Agulhas, Panos e Linhas
1 Perda
Enquanto a carroça ia trepidando pela estrada de chão, Lúcia tentava se acomodar em meio a roupas e quinquilharias que seu tio havia comprado na cidade. Há muitas semanas ela não dormia direito, não conseguia pregar o olho por mais de duas horas seguidas. Acordava quatro ou cinco vezes por noite, pulando da cama, com a respiração ofegante. Era sempre assim, desde o dia em que tudo aconteceu.
O caminho de terra batida, bastante irregular, só piorava a situação. Ora ela acordava apavorada, após mais um de seus pesadelos, ora os buracos na estrada se encarregavam de perturbar seu sono. Aqueles sobressaltos, contudo, arrebatavam-na das cruéis recordações que a acompanhavam por semanas, sem trégua. E cada vez que ela adormecia, repetitivas cenas vinham à tona.
A imagem mais frequente era a de um grupo de homens bem-vestidos adentrando a loja de seus pais. O estabelecimento Agulhas, Panos e Linhas, misto de armarinho e alfaiataria, era o ponto de referência da região em termos de corte e costura, conhecido pela sua tradição e qualidade na fabricação de peças exclusivas para damas e cavalheiros. Aquele era um negócio de família, e parecia prosperar cada vez mais. O pai de Lúcia era um administrador nato, e, ao tomar as rédeas da empresa, logo fez parcerias importantes com exportadores e atacadistas da capital. Seu principal trunfo, como dizia ele, era ter toda a família engajada no negócio. Até mesmo Lúcia, que, no auge de seus 13 anos, não conhecia outros ambientes, senão o colégio que frequentava e o balcão da loja.
A garota, no entanto, era inteligente e curiosa. Nas horas vagas, ela se escondia para ler os livros de seu pai. Não tinha preferência por gêneros, lia tudo, e o fazia como se aquilo fosse natural para sua idade. Lia obras clássicas, complexas, que iam de Platão a Émile Zola. Essa avidez por conhecimento garantia a ela um ar superior, que encantava os clientes e sempre rendia alguma brincadeira envolvendo seu nariz empinado. Foi em uma dessas “gracinhas” que Lúcia recebeu o carinhoso apelido de Narizinho. Ela nem se importava. Sua única preocupação, na vida, era qual livro leria no dia seguinte.
Mas já faziam duas semanas que ela não tocava em um livro. Após o incidente, seu mundo virou de cabeça para baixo.
Narizinho acordou de novo, e logo se aconchegou perto de uma trouxa de roupas sujas. Dessa vez, as imagens estavam mais nítidas.
Era um pôr-do-sol qualquer na vida da família Encerrabodes. O pai de Lúcia não estava esperando nenhum carregamento vindo da cidade grande, o movimento era fraco, a temporada de feriados e compras de fim de ano havia acabado. As portas dos botecos e lojinhas já iam se fechando, e aqueles três homens, de início, pareciam ser a última clientela do dia – a única naquela tarde. Quem dera eles estivessem lá para comprar algo.
A cena aconteceu muito rápido, mas ainda estava viva na mente da garota. Ao ouvir o barulho da porta, o senhor Encerrabodes se aproximou, dando as boas-vindas ao trio. Eles nem deixaram o homem terminar seus cumprimentos. O mais alto empunhou uma arma e mandou que o casal se virasse. Narizinho viu seus pais tendo os braços atados às costas, amordaçados e espancados. O que parecia ser o líder, dando ordens para que os outros dois parassem com a tortura, olhou de um jeito diferente para Lúcia, e foi se aproximando.
Com 13 anos, não se sabe ainda muita coisa da vida. Mesmo instruída como só ela, Lúcia ainda não havia despertado para os sentimentos da adolescência. Com treze anos, ela ainda mantinha traços de criança. Para o homem que estava à sua frente, naquele momento, aquilo não fazia muita diferença.
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