Agridoce

2 Na casa da vovó


Notas iniciais
Milk and Cookies/ Dead to me

— Lobo? — chamou ela. Sabia que ele não demoraria a aparecer, então o esperou por poucos segundos até que ouvisse o barulho das folhas secas sendo esmagadas. Ele apareceu, uma expressão ansiosa na cara, mas ela não se enganava mais. Sabia que ele estava excitado porque a comida estava de volta.

— Chapeuzinho? — perguntou ele como se não acreditasse. Ela abriu um sorriso, alimentado por seu ódio, e o abraçou.

— Senti tanto a sua falta — disse ela.

Ele ainda parecia um pouco surpreso, mas ela agora podia ver as nuances da expectativa voraz que não fora capaz de enxergar antes. Mas aquilo não a assustava, só a deixava ainda mais animada, porque veria aquela alegria se apagar quando frustrasse os planos dele.

— Achei que você não voltaria — disse o lobo. — Está sumida por cinco dias.

Ela suspirou teatralmente.

— Foi muito difícil convencer a mamãe, mas ela finalmente deixou que você conheça a vovó — contou ela, fingindo uma alegria incontrolável. — Ela não gostou muito da ideia de eu estar andando com um lobo, mas disse que confia no julgamento da minha avó. Então, se ela aprovar, podemos ficar juntos. Isso não é excelente?

O lobo desfez sua expressão de surpresa para uma bastante calorosa.

— É maravilhoso. Mal posso esperar para conhecê-la.

Chapeuzinho sorriu.

— Ela vai adorar você, tenho certeza. Mamãe já mandou avisar que vamos até lá, vovó tem um velho telefone que ainda funciona. Vai dar tudo certo — falou ela, tocando o focinho dele. Sabia que cada toque dela o deixava com mais fome, então começou a fazê-lo de propósito, para que ele achasse que tinha um prelúdio do jantar, quando na verdade jamais iria comê-lo. — Olha, fiz até uns biscoitinhos para agradá-la — e ela o soltou para pegar os biscoitos. — Veja, estão lindos. Prove um — falou, estendendo-o ao lobo, que sorriu.

— Tenho certeza que estão — falou, mas não o comeu. Chapeuzinho deixou sua expressão se desmoronar.

— Você não vai querer? — perguntou ela incrédula, a voz cheia de decepção. Estava adorando toda aquela atuação, digna no teatro que o lobo fazia há tanto tempo, e que ela só agora tomara conhecimento. — Mas... Mas eu fiz com tanto carinho... Eu tenho certeza que estão bons.

— Eu também — disse ele. — É só que não quero agora.

— Então me diga do que você gosta, que vou preparar para você — falou a menina, sem desanimar. — Na verdade, isso seria ótimo, porque não sei o que um lobo come — e então ela soltou uma risada de deboche. — Minha mãe seria capaz de dizer que você come gente.

O lobo sorriu amarelo.

— Que ideia — e ele pareceu considerar por um segundo. — Tudo bem, me dê o biscoito. Vou provar só porque você fez.

Chapeuzinho abriu um sorriso radiante.

— Você é o máximo, lobinho — falou ela, e estendeu o biscoito a ele, que o comeu de uma só bocada. Ela riu. — Assim não vale! Você mal sentiu o gosto. Coma outro, e me diga o que achou.

Ela quase não conseguiu segurar o riso quando viu que ele tinha dificuldades para esconder a careta.

— Dá para sentir o gosto sim. Estão muito gostosos.

— Mas como "estão", se você só comeu um? — perguntou Chapeuzinho retoricamente, e riu. — Vamos lá, coma mais um. Por mim, por favor, lobinho.

Ela insistiu mais algumas vezes, e o lobo finalmente cedeu. A menina enfim deu-se por satisfeita e pousou o braço nas costas dele.

— Vamos lá, então — e foi feliz, saltitando animadamente, até a segunda parte de seu plano.

. . .

Demoraram pouco menos de cinco minutos para chegar à casa da vovó, mas mesmo assim o lobo não aguentava mais andar. Seu estômago começara a revirar por causa do doce — bem doce, diga-se de passagem; só comera dois porque a garota se tornara uma chata insistente e não o deixara em paz enquanto não fizera o que ela queria. Se aquilo estragasse a refeição que esperava há quase dois meses, aquela menina morreria sofrendo.

Assim que estavam a poucos passos da casa, Chapeuzinho soltou uma exclamação de reconhecimento.

— Os patos estão correndo — disse ela, apontando os animais que vinham na direção deles. — Isso quer dizer que vovó está lá fora, provavelmente no celeiro. Vá para dentro da casa — sugeriu a menina. — Vou ao estábulo tirar um pouco de leite, e depois encontro você lá — prometeu ela, beijando-o de novo. O lobo percebeu que sua cara estava dormente. — Faremos uma surpresa a ela. Vou ser rápida, e ela sempre demora no celeiro, porque todas as vezes acha que está tudo uma bagunça — e a menina riu. — Quando ela estiver dentro de casa outra vez, o lanche estará pronto.

— Tudo bem — concordou o lobo, e fez menção de entrar na casa, mas, assim que ela sumiu, deu a volta na casa e trancou o celeiro, que tinha a chave na porta. Assim, a vovó ficaria presa lá dentro, e ele não teria que lidar com ela. Decidiu dar cabo de Chapeuzinho primeiro, que provavelmente era mais forte que a avó; depois, dominar a velha seria fácil.

Ele considerou ir diretamente ao encontro de Chapeuzinho — ouviu um barulho no celeiro, mas a velha mulher não parecia ainda ter se dado conta que estava presa, e ele a ignorou -, mas considerou o perigo dos animais no estábulo, que poderiam atacá-lo. Normalmente, ele acharia até bom — mais refeição -, mas o lobo se sentia fraco de fome, e teve uma ideia ainda melhor. Enganaria Chapeuzinho. Entrou na casa e começou a procurar as roupas da avó. Achou algumas que pareciam adequadas, vestiu-as e pôs também uma touca. Sabia, pelo que Chapeuzinho falara, que a avó era uma mulher enérgica, mas ele se sentia muito cansado, e, além disso, seria difícil esconder suas patas se ficasse de pé, então resolveu deitar-se na cama.

Chapeuzinho chegou minutos depois — ele já a estava amaldiçoando como podia: demorava tanto que sua fome parecia devorar seu estômago, e ele quase dormira enquanto a esperava. Ela parou na porta, olhando surpresa para a cama, mas logo sorriu, e apanhou do chão sua cesta de piquenique e uma jarra de leite, que provavelmente deixara no chão para abrir a porta.

— Já na cama, vovó? Deve estar cansada — falou a garota. Ela se sentou em um banquinho ao lado da cama, retirou dois copos da cesta e encheu-os com o leite. O lobo sentiu-se aliviado: não aguentava mais a secura na garganta que aqueles malditos biscoitos doces tinham lhe provocado. Mas Chapeuzinho não lhe ofereceu o copo de imediato; em vez disso, ela lançou um olhar preocupado à falsa avó e perguntou:

— Como a senhora está se sentindo? — perguntou ela. O lobo fez uma voz de falsete e respondeu:

— Bastante cansada. E com sede...

— Oh, vovó, aqui está o leite — falou Chapeuzinho, e estendeu-o a ele que, na pressa para tomá-lo, acertou o copo, que escapou da mão da menina e caiu. Chapeuzinho conseguiu agarrá-lo, mas quase metade derramou-se com o impacto. Frustrado, o lobo gemeu.

— Shhhh, vovó, tudo bem — falou a garota, erguendo-se e devolvendo o copo ao lobo. A luva que usava escondia bem até mesmo suas garras, e Chapeuzinho não chegou a estranhar as mãos da falsa avó. O lobo, porém, não conseguia se livrar da sensação de que havia algo errado, e essa impressão tornou-se ainda mais forte quando olhou para o sorriso terno da menina.

— Acho que não quero — falou ele na voz de falsete. Por alguma razão, aquela garota doce agora lhe dava medo.

Chapeuzinho riu.

— Ora, vovó, não diga bobagem. Só porque eu o derramei? Eu posso por mais — e ela pegou o copo, encheu-o outra vez e devolveu-o a ele, ainda sorrindo. — Pronto.

O lobo ainda estava desconfiado — aquela cara angelical chegava a lhe dar arrepios -, mas a sede era insuportável, e ele pegou o copo. Bebeu o leite de um gole só e o entregou a Chapeuzinho, que parecia satisfeita.

— Quer mais? — perguntou a menina. Ele queria aceitar, mas tinha medo, muito medo dela e do que ela tramava.

— Não, obrigada, minha netinha querida — falou ele, e a garota sorriu. Chapeuzinho encheu seu próprio copo e bebeu, o que o deixou um pouco mais aliviado; em seguida, ofereceu um biscoito a ele, que recusou.

— Vovó — censurou ela. — Fiz para a senhora. Aceite, por favor.

— Obrigada, minha querida, mas não quero. Não estou com fome — disse o lobo, e era verdade. Ele já não queria mais comer a menina, ou a avó: estava cansado demais, e seu estômago doía só de pensar em comida. E ainda havia aquela dormência... Ele só conseguia pensar em dormir.

Chapeuzinho fez um beicinho.

— Poxa... — falou ela em tom triste. — Parece que só meu amigo vai provar meus biscoitos — e seu rosto se iluminou. — Ainda não falei dele, vovó. Ele é muito legal, a senhora vai ver. Já o conheceu? Ele já deveria ter entrado.

O lobo sacudiu a cabeça. Estava começando a ficar confuso, e não conseguia imaginar como sair daquela enrascada. O que inventaria para explicar seu próprio sumiço? Não lembrava mais onde estava a verdadeira vovó. Só queria que a garota calasse a boca para que ele pudesse dormir, mas estava começando a acreditar que aquilo era impossível.

— É uma pena — continuou Chapeuzinho, parecendo completamente alheia a seu cansaço. — Acho que ele ficou tímido... Deve ter se escondido — e a menina riu. — Tenho certeza de que a senhora vai gostar de conhecê-lo. Ele é um amor... Mas isso só quando está mentindo, é claro. No resto do tempo não é tão legal assim.

O lobo arregalou os olhos. O que diabos ela estava dizendo? Ela o idolatrava cegamente. Como podia saber das mentiras?

Chapeuzinho riu e se inclinou para perto. Seu rosto tornou-se feroz e ela disse, com um sorriso sádico:

_ Por que esses olhos tão grandes, vovó?

. . .

Além da expressão de choque, não houve qualquer reação. Chapeuzinho sorriu, satisfeita.

_ Ah — exclamou a menina. — Você não consegue abrir a boca? Tudo bem, não se preocupe. É a paralisia. Isso quer dizer que o veneno já avançou para o segundo estágio.

Ela olhou bem fundo nos olhos dele e inclinou a cabeça, sorrindo com doçura. Ele não conseguia fazer mais do que arregalar os olhos, mas o terror era visível, e a garota ergueu a mão sobre a cabeça dele.

— Tente morder minha mão, lobinho — pediu Chapeuzinho, a ternura nunca deixando seu rosto, mesmo que seu sorriso se tornasse cada vez mais psicótico.

Os olhos do lobo se encheram de compreensão, e Chapeuzinho acariciou sua cara.

— Sim, eu sei que é você. Que ideia maluca de se vestir como a vovó, quase ri quando entrei — e ela sacudiu a cabeça numa falsa repreensão. — Achou mesmo que eu seria idiota de cair nessa? — e ela voltou a sorrir. — Mas é mais uma cena para o nosso teatro, não é? Você finge que me ama, eu finjo que acredito... A única coisa que não era mentira, meu amor, era o veneno. E não, não estava no leite, que eu vi, você teve medo de tomar. Estava nos biscoitos — e ela sorriu ainda mais assustadoramente. — Estavam doces, não estavam? Pois havia menos açúcar do que veneno. Exatamente como no nosso relacionamento.

Ela o encarou, mas ele estava imóvel. Chapeuzinho se inclinou outra vez e arrancou a touca que ele usava, puxando de leve as orelhas do lobo.

— E para que essas orelhas tão grandes, vovó? — perguntou ela de novo, a expressão carregada de falsa pena. — Se você só ouve o que não presta?

Atendendo às expectativas da menina, o lobo estava congelado numa máscara de terror. Ela tocou sua boca, e em seguida se abaixou e beijou-o longamente. Aproveitou cada segundo do momento que imaginara desde que se apaixonara: seria o único. Então afastou-se poucos milímetros e sussurrou:

— E para que essa boca tão grande, vovó, se você nunca mais vai comer ninguém?

Ela pôs a mão no peito dele. O coração ainda batia, e a menina sorriu.

— Não sei se você ainda me ouve, lobinho, mas vou te explicar tudo. Ouvi você falando sobre prato principal e prato de entrada. Até aí, você era meu único conforto, sabia? — falou ela, acariciando a pata dele. — Eu amava você. Mas nasceu um ódio, uma vontade de fazer você sofrer por ter me enganado, então resolvi enganar você também. Sumi por cinco dias porque disse à minha mãe que queria que vovó fosse lá para casa, e dei a volta na floresta para buscá-la. Ela está segura com a minha mãe. Mas deixei para trás o gato — e Chapeuzinho sorriu. — que escondi no celeiro para você achar que tinha alguém lá, mexendo nos suprimentos. Vovó pediu que eu voltasse para buscá-lo, e foi sob essa desculpa que vim encontrar você hoje. Fiz uma boneca também, para você achar que era ela. Mas você nem chegou a entrar no celeiro, não foi? Nem a viu. Se você a tivesse visto e resolvesse atacá-la primeiro, o que eu esperava que você fizesse, cairia num buraco, numa armadilha que preparei. O gato não cairia, porque é leve, mas você, Lobo Mau... — e ela sorriu diabolicamente. — Você já tinha engordado bastante, não tinha?

Chapeuzinho verificou o pulso do lobo deitado na cama. Irregular, e desacelerando, mas ainda forte. Ela se aprumou no banquinho, suspirando.

— Acho que ainda tenho algum tempo — e a menina tomou mais um copo de leite antes de continuar. — Bom, eu menti sobre praticamente tudo. Sobre ter contado qualquer coisa sobre nós para a minha mãe. Sobre a história do patos e da minha avó, que não está aqui há mais de um dia. Essa foi só para você entrar no celeiro e tentar pegá-la antes. Tinha um buraco no estábulo também, para me proteger. Mas imaginei que independente de quem você escolhesse matar primeiro, seria difícil mantê-lo na armadilha, então pensei nos biscoitos envenenados. Sabia que você, fingindo ser bom, teria que fazer a cortesia de experimentá-los. Foram dois para garantir. Você é muito forte, lobinho — disse Chapeuzinho, em tom de elogio. — Sobreviveu vários minutos. Mas o que me ajudou foi a caminhada até aqui, que acelerou o processo. Achei que teria que atirar em você quando não atacou minha boneca, mas eu vi você aí deitado e entendi que o veneno já tinha pegado você. Aí a espingarda ficou do lado de fora do quarto. Eu sei atirar, sabia? — contou ela, cheia de si. — Mas que bom que não precisei. Foi melhor assim, porque agora você sabe de tudo. Sabe que me fez amar você e se tivesse me amado de volta nada disso teria acontecido.

Ela o encarou e sorriu com ternura.

— E agora, você ainda me quer? — perguntou, e franziu a boca com certo pesar. — Acho que não sou mais a melhor coisa que aconteceu a você, não é? Me desculpe por isso, lobinho. Mas eu tinha que matar você. Era o único jeito de tirar você da minha cabeça, e de silenciar todas as coisas doces que você me disse. Mas eu tenho certeza que você também não tem amigos, então problema resolvido, querido: ninguém vai sentir a sua falta — e ela se inclinou para ele de novo. — Ninguém além de mim vai sentir qualquer coisa quando a fogueira que eu preparar transformar você em cinzas.

Chapeuzinho pôs a mão na testa do lobo, em seguida em seu pescoço. Nada: nem o mínimo sinal de batimento. Ela sorriu com tristeza, e fechou os olhos dele. Depois se endireitou no banquinho.

— Eu também tenho uma canção, sabia? — contou ela, sorrindo. — Uma que eu vivo cantando. Mas ela não é tão boa para você — e ela suspirou. — Acho que agora entendi por que o Lobo Mau não aparece no fim. Afinal, lobinho — e ela beijou a pata dele. — Não existe mais Lobo Mau...

E a menina cantarolou baixinho, como ele tinha feito na caverna:

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha...

Notas finais
E terminamos aqui. Two shot pequenininha, experimental, louca. Se valeu a pena, recomendem :) Até a próxima história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!