz sentido...
O Daniel derruba alguma coisa no chão do quarto dele e fala uns palavrões em inglês. Eu sei disso porque antes o nosso quarto era um só e agora tem apenas uma parede fina de gesso. Também escuto ele gritando irritado a palavra Rave. Não sei o que isso significa, mas não é como se eu devesse está prestando atenção na vida dele.
O último pensamento que tenho, antes de dormir, é sobre a escola. Talvez eu não devesse procurar fazer amigos de primeira, talvez eu devesse só tentar me manter fora de encrenca e relaxar um pouco. O ano passado não foi muito legal e eu fiz muita besteira, tirei muita nota ruim, fiz a mãe ficar furiosa muitas vezes e me apaixonei de mais. Talvez esse ano tudo que eu precise seja um tempo só.
Ou não...
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