Agricultora de Sonhos
2 Quando o final se torna o começo
É o fim de tudo.
Meu Deus, o fogo está acabando com tudo.
Alguém me ajude, por favor. Socorro!Socorro! Socorro, alguém me ajude. Isso não pode estar acontecendo, é um pesadelo. De novo ficar sem nada, não, não é possível.
Enquanto as chamas devoravam tudo que eu possuía, meus gritos ecoavam na noite úmida. Era dia 15 de outubro, dia do professor, do mestre. Qual será a lição que tenho para tirar disso tudo. Qual Mestre está me mostrando o caminho? Que caminho me está sendo mostrado?Eram 9 horas da noite, a televisão ligada era o único som do ambiente. A xícara com um chá calmante cai de minhas mãos ao me deparar com meu doce recanto ardendo em chamas.
O fogo não perdoou nada.
A chuva miúda que caia lentamente parecia zombar de meu desespero, parecia me dizer, o que salvares do fogo eu destruirei pela água.
O vento soprava forte, elevando as labaredas até o mais alto das árvores, daquelas árvores que eu cuidava com tanto amor, zelando para que ninguém quebrasse nem um galho.
A Terra úmida sobre meus pés parecia chorar junto com meus gritos de pavor, como quem diz: _ Filha, eu nada posso fazer a não ser receber teu corpo exausto para que descanses.
No desespero de apagar as chamas, eu havia subido e descido muitas vezes uma escada, que em dias e situações normais não teria sido possível. Minhas pernas latejavam de dor, principalmente porque em um momento de desespero imenso, quando imaginei que o teto estava desabando sobre mim, tentei descer da área frontal da casa, e errei a escada, caindo de forma desajeitada sobre as pedras, que eram rodeadas por folhagens e flores que eu havia dedicado tantos dos meus momentos para cultivá-las e cultuá-las.
O som de meus gritos ecoava na noite escura como se abrisse um rombo nas nuvens que guardavam aquela casa tão minha, tão nossa, tão bela.
Em meio ao horror, o barulho de fios queimando, o cheiro da fumaça preta, o crepitar daquele fogo imenso engolia tudo. Em pouco mais de uma hora vi 53 anos de vida virar cinza.
Em cinzas se transformaram as fotos de infância e da juventude, as faixas, com títulos de beleza, que em um tempo remoto levaram muitas pessoas em torcidas numerosas por um primeiro lugar em concursos. Foram-se as fotos dos desfiles em carros abertos, recebendo o aplauso de uma cidade inteira, as dos 15 anos, do casamento, das viagens, dos namorados, da primeira filhinha, da segunda, dos netos, ah os netos.
Estirei meu corpo na grama molhada, abracei as duas únicas peças que consegui salvar; meu note book e o celular. Era parte do meu trabalho que permanecia vivo junto comigo.
Senti o cheiro úmido da grande Mãe, integradora, protetora e porque não dizer salvadora, e então chorei. Chorei um choro de toda vida. Dei vazão a pensamentos, dores, emoções, enfim a todos os sentimentos que um Ser pode trazer em seu peito.
Minhas lágrimas se misturavam àquela chuva úmida,
Minhas mãos se agarravam a terra,
Meu coração parecia querer sair pela boca,
Minha alma gritava bem alto.
Deixe tudo para trás, não chore pelo que partiu, não vais te entregar, este é só mais um recomeço. Mais um ciclo de oito anos se encerra, e não vais largar mãos de teus sonhos, não vai deixá-los morrer.
Minha vida passava pela minha mente como um filme, trazendo à tona emoções que eu achava que não mais sentiria.
Os pensamentos vinham de forma desordenada, aflorando com uma rapidez incrível, me deixando ainda mais tonta do que o cheiro da fumaça tinha me feito ficar.
A primeira imagem que recebo é a do momento quando vim parar aqui. Tudo é tão verdadeiro em meus pensamentos, que parece que o tempo não passou. Parece que estou chegando agora, toda despedaçada, buscando encontrar meus cacos que ficaram perdidos pela vida, e então vem à lembrança do primeiro encontro com Terra e Magia.
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