Aftermath

6 Inverno nuclear


Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

Assobios de vento corriam pelo céu. O que pareciam ser aves voando lá longe, eram na verdade troca-peles, aberrações sem forma específica que almejavam qualquer coisa melhor que sua patética existência. A fortaleza descansava à nossa frente, segura pelo enorme fosso de estacas que a cercava. Olhares perplexos se cruzavam no longo silêncio que surgira após a revelação de Lucy. Ela havia contado toda sua história desde que fora nomeada ceifadora.

Me aproximei lentamente, a fim de ver melhor o rosto de minha irmã mais velha. Ela era tão bonita. Os cabelos ruivos caíam atrás e na frente dos ombros como uma cachoeira de fogo ardente, e destacavam os olhos de tom escuro-esverdeados. A pele branca era suave e pintalgada de sardas. Em nada se assemelhava comigo.

–Luke – ela disse. – faz tanto tempo... Desculpe por me esconder, é que eu tinha medo de ser descoberta...

–Tudo bem – levei minhas mãos à suas bochechas e ergui seu rosto. – Agora somos uma família de novo. Mas não podemos mais viver com medo. Temos de ir atrás dos culpados e fazer justiça.

–E pelo jeito, não será só Thanatos – Isaac adicionou. – Erick também deve pagar.

–E ele irá – Jacob aproximou-se. – Mas temos que cortar a cabeça da serpente. Thanatos é nosso maior problema. Lucy, precisaremos da sua ajuda.

–Vou ajudar. Mas não vai ser fácil, Thanatos é o último deus vivo. Ele está lá no castelo agora.

–Como matamos um deus? – falei.

–Como matar, eu não sei – Lucy virou o olhar para o castelo. Voltou a olhar para nós. – Mas ouvi Erick dizer que Thanatos precisa de um corpo pra manter sua existência física. Isso pode significar que o corpo dele é vulnerável, mesmo que não acabe de vez com ele. Podemos tentar uma estratégia. Já vi que a ressonância de alma funcionou com Luke, e agora tem poderes. Mas e quanto aos outros? Quais são suas forças?

–Isaac talvez possa imobilizar Thanatos com a matéria negra. Eva poderia decompor o corpo dele com o anthrax, mas seria perigoso demais chegar perto.

–Perto de vocês, parece que eu é quem sou diferente. – Jacob riu de canto.

–Ah sim – Lucy disse. – Jacob, certo? Você não devia vir com a gente. Não tem como se defender, na certa nos atrapalhará.

–Não me diga o que eu não posso fazer! – Jacob ficou indignado. Pouco sabíamos sobre ele mais do que Lucy. Jacob era um sujeito fechadíssimo, parecia viver apenas para trabalhar. Quando não estava gerenciando pesquisas científicas, era como se não existisse. Seu visual meio desleixado acentuava a impressão que ele dava tanto de amigável como de violento. Na maioria das vezes, ele era um mandão cabeça-quente. – Eu vou entrar nesse castelo, eu preciso ver e pôr no meu relatório! O planeta tem que saber!

–Ela tem razão – eu falei. – Vão te achar um maluco se sair por aí falando sobre deuses gregos. Além do mais, você pode morrer, sabia?

–É um risco que todos temos que correr. Não estou menos sujeito a morrer do que vocês, que o enfrentarão.

–Sua ganância será sua morte – Lucy disse de olhos baixos. Já entendera que Jacob era teimoso demais pra contrariar.

Atravessamos a ponte de pedregulhos, larga o suficiente pra dois carros passarem lado a lado. Sua profundidade causou vertigem quando Eva olhou de cima do parapeito da ponte. Ela caminhava com Isaac à frente de mim e de minha irmã, e Jacob logo atrás. Ouvi Isaac aconselhando Eva:

–Eva, quero que tome muito cuidado lá dentro. Thanatos não vai pegar leve.

–Vou tomar. Mas também quero ajudar. O que tenho que fazer?

–Apenas fique segura. Na oportunidade certa, ataque, mas sem se arriscar.

–Vocês também terão cuidado, né? Não quero que se machuquem. Não quero perder minha... minha família tão cedo.

Afinal, Eva já era parte de nós. Um grupo de desajustados e esquisitos, mas tínhamos um papel importante a desempenhar.

–Ficaremos bem – Isaac prometeu. A esta altura, já estava frente a frente com a grande porta da muralha. Tentou abrí-la, mas era pesada demais, e a moveu não mais que alguns centímetros. Me juntei a ele, e juntos abrimos caminho para os outros passarem.

O pátio interior era coberto por cascalho e cortado por um caminho de terra até o interior da estrutura central. Ainda maior em altura, o palácio era guardado por gárgulas chifrudas de vários tipos diferentes. Eram sinais de morte. A porta do edifício era maior, porém mais leve com a ausência do metal fundido. Isaac a abriu sem dificuldade, mas foi Lucy quem entrou na frente. Percorremos o átrio através de colunas de gesso escuro que sustentava o teto distante, e iluminando o caminho com tochas que produziam sombras que agitavam-se conforme passávamos. Era escuro demais para ver as paredes laterais, escondidas atrás das colunas.

No final do caminho, estava um grande trono com caveiras embutidas e montes de esqueletos caídos no chão. O deus da morte repousava no trono, com um crânio em mãos e uma poça de sangue aos seus pés. Sentava sobre sua capa, e sua armadura era bizarra como um filme de terror conceitual. Rostos deformados gritavam por socorro em seu busto, suas grevas eram robustas como árvores e suas manoplas pareciam canhões. Estava sem elmo, e seu rosto era igualmente horrível: as bochechas eram completamente enrugadas em decomposição, e acima disso era como uma bola de carne sem um pelo para cobrir. Ele não tinha olhos, e onde deveria os ter, era só pele. Também não possuía nariz, apenas vestígios de um que há muito fora perdido. Sua pele era cinzenta-escura, mais do que sua própria armadura.

–Lucy... – Thanatos disse. Sua voz causava arrepios. – Trouxe-me o desertor de presente? Sabia que tu seria útil. Desde quando mataste tua família, eu sabia.

–Hoje não, Thanatos. – ela respondeu. – Hoje vim buscar justiça.

–Todos viemos por justiça! – Isaac gritou dando um passo à frente. – Pela vida de nossas famílias! – ele estava irado com sua vingança pessoal. Ele e Lucy, mais do que todos, desejavam a morte do último deus grego.

–Não tens direito de falar, desertor sem honra. Dei-te o maior presente que poderia receber, e cuspiu em minha confiança. Ficarei mais que feliz em matar-te. Agora, quem são os outros, Lucy? Apresente-os para mim.

–Não importa quem são, uma vez que te derrotemos. Rápido, todos ataquem!

Ao som da ordem de Lucy, nosso grupo se espalhou ao redor do trono. Thanatos atirou o crânio que segurava ao chão, e foi quando reparei que não era de um humano, mas sim monstruoso, desagradando o olhar. Quebrou-se por completo ao atingir o chão de pedra. Ele levantou-se, e tirou de trás de seu trono uma grande espada, que ao seu toque brilhou uma aura púrpura.

Eu fui o primeiro a atacar, em seu lado esquerdo: lancei lhe um potente jato concentrado de chamas que o envolveu por completo, mas quando cessei havia apenas chamuscado a armadura e começado um tímido fogo em sua capa negra, fraco demais para manter-se vivo. Ele olhou para mim e apontou sua espada, e dela atirou um projétil espectral totalmente feito de luz, e possuía o formato dela. Apesar de extremamente veloz, o tiro não me atingiu, pois rolei para a esquerda. O projétil explodiu em partículas de luz púrpura atrás de mim.

Isaac tentou penetrar a armadura com uma lança saindo abaixo dele, na direção do peito, mas falhou com um sonoro tilinte. Thanatos começou a caminhar em direção a Isaac, mas Lucy atirou-lhe uma flecha em direção ao seu rosto, obrigando-o a esquivar para trás. Isso deu tempo de Isaac se afastar para perto de Eva, que preparava uma granada de anthrax. Ela acertou a ombreira do inimigo iniciando uma nuvem esverdeada de anthrax, mas não pareceu surtir efeito. Thanatos provavelmente não respirava.

Ele abanou a mão rente ao rosto, dissipando a fumaça. Seus movimentos eram pesados. Ele posicionou o punho com a espada atrás de si e cortou o ar à sua frente, arremessando outra espada espectral na direção de Isaac e Eva, desta vez girando como um bumerangue. Isaac abraçou Eva pelo lado, e com sua mão livre criou uma meia-cúpula que os protegeu do ataque, mas o impacto os derrubou no chão. Lucy começou a correr até o deus da morte, gritando uma ordem:

–Comigo, Luke!

Vínhamos de direções diferentes, correndo à toda velocidade. Quando Thanatos percebeu Lucy em seu alcance, acertou-a com o cabo da espada, mas eu o surpreendi pelo flanco: lancei nele uma bola de fogo, que queimou seu rosto. Uma pequena fumaça saiu quando ele se recuperou, embora não pareceu ter causado danos. Lucy aproveitou a distração e ainda no chão transformou o solo abaixo de Thanatos em lava, mas ele simplesmente moveu-se para o lado girando a espada na horizontal, seguido de um rastro fantasmagórico púrpura que veio em minha direção. Num reflexo rápido, saltei para trás e evitei o golpe.

Lucy ainda se levantava quando Thanatos avançou sobre ela e agarrou-a pela cabeça. O antebraço de Thanatos era facilmente maior que os meus dois juntos, e por um instante temi que pudesse esmagar minha irmã. Ela reagiu com pontapés e socos, e ele a atirou para longe, lançando em seguida um projétil de espada. Nada pude fazer, pois ela foi atingida ainda no ar e voou por mais uns metros até cair no chão. Instintivamente, quis correr para ajudá-la, mas logo lembrei do perigo ao meu lado. Este momento de hesitação foi suficiente para Thanatos enterrar a sola de sua greva no meu peito, tirando-me todo o ar e me levando ao chão. Não consegui sequer erguer a cabeça antes de meus pulmões encherem-se novamente, mas quando ergui vi Thanatos golpeando a cúpula negra que Isaac havia feito sobre si, e ela se quebrou como vidro. Isaac e Eva estavam jogados ao chão, assim como minha irmã no outro lado da sala. Jacob se escondia atrás de uma coluna.

–Porquê te escondes, rapaz? – Thanatos gritou. – Não tenha medo.

O deus da morte ignorou Isaac e Eva, caídos aos seus pés e andou com calma até Jacob, que correu para o fundo escuro atrás das colunas.

–Não adianta te esconder! Eu vejo além de tua alma; eu cheiro tua desgraça; eu sou tua morte! – Thanatos tirou de sua boca um pequeno cubo, provavelmente de pedra. Ele flutuou sobre sua mão, e girava devagar.

Ele adentrou a escuridão, e segundos depois Jacob saiu mais à frente, correndo em nossa direção. Eu havia cambaleado até Lucy, que estava com um pequeno ferimento na costela. A espada espectral perfurou violentamente seu traje de couro leve, mas sua costela dilacerada regenerava rapidamente. Isaac foi ao encontro de Jacob, mas foi surpreendido por um projétil da espada, rápido como um trovão, direto na perna de Jacob. Ele caiu sangrando, e Thanatos surgiu das sombras indo em sua direção. Isaac chegou antes dele, mas o inimigo ergueu a mão com o cubo flutuante em sua direção, e Isaac começou a planar no ar, buscando um apoio em vão. Thanatos o arremessou para uma coluna do lado oposto como se fosse um avião de papel. Em seguida agachou-se sobre Jacob, e o encarou. O cubo brilhou a mesma luz da espada, e Jacob parecia hipnotizado. O deus da morte era gigante perto de um mero mortal. No ápice do suspense, os olhos de Jacob explodiram como granadas de sangue.

O grito horrorizado de Eva ecoou por toda a galeria sombria. Jacob, antes ajoelhado, agora caía para trás sobre a poça de sangue que se formara em pouquíssimos segundos. Os braços ficaram semi-abertos e seu rosto sinistro olhava, ou quase isso, em nossa direção. Nada havia sobrado em suas cavidades oculares, além de um vazio e um escoamento descontrolado de sangue.

Thanatos teve sua atenção chamada pelo grito. Ele começou seu trajeto até Eva, mas corri até lá e o envolvi com minhas chamas, dando tempo para que ela fugisse. Isaac correu até o corpo de Jacob e tomou-o nos braços.

–Temos que sair daqui!

–Por ali, na escada! – Lucy gritou. Ela apontou para uma parte pouco menos escura das paredes laterais do salão. Mal era possível enxergar algo, mas agora que ela falou percebemos uma entrada com uma escada que descia para um andar inferior.

A correria começou: Isaac era o mais próximo da escada, e tratou de pegar Jacob em seus braços. Lucy conseguiu correr com Eva a uma distância quase segura de Thanatos, mas ele ainda estava no meu caminho. Ainda disparando chamas, andei de lado, contornando-o até ter o caminho livre para fugir.

Corri como nunca havia corrido antes: nem sequer pensei em olhar para trás, mas sabia que o deus da morte estava vindo. Consegui descer as escadas, e me encontrei com meus amigos no salão de portais por onde havíamos entrado.

–Então é aqui – Isaac disse. – A sala dos portais fica debaixo do castelo...

–Ele tá vindo, Isaac – eu anunciei. – Por onde vamos?

–Espera, eu não sei pra onde os portais levam!

–Não importa onde, temos que sair daqui!

Thanatos desceu os grossos degraus num instante. Ele nos avistou e preparou seu ataque: cortou o vento com a espada de baixo para cima, riscando o chão; um feixe de luz roxa maciça ergueu-se do chão e voou entre nós, acertando em cheio uma parede. Os portais, todos de uma vez, pareceram rugir de dor com raios saltando de suas bordas multicoloridas. Alguns raios conectaram os portais uns aos outros, e o chão começou a ruir.

–Por aqui! – Isaac gritou. Levou-nos até o mais próximo, e pulamos um de cada vez. Isaac foi na frente com o corpo de Jacob, seguido de Eva. Eu fui o terceiro.

Saímos num gramado verde-pálido sob um céu cinza-claro, como normalmente visto ao nascer do dia. Isaac ajoelhava-se sobre Jacob, e Eva se aproximava quando eu cheguei.

–Coitado – Eva falou. – Que jeito horrível de morrer.

–Ele trouxe isso a ele mesmo – Isaac disse. – Sua ganância foi sua morte, assim como Lucy avisou.

–Lucy – eu lembrei: minha irmã vinha logo atrás de mim enquanto fugíamos. – Cadê ela?

Nós três olhávamos em volta procurando algum sinal, quando o portal tornou a aparecer, e Thanatos saía dele segurando Lucy em um dos braços; no outro trazia a espada, e o cubo flutuava orbitando sua cabeça. Ele soltou minha irmã no ar, derrubando-a no gramado. Corri até ela, e para minha alegria estava viva, bufando com dificuldade o ar de seus pulmões.

Thanatos erguia o braço com o cubo flutuante em sua mão, e o céu escureceu em segundos. As nuvens formaram um espiral em direção a ele, e tudo passou a tremer.

–Este é o fim – ele disse. – De todos vocês, adoradores de deuses falsos. Nós do Olimpo demos nosso sangue por vocês, disputamos com aqueles hereges de Asgard o direito de proteger-vos e guiá-los. Eis que, após a disputa, levanto-me e o que vejo? Vejo que todos tornaram as costas para os deuses! Todos seguem um tal deus de amor, um deus que não existe! Pois bem, agora todos saberão da nossa existência, verão de perto o fogo do Tártaro!

–O que ele quer dizer? – perguntei a Lucy.

–Deuses gregos e nórdicos uma vez entraram em guerra pela soberania sobre a raça humana. Foi um massacre, e só Thanatos sobreviveu. Espera, tive uma ideia – ela disse, tentando pôr-se em pé. Ajudei-a. – Isaac, preciso que faça uma coisa.

Ela correu mancando até Isaac e disse-lhe algo. Ele concordou.

–Luke, atrasa ele! – ela gritou.

Voltei a inundá-lo com chamas, e ele voltava a proteger o rosto com as enormes manoplas. Ele começava a urrar enfurecido, quando notei meus arredores se escurecendo: Isaac o cercava com um muro negro, alto e espesso, até suas extremidades se encontrarem atrás de Thanatos. Lucy estava em cima do muro, e gritou para mim:

–Sai daí, Luke! Não podemos matá-lo, mas podemos destruir seu receptáculo!

Corri através de uma entrada que Isaac providenciara pra mim, mas que fechou-se em minhas costas assim que saí.

Lucy saltou para a arena negra, e pensei que estava louca. Queria enfrentar o deus da morte sozinha? A expressão de Isaac mostrava o desgaste que era pra ele criar uma estrutura tão grande como aquela, mas ele ainda pôde me explicar:

–Ela vai fazer uma piscina.

O chão tremia, e eu não entendi o que “piscina” significava. Mas confiava em Isaac e em minha irmã. Torcia para que o plano deles funcionasse.

Alguns momentos depois, o chão já estava quieto e Lucy saltou sobre o muro. Uma grossa fumaça preta surgia atrás dela, e as nuvens se dissipavam no ar, voltando a ser o mesmo céu de antes.

–Thanatos está morto – ela comemorou. – Venham ver!

Isaac criou ao longo do muro pequenos degraus para subirmos. Quando chegamos no topo, ouvimos um zunido alto e incômodo, gerado de um projétil da espada de Thanatos, que sumiu na imensidão do céu. Ela fora perfurada pelas costas, e havia um grande buraco entre seus seios.

–Não! – eu gritei. Corri até ela, pois começava a cair para dentro do que chamou de piscina, exceto que estava cheia de lava borbulhante. Lá no meio, Thanatos afundava empunhando a espada. Ele ficou totalmente submerso quando agarrei Lucy pelo braço, e a abracei comigo, deixando-me cair no topo do muro. – Não, não, não! – o buraco em seu peito estava seco. Não havia sangue algum. Não pareciam haver órgãos lá dentro. Apenas um buraco grande o bastante para atravessar um punho. – Você não... Minha irmã... – minha desolação foi tamanha que tudo ao meu redor desapareceu. Por um momento só existia eu e o corpo de Lucy. Caiu a primeira lágrima de meus olhos em anos, não lembrava da última vez que chorei. Podia ter sido um valentão na juventude, mas agora era fraco e impotente, e não havia mais sentido em lutar por nada. Todos vão morrer. E sempre vamos nos machucar com a morte dos nossos queridos. Então qual a razão de ter queridos? Qual a razão de viver, se não pra ter queridos? É impossível viver sozinho. Seria o mesmo que não viver. A vida é um impasse. Lutamos pela paz, mas paz e luta são coisas que não existem juntas.

Lucy começou a esquentar em meu colo, e então uma fina fumaça saía de sua pele. Ela estava evaporando como se estivesse mergulhada em ácido. Já não me importava mais. Ela iria pra um lugar melhor. Se existe o paraíso, certamente é o destino de uma garota que salvou o irmão da morte e lutou pela segurança dos sua espécie.

–Sinto muito, Luke – Isaac disse, me tirando da bolha mental que eu estava. – O que houve com ela?

–Ela simplesmente... Evaporou. É assim que os ceifadores morrem?

–Nunca vi um morrer antes. Uma pena que não vamos poder enterrá-la.

–Podemos – falei. – Eu posso.

...

O dia virou noite quando terminei o pequeno buraco no chão. Queria enterrar os pertences de Lucy e lamentar sua morte. Estava na primeira luz do dia, e na base da colina que escolhi para ser o túmulo, Isaac e Eva acordavam.

Peguei nas mãos a veste de couro da minha irmã. Estava surrada com tantos rasgos e remendos, parecia que ela já havia entrado em muitos outros combates antes de Thanatos. Era uma pequena armadura que costumava lhe cobrir todo o tórax, com salientes ombreiras e luvas atreladas à cotoveleira. Atirei a peça no túmulo, e passei para a seguinte. As calças eram justas, garantia agilidade a ela. Era costurada com as leves botas que usava. Joguei-as junto com a armadura e luvas.

O último item que ela carregava, era o cinto com algumas bolsas. Algumas pregadas, outras seguras por nós-cegos. A maioria delas estava vazia, mas encontrei uma foto amassada de nossa família. Pensei por um instante se devia mantê-la comigo, ou enterrar com o restante. “Todos vão morrer”, pensei. “E sempre vamos nos machucar com a morte dos nossos queridos”. Ouvi a voz de Isaac, quando trouxemos Eva para Atlanta. “As pessoas superam traumas, e você vai aprender a conviver com isso”. E ele tinha razão. O que está feito, está feito. Já não tenho mais uma família, mas ainda tenho pessoas que gosto. Ao invés de chorar a morte dos que já foram, eu devia aproveitar a vida com os que estão comigo. Isaac e Eva são tudo que eu tenho agora.

–O que é isso? – Eva perguntou. Isaac estava atrás dela, ainda com cara de sono.

–São as coisas dela... Estou fazendo um pequeno funeral em sua homenagem.

–Tô falando dessa bolsa – ela apontou para um dos compartimentos do cinto de Lucy. – O que tem aí dentro?

O bolso em questão estava maior do que os demais. Desatei a corda que o fechava, e tirei de lá um livro roxo com símbolos esquisitos: “O Legado de Runak”.

Notas finais
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