Agonie
5 O deserto
Notas iniciais
14 de setembro de 1889 – Nas terras da expedição.
Então os dois homens chegaram ao local onde tanto Herbert se agraciava em anunciar a Estevão. Realmente, ele percebera que o lugar era extenso, quente e que havia muitas e muitas pessoas ali, dentre capatazes com seus berros e chicotes, e escravos em sua grande maioria negros que exerciam seus trabalhos sob olhares atenuosos de seus “superiores”, e executavam o mais rápido possível o que lhe era ordenado. Estevão viu alguns negros em fila lateral, onde estes foram acorrentados nos pés para evitar uma possível fuga, e esses homens trabalhavam derrubando uma pequena montanha de terras, pedra e areia sob o sol escaldante. Esses homens utilizavam-se de grandes e pesadas picaretas de pedras com cabos roliços de madeira. Em noutra parte, Estevão também vira homens que carregavam carrinhos de madeiras com rodas, onde ali era depositado todo o entulho que era retirado pelos os negros da picareta. Havia no meio desses trabalhadores e dos recém-chegados, um grandioso e extenso trilho onde um trem em breve passaria por ali. Não se podia contar o tamanho ou a extensão que aquele grande trilho alçava, porém era totalmente inegável dizer que era grande, muito grande, Estevão repetia esse pensamento a si mesmo, a intenção de Herbert é alcançar diferentes estados da província, mas será que aquela conversa que tivera dias antes na taberna é real, Tudo isso é devido à facilitação dos transportes de negros? Seria por isso que Herbert tenta a tanto custo não só estabelecer essas linhas férreas, mas também criar uma companhia ferroviária? Não saberia dizer e ter as respostas para essas perguntas, porém sentia muita vontade de perguntar isso abertamente a seu primo.
Também vira que existia instalado em alguns pontos específicos do grande “deserto”, cabanas hasteadas e prontas para suprir os capatazes e alguns homens que Estevão identificou depois como grandes homens engenheiros da expedição, junto a Herbert. Nessas cabanas havia caixas que mantinham cantis de águas e bebidas para auxiliar os homens no expansivo e abrasivo calor.
— Primo, acompanhe-me por gentileza, pedirei aos meus homens que nos dê dois cavalos. Você irá dar uma volta comigo – Disse Herbert diretamente a Estevão.
E assim o fez, com um assovio e um sinal, dentro de poucos minutos dois lindos e grandes cavalos marrons selados, apareceram aos dois homens que em breve estariam montando e dando partida ao extenso “deserto”. Os homens montaram, e Herbert em um sonoro “ya” cutucou os seus sapatos nas costelas do animal, forçando de forma calorosa sua partida. Estevão acompanhava o primo com destreza.
— Não precisaremos correr por ora – Iniciou Herbert – Minha intenção para contigo é mostrar o quão progressivo se encontra o meu projeto.
— Tudo bem, só de acompanhar-lhe me sinto agraciado – Dissera Estevão de modo formal como seu primo, porém um pouco distante demais, pois observava com atenção o tratamento que os trabalhadores escravos recebiam de seus “superiores”.
— Veja, ali no canto noroeste é onde se encerra a estação de Cornelie, a última de nossa província, percebes que esse trilho passa com avidez dando continuidade para o sentido norte, onde alcançaremos novas províncias e outros Estados? – Incitou Herbert.
— Sim meu primo, eu vejo, que há grandiosidade nesse seu projeto, espero que traga benefícios aos cidadãos portugueses – Respondeu Estevão com incerteza na voz.
— E terá. – Herbert abaixou a cabeça olhando para seu cavalo, de forma inconsciente baixou também a voz.
Os homens seguiram galopando sutilmente, de forma bem devagar. De modo que pudessem ver com detalhes o progresso real que aquele grandioso e futuro complexo de estações estava se tornando. Eles demoraram algum tempo, até que retornaram após minutos ao ponto inicial onde estavam quando chegaram aqui. “De volta aos homens com picaretas” pensou Estevão.
Nisso enquanto desciam dos cavalos veio um homem, um dos engenheiros em direção a Herbert dizendo:
— Senhor, senhor.
— Sim Steve, diga – Respondeu Herbert.
— Tem um homem que quer falar com o senhor, como não sabia que horas o senhor retornaria pedi para que aguardasse ali nos mosteiros da sombra.
— Aquele? – Apontou Herbert.
— Sim. – Respondeu Steve, o Engenheiro.
Quando Estevão olhou na direção que seu primo apontava, logo subiu uma raiva repentina nele, o homem era o mesmo capataz que há momentos atrás batera na mulher com o chicote. Então esse homem cuspiu no chão e tomou a andar próximo aos dois homens.
— Mario, que surpresa – Disse Herbert indo de encontro ao homem peludo e baixinho.
— Ah Herb, corta essa – Respondeu Mario – Tá tudo bem por aqui? Tava de passagem e pensei “poderia meu amigo precisar de mais mão de obra” e sei de um lugar ao Norte daqui que tem excelente escravos para trabalhos braçais.
— Ah quanta caridade meu caro – Iniciou Herbert – Mas precisamente não será necessário.
Nisso Mario, o capataz olhou para Estevão e perguntou “quem é esse?” apontando para Estevão e olhando para Herbert. Herbert então olhou para Estevão esperando alguma resposta deste, e Estevão estava olhando fixamente para Mario, sem piscar, fixo, profundamente.
A troca de olhares então se tornou mútua. Mario de um lado e Estevão de outro, a insegurança começou a aparecer e então o capataz mexeu em seu cinto onde havia uma pistola visível ali, cuspiu novamente na terra seca e quando ia dizer algo fora interrompido por Estevão estendendo sua mão:
— Gostaria de comentar o quão hábil e preciso eres com aquele chicote, às minhas graças – disse ainda com a mão esticada para o capataz.
— Oh – disse Mario surpreso e sem jeito – Ah, vejo que é um observador... Graças recebidas meu caro – Disse também apertando a mão macia de Estevão.
E assim os homens conversaram e conversaram, porém Estevão sempre mantinha a compostura e ficava reservado, observando tudo, enquanto os dois homens a sua frente riam, gozavam de histórias passadas e se divertiam. Houve uma hora que a conversa foi quebrada quando em um dado momento um dos homens negros que em outra banda carregavam sacos de pedras nos ombros caiu, e ouviu-se rugidos de um capataz, e no exato momento que esse capataz furioso fora desferir o golpe de sua chicote pequena, Estevão Interveio, segurando o braço do ser furioso.
— Hãn, o que está fazendo seu verme – O homem rugiu.
Estevão ficara calado, apenas olhando no fundo dos olhos desse homem, enquanto ainda segurava o seu braço.
— Bark, Bark, não é nada – Começou Herbert se aproximando aos gritos e correndo – É que meu primo é novo por aqui, e as coisas ele ainda está se adaptando, prometo que isso não vai se repetir – disse puxando e afastando seu primo Estevão do outro homem – O que está fazendo? – sussurrou para Estevão enquanto afastava ele.
— Não sei primo, eu não sei...
Nessa hora o baixinho Mario observava tudo com atenção, olhava principalmente para Estevão. Não era possível dizer o que se passava na cabeça de Mario.
E então coches, cavalos e alguns homens foram ouvidos se aproximando do grande “deserto”. Pela vestimenta, postura e jeito foi possível rapidamente distinguir quem eram aqueles homens. Eram homens do imperador, homens da nobreza.
— Herbert, Herbert vejo que está acompanhando o nosso convidado de honra – Disse um homem recém-chegado e bem vestido.
— Donovan? – Disse Herbert incrédulo. – O que está fazendo aqui? Logo você vindo para essas bandas, o que há?
— Nada meu caro – Respondeu Donovan – Apenas quis pessoalmente ser o mensageiro do imperador, para fortalecer o convite de nosso jantar, onde contamos com vocês.
Estevão calado observou que os homens e em especial Donovan, trajavam consigo roupas oficiais onde tinham estrelas prateadas no peito direito, calçavam grandes botas marrom de cano alto. Calças oficiais escuras. Donovan em si era muito bonito. Tinha cabelo preto jogados ao vento, olhos castanhos e o rosto fino sem barba... Seus olhos eram astutos constatou Estevão.
— Ah! O jantar. – Iniciou Herbert – Saibas que seremos muitíssimo gratos em aparecer por lá, só precisarei terminar meu trabalho por aqui e logo nos aprontaremos para lá.
— Oh meu caro, insisto que nos acompanhe desde já, o Imperador quer muito ver Estevão, disse que apressasse a sua vinda para o palácio, e que seria muito prazeroso dar um abraço em seu primo – Respondeu Donovan.
E ocorreu a Estevão que já se fazia alguns dias em que estava em Portugal e não havia manifestado nenhuma intenção do imperador de vê-lo, mesmo sabendo onde mora, onde estava e como o encontrar. Porém não queria ser rude, manteve a postura, o bom comportamento e apenas respondeu ao bonito homem com trajes oficiais:
— Será uma honra acompanhar vocês.
E sem muitas delongas, os homens tanto os oficiais, quanto os que estavam na expedição partiram rumo ao grande Palácio do Imperador. Estevão não sabia o que iria fazer, ou o que iria encontrar pela frente, mas sabia que sentia algo misturado com ansiedade e tristeza, entretanto não gostaria que alguém detectasse esses sentimentos que na realidade nem ele tinha certeza do que se tratava. A viagem se seguiu tranquila, Estevão e Herbert ficaram em um coche branco, bonito, um estava de frente para o outro e conversaram pouco diante o trajeto.
Algumas horas se avançaram, e os homens, enfim, chegaram...
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