Os papéis estavam invertidos agora. Eram seus pais os que assistiam, lívidos, a todo aquele processo, sua filha tendo suas roupas rasgadas, sendo arremessada em uma mesa qualquer, acuada pelos ombros largos do homem à sua frente, que ia desabotoando a calça em movimentos bruscos. Na cabeça de Narizinho, ela simplesmente sentia que seu corpo estava sendo invadido, dilacerado, e que sua pureza se esvaía rapidamente. E não era necessário que ela já tivesse conversado com alguém para saber que aquilo era errado. É inerente ao ser humano perceber quando seu corpo está sendo violado indignamente. Estupro. Talvez ela se recordasse de uma ou duas referências vagas em algum dos livros que lera, mas nada comparado àquela sensação.

Os pais se debatiam, gemiam por trás da mordaça em suas bocas, lutavam sem êxito, segurados pelas mãos fortes dos dois homens que faziam companhia ao homem dos pesadelos de Lúcia.

Enquanto o senhor e a senhora Encerrabodes agonizavam, Narizinho chorava. Sem nenhuma palavra, tamanha era a perplexidade. Enfim, o homem se deleitava no clímax de seu prazer perverso, caindo por cima de Lúcia. A mãe estava banhada em lágrimas, e o pai reunia as últimas forças com a esperança de estraçalhar a cadeira onde estava amarrado e tomar sua filha em seus braços. Mas já era tarde. O homem abotoou as calças, levantou-se, fez alguns gestos a seus homens, e isso foi suficiente. Logo o incêncio começou, consumindo os dois corpos que se debatiam contra as pesadas cadeiras nas quais estavam presos. O fogo se alastrava facilmente pelos vestidos e ternos da vitrine. Rapidamente, a família de Narizinho havia se reduzido a um só membro: uma garota indefesa, nua, debilitada, em meio às chamas.

Narizinho acordou de novo. Já era quase de manhã, e tio Barnabé permanecia guiando os dois cavalos, como se fosse invulnerável ao sono. Ela não sabia muito bem o que fazer: se ficava acordada ou voltava a dormir. De qualquer jeito, as imagens permaneceriam em sua mente. Talvez o sonho desse a ligeira impressão de que tudo não passava de uma ilusão, algo de sua cabeça. Ela bem sabia que não era, mas não havia mais nada a que se ater naquele momento. Ela decidiu voltar a seus pesadelos.

Lá estava Lúcia, chorando, enquanto o fogo se aproximava. Logo ela ouviu um barulho forte, como se tudo estivesse desmoronando. Era o dono de uma loja vizinha, que, ao sair para trancar o estabelecimento, notou o incêndio. Ele era amigo da família, e não conseguiu conter as lágrimas ao perceber o que havia acontecido. Tomou Lúcia em seus braços, tentando cobri-la com os trapos que sobraram de sua roupa, tirando-a para fora daquele local que estava prestes a vir abaixo.

O homem, ainda atordoado, pediu para que fossem até a delegacia relatar o que acontecera. Ele mesmo foi até a casa da tia de Narizinho, irmã da senhora Encerrabodes, levar sua sobrinha. Até então, Lúcia não havia dito uma palavra, mas os sinais em seu corpo falavam por si. A cena era chocante, indigesta, e a história virou assunto para toda a cidade. A tia de Narizinho resolveu mandá-la para o sítio de sua mãe, Benta, avó materna da garota. Tio Barnabé ia periodicamente à cidade comprar utensílios de cozinha ou alguma futilidade qualquer, e ela aproveitaria a carona de volta. Durante esse tempo, ficou hospedada na casa de seus tios.

A menina já havia passado várias temporadas com sua tia, quando seus pais viajavam a negócios. Em uma dessas visitas, ela acabou deixando sua única boneca por lá. Ela nunca se apegava a bonecas, por mais que sua mãe quisesse. Sempre tinha as mais bonitas, invejadas por suas amigas de colégio, mas Narizinho sempre achou um símbolo de submissão feminina, fragilidade – motivada por heroínas da literatura, como madame Bovary, ou alguma personagem forte de José de Alencar.

Essa boneca, no entanto, era especial. Havia sido feita pelas mãos de sua mãe, recheada com macela e coberta com uma roupa de retalhos. Narizinho sempre se perguntou por que motivo ela seria tão especial, já que, em comparação às bonecas caras que ganhava, aquela não passava de um monte de retalhos.

– Ela é especial, minha filha – dizia sua mãe – porque vai afastar você de todo sentimento ruim. É só abraçá-la bem forte.

– Mas por quê, mamãe? – Narizinho, ainda uma criança, indagava.

– Porque eu a fiz com esse propósito. Não há outra como ela no mundo, meu amor.

– Como é o nome dela, mamãe?

– Emília. Significa “lutadora”, em latim.

Desde seus sete anos, Narizinho nunca havia parado para pensar o porquê de sua mãe ter escolhido um nome como esse para uma boneca. Agora ela entendia. Como sempre, ela estava guardada em um baú, no porão da casa de sua tia. Ao reencontrá-la após meses, Lúcia sentiu um misto de reconforto e esperança ao abraçar a boneca Emília. Como sua mãe havia dito.

A pancada na parte traseira da carroça fez com que Lúcia despertasse assustada. Ela se viu praticamente grudada à boneca. Todo aquele esmero de sua mãe em fabricar a boneca, cada agulha, cada pedaço de pano, cada rolo de linha, tudo fazia sentido no coração de Narizinho. Emília era a única prova física do amor que seus pais tinham por ela. Quem dera ela estivesse agarrada à sua amiga de pano quando tudo aconteceu.

Lúcia chegou a pensar que, de certa forma, talvez ela estivesse mesmo.