Agentes

10 Sweet Home


Notas iniciais
Oie leitores e leitoras lindos do meu coraçãumnmn. :)

Jane

Porque essa rebeldia do John agora? Eu me perguntava enquanto o ajudava a se vestir.

–-Quer tomar um café aqui ou em casa?

–-Aquela hora a enfermeira disse que ia trazer meu café.

–-Certo, eu vou descer e arrumar o carro.

–-Tá bom.

Eu sai o quanto antes, estava perdendo o controle da situação, desci pelas escadas afim de pensar.

O carro estava cheio de roupas, parecia até que eu tinha feito uma mudança nele.

–-Droga, droga.

Eu fiquei histérica, queria sair gritando, queria extravasar, estava perdendo o controle de tudo.

Voltei devagar, pensando no que eu faria, eu queria cuidar dele, queria ir pra casa e deixa-lo confortável, mas seria difícil com ele insistindo na gente daquela forma.

Quando eu entrei ele estava sentado na poltrona tomando o café, estava sério e não falou comigo até a gente entrar no carro.

–-Marien foi lá para casa essa semana, já limpou tudo e deixamos no esquema para você não esbarrar em nada.

–-Como vou fazer com as escadas?

–-Você vai ficar lá em cima, vai comer e fazer tudo lá.

–-Nossa, que chato.

–-Edd ofereceu para você ficar na casa dele, já que lá não tem escadas.

–-Seria uma boa, a mãe dele cuidaria de mim fácil.

–-Quer? Te levo para lá!

–-Não Jane, quero minha casa, minha cama.

–-Melhor assim John, eu quero cuidar de você.

–-Quando você veio para o carro eu liguei para o Edd, ele vai entrar em contato com uma enfermeira para ficar comigo.

Parei o carro no acostamento.

–-John, por que está fazendo isso? Por pirraça?

–-Não Jane, só que eu não quero você lá comigo por obrigação.

–-Em nenhum momento disse que seria obrigação.

–-Mas eu não quero você lá porquê eu estou doente, quero você lá por mim.

–-John eu não...

–-Você tá indo só porque eu me machuquei, e talvez você se sinta culpada por isso ter acontecido, então não sinta, e você não tem porquê fazer isso, já que insiste em me chamar de ex o tempo todo.

–-John eu não vou porque...

–-Não precisa...

–-Cala a boca e me deixa falar!

–-Tá bom.

–-Eu nunca disse que era minha obrigação, mas eu me sinto no dever de ficar com você, porque apesar de estarmos separados, nós somos amigos e amigos cuidam um do outro.

–-Amigos, Jane? Pelo amor de Deus.

–-Somos companheiros John, e esse tempo todo serviu pra gente selar esse carinho, esse...

–-Não vem com esse lance de carinho Jane...

–-John, eu vou cuidar de você, eu quero cuidar de você. Levantei um pouco a voz e falei olhando direto para os olhos dele.

–-Tá bom, mas já te adianto, não vou me esforçar nem um pouco para respeitar nossa separação.

Olhei para ele novamente e liguei o carro.

Quando chegamos em casa, tudo estava arrumado, Marien tinha caprichado e deixado a casa com um cheirinho delicioso.

A principio, foi fácil tira-lo do carro, porém, ele ainda brigava com as muletas. O deixei no sofá e dei uma olhada no andar de cima, estava tudo tão arrumado como se a casa nunca estivesse sido habitada.

Dei a ele água e fui até o carro tirar as malas, eu ia ter tempo de pensar no que fazer e em como agir agora que estava de volta em casa.

–-Tudo que eu queria era uma cerveja.

–-Beber? E o monte de remédio que você tá tomando?

–-Nada é melhor do que um baseado e cerveja.

–-Ainda bem que falou nisso, aquele dia que vim tomar banho aqui, eu achei um cigarro de maconha fumado lá no quarto de hospede.

–-É, fumei sábado e domingo, por quê?

–-Achei que tínhamos combinado não fazer mais isso, não sozinhos.

–-Você se importa? Achei que estávamos separados.

–-Tá bem. Respondi de mau gosto. –-Vou pra cozinha pensar no almoço.

O que eu faria de almoço sem as meninas da iTemp? Meu Deus, seria um desastre, ainda mais agora com John agindo assim me desconcentrou, me fez falhar na missão de me manter firme.

Jas me ligou umas 100 vezes e não atendi, estava evitando falar com ela para que não descobrisse que eu estava meio abalada e me divorciando.

A última vez que falei com ela foi na quarta-feira, quando fui informar que não trabalharia durante a semana toda e que talvez tiraria umas férias. Foi muito ruim porque ela me encheu de perguntas sobre John e sobre nossa “viagem” para o Brasil. Tinha duas ligações do Edd, quase 100 do Alfred e algumas de números desconhecidos, há quanto tempo eu não checava essas chamadas?

Resolvi pedir um help para o Alfred.

–-Oi.

–-Olha aqui, você não pode sumir assim não, querida.

–-Bom dia para você também.

–-Vaca

–-Alfred!

–-Tá desculpa, tô nervoso com você, mulher.

–-Você está bem?

–-Tirando que você está totalmente desnorteada, seu marido acidentado e fiquei sem saber onde você estava por dias, eu estou bem, sobrevivo.

–-Exagerado!

–-Não diminua minha preocupação.

–-Já pedi desculpas.

–-Tá bom, fala ai mulher.

–-Preciso de ajuda, Alfred.

–-Primeiro, como você esta? Onde esta?

–-Estou bem, to na casa do John e...

–-Sua casa.

–-Tá bom, minha casa! Vou cuidar dele mesmo como eu já tinha dito, ele teve alta hoje.

–-E como ele está?

–-Bem, na verdade, melhor do que eu tinha imaginado, porque agora deu pra ficar revoltado.

–-Até eu ficaria com esse doce que você tá fazendo.

–-Não tô fazendo doce Alfred, é sério tudo que tá rolando, só acho que perdi um pouco o controle.

–-O que houve?

–-John ficou meio rebelde, veio com um papo de que não quer que eu cuide dele por eu não vou estar inteira e...

–-Logico, dou razão a ele, você fica nessa de divórcio, de mulher forte e sem sentimentos, querida, isso mata qualquer um de raiva.

–-Ele tá fazendo de pirraça.

–-E você também! Olha aqui, não quero mais falar nesse assunto...

–-Alfred!

–-Não até você mudar esses seus argumentos idiotas e sem base...

–-Preciso da sua ajuda.

–-Ainda não terminei, menina malcriada. Arregalei meus olhos quando ele disse isso. –Jane, você só vai convencer a mim e ao mundo que esse divórcio tem algum fundamento quando arrumar motivos concretos para se separar.

–-Como o que?

–-Sei lá, dá seu jeito, até lá eu não te apoio nisso, aliás, não quero falar disso. Tenho dó do John por você ficar fazendo graça assim, seu e fosse ele ia te punir.

–-Alfred, achei que tinha seu apoio.

–-Quando foi que eu disse que te apoiava, hein querida?

–-Deixa pra lá. Vai me ajudar ou não?

–-Depende.

–-Preciso de ajuda na cozinha.

–-O que ta pensando?

–-Não sei, tenho tudo aqui, mas não sei por onde começar.

–-Cadê duas amiguinhas da iTemp?

–-Ninguém sabe do que tá rolando aqui, então não chamei ninguém de lá.

–-Cadê sua amiga Jas?

–-Alfred! Para com isso e me ajuda.

–-Jane, se vira, acho que tá na hora do John comer sua comida.

–-Ai ele terá um belo motivo para querer o divorcio.

–-Se vira querida, eu preciso voltar para o meu trabalho.

–-Me dá uma ideia, pelo menos.

–-Pergunta o que ele quer comer.

–-Tá doido? Ele vai querer a comida favorita dele, eu ainda não aprendi direito como faz.

–-Se joga querida, qualquer coisa ele come você e depois vocês pedem uma pizza.

–-Alfred!

–-Tchau Jane, boa sorte.

–-Não faz isso comigo. Ele já tinha desligado. –-Maldito!

–-Tá tudo bem, Jane?

–-Que susto querido!

–-Desculpa.

–-Eu estava aqui vendo... Dei uma pausa.--Veio andando numa boa com a muleta?

–-Tenho que aprender, né? Demorei para dar os primeiros passos.

–-Que bom, gostei de ver.

–-Você estava dizendo que estava vendo alguma coisa.

–-Estava vendo o que eu ia preparar para o almoço, quer alguma coisa especial?

–-Já que você perguntou, quero sim, aquele seu macarrão com queijo.

–-Macarrão com queijo? Tá bom, faço pra você.

–-Quer ajuda?

–-Ah, é melhor você descasar sentado lá na sala, amor.

–-Eu quero ajudar!

–-Tudo bem. Dei de ombros e fui pegar o macarrão no armário, mas a verdade é que eu estava apavorada, cozinhar com John me olhando? Meu Deus, hoje ele iria descobrir a farsa que sou como cozinheira.

–-Você está bem mesmo?

–-Ah, fiquei meio chocada com o que você falou aquela hora.

–-Desculpa, tá? Só que achei que seria bom você sentir o que eu to sentindo quando você fala que não estamos mais juntos. Dói, sabia?

–-Desculpa John, acho mesmo que não ando sendo muito agradável.

–-Na verdade, você foi muito agradável nesses 4 dias lá no hospital, mas ai do nada você ficou rude de novo.

–-Desculpa, só não estou sabendo como lidar com isso.

–-Eu também não.

–-John, acho que estou perdendo o controle.

–-Vem cá. Ele estendeu os braços.

E eu corri feito um cachorrinho, meus olhos se encheram de lagrimas e enterrei meu rosto no pescoço dele, era tão reconfortante e seguro, que eu só queria ficar ali o dia todo. Ele se encostou na bancada e me abraçou muito forte, eu sentia seus dedos na minha pele, sua respiração desordenada e a tensão de seus músculos.

Ficamos longos minutos ali, apenas abraçados, transmitindo nossa insegurança um ao outro, compartilhando da mesma tensão e desespero, nós dois tínhamos perdido o controle do nosso casamento.

Ele não me soltou até eu aliviar e ir ficando mais leve.

–-Vamos passar por isso juntos, meu amor, não importa qual seja o resultado, só preciso que você me deixe ajudar, não fuja ou se esconda, pode ficar comigo? Apenas acenei com a cabeça ainda enfiada no peito dele. Ele estava tão lúcido e doce, suas mãos calmas mexiam no meu cabelo e seus lábios beijavam minha testa incessantemente. –-Vou cuidar de você. Ele sussurrou, e talvez eu realmente precisasse de cuidados.

Me deixei levar, fiquei lá nos braços dele até me tocar de que tinha um almoço para fazer, mas nas circunstancias atuais, talvez Alfred tivesse razão, porque não pedir uma pizza?

–-Vai mesmo me ajudar com a comida?

–-Não quero sair de perto de você hoje.

Não contive o sorriso.

–-Tenho medo de você se cansar.

–-Vamos fazer assim, deixamos uma cadeira aqui do lado, eu posso me sentar nela quando eu sentir vontade, e ficar em pé quando eu precisar te ajudar, combinado?

–-Eu pego a cadeira! Fui até a sala de jantar.

Acho que ele ficou surpreso por eu ter concordado sem dizer nada, sem nenhuma objeção.

Começamos a comida, eu estava mais calma, então conseguia refletir sobre o que eu estava fazendo. Coloquei o macarrão na panela com a água, John ralava o queijo e coloquei um frango temperado numa panela com cebola e água.

–-Amor, que tal se a gente inovar e fazer um molho de tomate?

–-Macarrão com molho e queijo?

–-Sim.

–-Vamos lá então, me ajuda no molho?

–-Claro. Ele deu um dos sorrisos mais lindos do mundo e me senti derreter, meu corpo amoleceu e por um minuto quase pulei para lhe dar um beijo.

Peguei alguns tomates e deixei que ele os lavasse. Cortamos e batemos para fazer o molho. O tempero foi o mais natural possível. Deixei que ele experimentasse para saber a reação.

–-Está ótimo. Ele se aproximou de mim devagar, mancando e escorando na bancada. –-Gosto da sua comida. Me deu um beijo na bochecha.

–-Se senta um pouco, agora a gente precisa esperar pelo molho mesmo.

–-Minha mãe sempre passava água no macarrão depois de cozido, deixa ele mais firme.

–-Verdade, tinha até me esquecido. Eu nunca mais me esqueceria disso.

–-Senta aqui comigo, vamos ter que esperar mesmo. Ele bateu na perna sinalizando para eu sentar.

Olhei assustada com a ideia de sentar no colo dele.

–-Ainda tenho uma perna boa. Ele sorriu cinicamente.

–Preciso ir ao banheiro.

Senti uma coisa diferente e queria conferir logo de uma vez. Tranquei a porta do banheiro e fui logo checar. E graças Deus, eu havia menstruado, nada de gravidez, nada de criança. Ufa!

Sai rápido, afinal, eu tinha que comemorar, foram dias de aflição, enjoos, corpo dolorido, excitação fora do normal, meu Deus eu estava subindo pelas paredes!

Fazer o almoço com John foi algo incrível, um momento muito divertido, rimos muito, ele fez muita graça comigo o tempo todo, por um momento esquecemos do que estava acontecendo, eu até queria deixar as coisas rolarem, queria que fosse natural, mas a minha cabeça ficava insistindo em me lembrar que nossa briga foi horrível e me fazia lembrar de todas as coisas que dissemos um ao outro.

Quando eu voltei ele ainda estava sentado e observava a porta por onde eu entrei.

–-Ainda tem lugar para mim na sua perna boa? Acho que sorri de um jeito idiota, porquê John me olhou de um jeito engraçado e mordeu o lábio, tão sedutor que cheguei a ter arrepios.

Ele apenas acenou com a cabeça e bateu na perna enquanto ainda mordia o lábio.

–-Parece feliz.

–-Estou. Me sentei bem devagar na perna dele e envolvi meus braços em seu pescoço.

–-Aconteceu alguma coisa que eu ainda não sei? Ele passou os braços em volta da minha cintura.

–-Não, só estou feliz porque estou em casa.

–-Humn.

–-Senti falta da minha casa, sempre do meu jeito, com tudo no lugar, o cheirinho de limpeza, aqui é meu lá, John.

–-Só da casa? Ele desceu a mãos e apertou minha coxa.

–-John!

–-Estou feliz mesmo assim, por você estar aqui e pela gente.

–-Também estou feliz que a gente tá conseguindo ter um momento de paz.

–-Cozinhar faz bem para nós dois. Ele acariciou meus joelhos e foi para o interior da minha coxa.

–-Faz mesmo, falando nisso, deixa eu dar uma olhada no molho.

Levantei antes que a mão dele fosse longe demais.

–-Aqueles enjoos pararam?

–-Ah sim, acho que foi mesmo por conta do que eu andava comendo, ou talvez por conta do meu atraso na... Fiquei em silêncio.

–-Atraso no que?

–-Não se preocupa, o atraso acabou hoje.

–-Sério? Ele arregalou os olhos.

–-Sim, por quê tá falando isso?

–-Acha mesmo que eu tava preocupado com o atraso? Querida, eu estava torcendo para o atraso continuar, primeiro aqueles seus calafrios e aquela carência, acha que não percebi seu corpo todo arredondado, todo gostoso? Ai depois vieram os enjoos, excitação fora do normal, seios fartos... John encheu a boca para falar isso. --...aquela consulta rápida, acha que não percebi que depois que saiu do consultório você ficou meio perdida? Jane eu conheço você meu amor, seu corpo, seu coração, sua cabeça. Ele pegou as muletas e veio na minha direção.

–-O que tá insinuando, John? Meus olhos se entupiram de lágrimas, quase não o vi chegar perto.

–-Um filho, Jane.

–-Eu não estou grávida, John.

–-Agora sabemos, porque tenho certeza que você não fez nenhum teste para ter garantia. Eu conheço você, sei que se fosse positivo você teria vindo até mim porquê você não suporta seus pais e nem seus amigos, e você não tem mais ninguém, e se fosse negativo, você já teria se sentido aliviada antes, e não, você não fez o teste e deixou as coisas rolarem, foi empurrando porque... porque... talvez eu te magoe, mas você foi covarde e injusta em não me contar sobre isso.

–-Desculpa.

–-Tá tudo bem, eu já refleti sobre isso e sei o quanto isso mexe com você, então não me importo, quero seu bem, Jane, acima de tudo, acha que não percebi o medo que você estava?

–-E mesmo assim você brigou comigo.

–-Eu achei que talvez fosse me contar logo de uma vez, porque... sim Jane, eu achei que teríamos um filho.

–-Não é minha culpa.

–-Não estou te culpando, só estou desabafando, lembra que te falei no hospital sobre esse lance da gente ser unido, desabafar um com o outro mesmo que você carregue essa separação adiante?

Acenei com a cabeça.

–-Então querida, eu preciso te falar sobre tudo, eu sinto necessidade de falar com você sobre essas coisas.

Positivei com a cabeça enquanto fechava os olhos espantando as lagrimas.

–-Quero acabar logo com isso querida, vamos colocar ponto final em tudo que acabamos deixando para trás, tá comigo?

Arregalei os olhos.

–-Depois que a gente conversar, se você ainda quiser ir embora, eu não vou te segurar.

–-Obrigada.

–-Medrosa, vem cá. Ele abriu os braços me oferecendo carinho de novo.

Eu o abracei forte, mas dessa vez o aconchego foi menor, foi algo como um descarrego na tensão.

–-Podemos comer?

–-Claro querida, vamos ter tempo de conversar.

–-Sim.

John

Chegar em casa foi algo incrível, nossa como eu desejava sentir o cheirinho da minha casa, acho que quando se passa por algum trauma dá-se valor até nessas coisas mais singelas.

Jane me ajudou a chegar no sofá onde eu sentei e não sai mais, ela andou pela casa, parecia empolgada, acho que ela também devia estar com saudades daqui. Sentado olhando para o nada, eu fiquei desejando uma cerveja bem gelada, ver TV e minha gata do lado, me fazendo sentir o cara mais sortudo do mundo, mas ao invés disso nós estávamos a ferro e fogo, as coisas estavam de sair faísca, se Jane achava que eu abaixaria a guarda só porquê ela ameaçou esse divorcio, ela estava enganada, no começo até tentei ser bonzinho, até me arrastei, mas agora, pensei melhor e acho que não mereço esse comportamento idiota dela pra cima de mim.

Mas como tudo tem dois lados, após uma certa grosseria, eu me senti mal por estar sentado no sofá enquanto ela se sentia mal pelo que eu falei, será que estava realmente se sentindo mal? Ou estava comemorando que seu plano de acabar com nosso casamento estava dando certo? Resolvi conferir e com certa luta consegui ir até a cozinha, ela estava apoiada a bancada, com o celular na mão e sussurrou alguma coisa. Eu a interrompi e também quase a matei de susto. Seus olhos brilharam quando viu que eu andava sem brigar com as muletas.

Propus ajudar com a comida, ela estava tão doce e com a voz tão macia que me dava vontade de beija-la. Acho que um pouco de pulso firme funciona bem com ela às vezes. Às vezes! Graças a Deus dessa vez funcionou. Mas apesar dela ter baixado a guarda, ela parecia triste, suas mãos estavam tremulas, até seus lábios tremiam.

–-Você tá bem mesmo? Eu precisava insistir, mesmo que ela falasse que está bem.

–-Ah, fiquei meio chocada com o que você falou àquela hora.

Foi uma surpresa enorme ela falar que se sentiu mal. Meus Deus, estamos tendo um progresso aqui!

–-Desculpa, tá? Só que achei que seria bom você sentir o que eu estou sentindo quando você fala que não estamos mais juntos. Dói, sabia? Me aproximei mais dois passo.

–-Desculpa John, acho mesmo que não ando sendo muito agradável. Ela olhou dentro dos meus olhos, era vibrante e um pouco intimidador aquele olhos enormes, mas eram medrosos, diferente de todos os olhares dela.

–-Na verdade, você foi muito agradável nesses 4 dias lá no hospital, mas ai do nada você ficou rude de novo. Tentei amenizar o peso que eu tinha colocado sobre ela.

–-Desculpa, só não estou sabendo como lidar com isso.

Isso amor continua, se abre pelo amor de Deus! –-Eu também não.

–-John, acho que estou perdendo o controle. Isso querida, eu preciso ouvir isso.

Minha única reação foi estender os braços e convida-la a me abraçar, estava inseguro se ela sairia correndo da cozinha gritando ou se viria até mim, seu rosto ficou até meio pálido, e sim, ela veio até mim com aquele corpo tenso e tão frágil que quando eu a abracei forte poderia quebra-la com facilidade.

Nossa foi um abraço tão gostoso, ela ficou entregue a mim e eu só fiz o que meu coração queria, carinho sem dizer nada, acho que nesse momento o que a gente menos precisava era conversar, estava na hora da gente colocar um ponto final nessa coisa toda, mas não nesse abraço tão caloroso, com ela amável daquela forma nos meus braços, mesmo que eu quisesse, eu não poderia dizer nada e ferir ainda mais os sentimentos dela, e acho que ela também pensou o mesmo, porque apenas enfiou a cabeça no meu pescoço e ficou, sem dizer nada, sem lutar pra sair do meu abraço, sem de forma alguma tentar se afastar.

–-Vai mesmo me ajudar com a comida? Ela disse ainda me abraçando, sua voz era ainda mais doce e ela havia parado de tremer, agora seus lábios estavam mais irresistíveis do que nunca, minha boca salivava por um beijo, acho que não consegui nem disfarçar.

Cozinhamos juntos, entre gargalhadas, conversas sobre coisas irrelevantes, porém, que nos interessava, ela se sentia a vontade e me deixou a vontade também, há quanto tempo não nos sentimos a vontade um com o outro daquele jeito? Tirando no sexo claro, que a gente se entrega e nem pensa em nada, mas falo nas coisas do dia a dia, eu e Jane sempre nos evitávamos, era um peso ficar perto dela por muito tempo e tenho certeza que para ela também eu devo ser um peso às vezes, mas hoje foi tão diferente, foi leve e espontâneo, como os 4 dias no hospital, nada de rotina, nada de horários ou regras. Uma paz, e eu ainda mais apaixonado por ela.

Quando enfim me sentei pra descansar a perna ferrada, Jane continuou em pé de frente para o fogão, ela olhava o fogo e seus olhos brilhavam.

–-Senta aqui comigo, vamos ter que esperar mesmo. Ela parou de olhar o fogo e virou aqueles olhos verdes enormes e magnéticos para mim, senti um arrepio frio de repente. –-Ainda tenho uma perna boa. Não contive o riso quando bati na perna não acidentada esperando ela sentar.

A face dela tinha mudado, estava estranha e correu para o banheiro, parecia assustada.

Continuei sentado lá, talvez ela estivesse bem, mas precisando apenas usar o banheiro, caso demorasse eu iria ver o que havia acontecido.

Ela voltou rápido, parecia eufórica e feliz, como se estivesse ganho um presente.

–-Ainda tem lugar para mim na sua perna boa? Ela sorriu irresistivelmente e veio na minha direção bem devagar, meu Deus, como Jane era gostosa.

–-Parece feliz. Se sentou bem devagar e colocou os braços no meu pescoço.

–-Estou.

–-Aconteceu alguma coisa que eu ainda não sei?

–-Não, só estou feliz porque estou em casa.

–-Humn.

–-Senti falta da minha casa, sempre do meu jeito, com tudo no lugar, o cheirinho de limpeza, aqui é meu lá, John.

–-Só da casa? Eu já sentia o cheiro dela tão perto, era tão excitante que queria agarra-la ali mesmo.

–-John!

–-Estou feliz mesmo assim, por você estar aqui e pela gente. Na verdade eu queria dizer o quanto ela me deixava louco e o quanto eu desejava poder pega-la no colo e correr pra cama.

–-Também estou feliz que a gente tá conseguindo ter um momento de paz.

–-Cozinhar faz bem para nós dois. Era como se minhas mãos estivessem perdido o controle, porque eu apenas queria senti-la.

–-Faz mesmo, falando nisso, deixa eu dar uma olhada no molho. Ela se levantou me deixando na vontade, fechei os pulsos com força e respirei fundo. Vai com calma John, ela é gostosa, mas vai com calma.

–-Aqueles enjoos pararam? Continuei a conversa.

–-Ah sim, acho que foi mesmo por conta do que eu andava comendo, ou talvez por conta do meu atraso na... Ela ficou em silêncio.

–-Atraso no que? Insisti.

–-Não se preocupa, o atraso acabou hoje.

–-Sério? Me surpreendi, acho que não consegui esconder.

–-Sim, porque tá falando isso?

–-Acha mesmo que eu estava preocupado com o atraso? Querida, eu estava torcendo para o atraso continuar, primeiro aqueles seus calafrios e aquela carência, acha que não percebi seu corpo todo arredondado, todo gostoso? Ai depois vieram os enjoos, excitação fora do normal, seios fartos, aquela consulta rápida, acha que não percebi que depois que saiu do consultório você ficou meio perdida? Jane, eu conheço você, meu amor, seu corpo, seu coração, sua cabeça. Levantei com certo desconforto na perna e fui até ela.

–-O que tá insinuando, John?

Eu a olhei bem no fundo dos olhos e não tinham mais cor, eram apenas lágrimas.

–-Um filho, Jane. Eu cuspi as palavras.

–-Eu não estou grávida, John. Ela encheu a boca quando disso isso, foi meio que um desabafo.

–-Agora sabemos, porque tenho certeza que você não fez nenhum teste para ter garantia. Eu conheço você, sei que se fosse positivo você teria vindo até mim, porque você não suporta seus pais e nem seus amigos, e você não tem mais ninguém, e se fosse negativo, você já teria se sentido aliviada antes, e não, você não fez o teste e deixou as coisas rolarem, foi empurrando porque... porque... talvez eu te magoe, mas você foi covarde e injusta em não me contar sobre isso. Respirei fundo.

–-Desculpa.

–-Tá tudo bem, eu já refleti sobre isso e sei o quanto isso mexe com você, então não me importo, quero seu bem, Jane, acima de tudo, acha que não percebi o medo que você estava?

–-E mesmo assim você brigou comigo.

–-Eu achei que talvez fosse me contar logo de uma vez, porque... sim Jane, eu achei que teríamos um filho.

–-Não é minha culpa.

–-Não estou te culpando, só estou desabafando, lembra que te falei no hospital sobre esse lance da gente ser unido, desabafar um com o outro mesmo que você carregue essa separação adiante?

Ela insistiu num silêncio fatal.

–-Então querida, eu preciso te falar sobre tudo, eu sinto necessidade de falar com você sobre essas coisas. Jane se debulhou em lágrimas de um jeito tão sofrido, queria abraça-la de qualquer forma. –-Quero acabar logo com isso, querida, vamos colocar ponto final em tudo que acabamos deixando para trás, tá comigo? Ela secou as lágrimas e depois arregalou aqueles olhos verdes tão lindos e arrepiantes, mas continuou em silêncio.–-Depois que a gente conversar, se você ainda quiser ir embora, eu não vou te segurar.

–-Obrigada.

Jane me disse apenas obrigada, meu Deus querida, diz que me odeia pelo menos.

–-Medrosa, vem cá. Abri os braços lhe oferecendo conforto.

Eu a abracei forte, ela respondeu com força também, acho que soltamos a tensão da conversa naquele abraço tão gostoso.

–-Podemos comer? Ela disse num tom de voz fino secando mais algumas lágrimas que escorreram.

–-Claro, querida, vamos ter tempo de conversar.

–-Sim.

Notas finais
Xo Jolies