Ahd al-Ramad

2 O inverno antes do sol


As joias de ouro que adornavam meu pescoço e os pulsos pesavam como toneladas de chumbo quando a porta de carvalho do quarto de hóspedes se fechou atrás de mim, isolando o mundo exterior. O silêncio do cômodo não era pacífico como na Europa; o palácio Al-Aswad carregava uma densidade que pairava pelo ar.

Caminhei até o grande espelho de moldura dourada e, pela primeira vez no dia, permiti que meus ombros caíssem. A futura Sultana, a diplomata inabalável que falara árabe com anciãos e sorrira para um noivo hostil, desapareceu. No reflexo, restou apenas uma garota de dezenove anos que sentia o peito tão frio quanto o mármore sob seus pés.

— Como você se sente, Nessie?

A voz de Edward veio do canto sombrio do quarto. Ele estava encostado na varanda, a pele pálida brilhando sob a luz da lua marroquina. Ele não precisava acender as luzes; via a minha exaustão na mesma nitidez com que ouvia o caos em minha mente.

— Em relação a noite de hoje? — Rebati a pergunta de volta enquanto minhas mãos alcançavam o fecho do colar na minha nuca.

Edward se aproximou. Cada passo dele era preenchido por uma reverência que eu conhecia bem. A distância entre nossos corpos se tornou pequena.

— Sobre seu noivo. — Seu hálito gelado me atingiu fazendo oposição ao calor que eu sentia. — Os pensamentos dele são dominados por uma humana. Uma forasteira de Essaouira, veio para cá com a família fugindo da guerra na américa.

Soltei um longo suspiro; eu sabia exatamente ao que ele se referia. Havia sentido o cheiro de morangos na peça que Jacob carregava consigo.

— Ele anda com algum pertence dela. — Sentei sobre a cama de dossel, me livrando dos sapatos de salto apertados. — O que mais você viu na mente dele?

— Tem curiosidade a respeito do seu noivo?

Um lampejo de curiosidade brilhou nos olhos âmbar do meu “irmão”. Edward tentava analisar o quão romantizada era a minha visão sobre aquele acordo entre os Cullen e os Al-Aswad; ele buscava sinais de interesse genuíno no homem com quem eu dividiria o quarto muito em breve.

— Não dá forma que você imagina. — Admiti dando de ombros. — Se vou me sacrificar pela continuação da linhagem e da espécie dele, que eu ao menos não seja publicamente humilhada por suas aventuras. Gostaria de manter nosso sobrenome íntegro.

O silêncio dele foi a resposta. Edward desviou o olhar, e eu vi o tormento em seu semblante. Nos meses que antecederam a partida de nossa família para o Marrocos, foi com ele que dividi minhas aflições sobre o acordo. Ele era meu maior confidente e meu companheiro desde que eu tinha poucos dias de vida.

— Eu sinto que falhei com você. Com Carlisle. — Ele sussurrou. — Sinto que estamos trocando a sua felicidade por uma estabilidade que o mundo sobrenatural exige. Mas, não estamos sendo justos com você.

Caminhei até a janela, abraçando o próprio corpo. Olhei para os jardins onde, horas antes, eu enfrentara Jacob. Eu invejava a fúria dele. Invejava o fato de que ele, ao menos, tivera um vento forte e devastador como Isabella Swan. Eu, a filha do "milagre do amor", estava caminhando para um leito de núpcias fundamentado em política, sem nunca ter conhecido o calor de uma escolha própria.

Edward me seguiu até a varanda, parando poucos centímetros à minha frente; estávamos tão próximos que sua respiração ricocheteava em meu rosto. A luz da lua iluminava a palidez de seu rosto, tornando as olheiras profundas e o dourado de seus olhos quase sobrenaturais. Ele parecia um homem febril, embora sua pele fosse fria como o inverno de onde viemos.

— Nós não precisamos fazer isso, Nessie — ele sussurrou, a voz carregada de uma urgência que me fez recuar um passo. — Os carros ainda estão no pátio. Eu conheço as rotas de fuga. Podemos sumir antes que o sol toque as dunas. Carlisle entenderia... com o tempo, ele entenderia.

— Fugir? — A palavra soou absurda em meus lábios. — Para onde, Edward? O mundo é pequeno demais para quem trai um tratado envolvendo os Volturi, os Cullen e os Al-Aswad. Seríamos caçados por todos os lados.

— Eu não me importo com a caçada! — Ele explodiu, diminuindo a distância entre nós. Suas mãos alcançaram meus braços, não com força, mas com o desespero de quem se afoga. — Eu não suporto mais ouvir o que ele pensa de você. Eu não suporto ouvir o nome daquela humana ecoando na mente do homem que vai dividir a vida com você. Ele não te merece. Ele não te vê.

Eu tentei desviar o olhar, mas ele segurou meu rosto com delicadeza, obrigando-me a encarar sua imensidão cor de ouro. As irís pareciam carregadas por um tipo de dor que eu não conseguia identificar.

— Nessie, eu passei cento e três anos vagando em um mundo sem propósito algum. Eu só passei a enxergar a vida com outros olhos quando você nasceu. — Minha boca se abriu involuntariamente, já imaginando o rumo final da conversa. — Eu te amei em segredo, porque já conhecia seu destino. Mas, agora, diante de tudo isso, eu não posso mais me silenciar.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Edward avançou sobre mim cobrindo seus lábios nos meus em um gesto de fome e desespero. Como alguém perdido no deserto, ele buscava minha boca com sofreguidão. Seus lábios eram frios, tão perfeitamente esculpidos que pareciam irreais. Não havia o calor humano que eu sentia em mim mesma. Era como ser beijada por uma nevasca: belo, absoluto e paralisante.

Por um segundo, minha mente vacilou. Edward era o meu lar. Ele era a floresta, o piano, o cheiro de chuva e a segurança de tudo o que eu conhecia. O beijo dele prometia uma eternidade familiar, uma fuga para o que era confortável.

Nosso beijo passou de um ato de desespero a uma ação voraz. Ele me empurrou de volta ao quarto, me agarrando pelas coxas e me depositando em cima de uma penteadeira que eu não havia notado dentro do quarto. O mármore frio nas minhas costas era o único contraponto ao incêndio que começava a se espalhar pelo meu corpo.

— Edward... — Tentei pronunciar seu nome, mas ele silenciou meu protesto com outro beijo, mais profundo, mais possessivo.

Suas mãos, sempre tão cautelosas, agora percorriam as curvas do meu corpo com uma propriedade que me deixava tonta. Ele subiu as mãos pelas minhas coxas, erguendo o tecido esmeralda do vestido, e eu senti o contraste da sua pele gélida contra a minha, que ardia em uma frequência híbrida. Por um momento, desfrutei o gosto de viver uma decisão minha, ignorando a confusão de estar envolvida com alguém que eu não enxergava para além do amor fraterno.

Edward me tocava como se eu fosse feita de vidro e luz. Suas mãos pálidas percorriam minha pele com uma adoração quase religiosa; ele não buscava apenas o prazer, ele buscava memorizar cada curva, cada tremor do meu corpo. Quando as roupas finalmente foram deixadas de lado, o contraste entre nossas temperaturas corporais era ainda mais evidente. Com uma delicadeza bruta, ele me tomou em seus braços, me depositando no centro da cama.

— Edward, eu… — Balbuciei entre um beijo e outro, enquanto seu dedo indicador tocava meus lábios.

— Seja minha. Nem que seja apenas por essa noite mas, seja minha.

Seu tom carregava a dor e o desespero que era refletido no olhar. O que fazíamos era errado e o risco de sermos pegos era ainda mais desesperador mas, eu não sentia uma vontade genuína de parar. Havia no ato uma sensação de liberdade.

A boca dele alcançou meu pescoço, as presas roçando num limiar entre o desejo pelo meu corpo e a ânsia pelo meu sangue. A mão esquerda estava presa ao meu seio, a palma exercendo uma pressão gostosa, enquanto os dedos brincavam com o mamilo já enrijecido. Eu nunca havia chegado tão longe com um homem e, me parecia justo que a perda da minha inocência viesse através de alguém que me queria de verdade.

— Eu serei, Edward. — Sussurrei num fio de voz, enquanto abria as pernas para acomodá-lo. — Me conduza.

Quando nossos olhos voltaram a se encontrar, suas orbes estavam mais escuras, como quando ele passava dias sem caçar. Edward me beijou novamente enquanto nos unimos. A dor estava presente mas, se tornou irrelevante diante do doce sabor de uma escolha. Edward movia-se comigo com uma reverência profunda, seus olhos fixos nos meus, garantindo que eu soubesse que, para ele, eu era a única soberana.

Foi uma dança de gelo e vida. O frio de sua pele acalmava o meu sangue febril, e o som de nossos corações — o dele, silencioso; o meu, galopando — preenchia o vazio. Naquele momento, no centro daquela entrega íntima, eu não era a futura Sultana. Eu era apenas Renesmee, amada por um homem que daria a eternidade para me manter ali.

Pouco antes do êxtase o atingir, ele se retirou de dentro de mim; eu era prova suficiente da capacidade de procriação da sua espécie. Mas, ele não me deixou de lado até que eu atingisse meu próprio Nirvana. Edward me tocava com tanta segurança que parecia conhecer meu corpo há anos; eu gemi entregue em seus braços, até me desfazer em sua mão.

— Essa foi a melhor noite da minha existência. — Ele murmurou, me puxando para seu peito de mármore. — Eu poderia passar o restante da eternidade assim.

Eu sorri em silêncio, desfrutando do seu toque e da sensação de chegar o mais próximo do amor que eu poderia. Me mantive calada, agarrada ao frio de sua pele, enquanto meus sentidos se normalizaram.

Tamanho era meu estado de paz que só percebi que havia pegado no sono quando o sol escaldante de Marraquexe já se esgueirava pelas frestas da janela, desenhando listras douradas sobre a seda desordenada da cama. Ainda que eu estivesse agarrada ao corpo frio de Edward, o calor do deserto já começava a se tornar opressor, uma lembrança física de onde eu estava.

Abri os olhos e o encontrei me observando. Edward não dormia; ele passara as últimas horas da madrugada imóvel, guardando meu sono como se fosse o tesouro mais precioso de sua existência centenária. Seus dedos pálidos traçaram o contorno do meu ombro com uma leveza angustiante, como se temesse que eu pudesse desmoronar ao toque.

— Bom dia, meu amor — sussurrou ele, o tom carregado por uma ternura que fez com que eu fechasse os olhos por um momento, absorvendo aquela adoração.

Eu me aconcheguei ainda mais contra ele; o gelo em sua pele me atingia de forma reconfortante, um bálsamo contra o clima lá fora. Para Edward, aquela noite havia sido a culminação de um século de espera. Eu via em seus olhos uma entrega absoluta, um amor que beirava o desespero. Ele me olhava como se eu fosse a única coisa real em um mundo de sombras.

Por um lapso, me permiti imaginar como teria sido a eternidade ao seu lado. Se, em trezentos anos, ele ainda me olharia da mesma forma; se teríamos filhos e que tipo de criatura criaríamos. Mas, acima de tudo, me perguntei se eu seria capaz de retribuir exatamente o que ele sentia.

Edward era meu porto seguro há muito tempo. Havia carinho e uma gratidão imensa em nossa dinâmica, mas a noite que passamos juntos foi, para mim, uma vitória pessoal. Pela primeira vez desde o meu nascimento, meu corpo não pertencera a um tratado ou a uma linhagem. O rastro dele em mim fora uma escolha. Eu não tinha o fogo dele, mas tinha a paz de saber que minha primeira entrega fora um ato de rebeldia, não de obediência.

Edward inclinou-se, beijando minha testa com uma reverência que doía.

— Eu nunca imaginei que a eternidade pudesse ser contida em poucas horas — murmurou ele, o hálito de chuva roçando minha orelha. — Fuja comigo, Nessie. Não suporto a ideia de você carregar o rastro do meu toque para o leito daquele lobo. Eu te levo agora, para as montanhas, para onde ninguém possa nos encontrar.

Os sentimentos dele eram mais vastos do que eu pudera calcular, e tão puros que sua perfeição beirava o sufocante.

— Você sabe que eu não posso — respondi, afastando-me um centímetro para encará-lo. — Se fugirmos, o tratado cai e o sangue de toda Marraquexe será o preço. Não posso trocar vidas pela nossa fuga, Edward.

— Nem tudo é sobre diplomacia e grandes sacrifícios — disse ele, a dor nublando o dourado de seus olhos. — Vai mesmo ignorar a noite que tivemos ontem?

— Ontem foi sobre a minha liberdade. — Toquei o rosto dele com delicadeza. — Nessa cama, você me deu o direito de escolha, Edward. E eu decidi que você seria o primeiro. Você me teve de uma forma que Jacob nunca terá. Mas agora, eu preciso assumir as responsabilidades que aceitei. Existe um povo lá fora que precisa de mim.

Ele fechou os olhos, absorvendo a crueldade da minha lógica. Ele me amava com a força de um milagre; eu o amava com a segurança de um lar, mas meu compromisso com o destino era, naquele momento, maior do que nós dois.

— Guarde o segredo desta noite — pedi, enquanto me levantava para me vestir. — Deixe que ela seja apenas nossa.

Edward permaneceu imóvel, a imagem da resignação. Ele era um mártir do próprio amor, e eu via em seu rosto que ele aceitaria qualquer migalha que eu lhe desse. Com um movimento rápido e silencioso, ele se aproximou da varanda. Antes de saltar para as sombras do jardim, ele me olhou uma última vez — um olhar de adoração pura que me perseguiu enquanto eu terminava de me arrumar.

Antes de me juntar aos outros no salão principal para o café da manhã, tratei de cuidar as provas do meu deslize: o lençol marcado pelo sangue e pela mistura dos nossos fluídos. Atuei com precisão cirúrgica ao dobrar a peça e enfiar ela dentro do baú aos pés da cama, com a promessa silenciosa de me livrar dela ao cair da noite, durante minha caçada.

Quando atingi o andar térreo, a casa já fervilhava pela vitalidade dos criados e o cheiro de pão, café e hortelã frescos. Encontrei Esme sentada à mesa, sua expressão sempre doce e maternal.

— Bom dia, querida. — Me cumprimentou, o sorriso vacilando no momento em que eu me aproximei.

Nosso clã, através dos séculos, era conhecido pela alta concentração de vampiros dotados de dons excepcionais. Minha mãe, apesar de não ter nenhum talento em comum, tinha seus sentidos vampíricos mais apurados que o restante de nós. Ela não precisou de palavras para entender. O cheiro de Edward — aquele aroma de floresta fria e neve — estava impregnado em mim de uma maneira que nenhuma conversa diplomática justificaria.

A atmosfera ficou subitamente carregada, minha matriarca processando a informação em milésimos de segundo. Sua natureza empática a deixando em num misto de compreensão e pânico que já atingia a sua expressão.

— Renesmee… — Ela começou, a voz tão baixa que não era capaz de se sobrepor a um grilo. — Sente-se, por favor.

Me sentei logo a sua frente, mantendo minha coluna ereta. Meus olhos percorreram seu rosto, na busca por algum sinal de alerta. Esme estendeu a mão sobre a mesa tocando a minha. A pele dela era fria, mas o gesto era de um calor maternal imenso.

— Querida, o cheiro dele está em você. — Ela sussurrou, e eu vi o conflito em sua expressão. Ela amava Edward como um filho e eu, de fato, era sua filha. A percepção do que havia acontecido entre nós não a enfureceu, mas a aterrorizou.

— Ele esteve comigo, mãe. — O salto traidor que meu coração deu desfez a estabilidade da voz. — Edward me ensinou mais sobre as rotas comerciais e treinamos um pouco de árabe juntos.

Ela olhou a nossa volta se certificando de que éramos as únicas pessoas presentes ali.

— Filha, não me subestime. Eu conheço o cheiro de uma conversa mas, conheço mais ainda o cheiro da entrega. — Não havia grosseria em seu tom, apenas medo pelo segredo que agora ela guardava junto comigo. — O cheiro dele em você não é apenas o rastro de uma conversa de despedida, minha querida. É o cheiro de uma alma que finalmente encontrou o que buscou por um século... e de uma escolha que pode destruir o que estamos tentando proteger. Por que agora?

— Mãe, eu precisava disso — respondi, sustentando o olhar. — Eu precisava saber que, antes de ser o símbolo de um tratado, eu fui mulher. E que eu escolhi quem me tocaria primeiro.

Esme não me respondeu de imediato, houve uma pausa súbita seguida por um longo e angustiante suspiro.

— Eu entendo o desejo de liberdade, Nessie. Eu realmente entendo. Mas você não escolheu um momento qualquer, e não escolheu uma pessoa qualquer. Edward te ama com uma intensidade que o cega para o perigo. E Jacob... — ela hesitou, olhando ao redor para garantir que nenhum servo dos Al-Aswad ouvisse. — Jacob Al-Aswad não é apenas um noivo político. Ele é um predador com um instinto que nós, vampiros, às vezes subestimamos. Ele vai sentir isso, Renesmee. Ele vai sentir o cheiro de Edward em você.

Pela primeira vez em toda a minha existência, eu vi a tristeza atravessar o rosto de minha mãe. Seu discurso não era, nem de longe, uma forma de repreensão. Ela temia nosso futuro. O rastro de minha entrega era a prova física de um crime diplomático que poderia custar caro a todos nós.

— Eu sei — admiti, sentindo o peso das palavras dela.

— Então, deixe-me ajudá-la. — Esme levantou-se e contornou a mesa, parando atrás de mim. Ela tirou do bolso de seu vestido um pequeno frasco de vidro escuro, contendo um óleo essencial de sândalo e mirra especiarias fortes e densas da região, que Sarah nos ofertou como presente de boas vindas na noite anterior. — Passe isso nos pulsos e no pescoço. O cheiro é forte o suficiente para confundir os sentidos de qualquer um que não esteja procurando especificamente por Edward.

Enquanto ela aplicava o óleo com dedos trêmulos, ela sussurrou perto do meu ouvido:

— Carlisle não pode saber. Não agora. Ele carrega o peso do mundo nos ombros, e saber que os filhos que ele mais ama e protege cruzaram essa linha... isso o quebraria.

— Obrigada, mãe.

— Não me agradeça ainda — ela disse, voltando para o seu lugar com uma expressão sombria. — O óleo esconde o cheiro, mas não esconde o brilho nos seus olhos ou a mudança na sua postura. Jacob vai procurar uma razão para te odiar, Nessie. Não dê a ele uma razão para odiar Edward também. Se ele descobrir, esse tratado será escrito com o sangue de quem amamos.

Terminei de aplicar o óleo de mirra, sentindo a fragrância densa e terrosa lutar contra o frescor de pinheiros que ainda emanava da minha pele. Esme guardou o frasco, seus olhos encontrando os meus com uma súplica silenciosa. Éramos agora cúmplices de um crime que poderia incendiar Marraquexe.

— Mantenha a cabeça erguida, Nessie — sussurrou ela. — A mentira só sobrevive se você acreditar nela primeiro.

Eu mal tive tempo de processar o aviso. O som de botas pesadas contra o piso de azulejos anunciou a chegada dele. Jacob Al-Aswad entrou no salão como um vendaval, vestindo trajes de linho escuro que acentuavam sua postura predatória. Ele não caminhava; ele reivindicava o espaço.

Jacob parou a poucos metros da mesa. Seus olhos negros, sempre carregados de um cinismo defensivo, varreram o ambiente até pousarem em mim. Diferente de Edward, que parecia flutuar sobre o mundo, Jacob parecia fundido a ele. A radiação de calor que emanava dele era quase ofensiva para os meus sentidos acostumados ao gelo.

Ele farejou o ar. Suas narinas dilataram-se bruscamente e um vinco se formou entre suas sobrancelhas.

— Que cheiro é esse? — A voz dele era um rosnado baixo, direcionado a mim. — Você está mergulhada em incenso de enterro, Cullen. O que está tentando esconder sob tanta mirra?

Esme manteve a calma, mas senti sua tensão sob a mesa.

— É um presente de Sarah — respondi, minha voz soando tão polida e fria quanto um cristal. — Uma cortesia para a minha primeira saída oficial. Você não aprova os costumes da sua própria mãe, Jacob?

Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. Ele se inclinou, o nariz a centímetros do meu pescoço, onde o óleo estava mais concentrado. O calor de sua pele era como uma brasa encostada em mim. Senti o rastro de Edward, lá no fundo, tremer diante daquela inspeção.

Jacob permaneceu ali por um segundo eterno, sua respiração quente batendo contra a minha pele. Ele sabia. Podia não ter a prova definitiva, mas o instinto do lobo captara a anomalia sob o perfume. Ele se afastou lentamente, um sorriso cruel e desdenhoso surgindo em seus lábios.

— O cheiro é forte — ele disse, os olhos fixos nos meus, prometendo um confronto que o café da manhã não permitiria. — Mas o deserto tem uma forma de queimar as camadas superficiais para revelar o que está escondido por baixo. Vamos para a Medina. Quero ver quanto tempo essa sua máscara de porcelana dura sob o sol.

Ele virou as costas sem esperar por uma resposta. Olhei para Esme, que estava pálida de uma forma que só os mortos conseguem ser. A farsa havia começado.