Agora e Para Sempre
3 Capítulo Três
Notas iniciais
Guilherme estava mais hiperativo do que o costume, arremessando a bola de futebol americano pela sala e correndo o mais rápido possivel para pegá-la. O gêmeo que deveria fazer o esforço de agarrar os arremessos se distraía com frequência no celular, digitando rapidamente e reclamando consigo mesmo a cada provavel erro de digitação que cometia.
— É padaria, não “cavalaria”! — Ele gritou para o aparelho, jogando o pobre objeto sobre o sofá antes de fazer o mesmo. — Ela vai achar que sou algum tipo de analfabeto funcional.
— Não me diga que a convidou para um rodeio com musica sertaneja, Gabriel.
Provoquei com uma risada, me defendendo da almofada jogada em cima de mim. Me ajeitei sobre o estofado sentada sobre as pernas, voltando a atenção para a página inicial da rede social e suas fotos tediosas de alunos de Claremont com suas vidas miseráveis.
Já fazia algumas horas desde que o treino de Lacrosse se tornou parte dos meus questionamentos desprezíveis existenciais, e Guilherme ainda não tinha descoberto a conveniência, repetindo com ofegância as palavras de Arthur em meio ao seu exercício solitário. Ele ria, arremessava a bola e dizia “tão grande” com uma precisão tão absurda que eu quase podia jurar ser irmã de Arthur VilasBoas.
Naquela altura, não parecia ser tão ruim quanto aguentar o loiro ignorando completamente o quão boa eu fui respondendo o imbecil em questão.
Eu não estava irritada, reconheci o vacilo que dei ao quase entregar que achei Arthur bem dotado em algum momento do ensino médio.
Ok, eu não reparava nele periodicamente, mas não pude fingir que não vi na semana de boas vindas do colégio. Ele tinha caído com a camisa levantada no futebol de sabão e eu, seu rival na competição, precisei checar — de maneira unicamente profissional e em prol do espirito esportivo — se ele estava apto a levantar. Do abdomen irritantemente sarado à parte da frente da sua calça não era uma distância enorme para que eu negasse a curiosidade.
Além do mais, não fui e nem seria a única a reparar no VilasBoas. Ele era bonito, até os meus irmãos reconheciam a beleza infame do nemesis e suas inegáveis ex-namoradas atraentes. Ele começou a namorar ainda no fundamental, timidamente escondido de todos, e só soubemos quando eles terminaram e a menina fugiu chorando para o banheiro. Depois disso, demorou algum tempo para que ele voltasse a aparecer com alguém, mas quando aconteceu foi uma atrás da outra, quase como se estivesse montando um harém de ex-namoradas furiosas.
Quatro meses com uma, três com outra, duas com aquela, uma com aquela outra, até não durasse mais de duas semanas e Arthur simplesmente esquecesse o conceito de compromisso.
De repente, Arthur saiu do papel de nerd indigente para o grande o fodão pegador da escola de Claremont.
Foi aí, pelo menos acredito, que tenham parado de arremessar copos descartáveis nele e papéis amassados a cada zombaria nas festas e sala de aula.
— E então, o que fez com Miguel? Matou, escondeu o corpo e agora está planejando sua fuga com esse celular aí? — Gabriel indagou, apontando para o aparelho que eu segurava.
Falar sobre Miguel tinha sido um assunto que meus irmãos evitaram até aquele momento, e eu sabia que boa parte da razão era pela ausência do capitão do time nos treinos. Ele estava distante de todos e não respondeu quando sugeri que nos encontrassemos para resolver de uma vez por todas nossos problemas. Os meninos, seus melhores amigos, aliás, tinham tentado me convencer que tinha se perdido na caixa de mensagens, mas no fundo todos nós sabíamos o que estava acontecendo.
Antes fosse a sua morte…
— A senhora Hernandes disse que ele está bem, só meio desligado. Não quer se encontrar com ninguém. — Guilherme informou, e só então vi que ele havia acalmado a sua hiperatividade para revelar certa cautela com o assunto.
Todos estavam sendo cuidadosos demais com as palavras e isso parecia piorar ainda mais o meu desgosto.
Dei um suspiro e balancei a cabeça firmemente em um sim, não havia dúvidas de que MIguel estava me evitando mesmo que fosse um direito quase ímpar de que eu devesse me sentir assim. Gabriel coçou a garganta e se virou de frente para mim, os olhos demonstrando o mesmo que seu gêmeo loiro.
— Estamos com você mesmo que sejamos amigos dele. Sabe disso, não sabe?
— Miguel é um baita filho da puta e não deveria ser visto com pena depois de tudo que fez. Só fui atrás dele por ser capitão do time e não porque me importo de alguma maneira com ele. — Guilherme completou e se sentou no chão, apoiando o rosto no estofado proximo á mim. Agora os dois me olhavam como cachorrinhos abandonados buscando algum tipo de aprovação.
Eu os conhecia bem demais para saber eles não estavam sendo verdadeiros comigo. Se importavam sim, mas também se preocupavam que Miguel pudesse cometer alguma coisa contra si mesmo depois daquele término terrível e digno de pena.
Eu também, o que era ainda mais terrível e orgulhosamente digno de pena.
Nosso namoro não teria sido as mil maravilhas apesar de vendermos essa imagem sem nenhuma vergonha na cara. Éramos o casal mais invejado, seja pelo carinho que pareciamos ter um com o outro, quanto pelas aparências e reputações. Ele, capitão do time de Lacrosse, com sua pele bronzeada, corpo de atleta, sorriso matreiro e cachos escuros entre os fios ondulados do cabelo, e eu, capitã das lideres de torcida, uma Regina George alternativa de cidade pequena, rodeada de pessoas que conhecem a história da minha família e provavelmente me viram chupando o dedão do pé no jardim de infância.
Parecia certo estarmos juntos, e não era difícil encontrar manchetes do jornal da escola se referindo a nós como a “monarquia viva de Claremont”
Como um rei e uma rainha sob os holofotes de plebeus fofoqueiros. No fim das contas, era como em um jogo de xadrez onde a rainha precisa se sacrificar pela glória do rei e ele levasse um cheque-mate sem precisar ser engolido pelo aterrorizante inimigo.
Era exatamente isso que eu vinha sentindo desde que Claremont passou a considerar uma traição. Comentários e suposições de que eu, a megera Lacerda, tinha traído o coitado capitão se tornaram mais comum do que se imagina, e ser a única na mira deles não facilitava muito as coisas. Por um tempo, acreditei que Miguel estava apenas se martirizando com a culpa de seus erros, repassando cada segundo que foi um baita canalha.
Porém, todos nós sabemos que era um pensamento ingenuo e idiota sendo criado pelo meu lado sensivel e que gostava da sua companhia, apesar de tudo.
Não poderia culpar Guilherme e Gabriel por ainda terem esperança.
— Eu sei. É só… complicado. — Relatei, recolhendo as pernas para o peito, percebendo que, talvez, sem nenhuma certeza ainda, eu estivesse tentando me proteger dos meus próprios dilemas.
Gabriel se aproximou e enlaçou meus ombros em um abraço enquanto Guilherme alcançou meu pé em uma carícia fraca.
— Nós em primeiro lugar. Independente do que aconteça.
Concordei com eles, me aninhando nos braços seguros de quem eu sabia, sem dúvida alguma dessa vez, que fariam de tudo por mim.
•
Com a chegada de mamãe e seus repentinos convidados, Fred e Selena, não foi difícil para que os gêmeos voltassem para a sua programação normal de bagunça e empolgação. Gostavam de Fred tanto quanto gostavam de antigos futuros padrastos e a filha dele era simpática o bastante para que Guilherme a irritasse como um irmão mais velho e Gabriel se abobasse com sua presença.
Eramos uma família de quatro pessoas mas que facilmente passava dos vintes se contassem cada rapaz, homem e idoso que já prometeu uma vida ao lado de Ruth Garcia. Padrastos oficiais e ficadas de semanas que rendiam às vítimas bastante choro na porta da frente antes que Ruth pedisse para os seguranças do condomínio os enxotarem da quadra. Ela era invencil, uma mãe solteira de trigêmeos adolescentes, divorciada de um marido rico, e que casualmente se deitava com quem lhe desse na telha, sem medo algum do julgamento.
O que acontecia com bastante frequência, e confesso ser uma das mais grosseiras nesse quesito.
Contudo, aquele homem não parecia ser só mais um ao lado da ex senhora Lacerda. Se conheciam desde novos e fora ele quem instruiu mamãe em seu pré natal, por pouco não sendo o doutor que auxiliou em nosso parto. Eram íntimos o bastante — se assim posso dizer, para que fosse algo de momento que terminaria em lágrimas masculinas.
Não só nossa mãe, mas também do empoderamento.
Cumprimentei com um sorriso amarelo e subi para o quarto não muito tempo depois que todos se dispuseram em uma conversa animada sobre jogos de Lacrosse e Super Mario. Tranquei a porta do quarto e me apoiei nela, encarando meus pés descalços sobre o tapete felpudo cor de rosa que preenchia toda a extensão do chão.
Patético e infantil.
Não muito diferente de como eu me sentia ao pensar em uma reconciliação com Miguel. Era por amor ou uma tentativa de voltarmos às origens como populares cobiçados namorando um ao outro?
Decerto a resposta não estaria em meus pés, tampouco no meio de tantos outros questionamentos da maldição de Helena que não pareciam ter um fim em breve.
Levantei o rosto da lamentação miserável no mesmo instante que Arthur VilasBoas, meu odiavél vizinho, apareceu na janela aberta de seu quarto, que absurdamente ficava quase que na mesma distância da minha. Sem camisa, o corpo tão bem trabalhado com músculos marcados — mas nada como um fisiculturista ou um comediante careca — e depilados, com o cabelo molhado e o caminho do paraíso nos levando a bermuda de futebol fininha. Ele cheirava a banho mesmo que eu não conseguisse sentir seu cheiro.
…
E nem queria, ora!
O maldito olhou em minha direção e, com o desespero nada discreto, me joguei no chão, esperando quee le não tivesse notado a expressão de um esfomeado admirando seu lanche sem poder tocá-lo.
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