Agora que voltou
2 Capítulo 2
Vovó ainda não tinha chego quando eu e tia Annie tínhamos colocado a maior parte do papo em dia. Tia Annie tinha algumas tarefas para fazer, que eu insisti em ajudar, mas que ela se recusou. Ela sempre se orgulhou muito do próprio trabalho e de fazer as próprias tarefas.
Na verdade, ela não era de fato a minha tia. Ela trabalhava na casa da minha avó desde... bom, desde sempre. E eu sempre a chamei assim, e ela nunca reclamou. Mas também que diferença faz? Ela está nessa família a mais tempo do que eu. Nunca perde nenhuma das festas, nunca se esquece de um aniversário, nunca deixa de se alegrar com um novo nascimento e nunca deixa de chorar por alguém que partiu.
No auge de seus 53 anos, eu esperava que ela tivesse encontrado alguém, um namorado. Ela tem um filho, que está trabalhando na cidade e uma filha que ainda está no colégio. Ela fala dos dois com muito carinho e orgulho. Fico feliz por ela, mas sei que gostaria de encontrar outra pessoa. E se essa pessoa fosse o Phill, melhor ainda.
Tia Annie sempre foi muito vaidosa. Seus cabelos não mostram nenhum fio branco se quer. Ela está sempre retocando o loiro, muito bonito por sinal. Seus olhos azuis são realmente encantadores e meigos. Suas mãos, mesmo trabalhando pesado, sempre foram muito delicadas e macias. Ela jamais deixou de hidrata-las com creme. E cada dia ela estava com um lindo vestido. Ela dizia:
“Uma garota tem que se cuidar".
E era o que ela fazia.
Ela também costumava dizer.
"Minha marca é o avental sujo, e o vestido limpo”.
E, realmente, seu avental estava sempre sujo de ingredientes da cozinha, ou de terra, mas nunca as duas coisas juntas.
Depois de terminarmos a nossa conversa – por hora – eu decidi subir e tomar um banho. Precisava dar uma relaxada. Mas só quando eu terminei de subir as escadas que eu reparei que teria de enfrentar uma das coisas que mais me assustava na ideia de voltar.
Eu segui lentamente pelo corredor. As paredes forradas com um papel de flores beges em um fundo quase branco. Cada porta tinha uma cor. Vovó sempre nos deu liberdade de escolha na decoração do quarto e até na cor da porta. Ela gostava de pensar que mesmo do lado de fora, poderíamos saber de quem era o quarto.
A primeira porta era a de um dos quartos de hóspedes, de cor branca, para ser neutro. A segunda porta era a rosa. A porta do quarto de minha mãe.
Era essa porta que atormentava os meus sonhos.
Minha avó sempre disse que minha mãe era muito indecisa, que escolheu três cores que não combinavam (rosa choque, verde pistache e laranja) e queria pintar a porta com aquelas cores. Essa história sempre me fez rir, principalmente porque minha mãe se defendia dizendo que eram as cores da moda.
Agora essa lembrança me traz um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos.
Suspiro.
Ando até a porta e me sinto cansado e sem força. Meus dedos alisam a madeira e escorregam até a maçaneta.
Respiro fundo.
“Estou pronto para isso. Estou pronto para... Não. Eu nao estou pronto”.
Apoio a testa na porta e sinto as lágrimas escorrerem mais uma vez.
“Não. Chega! Não vou me permitir”.
Então enxugo os olhos e continuo andando até o meu quarto. A porta verde.
Não é mais fácil entrar nele. Tudo me faz lembrar dela. Nunca fui muito fã de azul, embora meu pai tenha tentado, bravamente, me fazer escolher essa cor. Verde me lembra a natureza, por isso o escolhi.
Junto o meu resto de coragem e entro no quarto.
Tudo parece como antes, mas é óbvio que não está. Ainda tenho brinquedos em cima das prateleiras, desenhos e lápis de cor arrumados em cima da mesa. O mesmo tapete de carrinho, a mesma cama de mogno, a mesma manta verde, e o mesmo teto, ainda recoberto por estrelas que brilham no escuro. E tudo parece tão limpo. Me pergunto se elas o mantém assim, ou se é só por causa da minha chegada.
Vejo minhas malas apoiadas no chão perto da cama. Dou uma volta no quarto, revendo cada detalhe esquecido. Coloco a mão atrás do quadro na parede e consigo achar o meu antigo carrinho.
“Não acredito que ainda esteja aqui”.
Deito-me na cama e fecho os olhos tentando relaxar, mas não consigo. Abro-os e vejo as estrelas. Ela me contava histórias aqui. Suspiro mais uma vez. Não vou conseguir dormir nesse lugar. Levanto e vou até o quarto de hóspedes. Está com poucos móveis, pouca decoração e bem limpo.
Volto até o meu quarto e pego as minhas malas. Começo a transferências. Tive que fazer duas viagens para carregar as quatro malas.
“Talvez eu tenha exagerado. Se bem que não vou ficar por uma curta estadia”.
Começo a abrir as malas e jogar algumas coisas em cima da cama. A procura das coisas de banheiro. Eu as acho e levo até o banheiro. Fecho a porta, tiro a roupa e entro no chuveiro.
Quando saio da água e me enxugo, percebo o quanto eu precisava disso. Passo a mão pelo espelho na tentativa de desembaça-lo um pouco.
Vejo um homem de cabelos castanhos e de olhos azuis a minha frente e por um momento desvio o olhar de meu próprio reflexo. Olho mais uma vez para meu cabelo curto, meu rosto branco e pálido, um pouco corado por causa da água quente. Pareço um pouco cansado.
Vou até o quarto e começo a retirar as roupas das malas e guarda-las no closet. Acabo achando cuecas, uma calça jeans preta e uma camiseta azul que realça os meus olhos e decido vesti-los.
Quando desço vovó está entrando e vou correndo em sua direção.
— Meu querido! Quanto tempo! — Eu a abraço.
— Vó. Fazem apenas dois meses que você foi nos visitar.
— E por acaso dois meses é pouco tempo? — Eu sorrio. — Lindo como sempre. E esse sorriso maravilhoso... — Ela deixa a frase no ar.
Tia Annie vem até a sala.
— Faz tempo que você chegou? O que eu perdi?
— Já faz tempo sim. E depois conversamos sobre isso — Troquei um olhar com tia Annie.
— O que vocês estão me escondendo?
— Depois. Mas e como esta a filha do compadre? E o bebê?
— A ela esta bem. Graças a Deus. Levei o médico lá, mas ela insitiu em fazer tudo com a parteira. O bebê nasceu saudável e ela quer que eu seja madrinha desse filho. Disse que eu lhe trouxe sorte e saúde. Vê se pode. — Ela sorri, cansada.
— E o que você anda fazendo aqui na fazenda?
— Nada demais. Só cuidando dos negócios. Mantendo tudo de pé e funcionando. — Ela passa a mão pelo meu cabelo — Tomou banho, filho?
— Tomei sim. Inclusive eu peguei o quarto de hóspedes. Espero que não se importe.
— Claro que não. Quero que você se sinta a vontade. Afinal, essa sempre foi a sua casa.
Sorrio.
— Vamos comer? — Diz tia Annie.
— Vamos!
— Eu só comi desde que eu cheguei. Vou voltar rolando para Nova York.
Percebi minha avó entristecer um pouco.
— A fazenda esta linda. — Mudo de assunto — O celeiro esta maravilhoso.
Chegamos à cozinha e nos sentamos.
— Você viu? Andrew, o novo funcionário, quis pintá-lo para mim. Achei que seria um longo trabalho. Quis chamar mais pessoas, mas ele me garantiu que não era preciso. E em menos de uma semana, já estava pronto.
— Incrível — Falei entre os dentes.
— O que foi, querido?
— Nada. Eu acho.
— Gabriel... — Atalhou tia Annie.
Vovó estava me encarando.
— Tá bom. Eu vi o tal de Andrew hoje. E ele estava andando na Lola. — Falei levantando as sobrancelhas. — Sei que gosta dele, mas achei um abuso ele pegar um cavalo sem permissão e...
— Mas eu lhe dei permissão.
— Você o que?!
— Eu lhe dei permissão de pegar o cavalo.
— Calma. Ele não estava andando em qualquer cavalo. Ele estava andando na Lola.
— Eu sei. Ela tem que se exercitar.
— Você só pode estar brincando. A Lola?! — Levantei o tom de voz.
— Querido. Foram ordens do veterinário.
— Então ele que puxasse ela pela correia. E não que a cavalgasse. É a Lola. A Égua da minha mãe. Não é qualquer uma. Eu disse.. você prometeu... que ninguém nunca ia andar nela.
— Eu sei, mas... Não é justo com ela. Sua mãe não ia querer que Lola nunca mais corresse por causa dela.
— Ah... Eu... Não... Eu... Como pode?
Me levantei.
— Querido eu... — Ela também se levantou.
— Não. Tudo bem. Eu... Vou pro meu quarto. Pro quarto de hóspedes. Não estou mais com fome.
Saí imediatamente da cozinha e fui em direção à escada.
Consegui ouvir tia Annie dizer:
— Eu disse que deveria falar com ele antes.
Subi os degraus pesadamente e parei em frente à porta do quarto de hóspedes, mas não entrei. Andei de novo até a porta rosa. Alisei mais uma vez sua madeira. Respirei fundo e sentei nos banquinhos do outro lado do corredor, de frente para a porta.
— Mãe. — Cochichei — O que eu estou fazendo aqui?
Abracei os joelhos e fiquei assim, olhando de forma vidrada para a porta e esperando uma resposta milagrosa. Não sei dizer por quanto tempo fiquei nisso, mas em um momento ouvi passos subindo a escada.
Minha avó ia para a porta branca, até que me viu.
— Gabriel, me desculpe. — Disse ela vindo em minha direção — Eu não imaginava quanto isso era difícil para você. Já passou tanto tempo e...
— Como você conseguiu? — Eu a interrompi.
— ...
O silencio dela me indicou que não tinha certeza da pergunta.
— Como conseguiu superar...? Esquecer...? Fazer a dor passar?
— A meu querido, você acha que não dói essa perda? Não... Eu acordo todos os dias com o meu coração apertado... Com esperança de que ela esteja lá embaixo fazendo o café, como sempre fazia de manhã. Mas quando, todo dia, eu desço as escadas e não a vejo. Todo dia eu tenho vontade de chorar. De me agarrar a dor. De não sair da cama nunca mais, para não ter que passar por isso de novo.
Ela limpa uma lágrima do rosto e agora eu que começo a chorar.
— Mas eu vivo um dia por vez – Ela funga – Tenho certeza de que sua mãe iria querer isso de mim... de nós – ela coloca a mão em meu braço.
— É tão difícil. Eu... eu... eu nem sei por onde começar.
— Nunca falei que é fácil. Não coloque o carro na frente dos bois, Gabriel. Vá no seu tempo.
Concordo com a cabeça.
— Tudo bem. – enxugo as lágrimas – Quanto ao Andrew...
— Eu vou pedir para que ele não cavalgue mais com a Lola.
— Obrigado.
— Eu vou oferecer outro cavalo para ele cavalgar. Ele ama isso, sabe. Afinal, ele nasceu para isso. Já olhou para ele?
Damos risada.
— Não queremos tirar-lhe a diversão.
— E o nosso deleite.
Rimos mais uma vez.
— Sinto muito – Diz minha avó me abraçando.
— Tudo bem. – devolvo o abraço caloroso.
— Mas você sabe o que tem que fazer agora, não sabe? – Ela se afasta e olha para o meu rosto.
— Sei vó.
— Então ótimo. Amanhã você resolve isso, mas agora, acho que precisa de uma longa noite de sono.
— Acho que sim.
Ela se levanta e me leva pela mão até o quarto onde estou acomodado.
— Até amanhã, querido.
— Até amanhã, vó.
Entro no quarto e fecho a porta as minhas costas.
Sinto um frio na barriga quando penso no que terei que fazer amanhã. Sou um homem e sei reconhecer meus erros, e principalmente repará-los, mas não quer dizer que seja fácil.
“Isso fica para amanhã”.
Tiro a camisa, as botas, a calça e as meias. Abro as portas da sacada e vou até lá fora para tomar um ar. Me apoio no metal frio do guarda-corpo, fecho os olhos por um instante, deixando que o vento, e o cheiro das árvores invadam a minha alma.
Quase me sinto em paz com o mundo... comigo mesmo.
“Não era assim que eu pretendia que meu dia fosse”.
Olho para o céu estrelado.
“Eu senti muita falta disso, das estrelas”.
Em Nova York nunca conseguimos ver um céu tão estrelado. É por causa da poluição e das luzes da cidade, eu imagino. Mas aqui é maravilhoso. São tantas, que eu nem sei para onde olhar.
Coloco os braços em volta do meu próprio corpo.
“Está ficando frio”.
Olho para o gramado da parte de trás da casa, mas não vejo nada. É difícil enxergar alguma coisa naquela semiescuridão – Nem mesmo me enxergaria se não tivessem luzes na sacada – Desapoio do guarda-corpo e com uma última olhada para o céu, volto para o quarto.
Pego no closet uma calça de pijama xadrez da cor verde e bordo, e uma camiseta branca, pelo menos duas vezes maior que o meu tamanho e vou deitar.
Como sempre, minha cabeça consegue pensar em dez coisas ao mesmo tempo antes de dormir, e por mais que eu ache que vai ser uma longa noite, caio no sono antes de perceber.
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