Notas iniciais
salut! mais um capítulo!

DIANA

O movimento do café tinha caído novamente e eu aproveitei para abrir minha marmita e comer meu almoço.

Era quase cinco da tarde e meu pai implicaria dizendo que pelo menos no horário certo eu deveria comer, mas meu estômago já estava acostumado.

Meu pai também diria que aquilo era um péssimo sinal.

— Ela parece insuportável. — Manu disse de repente.

— Quem?

— Sua nova vizinha. Depois de horas, ela respondeu apenas apenas um "OK" seco e nem reagiu a sua carinha.

Suspirei, dando uma garfada na salada de alface e tomate cereja.

Realmente ela não tinha obrigação de ser nada além de respeitosa comigo, mas eu estava desapontada mesmo assim.

Além dos motivos financeiros, dividir a "casa" com outra pessoa era a minha esperança de socializar mais do que apenas um "Oi, senhor/senhora, está uma manhã linda, não é? Vai querer o mesmo de sempre?".

Minha esperança de construir, sei lá, uma amizade.

Está bem, eu sei, era irreal demais ter expectativas assim no mundo em que estamos vivendo.

Mas eu sentia saudade de ter um amigo ou uma amiga.

Manu era meu melhor amigo, mas estava fazendo mestrado em outra cidade e só aparecia geralmente em fim de semanas alternados.

Minha vida não era tão solitária quando me mudei para Bela Ventura porque Marlene era uma querida.

Já conversávamos há um tempo devido a um clube de livros, uma senhorinha de 70 e poucos anos, tão solitária quanto eu nos meus 20 e poucos, mas que havia sido abraçada pelos livros e pelo pequeno grupo que criamos: eu, ela, Manu e mais um casal.

Foi ela que esteve comigo quando desisti da faculdade e minha família, nem um pouco contente com nenhuma das minhas escolhas da vida, simplesmente me deixaram de lado.

Se eu não sabia o que fazer, ou se não tinha perspectiva de vida, também não poderia contar com o suporte financeiro deles.

Muito menos com o suporte emocional.

Marlene me convidou para Bela Ventura, uma cidadezinha de serra, com pouquíssimos habitantes, mas que era um charme. Todo mundo se conhecia e se ajudava. Era um ambiente muito bom, diferente de qualquer lugar que eu havia vivido.

Foi um período extremamente difícil na minha vida, mas Marlene foi como um anjo. Ela me colocava para cima e me ajudou a procurar ajuda profissional. Apesar de ter opiniões bem fortes, nunca me forçava a fazer nada que eu não queria.

Ela me ouvia sobre meus medos do futuro e eu ouvia sobre os seus arrependimentos da vida.

Sobre o que ela queria ter feito e não queria ter feito.

O que deveria ter dito. As vezes que deveria ter ficado quieta. Os lugares que gostaria de ter visitado. A vida que gostaria de ter vivido.

Alguns assuntos, nós tiramos das nossas listas juntas: ela queria ter uma tatuagem e eu nunca tinha feito dança de salão.

Dois anos antes, ela se foi.

Foi como se eu tivesse ficado sem chão.

Passei dias sem saber o que fazer.

O corpo foi preparado para o velório porque Manu e restante do clube do livro vieram ajudar porque eu simplesmente estava perdida. Manu ligou para a lista de parentes que Marlene tinha deixado pronta contando a notícia.

Eu nem mesmo sabia que ela estava fazendo uma lista para isso.

Havia tantas coisas que planejamos fazer naquele ano e nunca teríamos a chance.

Havia tantas coisas que eu queria que ela soubesse antes de ir, mas não tinha mais essa oportunidade.

Foi a primeira vez, acredito, desde foi fundado por alguém da família de Marlene, que o Café Mágico ficou fechado por um mês.

Na leitura do testamento, ela havia deixado tudo para mim. O Café, a casa, o dinheiro. Disse que me considerava sua filha e que queria poder ter deixado mais.

No mês seguinte, decidi que lembraria dos seus conselhos e que não a deixaria na mão, como ela não me deixou quando precisei.

Voltei a abrir o Café Mágico e a vida seguiu normalmente.

Até a chegada das cartas do Banco e da Prefeitura da cidade.

— Terra chamando Diana. — Pisquei e percebi que estava com o garfo a caminho da boca faz um tempo.

— Só preciso de alguém para me ajudar a regularizar as contas até me acertar com o banco. — disse respondeu ao comentário de Manu. — Se ela for uma bruaca, bem, pelo menos estaremos em casas tecnicamente separadas.

LOUISE

A subida até a cidade tinha uma vista bem bonita. Florestas vastas e verdes. Flores coloridas aqui e ali e uma boa dose de cantos escondidos que dariam ótimos cenários para filmes de terror.

Vez outra era possível visualizar casinhas solitárias cercadas por pastos e alguns animais. Tão em paz, como se não soubessem da existência e evolução do restante do mundo. A fumaça da chaminé subindo em seu próprio tempo em direção ao céu, sem pressa, nem preocupação.

Talvez fosse uma benção, embora eu não conseguisse me ver sentindo paz em um lugar como aquele.

Com um sinal de celular provavelmente precário, sem o barulho do trânsito, sem poder virar uma esquina e poder comer um lanche fast-food gorduroso que depois cobraria o seu preço, ou tomar uma cerveja aguada enquanto meus "vizinhos de mesa" batem na superfície porque o goleiro do time deles é um palerma e acabou de levar um frango.

Não conseguia me ver, mas conseguia ver outra pessoa.

Que dizia que daria tudo para largar aquela vida urbana horrível e corrida para passar o resto dos seus dias no campo.

Não consegui realizar seu desejo.

Não consegui nem mesmo ser quem ele queria que eu fosse.

Qualquer que fosse a fazenda celestial em que meu pai estivesse agora, me observando com seu olhar reprovador, ele com certeza estava muito mais decepcionado do que eu poderia imaginar.

A placa de "Bem-vindos a Bela Ventura" não poderia ser mais clichê. Com uma caligrafia cursiva e soizinhos em volta, ela te recepcionava com um ar de bom humor que, pelo visto, tinha começado desde a rodoviária.

Eu queria vomitar, mas talvez fosse apenas o efeito dominó do cheiro de vômito no meu cabelo.

A cidade era muito bem cuidada. Parecia um daqueles projetos de habitação em 3D onde tudo era harmonioso.

Claro com seus 175 anos de criação, nem tudo era novo, mas Bela Ventura conseguia fazer com que o novo e o antigo se completassem.

Meu carro deu um solavanco.

Aquela subida certamente não era algo que ele estava esperando ser obrigado a fazer naquele fim de semana.

Se fosse em qualquer outro lugar, eu estaria desesperada (e sendo forçada) a abrir meu GPS, digitar um endereço e parar de atrapalhar e atrasar todos os carros que estavam atrás de mim.

Mas ninguém parecia ter pressa ali.

Não ouvi uma buzina, nem um "vai para a casa do caralho", por vários metros, mas quando o carro soluçou de novo, percebi que eu não poderia ficar rodando sem rumo para sempre.

Considerando que o mapa que eu tinha decorado (que o maldito Google tinha me dado errado) era o da cidade vizinha e não de Bela Ventura, eu estava completamente no escuro. O que eu odiava mais do que o cheiro do salgadinho de cebola que o irmão gêmeo de Vitinho tinha deixado no meu carro.

Eu não tinha almoçado e o enroladinho de salsicha tão logo que caiu no meu estômago, foi parar na latrina da rodoviária.

Então tomei a única decisão possível para colocar minha cabeça no lugar e escolher o que fazer: tomar café.

Mesmo com o estômago vazio.

O que foi? Eu disse que era a única decisão possível. Não disse que era uma decisão inteligente.

Recebi uns 30 sorrisos das 3 pessoas que parei para perguntar onde eu poderia tomar um bom café.

Todos me indicaram um único lugar, e pela minha averiguação das ruas, também era o único lugar que vendia café.

Monopólio de cidade pequena não era brincadeira, porém, pelo menos eu tinha certeza que encontraria mais pessoas tão ranzinzas quanto eu.

Cafeterias eram ótimos lugares para isso.

Eu pensava dessa forma até dar de cara com a "Café Mágico".

Notas finais
adoraria saber as opiniões de vcs, fiquem a vontade para comentar! au revoir!