Aftermath

1 Uma canção sombria


Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

Dizem que ao morrer você vê toda sua vida passar diante dos seus olhos. Eu não. Eu vi toda a vida que eu perdi. Eu me vi crescendo além dos meus doze anos de idade, com um trabalho e uma família. Acredito que vi isso pois tiraram de mim mais do que a vida que eu tinha, tiraram a vida que eu poderia ter.

Eu estava voltando da escola naquele dia. Cheguei em casa faminto e logo depois de guardar minhas coisas fui à cozinha almoçar. Lá encontrei minha mãe mergulhada numa poça de seu próprio sangue e com um buraco enorme no peito. Não tive reação alguma, nem um pensamento sequer. Pareceu que se passaram horas que eu estava ali, mas levaram dois segundos para meu estado de choque ser interrompido por um vulto que crescia atrás de mim. Me virei rápido e vi Andrew com sangue nas mãos, e a expressão dele como sempre era séria. Lembrei-me de como todos falavam dos filhos dos Evans: eram crianças muito inteligentes e simpáticas, mesmo parecendo estarem de mau-humor o tempo todo. Nós nos acostumamos a sermos assim, meu irmão e eu.

Antes que eu pudesse perguntar a Andrew o que aconteceu, ele adiantou-se e me empurrou com força, me fazendo cair ao lado de minha mãe, que mesmo morta parecia olhar triste para mim. Era como se ela estivesse lá, e soubesse que aconteceria comigo o que aconteceu com ela. Só quando meu irmão me imobilizou pude reparar que ele segurava uma faca de cozinha. Sem dizer uma palavra, ele pôs a faca no meu pescoço. Olhando nos meus olhos, ele me matou.

...

Meus últimos suspiros antes de morrer duraram tanto quanto possível. Eu pensava em tudo ao mesmo tempo: a vida que eu nunca vou ter, o sangue se esvaindo do meu corpo e a luz abandonando meus olhos, o motivo do frenesi do meu irmão... Pela primeira vez agradeci por meu pai ter nos abandonado logo após eu nascer. Ele foi poupado da morte pelas mãos do próprio primogênito, como minha mãe. Lembrar da minha mãe e do que aconteceu com ela me revoltou. Ela não merecia um fim como esse. Meus pensamentos foram substituídos por raiva profunda, um desejo colossal de vingar-me de meu irmão. Desejo tão grande que se eu tivesse um segundo de vida restando, dedicaria-o para a morte de Andrew. Minha fúria tornou-se tão grande que pareceu ter sido o motivo por eu ter acordado.

Estava deitado num lugar escuro, e tudo ao meu redor tinha uma aparência tão vaga como vultos, e definiam-se em formas de árvores. A luz era escassa, tornando o ambiente monocromático. O solo coberto de grama era negro, assim como as árvores e as pedras ao alcance da minha visão. Quando me levantei notei também vestígios de fumaça que sumiam no ar, e no meio dela identifiquei uma estranha figura humanoide de capa e armadura também negras. Os entalhes nela lembravam rostos em desespero e estavam por todo o tronco do sujeito. As braçadeiras e botas eram quase desproporcionais ao restante, de tão grandes. O elmo deixava apenas um espaço para cada olho, mas ainda não era suficiente pra ver algo ali embaixo. Uma sonora voz duplicada me saudou.

–Bem vindo à tua morte.

A voz permaneceu calada até que ousei avançar uns passos e perguntar:

–Que lugar é esse?

–Estás no que chamei de Limbo, menino. Foste afortunado com a honra de servires uma causa maior ao invés de perder tempo na paz eterna. Creio que já percebestes que não estás mais entre teus queridos. Perdeste a vida no mundo dos homens, e agora terás uma segunda chance no mundo dos mortos.

Cada frase era um arrepio na espinha. Meus olhos maravilhavam-se com a misteriosa figura épica de armadura e me causava certo entusiasmo, também pela ideia de ter uma vida após a morte.

–Que causa?

–Tu e outros cinco antes de ti foram escolhidos por mim para a tarefa. – a voz ecoava entre as árvores negras. – Deve colher as almas dos mortos para levá-las à paz eterna. Este mundo que vos cerca é paralelo com o mundo dos homens, onde tu encontrarás a essência daqueles que caíram. Cuidado para não tocá-las, pois estas são energia pura; Matar-te-ão se não tiveres cuidado.

–Mas quem é você?

–Thanatos é meu nome, aquele a quem os mortos buscam refúgio... Aquele com o dom da morte e criador deste mundo em que pisa agora... Tenho muitas virtudes, porém não a da persuasão. Terá opção de recusar-te a me servir, embora tua vida será tirada de ti pela segunda vez e descansará na paz eterna.

De fato era uma situação esquisita pra mim. Nunca imaginei que existisse vida após a morte, ou entidades supremas como a que falava comigo. Ele me deu uma segunda chance, talvez um dia eu possa me vingar de meu irmão. Talvez eu tenha a oportunidade de voltar pra casa, e reconheço que isso é um privilégio dado a poucos, senão nenhum.

–Eu aceito te servir.

Thanatos ergue um braço, fazendo uma fumaça negra e densa subir do chão, e conforme se dissipava no ar revelava uma longa foice, pouco maior do que eu. Não parecia ser feita de nenhum metal que eu tenha visto. É totalmente escura e fosca sem refletir luz alguma e na ligação entre cabo e lâmina existe uma forma de cruz. Eu pego a ferramenta e surpreendo-me ao notar a leveza com que ela se sustenta.

–É minha foice que seguras em tua mão; ela mudará a forma à tua vontade, e deve ser usada para tocar as almas vagantes da Taiga Negra e absorvê-las. Ao final do dia, deves tocar a Caixa de Pandora nas ruínas do norte para depositar as almas e dar-lhes a paz.

Dito isso, Thanatos vai embora caminhando e some num piscar de olhos após duas árvores de distância. Eu me encontro sozinho no Limbo. Olho para os lados, mas não vejo nada além de árvores negras e ocasionais feixes de luz branca atravessando as folhas na atmosfera cinzenta. Comecei a andar, arrastando a grande foice. Ela deve ter quase dois metros de altura comparando com meu mísero um metro e meio. Andando por um tempo, encontrei uma fonte de luz mais brilhante flutuando devagar pelas árvores. Me aproximei, e olhando no meio da luz vi pequenas imagens, cenas da visão de alguém. Pude ver um cachorro brincando em uma sala... Depois vi crianças chegando pela porta, e indo brincar com o cachorro... Uma velha senhora sentada na cadeira do outro lado da sala rindo das crianças... Pareciam cenas da vida de um homem com seus netos. Deduzi que aquela era uma alma, então toquei-a com a foice, e ela foi sugada pela ferramenta, confirmando minha dedução. Thanatos disse que tocá-las é perigoso, então é melhor não arriscar.

Depois de várias horas andando e vendo as memórias que as almas carregavam, cheguei ao final da floresta negra e vi uma planície vasta, e no horizonte avistei uma pessoa. Me aproximei tentando enxergá-la melhor, até que ela me viu e começou a vir até mim também.

Era uma mulher meio baixa, mas ainda maior do que eu; tinha cabelos negros extremamente lisos até os ombros e feições asiáticas escondidas sob uma tímida franja. Vestia trapos de couro que pareciam ser marrons, mas era difícil saber naquele lugar monocromático. Em suas costas ela guardava uma bainha com uma espada, mas o sorriso que ela apresentou ao me ver não parecia ser hostil.

–Olá menino, qual seu nome? – sua voz era fina e adorável.

–Sou Isaac. Eu acabei de chegar aqui.

–Meu nome é Mei Kataiama. Sou a Ceifadora dos Campos Perpétuos. – ela falava sem tirar o pequeno sorriso do rosto.

–Ceifadora? Esse é o nome que dão pra gente?

–Sim, nós somos Ceifadores. Pelo jeito, você deve ser o novo Ceifador da Taiga Negra, a floresta de onde você veio. Mas é estranho, nunca vi um Ceifador da sua idade. Bom, não é um trabalho muito difícil, nem mesmo pra uma criança. – ela completou a frase com um pequeno riso de canto de boca. Aproveitei-me da gentileza da moça para perguntar:

–O homem de armadura... Thanatos me disse para entregar as almas da Caixa de Pandora, mas eu não sei onde ela fica.

–É bem simples, basta você andar para o norte até encontrar ruínas de um templo. Lá dentro estará a Caixa. Aliás, eu estou indo pra lá agora, eu posso te mostrar o caminho.

Agradeci Mei e fui com ela, seguindo a fronteira enquanto conversávamos sobre o Limbo. Ela disse que havia seis regiões, correspondendo aos continentes da Terra, e cada região fazia fronteira só com outras duas. Mei conhecia apenas sua região, os Campos Perpétuos, e seus vizinhos, a Taiga Negra e o Mar de Cinzas. Ela me disse também sobre a fauna local, necessária para manter possíveis invasores longe.

Logo avistei as ruínas, parecia um grande templo grego com colunas e paredes pela metade. Já não havia mais teto, o máximo que sobrara era uma pequena e larga escadaria que ligava o templo com o jardim à sua frente. Era o único lugar em que a luz realmente penetrava, mas ainda sem tirar o aspecto preto-e-branco.

No alto das escadas e dentro do templo destruído estava a Caixa de Pandora. Era um baú de um metro de altura, todo entalhado com elevações e depressões. Não tinha uma fechadura, apesar de parecer bastante difícil de abrir. Mei sacou sua lâmina, que assim como minha foice era totalmente negra, cabo e lâmina. Era curta demais pra uma espada e longa demais para uma adaga. Ela tocou a Caixa com a lâmina, que brilhou uma luz branca que rapidamente se transferiu para o baú. Ela olhou pra mim e acenou para que eu fizesse o mesmo, então toquei a Caixa com minha foice. Lentamente o brilho tomou conta da foice, e num piscar de olhos ele havia sumido para dentro do baú.

Mei se despediu e voltou para os Campos Perpétuos, e eu voltei para a Taiga Negra. Não houve descanso: a morte nunca para, e certamente já teriam almas me esperando.

...

Passaram-se dez anos desde que eu acordei nesse inferno. Desde então venho fazendo essa droga de trabalho sem parar. Mesmo não sentindo mais fome ou sono como um Ceifador, não aguento mais essa vida. Preciso descobrir um jeito de fugir daqui. Já se passou tanto tempo que aprendi a usar melhor meus poderes de Ceifador: faço a foice mudar sua forma até virar um átomo e guardo-a em minha pele. Posso também usá-la pra criar paredes ou qualquer outra coisa que eu queira.

Estava chegando às ruínas quando encontrei Mei saindo de lá, acompanhada de uma mulher pouco mais alta que ela, de pele negra e cabelos crespos. Era tão magra quanto Mei, mas claramente era mais forte e tinha olhos muito expressivos e chamavam atenção. Mei rapidamente tratou de nos apresentar.

–Oi Isaac, há quanto tempo. Essa é Azalee, a Ceifadora do Mar de Cinzas. Lee, esse é Isaac, Ceifador da Taiga Negra. – cumprimentei Azalee com um aceno, e ela retribuiu. – Isaac é o mais novo dos Ceifadores, chegou aqui ainda com doze anos. Uma pena que tenha crescido, era um garotinho tão fofo. – Azalee finalmente tomou a palavra:

– Sei que é meio tarde pra dizer, mas bem vindo, Isaac. Está quase durando mais tempo que o último Ceifador da Taiga.

–O que aconteceu com ele?

–Thanatos o matou por ter feito alguma coisa. Quer dizer, foi o que eu ouvi falar. Arthur me disse uma vez, mas ele não é muito bom em se comunicar. Aliás, Arthur é o Ceifador da Grande Tundra. – Mei continuou:

–É, mas não o conhecemos bem. O cara pode estar zoando com a gente. O que a gente sabe dele?

–Sei que ele foi um dos últimos a chegar no Limbo. O coitado tem uma área gigante pra percorrer, mas raramente aparece alguma alma por lá. Deve ser um tédio enorme pra ele.

–Não tem como ele saber o que Thanatos andou fazendo. Ele é novo aqui, deve ter se divertido contando histórias pra matar o tédio. – Mei concluiu.

–Talvez não, quando o encontrei estávamos bem perto do sul.

–O que tem no sul? – perguntei.

–O castelo de Thanatos. Ele só sai de lá pra ir recolher as almas, ou pra... – Azalee parou de falar de repente e olhou para Mei, que agora carregava um rosto triste. – Desculpe Mei, eu me esqueci.

–Tudo bem – Mei respondeu. – Já faz muito tempo.

–O que ele fez? – perguntei, e Mei respondeu enxugando as lágrimas que ameaçavam cair:

–Logo antes de você chegar, Thanatos matou as famílias dos Ceifadores pra que não existissem motivos pra tentarem fugir do Limbo. Minhas irmãs e meus pais morreram e sem nem saber o porquê... – as lágrimas tomaram conta dos olhos de Mei, e ela não foi capaz de continuar conversando. Azalee disse enquanto buscava Mei em seus braços:

–Se ele fez isso, é porque existe um jeito de sair. Mas eu não arriscaria, ele é um deus, caramba. Não teríamos chance contra ele. Venha Mei, vou te levar pros Campos. Até outra vez, Isaac. Ah, e pode me chamar de Lee.

Me despedi das duas, e elas partiram. Após deixar as almas na Caixa de Pandora, permaneci ali um tempo. Se tiver uma saída desse mundo, deve ser por aqui. Dentro do templo só havia a Caixa no meio das ruínas, e descendo as escadas um pequeno jardim destruído, apesar de alguns arbustos crescerem escalando os blocos de gesso e concreto no solo. De repente, ouço um barulho vindo do lado de fora do templo. Me escondi enquanto ouvia os passos subirem as escadas. Logo Thanatos surgiu entre as colunas, com sua enorme e barulhenta armadura, aparentemente sem me ver. Ele seguiu até a Caixa de Pandora e tocou-a com a mão, e o mesmo brilho das almas apareceu no baú, indo em direção ao braço de Thanatos. Após absorver todo o conteúdo da Caixa, Thanatos virou-se para o lado e com um movimento circular do braço, abriu um portal de cor púrpura e atravessou-o. Eu corri logo atrás e entrei em seguida, antes que se fechasse.

Saí num lugar completamente desconhecido e, por sorte, sozinho. Era uma galeria sombria, e ainda assim pouco menos escura que a Taiga Negra. Várias pontes feitas de tijolos vermelhos ligavam uma plataforma central até portais em paredes ainda maiores do que o que eu entrei. Eu me encontrava no meio da plataforma, e corri até o primeiro portal que vi. Saí em uma rua, cheia de pessoas andando, prédios e muito barulho. Foi tudo que pude notar antes de ser atingido por um carro e cair desmaiado.

...

Acordei no meio da noite, em um quarto de hospital. Já não estava com minhas roupas de antes, que fiz do couro de criaturas do Limbo; estava com avental brancos, típico de pacientes cirúrgicos. Tive de fazer um certo esforço para levantar, mas uma vez de pé já estava novo em folha. Tateei as paredes até encontrar um interruptor, e acendi as luzes. Vasos de planta e escrivaninhas decoravam o quarto, mas nem de longe se assemelhava a um hospital. Confesso que era uma situação estranha pra mim, mas estava tão aliviado por ter escapado do Limbo que não me importei tanto, então ousei sair na madrugada para descobrir onde estava.

A porta estava aberta, o que era um bom sinal. Significava que eles não prenderam o cara que se materializou no meio de uma avenida movimentada. Um longo corredor percorria aos meus lados, sendo este preenchido por janelas escondidas atrás das cortinas beges. Na extremidade mais distante do corredor havia elevadores, e próximo a eles uma pequena placa indicava que eu estava no quinto andar. Uma luz se acendeu na extremidade oposta, me pegando de surpresa: um homem saiu por uma das portas do corredor, ainda de pijamas e cambaleando.

–Bom dia novato. – bocejou o homem. Parecia ter a minha idade, vinte e poucos, mas era bem mais forte e tinha um rosto quadrado cercado por uma trilha de barba fina. – Não saia daí, vou chamar o Jacob. – ele virou-se esfregando os olhos, tentando parecer mais acordado. Ele pegou um telefone fixo na parede e falou algumas palavras com alguém. Desligou e voltou até mim. – Jacob está vindo, é melhor você voltar pra cama.

–Quem é Jacob? E quem é você?

–Meu nome é Luke. Não se preocupe, Jacob salvou sua vida. Você foi atropelado lá na Nova Zelândia, apareceu no meio da rua do nada. Saiu em vários jornais. Jacob mandou te buscarem. Agora, se me dá licença... – Luke voltou para seu quarto, me deixando sozinho ali. Ainda estava cansado, então voltei para o quarto e sentei na cama.

Devo ter ficado desacordado por muito tempo. Eles pegaram toda minha roupa, mas não minha foice. Ela continuava comigo, pronta pra ser desembainhada de minhas moléculas.

Outro homem entrou pela porta. Estava pouco mais arrumado, evidentemente tinha acabado de acordar. Os cabelos loiros e ondulados eram bem penteados, em contraste à barba mal-feita.

–Boa noite, Isaac. Ou bom dia? Eu sou Jacob.

–Onde eu estou?

–Aqui é a sede da Ouroboros, em Atlanta. É uma corporação dedicada a pesquisas científicas voltadas pra desenvolvimento bélico e tecnologias militares. Eu sou o agente-geral, o cara que procura pessoas de interesse. Sou tipo um caça-talentos.

–Está louco se acha que vão fazer experiências comigo.

–Não vamos, não se preocupe com isso. Nosso interesse não é trabalhar em vocês, mas sim com vocês. Só queremos sua ajuda. Sei quem você é, Isaac. Trabalhamos com Harry Evans por uns anos. Seu pai, certo?

–Sim – meu pai sumiu quando eu nasci. Conheço seu rosto apenas de fotos, e cresci odiando-o por ter nos abandonado, mas ainda alimentava uma curiosidade a respeito dele. – Meu pai trabalhou aqui?

–Ele nos ajudou por um tempo, mas desapareceu logo depois. Achamos que foram os terroristas da Ordem Negra que o sequestraram. Seu pai tinha uma composição sanguínea muito diferente de qualquer outro humano que eu tenha visto. Por isso achamos que você, o filho dele, possa nos ajudar. E eu acho que pode, já que meus contatos da Nova Zelândia não reconheceram seu tipo sanguíneo.

–Acho que eu posso ajudar. Contanto que me ajude a encontrar meu pai.

–Estamos procurando-o desde que sumiu, dez anos atrás.

Meu pai havia sumido há vinte e dois anos, minha idade atual. O que será que houve antes disso?

–A propósito – continuou Jacob – Aquele rapaz que você viu era Luke. Ele é como você. Talvez mais um pouco mais forte. Nós vamos trabalhar juntos por um tempo.

...

Acabava de me levantar da cama. Não conseguia dormir a menos que levasse uma pancada na cabeça. Nós somos assim, os Ceifadores. Não sentimos sono e nem fome. O dia nasceu, e eu fui até a cozinha. O andar inteiro era como uma casa, mas muito extensa. Na caminhada que fiz de madrugada, contei seis quartos, dois banheiros, uma grande sala de estar e uma de jantar, lavanderia, varanda e uma cozinha colossal. Era tão grande quanto os seis quartos juntos, e estava abastecida com todos os tipos possíveis de mantimentos em suas numerosas prateleiras, armários e geladeiras. Preparei um café simples para mim e o tomava na grande sala de estar, em um dos três sofás-cama que compunham o ambiente de televisão. Luke entrou com um bocejo e uma espreguiçada.

–Bom dia novato. Jacob falou com você ontem?

–É, ele me explicou tudo.

–Então você decidiu ficar? Sabe, eles não vão te prender aqui se você quiser ir embora.

–Vou ficar pra descobrir sobre meu pai. Ele começou um projeto aqui antes de desaparecer, mas nunca o conheci.

–Certo... Boa sorte com isso, então. Só falei porque eu não tenho essa liberdade de sair daqui sozinho.

–Por que não?

–Eu estava preso quando eles me levaram. Devem ter pago minha fiança, não sei. Jacob nunca fala sobre como me tiraram da cadeia.

–O que você fez?

–Várias coisas, mas me pegaram num roubo a banco. Não teria sido pego se não tivesse sido deixado pra trás com meu amigo Jack. Jimmy era quem comandava tudo, mas aquele maldito me achava uma ameaça pra sua liderança.

–E porque você seria uma ameaça?

–Eu posso criar fogo – estalou os dedos como num truque de mágica, e seu polegar projetou uma pequena labareda de fogo. –Aliás, você tem algum poder, certo? Jacob disse que estava atrás de pessoas como eu.

–Sim, eu tenho uma espécie de arma especial. – ergui minha mão numa demonstração, e materializei a foice. – Posso mudar o formato dela à minha vontade. – tornei a foice no formato de uma bola, e logo depois a absorvi de volta para meu corpo. Num pequeno momento de silêncio, uma reportagem na televisão chamou nossa atenção.

“Uma série de explosões na Síria chamou atenção das autoridades internacionais nesta manhã. Trata-se de um acampamento terrorista autodenominado Ordem Negra. Fontes afirmam que o lugar é usado como laboratório de criação de armas químicas e biológicas, mas não se sabe a causa das explosões.”

Nesse momento, os alto-falantes da sala ressoaram uma campainha e em seguida uma mensagem:

“Atenção: Luke Haas e Isaac Evans, favor comparecer ao hangar da unidade. Luke Haas e Isaac Evans, comparecer ao hangar da unidade.”

–Vamos, eu te mostro o caminho. – Luke me disse.

Pegamos o elevador e percorremos vários corredores decorados de forma parecida com o quinto andar, porém não idênticos. Ocasionalmente víamos um grande vaso de planta ou um painel com avisos da gestão do prédio. Saímos no hangar, um enorme pátio repleto de aviões e helicópteros. Jacob nos encontrou lá.

–Precisaremos da ajuda de vocês. Houve algum acidente numa base da Ordem Negra, achamos que pode ser onde Harry está. Luke, você nos protege enquanto eu e Isaac procuramos Harry.

–Eu não preciso de proteção – eu disse – Posso me defender sozinho.

–Não mesmo – Luke completou – Ele também tem poderes. Mas de qualquer forma, vou dar cobertura.

–Sério? Harry não tinha, ou ao menos nunca nos contou. Enfim, não é hora pra conversar. Rápido, para o avião!

Notas finais
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