Agentes da CIC - INTERATIVA
1 Tudo ia mal
Notas iniciais
Ethan era um rapaz de 25 anos, que morava sozinho na cidade de João Pessoa. Uma capital, pequena para os padrões do país, mas com muitas oportunidades para viver. Sua casa era simples e pequena, estando num bairro pobre. Apesar disso, era uma vizinhança tranquila e sem peculiaridades.
Estava passando por um aperto, e suas reservas monetárias não iriam durar mais que dois meses. Procurou nos classificados do jornal um emprego, torcendo para que houvesse algo que pudesse fazer. Sem universidade, nem cursos ou experiência, não haviam muitas opções. Encontrou um emprego simples de auxiliar culinário e se dirigiu ao local. Dois dias depois fora demitido por causar um pequeno incêndio na cozinha. No dia que pegou o jornal novamente, havia uma notícia especial na manchete:
“Polícia privada local fazendo audições e testes para alistamento. Não se sabe a causa que provocou a instituição a sair da aba dos concursos públicos. Interessados devem se dirigir à delegacia na Avenida Epitácio Pessoa.”
Viu que ali estava sua oportunidade, e tratou logo de se preparar. Vestido com sua camisa branca e calça jeans, pegou o ônibus e foi até o dito local. Vislumbrou muitos homens e mulheres fazendo os testes exigidos para entrar na polícia, e ele foi junto. Passado certo tempo, um homem de porte musculoso, vestido com um colete à prova de balas por cima da camisa marrom-acinzentada, ajustou o coldre na cintura e observou os novos recrutas com olhos avaliativos. Passou a mão na lateral da cabeça raspada e coçou, balançando a boina preta. Parecia desapontado.
— Como bem sabem – começou, sua voz grave silenciando qualquer conversa – A SegVat foi comprada pelo governo do estado e agora é uma polícia pública. Apesar disso, mantemos um pouco da autonomia para seleção dos candidatos. E aqui vejo as pessoas que querem se tornar policiais.
“Mas me pergunto: vocês têm o necessário para proteger o próximo? Vocês têm a convicção em arriscar suas vidas para salvar os cidadãos? Aqui não será um simples trabalho de escritório: aqui será o ponto de divisão entre aqueles que são os guardiões e aqueles que são os mercenários!”
Todo o clima ficou pesado. Ethan engoliu em seco, mas estava determinado em passar nos testes que viriam. Nem bem queria ser policial, não era uma pessoa realmente altruísta, mas sentia responsabilidade de fazer o que era certo. Saiu dos pensamentos quando viu que o policial truculento chamou outros enquanto pedia para as pessoas se alinharem em filas. Formaram-se seis filas, e seis policiais ficaram frente a frente com o primeiro de cada. De repente, ouviu-se barulho de tiros simultâneos. Muitas das pessoas se deitaram, olhando ao redor. Ethan nem bem entendeu como havia reagido, mas teve perfeito controle de si, se agachando e passando o olhar por todos os lados, analisando bem a situação: viu que os policiais de cada fila haviam sim, disparado suas armas de fogo em direção ao primeiro, mas que não havia acontecido nada.
— Quem ficou de pé... – falou o policial truculento – Tá fora.
Os murmúrios de reclamação começaram, mas ele tratou de calá-los com um tiro para cima.
— Um policial não deve ficar à mercê de tiros enquanto há bandidos por aí. Ele tem que identificar as ameaças enquanto preserva a própria vida e a do civil. Ele é a defesa do cidadão de bem e o carrasco dos bandidos. Quem não entender isso não tem direito de questionar a decisão.
— Isso não é justo! Você não avisou que iria atirar! – falou um dos aplicantes de meio da multidão.
— Então, acha que um bandido vai avisar quando for atirar? Que um traficante vai dar oportunidade de você se preparar para receber o tiro? Armas não escolhem lugar nem situação, apenas vítimas. Se você não é capaz de se manter composto meio a tiros, então você não é digno proteger ninguém, nem mesmo você.
Os resmungos de frustração foram grandes, mas eles não tinham escolha. Mais da metade dos aplicantes foram embora. Então, o grande policial tornou a falar.
— Aos que se deitaram e olharam a situação, parabéns a vocês. Aos que ficaram agachados e olharam, passaram por pouco: um tiro é normalmente dado na altura do peito, então vocês não poderiam proteger alguém se fossem atingidos na cabeça.
“Para o próximo teste, habilidade física. O trabalho de um policial não é apenas proteger o cidadão, mas também perseguir os malfeitores, e para isso um corpo capaz de correr rápido e por muito tempo é necessário.”
Correu com vontade, passando por pouco no teste, por causa de sua baixa resistência. Nunca teve muita resistência física, por ser magro, mas Ethan era capaz de atingir altas velocidades desde criança. Dos 30 que haviam sobrado, apenas 12 restaram no teste físico.
— Agora o teste de aptidão com armas de fogo. Dirijam-se para dentro da delegacia, onde os policiais irão lhes guiar para o que devem fazer.
Ethan entrou na larga e alta porta da delegacia, vendo o estande de tiro no fundo do prédio. Tinham 5 pistas, e no momento, todas ocupadas. Ele se sentou numa das cadeiras de perto e aguardou. Poucos segundos depois um dos policiais sentou a seu lado. Era um pouco mais baixo que ele, por volta dos 1,70m. Tinha cabelos castanhos e lisos um pouco grandes, cobrindo parte de seu rosto e deixando praticamente um único olho visível. Sua pele era um pouco clara, o que dava um ar sombrio ao policial. Apesar disso, ele virou o rosto e deu um sorriso amigável para Ethan.
— E aí, cara? Como se chama? – perguntou numa voz bem amigável. Estranhamente, ele não usava o colete à prova de balas ou o coldre na cintura, apenas um por baixo do braço esquerdo.
— Ethan – respondeu o homem um pouco rígido.
— Nome legal. Me chamo Ricky – disse o rapaz, estendendo a mão. Ethan apertou em cumprimento e tratou de falar logo em seguida.
— Então, como normalmente são as coisas por aqui na delegacia?
— Bem tranquilas, falar a verdade. O Danilo ali, aquele ogro, é exigente pra caramba, e às vezes é um saco, mas os problemas são de baixo risco.
— Saquei. Você também tá ajudando na seleção dos novos policiais?
— Tô sim. Na verdade, vou lhe acompanhar até o estande.
— S-Sei. – respondeu Ethan, subitamente nervoso – Manusear armas é fácil? Nunca nem toquei em uma.
— Você parece ter jeito, então vai ser tranquilo demais.
Riu nervoso perante à afirmação. Assim que o estande foi liberado, Ethan e Ricky se dirigiram até ele. O jovem policial então entregou a arma de fogo ao rapaz. Era um revólver de calibre 38 com cano médio, carregado e de cor prata. Parecia nunca ter sido usado. Assim que o metal frio tocou sua pele, teve uma sensação de responsabilidade pesada caindo nos ombros. O policial lhe mostrou as posições de mão e indicou o alvo no final da pista do estande.
— Então seguro assim, miro por esse pino e aperto o gatilho? – perguntou Ethan.
— Exatamente. Senta o dedo! – disse Ricky, dando um tapa nas costas do rapaz.
Apontou a arma e apertou o gatilho. Em frações de segundo, viu o martelo se deslocar rapidamente e bater na traseira da bala, saindo da câmara cilíndrica com um barulho alto e liberando o clarão da pólvora. Viu a bala momentos antes de sair do cano até ver atingir o alvo bem onde havia mirado, exatamente na cabeça. O recuo foi bem forte, forçando os músculos cansados de seu braço. Apesar disso, conteve o impacto bem, deixando a mira ligeiramente para cima.
— Viu só? É facinho! – exclamou o policial – Agora tenta atirar rápido...
E por vários minutos ele praticou, testando atirar rápido e com pontaria, e se saindo bem nisso. Era como se fosse natural para ele, se aprimorando a cada disparo realizado. Enquanto isso, Ricky não falava nada, apenas observava o homem testar a arma de fogo, ocasionalmente soltando um “Bom tiro” ou um “Eita pipoco danado”. Até que pediu para ele parar.
— Ótimo, ótimo. Acho que agora tá bom. Boa sorte, cara.
— V-valeu.
Depois disso, o policial indicou uma sala, que Ethan se dirigiu. Lá encontrou alguns dos candidatos sentados em cadeiras de colégio, com um papel e caneta. Ele escolheu uma aleatória e se sentou, esperando mais instruções. Assim que o policial da frente bateu as mãos, chamando a atenção, explicou do que se tratava aquela situação.
— Agora vocês terão uma pequena avaliação. Não é nada de normas ou conhecimentos gerais: é apenas uma pequena avaliação psicológica. Lhes darei alguns minutos para concluir. Boa sorte!
Com a prova iniciada, Ethan se concentrou nos mínimos detalhes, procurando sempre algum detalhe ou peculiaridade que indicasse alguma armadilha. Passado o tempo, com a consciência um pouco cansada pelo esforço, ele pousou a caneta no papel e esperou serem recolhidos.
— Ótimo. Por hoje, termina a avaliação de vocês. Amanhã serão divulgados os resultados.
Ethan olhou para os lados: a quantidade de pessoas restantes dava para se contar nos dedos. Ficou surpreso por isso, pois não imaginava conseguir ir tão longe.
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No dia seguinte, ele acordou cedo e procurou rapidamente o jornal, esperançoso sobre o novo emprego. E para sua alegria, havia sido selecionado! Pulou empolgado, mas não se demorou muito, indo se vestir e correndo para a delegacia. Pegou o ônibus logo, mas chegou atrasado, devido ao engarrafamento. Deu uma corrida até a entrada e falou com a recepcionista, uma mulher um pouco obesa, de cabelos lisos e secos, com rosto marcado pelo sol e ar de tédio.
— Onde estão chamando os novos empregados? – perguntou Ethan, ofegante.
— Por aqui mesmo. O material de limpeza tá aqui – respondeu a mulher, apontando para uma porta semiaberta, de onde se viam baldes, vassouras e desinfetante.
— Não, não, eu vim pro trabalho de policial.
— Ah – disse a mulher, parecendo desapontada – É só entrar nessa sala aqui – e indicou para o corredor diretamente atrás dela, apontando para a esquerda.
Passou rapidamente por lá, atravessando o largo corredor branco, batendo na porta que indicava “Central de Ações”. Recebendo o comando para entrar, ele abriu e se deparou com vários dos candidatos que foram aprovados vestidos com o uniforme azul-marinho da SegVat. O policial mais velho, o careca musculoso, se virou e apontou para um montinho de roupas que estava num banco no canto, que incluía uma camisa de mangas longas e calça comprida de tecido grosso e azul, com um conjunto de botas estilo coturno e um boné branco com as iniciais SV. Se escondeu no canto e foi se trocar enquanto escutava as instruções do homem.
— Então, como eu tava dizendo, vocês irão proteger a carga toda vez que for reabastecer o caixa eletrônico. No caminhão tá a quantidade exata para cada canto, e seu armamento. Eu irei com vocês no primeiro caminhão e o oficial Ricky vai tá no comando do outro.
— Sim, senhor! – veio o uníssono dos policiais.
Ethan terminou de se vestir e foi andando até o caminhão. Lá, ele ficou na equipe de Ricky. Ficou aliviado, pois pelo menos era alguém com quem se dava melhor. Sem muita conversa, eles entraram nos veículos e foram se equipando, cada um com um revolver de calibre 38, amarrado no coldre à perna. O transporte sacudia e tremia ao passar pelas ruas com buracos e imperfeições, mas era bem tranquilo ficar atrás. Subitamente, poucos minutos depois da saída, o caminhão parou, e daí veio o comando:
— Vamos lá, negada. Primeira entrega... – disse a voz de Ricky, soando monótona.
Os homens e mulheres saíram em batalhão, com as mãos nos coldres e ficando em guarda, enquanto o transportador levava a maleta até o caixa eletrônico, para efetuar a troca. Uma gota de suor escoou pelo rosto de Ethan, apreensivo com o fato de acontecer alguma confusão por causa disso. Mas apesar de seus temores, tudo transcorreu tranquilamente, com eles voltando para o caminhão e indo até outro ponto, subindo pela avenida Epitácio Pessoa.
— Segunda entrega... – disse Ricky, entediado.
O procedimento saiu igual ao anterior, com os policiais se posicionando em cantos estratégicos e esperando o transportador fazer a substituição da maleta com o dinheiro para o caixa eletrônico. E isso continuou até o quinto caixa, onde de repente, saindo de pontos bem camuflados, homens e mulheres trajados de coletes pretos, roupas escuras, botas táticas, balaclavas e capacetes, segurando fuzis dos mais variados, desde um rifle de assalto de calibre 5,56 até alguns de calibre 7,62, como também submetralhadoras de 9mm.
Não houve gritos de aviso ou movimentos de arma: os novos “convidados” já partiram disparando suas armas contra os guardas. Por pura sorte, Ethan viu os inimigos em preparação para puxar o gatilho à alguns metros atrás, tentou avisar aos outros, mas prosseguiu a se esconder atrás do guarda-corpo da avenida. Estava tenso, mas parecia que tudo transcorria em câmera lenta. Os tiros voavam pelo ar, gritos de pessoas em pânico enchiam seus ouvidos, vendo aos poucos seus breves colegas de trabalho caírem devidos às balas. Estranhamente, não havia visto Ricky entre eles.
Respirou fundo, a mão tremendo ligeiramente pelo nervosismo, mas resoluto com a atitude que iria tomar: assim que escutou o barulho de mudança de pente de munição, levantou de sua cobertura e seu olhar captou a localização dos bandidos. Segurou com força a pistola nas duas mãos e atirou, acertando com precisão na mão dos assaltantes com seis tiros precisos, fazendo seis derrubarem os fuzis. Girou o tambor com um clique do gatilho e tentou atirar, mas a arma havia descarregado. Com uma destreza que não sabia que tinha, retirou as cases de bala e recolocou novas, subindo para atirar novamente. Porém, um dos assaltantes viu o que estava fazendo e mirou nele, preparando para atirar. Ele tentou redirecionar o disparo rápido, mas acabou acertando na cabeça do assaltante e deixando um buraco redondo no meio da testa. Surpreso, ele mal agiu quando isso aconteceu, largando a pistola ao mesmo tempo em que caía atrás da proteção. Todo o mundo pareceu perder a cor e o som, ficando apenas vozes e barulhos distantes.
Poucos segundos depois, ele sentiu duas mãos o sacudirem, e levantou o olhar para ver Ricky de pistola na mão, com pequenas marcas de sangue espirrado no corpo, mas ileso. Ele o levantou com uma puxada de braço, o virou de costas e prendeu seus pulsos com uma algema. O clique do aço travando retomou Ethan para sua consciência.
— O que? – disse confuso.
— Você está preso sob acusação de homicídio. Tem o direito de permanecer calado.
“Acabou...”, pensou Ethan, mantendo o olhar vidrado e vazio. “Cheguei ao fundo do poço...”. Como se soubesse o que estava pensando, Ricky falou próximo a ele.
— Você não sabe ainda o que é o fundo do poço.
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Sendo levado preso até a delegacia, Ethan seria mantido em cárcere por dois dias, quando iria a julgamento pela morte de um dos bandidos. Não conseguia comer ou dormir, preocupado com o que iria acontecer com ele. O que seus pais iriam pensar? O que seus amigos iram saber que tinha feito? Ponderou essas questões no dia que ficou preso até o início do outro, quando viu o sol nascer quadrado. Foi aí que apareceu na grade o policial Ricky. Sentiu invadido por uma onda de raiva, querendo descontar tudo nele. Isso deve ter transparecido no seu rosto, pois o homem falou com uma preocupação na voz.
— Que porcaria, hein?
— O que?
— Foi realmente falta de sorte aquele tiro – continuou Ricky – Vi você mirando direitinho pra acertar a mão do bicho, mas ele se mexeu e pegou no canto errado.
O homem permaneceu calado. “Como ele sabia disso?”. Não sabia de ninguém que tivesse uma visão dinâmica tão boa a ponto de ver o movimento e a trajetória de balas. Resolveu inquirir mais um pouco.
— Pois é. Como você soube?
— Então... – começou Ricky, e estava ansioso para falar, pois veio com uma empolgação muito grande sua voz – Eu sou parte de uma organização, sabe.
“Trabalho na CIC: A Corporação Investigativa Criminal. Somos agentes secretos, por assim dizer. Temos autonomia e autorizações restritas para agir e atuar para garantir a paz e segurança de todos os cidadãos.”
— Sei – respondeu Ethan, desconfiado. Parecia muito fantasioso para acreditar.
— Não acredita em mim, né? Eu também não acreditava, mas fui atrás e aqui estou. Bom, mas venho aqui com uma proposta: você pode se submeter a julgamento amanhã e talvez pegar prisão por homicídio doloso – disse Ricky, com um certo cinismo – Ou então aceitar entrar para a CIC, que aí a gente libera você e vai poder usar todos os brinquedos legais.
— Se o que fala é verdade – começou Ethan, mantendo a voz controlada, mas com um tom de sarcasmo – Então não tenho realmente opção, né? Se eu puder sair daqui e ainda conseguir colocar criminosos na cadeia, sem nenhuma consequência... Por que não?
— É assim que se fala! – disse Ricky, esfregando as mãos e parecendo muito satisfeito consigo mesmo – A gente vai organizar tudo, então só precisa esperar.
E saiu da cadeia, deixando o rapaz sozinho. Ele pensou sobre o que havia acontecido. Parecia muito surreal, mas mesmo assim respondera com sinceridade. Percebia o quanto havia tido de aumento na criminalidade, o medo gravado na população e nenhuma atitude por parte do governo, apenas preocupados em encher seus cofres e contas bancárias com o dinheiro público, vindo dos impostos do trabalho suado dos cidadãos. E por causa disso, a população vivia revoltada, exigindo mudanças, mas sem nada aparecer. Só o que se tinha notícias eram brigas de gangue, corrupção excessiva no governo, etc. Se tivesse a oportunidade de fazer a diferença, queria mesmo fazê-la.
No dia seguinte, ele foi mandado diretamente para casa, com a desculpa que o julgamento havia sido cancelado por falta de necessidade e que o manteriam em prisão domiciliar por uma semana. No penúltimo dia que iria terminar a prisão, já inquieto pela ociosidade, Ethan recebeu uma carta, com um símbolo de uma arma de fogo disparando por trás da sigla CIC. Olhou surpreso e ficou mais ainda ao ver o conteúdo:
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“Parabéns por ser escolhido para fazer parte da Corporação Investigativa Criminal, por um de nossos agentes. Caso esteja realmente interessado, vá para a frente da loja de roupas abandonada no centro da cidade, perto da Lagoa, no dia 8 de março às 19 horas.
Assinado,
Valentine Stanger, Diretor Geral da CiC”.
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Pelo calendário, esse dia era depois de amanhã, diretamente no fim de seu período de prisão. Passados os dois dias, ele se vestiu com uma camisa preta, jaqueta de couro e calça jeans, parecendo que iria para alguma festa. A noite era fria e havia acabado de chover. Pela hora, ainda teriam pessoas circulando pelo Centro, voltando de seus trabalhos. Mas nesse dia em particular, não havia ninguém, com exceção dos sem-teto, procurando algum local para se proteger de uma possível chuva e dormir num desconfortável papelão estirado no chão.
Ele andou até a frente da loja e esperou, se mantendo parcialmente escondido ou pelo menos sem presença. Aguardou por menos de 3 minutos quando escutou uma voz feminina perto de seu pescoço.
— Ethan Minardy?
— Sim? Quem quer saber? – questionou Ethan, desconfiado, apesar de ter se surpreendido.
— Sou da CIC, me siga – e puxou sua mão num aperto leve, mas firme.
Se deixou levar pela mulher, pensando no que iria encontrar. Assim que chegou na loja, entraram por uma área escura, onde ele escutou bipes e um barulho de fresta se abrindo, por onde passou. Andaram poucos passos até outra porta se abrir e ele ser bombardeado com uma luz branca que lhe cegou momentaneamente, e um ambiente totalmente diferente do que esperava encontrar numa loja abandonada: pequenos corredores delimitados com paredes de gesso baixo, lembrando um grande escritório, pessoas correndo de um lado a outro levando caixas de papelão, outras guardando armas na cintura e se encaminhando para a saída, tudo numa harmonia de fazer inveja a qualquer linha de montagem.
Ficou embasbacado com a visão até que captou no canto de olho uma silhueta familiar, a mesma que havia lhe ensinado a manusear uma arma e lhe prendido depois de matar um criminoso.
— Bonito, né? – comentou Ricky, vestido com uma camisa branca justa que revelava seus braços fortes e uma calça jeans. Um coldre do tipo “armadura” estava no seu peitoral, cujas armas davam para serem sacadas debaixo dos braços.
— É-é impressionante...
— E tu vai fazer parte disso já já, só a gente falar com o chefe.
Fez um movimento de cabeça indicando que deveria lhe seguir. Andando por um corredor e subindo um lance de escadas, chegaram na parte alta e envidraçada do lugar, que tinha visão completa do que acontecia na agência.
Sentado numa cadeira de executivo ou até parecido com de chefes da máfia, estava um homem alto, de cabelos grisalhos, com um rosto quadrado e duro, com duas cicatrizes de corte, uma no queixo e outra na bochecha esquerda. Mirou os dois olhos pequenos de cor verde para os dois visitantes e abriu um sorriso amigável, o que poderia ser bem aconchegante ou bem assustador. Uma pequena plaqueta em seu birô estava escrito “Valentine Stanger”.
— Bem-vindo Ethan. Pode se sentar – disse numa voz bem firme, como se não fosse se abalar com nada, um verdadeiro herói. O rapaz assim o fez.
“Você deve tá se perguntando o porquê de ser chamado aqui, usando todos aqueles métodos questionáveis... Sabe, viemos analisando você desde 3 meses atrás, procurando por gente que possa trabalhar como agente.”
— Mas por que eu? Certeza que deve ter pessoal mais qualificado do que eu.
— Ricky pode responder essa por mim – disse Valentine, apontando para o jovem.
— Bem simples, cara: você tem análise fria. Você tem reflexos. Você tem aptidão pra uso de armas de fogo com responsabilidade.
— Mas e-eu... – engoliu em seco, enquanto tentava falar – M-matei aquela pessoa...
— É porque tu não tem o mesmo treino que eu, mas aquele que você matou ia encher de bala não só você, mas uma mulher e criança que estavam atrás da gente.
Ethan arregalou os olhos: podia não ter pensado nisso na hora, mas ao se esconder atrás da proteção do meio da avenida, captou com o canto de sua visão as pessoas que Ricky falara. E se lembrava disso.
— Ethan – disse Valentine – Você tem a oportunidade de ajudar mais pessoas ainda. Aqui na CIC você fará parte de uma equipe que vai proteger as pessoas. Você aceitaria a nossa oferta de emprego?
O rapaz estava atordoado. Não sabia direito o que pensar. Agora que havia falado, queria mesmo fazer parte de tudo isso, mas uma coisa ainda lhe incomodava, e era o fato que eles podiam matar para garantir a justiça.
— Claro que abominamos qualquer tipo de homicídio – tratou de adicionar o diretor, lendo as expressões de Ethan – Sei que falamos que você fez a coisa certa, e é fato que os agentes da CIC têm licença para matar, mas não alimentamos essa ideia. Caso você tenha a chance de não fazê-lo, então não o faça.
“Vidas não tem preço. Se conseguirmos paz na base da tirania e assassinato, não somos melhores do que aqueles que queremos prender, né mesmo?”
Ethan respirou aliviado. Agora, com a mente tranquila, acenou afirmativamente com a cabeça.
— Excelente! – disse o diretor, dando uma batida de palmas – Vamos começar o seu treinamento imediatamente, e daí vamos selecionar você pra uma equipe.
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