Lúcia, agraciada pelo amor materno fluindo em suas veias, pôde ver com mais clareza toda a cena do estupro por outro ângulo: o da mãe. Ela podia sentir a boca amordaçada, as mãos atadas por trás da cadeira, o corpo do marido roçando no dela em desespero. Ela não sabia, mas o que sua mãe sentiu naquele momento fora além do simples pânico.

A mãe de Lúcia, vendo a cena, recordou-se do momento em que ela estava no lugar da filha. No mesmo local, mesmas técnicas de brutalidade, mesmo pavor. A mãe logo entrou em um desespero agudo, ao sentir que Lúcia poderia sofrer o mesmo que ela. A maternidade. A gravidez.

Aquele não foi o momento que Lúcia descreveria como alegre. Mas ela sentia, cada vez mais, o amor materno preenchendo todas as lacunas de sua alma, e se recordava do zelo de sua mãe. Parecia que ela também desejava que o ciclo se interrompesse. Lúcia pôde ver que sua mãe ficara no convento tempo suficiente para desenvolver uma fé substancial, que buscou para paliar a descoberta segredada por sua imã mais nova, poucas horas antes de seu ingresso no convento.

Mas aquele não parecia ser o amor de sua mãe. Era diferente, agudo, fresco. Ao contrário do sentimento herdado da boneca, aquele era grosseiro, imperfeito, não-lapidado. Era um sentimento maternal... Dela.

Lúcia soube o que fazer. Contar a alguém? Esconder? Abortar?

Não. Estava nas mãos dela a possibilidade de concluir aquilo de vez.

Enquanto Lúcia saía do quarto a passos leves, esperando que o corujar da noite pudesse abafar seus movimentos pela madeira fofa do piso, ela ia estudando cada sensação nova. O relógio ainda estava à sua frente, girando compassado, puxando as memórias da mãe.

Narizinho procurou por algo que pudesse dizer a ela o que era aquilo. Logo achou a resposta: encontrou um instante em que sua mãe parecia sentir o mesmo que ela sentia agora. A cena era de alegria: ela podia ver seu antigo pai, ainda jovem, sorridente, acariciando a barriga de sua mãe. Era, realmente, o sentimento da espera de um filho. Então, era mesmo aquilo.

Narizinho parou à frente do barraco do tio Barnabé. Ele ainda estava se balançando na rede, procurando o sono em seu cachimbo de palha. Ela inventou que pegaria qualquer coisa para sua coleção: talvez mais uma pena de pavão, ou, quem sabe, uma pedrinha qualquer que estivesse por ali. Esperou que ele a dispensasse, virando-se para dentro da rede novamente, para que ela fosse diretamente em uma lata cheia de querosene para lamparina.

Lúcia, com treze anos, encarou os fatos com maturidade. Não deixaria aquele filho nascer, muito menos permitiria que ele vivesse em um mundo que ainda não está preparado para receber pessoas de bem.

Agora, ela estava de pé, novamente, em frente aos restos de sua boneca e de seu pai. O sol vespertino dera conta de secar a poça de água feita pela chuva no dia anterior, e agora Narizinho despejava mais uma lata de querosene sobre as cinzas.

Lúcia acendeu um palito na caixa de fósforos que trazia consigo. Logo o fogo subiu, imponente. Ela teria que ser rápida, a claridade em meio à escuridão do entardecer logo chamaria a atenção de alguém para aquele local. Assim, ela pulou.

Estava certa de que não sentiria dor alguma, nem mesmo ouviu o chiado da própria carne sendo cozida. Foi indolor para ela. Estava feliz por ter terminado o que seu pai havia iniciado há muitos anos: a trama estava completa. Cada centímetro de fio havia sido usado. Cada pedacinho de pano colocado em seu devido lugar. E agora tudo era jogado ao fogo. O fim do ciclo.

Nem mesmo uma agulha restaria daquilo.

Notas finais
E então? Dêem opiniões. É muito importante para um escritor, podem ter certeza! =D
Reviews! *tananã* Reviews! *tananã*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!