Agora e Para Sempre
1 Capítulo Um
Notas iniciais
HELENA LACERDA
Havia uma parte de mim que desejava esquecer os pensamentos que me afundavam a um devaneio subsequente.
Meus olhos percorriam deliberadamente as letras do livro, lendo e relendo incontáveis vezes a mesma frase em letras cursivas muito bonitas, escritas à mão por algum jovem desolado, provavelmentee escondido entre as estantes da biblioteca. Era Shakespeare, ou melhor, alguma derivação de sua filosofia. Dizia:
“A vida é só uma sombra, um ator ruim que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o imbecil, cheia de som e raiva, sem querer dizer nada”.
Deslizei os dedos pela tinta seca da caneta, reconhecendo, quase que facilmente, de quem se tratava as linhas bem curvadas e redondinhas. Alguém, se não um verdadeiro CDF, saberia citar tão bem e reconhecer a essência de Macbeth?
Fazia um bom tempo desde que Arthur VilasBoas me encontrou pelos corredores. Estava provocativo como sempre, ostentando um sorriso de dentes perfeitamente brancos e alinhados, caçoando de cada célula do meu corpo enquanto esperava um insulto tão ácido e irritadiço como costumávamos fazer um com o outro. Entretanto, sem que soubesse, serviu como álcool para um fogo já acesso, alarmando ainda mais as chamas que incediavam cada centímetro do meu peito. Foi a primeira vez que vi, ainda que de relance, algum fragmento de preocupação nos olhos de Arthur.
Desde então, duas semanas após o fatídico dia em que quase me tornei uma grande piada pelos corredores, o tenho distante. Nada de piadas, sorrisos tortos, sequer os amarelos que costumava me dar e eram carregados de marotismo. Aquele livro, tão bem cuidado e devolvido em boas condições, pertenceu a ele antes de ser entregue a mim.
Não que eu reparasse nos VilasBoas, afinal. Estavam em últimos dos que obtinham a minha atenção, talvez os primeiros na lista de quem eu adoraria ver caindo de um prédio bem alto.
Fechei pela vigésima vez as páginas pesadas e quase amarelas daquele livro de história, não conseguindo evitar a ardência nos olhos pelo cansaço. Não queria e nem tinha forças para continuar a ler, tampouco entender o sentido de Macbeth entre resenhas sobre guerra e tragédias mundiais. Aquela frase fora o início de mais uma noite de insônia e pensamentos intrusivos que assolariam de maneira pior meu dia dalí para frente.
Esfreguei as palpebras e levantei o corpo da cama perfeitamente arrumada que eu nem ao menos me dei ao trabalho de me enfiar sob os lençois. O dia amanhecia e já era possível escutar Guilherme e Gabriel brigando sobre alguma coisa que eu jamais conseguiria entender, em plena seis da manhã, como se não tivessem com os olhos ainda cheios de remelas e a baba seca em uma linha nojenta do lado da boca.
Aparentemente a maldição da caçula dos trigêmeos não havia decaído sobre o restante da casa, como sempre acontecia. Pelo menos uma vez por mês — para não dizer semanalmente agora que as coisas estavam desastrosamente diferentes — eu entrava em uma síncope metaforica, um questionamento existencial que, após o fim, não me renderia nada além de lembranças rasas sobre o que descobri de mim mesma.
Se nesse periodo eu me achasse uma megera louca, quando acabasse eu me sentiria apenas ridícula por ter pensado alguma vez em me insultar desse jeito.
— Achei que estivesse dormindo. — Foi a voz de Gabriel que me despertou da paranóia delirante, apoiado na maçaneta com sua cabeça enorme dentro do quarto. — Mamãe te assustou quando disse que se não acordasse cedo iria impedir que até a sexta geração seguinte da nossa familia fizesse compras na Sephora?
Ele deu um risinho, entrando com seu corpo inteiro envolto de um pijama bobo de pelucias marrons. Fechou a porta atrás de si e pude ver um sorriso amarelo antes que ele me olhasse com esse mais aberto ainda.
Eu disse de uma só vez:
— O que você quer agora?
Gabriel inclinou a cabeça com o sorriso mais inocentemente falso que eu já tinha visto e gritou quando ergui a almofada para o alto, fazendo menção de expulsá-lo dalí.
— Vamos Lena, qual o problema de ser uma irmãzinha gentil que vai dar bons conselhos para o seu maninho lindo? — Suplicou, piscando os olhos repetidas vezes.
— O problema é que eu não quero lidar com seu romance sujo e repugnante com a sua própria irmã.
Fiz uma careta de nojo, abraçando a mesma almofada que há poucos segundos deveria ter acertado meu gêmeo. Ele ergueu o dedo o apontando para mim grosseiramente.
— Se diz isso nos corredores da escola seremos presos por incesto, sua louca varrida. — Xingou, se jogando logo ao meu lado, puxando a almofada de gatinho gordo para si.
Gabriel era o segundo de três irmãos gêmeos, perdendo o posto de mais velho para Guilherme ao ter nascido cinco minutos depois. Era o único de fios escuros como nosso pai, mas os olhos verdes se assemelhavam com o nosso, puxados da mamãe. Corpulento, forte, pele ligeiramente bronzeada, sendo a beleza cafajeste da familia já que eu e Gui exerciamos o papel mais clichê possível na existência; Loiros, de pele tão alva quanto o branco mais branco daquelas estatuas gregas de deuses e filosofos. O pontinho de equilibrio entre o irmão mais velho e a caçula, mas que não se assemelhava em nada na personalidade: Gabriel estava ridiculamente bobo pela filha de um paquera da nossa mãe, enquanto eu e o loiro definitivamente tinhamos incríveis problemas com relacionamentos e seus derivados.
— Só quero saber se sabe o que devo fazer. Imagine só, e se mamãe se divorciar de Fred? O que faríamos? Maior climão…
Ele ditou murxoxo como uma criança gigante.
— Primeiramente — Ergui dois dedos, abaixando conforme dizia. — Fred e mamãe estão se conhecendo, e segundamente… — Ignorei a repreensão do moreno pela palavra inexistente. — Selena e você só trocaram meia palavra e já está pensando no futuro? Achei que você ainda tinha algum tipo de defesa, sei lá, como ser um verdadeiro cafajeste em contrapartida.
Balancei negativamente a cabeça, a língua estalando no céu da boca com decepção. Pude ver os ombros do mais velho se encolhendo lentamente.
— Eu só gosto de pensar positivamente sobre tudo, ser negativo é coisa sua. Não tenho culpa de ser a cor dentro dessa geminialidade em preto e branco. — Ele subiu os ombros e eu o olhei com a testa franzida até que fosse explicado. — Coisas de gêmeos e afins.
Soltei o ar com peso, esfregando meus olhos irritados pela falta de sono. Era irônico como eu lidava melhor com os problemas românticos alheios do que com os meus tão confusos e complicados.
— Olha só, eu sei que precisa de um conselho, mas deveria ajudar a si mesmo.
O vi revirando os olhos e precisei completar:
— Você me disse da ultima vez, quando eu achava uma péssima ideia, que não existiria nenhum empecilho para que as coisas dessem certo. Foi o que me disse, não foi? — Gabriel anuiu. — Então por que ainda sente essas incertezas intrusivas? Sabe que não vai levar em consideração nada que direi, de qualquer forma.
— Ei! Não é bem assim, eu costumo levar em conta se concorda comigo.
Levantei, dessa vez entrando no closet enquanto Gabriel resmungava argumentos que eu definitivamente não me esforcei em escutar.
Sempre fui a grande conselheira da família apesar das experiências serem secretamente ganhadas através de livros best-sellers. Sempre a primeira procurada, até mesmo pela mamãe, vovó, e os namorados com um pouco mais da minha idade que a nossa progenitora vinha a ter. Frases motivacionais e perfeitas para serem estampadas em camisetas de feira eram o ponto alto das sessões de terapia que eu calhava a fazer, mas não foram o suficiente para salvar meu proprio relacionamento do que já era esperado.
Do que eu mesma havia pressuposto e ido atrás de descobrir.
Resolver o problema de Gabriel parecia criar um bolo na minha garganta e tive que engolir outra vez para que conseguisse pensar em que roupa usar.
— … e então ela sorriu e disse “tá afim?” e eu falei “agora não”. — Escutei o gêmeo dizer com uma voz afetada, o que me fez dar a primeira risadinha do dia.
— Eu tenho quase certeza que já escutei isso em algum lugar.
Me vesti alí mesmo com um jeans cintura baixa, uma camiseta colada com a frase “i luv mom’s” e os cabelos ajeitados em um rabo de cavalo alto, convencional, recorrendo a tênis esportivos que caíriam bem no treino de líderes de torcida. A voz de Gabriel havia se silenciado depois da minha resposta, e quase supus que ele havia saido se não fosse pelo barulho incomum de algo caindo no chão. Quando saí, era Guilherme quem agarrava o pescoço de Gabriel e feito ele derrubar a almofada de gatinho.
Quem os visse assim, acreditariam se tratar de uma tentativa de homicidio.
Revirei os olhos e passei por eles, não sem antes chutar Guilherme para que os dois se estatelacem no chão.
— Idiotas.
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