Afternoon
1 Shots
Notas iniciais
— Coração ferido, jovem? — foi uma voz rouca que me acordou do meu devaneio. Era um senhor, não tão velho, não tão novo. Ele sorria, como se estivesse se divertindo com minha reação inglória ao quase derrubar o copo, assustado com a realidade me puxando.
Eu decidi não responder de pronto, decidi me situar novamente. Estou num bar vazio; é fim de tarde. Não sei precisamente o horário, estou sem meu relógio. Meus dedos voltam a realizar círculos em volta da borda do copo, cheio, de uísque —algo em mim não quer deixar o estado de sobriedade, embora eu devesse.
— Sim, acho. — respondo, a voz com som irregular, rompendo o imbróglio que havia se formado em minha garganta — Clichê isso, né? — completo, falando mais para mim mesmo, com os olhos focados no líquido âmbar.
—Um puta clichê, meu filho! Presta atenção na música, para você ver — o velho gargalhava enquanto falava. Eu não entendia e só me sentia ainda pior. Resolvo escutar atentamente a música ambiente; é Imagine Dragons, Shots. Um remix. “And then I shot, shot, shot a hole through everything I loved”. Algo como “E então eu atirei, atirei, atirei em tudo que eu amei”, segundo o meu inglês que anda manco e enferrujado.
Continuo sem entender, mesmo após compreender a música. Ou talvez eu não queira entender.
O velho chama o garçom, ainda com um grande sorriso no rosto. Coça a barba e pede uma bebida cujo nome não compreendo; eu volto a me mergulhar em lembranças.
Ah, as curvas dela, algo em mim diz. Inegavelmente perfeitas; o modo como minhas mãos se encaixam em sua cintura, o modo como nossas bocas sabem exatamente o que fazer, o modo como conhecemos tão bem os pormenores dos corpos um dos outros. Há uma sintonia tão... incrível.
Sinto algum medo de alguém, principalmente o velho, notar o arrepio que percorreu minha coluna e deixou os pelos do meu braço eriçados. Por sorte estou sentado e qualquer outra mudança física do meu corpo é imperceptível.
Sorrio, de um jeito bem bobo, lembrando do frio da barriga das primeiras coisas que fizemos juntos.
O primeiro beijo, ardente. A primeira declaração, cheia de nervosismo. O primeiro “eu te amo”, cheio de insegurança. A primeira vez, estranha e tão boa.
O arrepio na minha espinha se acentua quando eu lembro de como eu gosto de quando ela me beija, de repente, quando estou distraído.
É nesse momento que resolvo tomar o uísque; um gole e a bebida desceu pela minha garganta, deixando a sensação de que eu tinha virado um dragão.
— Então... deixa eu tentar adivinhar, ela te deu um pé na bunda? — O velho volta a falar, ainda sorrindo de um jeito que me deixava extremamente desconfortável.
— Não. Ainda não. — Respondo, talvez por conta do álcool, porque não me faz o menor sentido me abrir ali; foi exatamente por isso que eu não quis conversar com o garçom. Mas... fala sério, se um velho não puder te dar um conselho, quem mais vai poder?
— Então você foi um idiota e a magoou? — O sorriso dele murchou um pouco, agora sua boca, enrugada, estava ligeiramente arqueada, fazendo seus olhos, escuros, ficarem mais estreitos do que já eram.
Não digo nada, apenas balanço a cabeça em afirmativa. Eu fui um idiota. Peço mais uma dose de uísque, mesmo não tendo gostado do sabor forte e amadeirado.
Um silêncio denso paira sobre a situação. Consigo escutar a música bem alta agora, algum country. Consigo ouvir o tintilar de alguns copos batendo nas mesas metálicas. Consigo até sentir o silêncio pesado entre mim e o velho, sentado do meu lado no meu balcão de madeira escura. Começo, de novo, a fazer círculos em volta do corpo.
— Foi tão ruim assim, meu filho? Tenho a impressão de que você não deveria estar aqui — ele diz. O sorriso não está mais nos lábios dele, e agora noto que ele tem um semblante triste. Os cabelos escovados e a roupa social bem asseada me dizem que ele tem emprego, provavelmente em algum escritório. Ele me chama de filho, e eu rio mentalmente sabendo que ele poderia muito bem ser meu pai; pelos 55 anos que ele aparenta ter (um número aleatório que apareceu na minha cabeça), ele seria um pai aos 30 anos.
Explico brevemente que não foi tão ruim, mas que eu me sentia um lixo. Que eu não deveria magoar tanto as pessoas que amo; que eu sou cheio de defeitos que magoam as pessoas. Digo também que é verdade; eu poderia estar fazendo coisas mais úteis do que beber uísque em um bar praticamente vazio à tarde.
Ele sorri de canto e balança a cabeça, de um lado para o outro, como se condenasse o que eu disse. Me sinto, de novo, horrível. Algo está fora do lugar.
— Sabe por que eu estou rindo tanto de você? — Ele pergunta, mas não me dá nem tempo de pensar em uma resposta antes de responder à própria pergunta — Porque é ridículo como você está agindo. É ridículo você estar aqui bebendo sem saber beber, se isolando quando eu sei que tudo o que você queria era estar perto dela. É ridículo você se condenar tanto por ser humano.
Permaneço em silêncio. Por mais que seja algo que cabe em mim, sinto que ele está mais desabafando do que me aconselhando.
— Somos criaturas que se magoam, meu filho. Criaturas que se magoam. — Ele toma sua bebida, que é escura e tem bastante gelo. Conhaque, talvez.
Me recuso a falar algo, por ainda sentir que ele precisa desabafar e por não ter o que falar; talvez eu esteja sendo ridículo mesmo. Apenas beberico mais uísque, “bebendo como mulherzinha”, como diria meu pai.
— Olha, as pessoas são horríveis, sabe? Mas também são maravilhosas. Temos esses dois extremos. Foda-se se você magoou ela, meu amigo! Você também não a fez feliz? Muito feliz? O que você fez mais: magoar ela ou deixa-la bem? O que ela fez mais? A questão toda é o quanto vocês se dão bem após essas merdas no meio do caminho.
Fito os olhos dele, que não me olham de volta. Ele encara o próprio copo, mesmo enquanto está dizendo. Parece, percebo, que está falando consigo mesmo (e eu continuo me identificando com tudo o que diz).
— Você a ama, ela te ama. Eu sei disso, mesmo nem sabendo a porcaria do teu nome, seu idiota. — Ele ri ao me ofender, mas não me sinto nada ofendido. — O mal de vocês, jovens, é se machucar por qualquer besteirinha.
Ele, após um longo silêncio, fita meus olhos e, enquanto me recupero da surpresa do ato repentino, me faz uma pergunta com a voz grave:
— Você a ama de verdade?
— Sim — afirmo, sem nem pensar direito. Por incríveis, incontáveis e grandes pontos que preferi não enumerar mentalmente; eu levaria muito tempo o fazendo.
— Então você não deveria sair do lado dela nas horas ruins. — Ele se levanta, coloca algum dinheiro, muito mais do que deveria, embaixo do copo, e volta a me olhar. — Venha, vou chamar um táxi pra te levar para onde você deveria estar. A vida não é só bons momentos, amar não é só estar perto quando as coisas estão boas, o amor não é tudo dar certo, meu filho.
Levanto sem nem ter tempo para cogitar se eu deveria. Ele está certo. O amor é muito mais do que bons momentos. Almas gêmeas não existem; há, somente, pessoas que se encaixam bem, mas sempre com algum atrito eventual. O amor é a capacidade de superar esses atritos, disse algo dentro de mim.
“Que tipo de mundo é esse onde as pessoas só associam o amor a dor?”
Notas finais
Abraços!
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